domingo, 24 de maio de 2009

Houellebecq (duas traduções minhas)

“Seja destruído tudo o que tiver brilho.”

Os habitantes do Sol lançam sobre nós um olhar
[impassível:
À Terra pertencemos definitivamente
E aqui apodreceremos, meu amor impossível,
Jamais se tornará luz nosso corpo doente.



Garota

A garota de cabelos negros e lábios muito finos,
De quem tudo sabemos sem jamais tê-la encontrado
Além de nossos sonhos, pinça com gadanhos aquilinos
As tripas palpitantes de nosso ventre arrebentado.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Rod Frame e Mick Jones

Pra levantar defunto, hoje eu colocaria numa pista de dança essa musiquinha aí.
http://www.youtube.com/watch?v=kQEq3rtMlTc
Aztec Camera (de Rod Frame) com o Mick Jones, do Clash e BAD (Big Audio Dynamite).
Dá pra tirar bem a poeira. Vai lá, cristão, e chacoalha o esqueleto retrô.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Por que o simples ato de lavar as mãos matou um grande médico mas nos deu um dos grandes escritores do século passado.

Dr. Semmelweiss

Para todo esse furdúncio causado pelo vírus H1N1 (gripe suína) recomenda-se, entre outras coisas, como forma de evitar a transmissão, o simples ato lavar as mãos. Mas saibamos que tal ato higiênico, aceito sem grandes questionamentos hoje, já foi em outros tempos motivo de muita dor de cabeça e muita loucura. Sobretudo para o húngaro Ignaz Semmelweiss. Foi ele, jovem médico nos meados do século XIX, quem deu um dos primeiros passos decisivos na luta contra as infecções bacterianas, mesmo sem saber ainda que se tratavam de “doenças causadas por microrganismos”. Ele foi a primeira pessoa de que se tem notícia a valorizar a importância de se lavar as mãos. O procedimento por ele idealizado foi a pedra fundamental para o início do processo de controle de contaminação em hospitais. O médico percebeu que o número anormal de mortes em recém-nascidos, numa das alas do Hospital Geral de Viena, era devido à transferência do que ele denominou de “partículas putrefeitas”. A transferência se dava pelas mãos dos médicos que realizavam necrópsias e também atendiam aos partos. Dr.Semmelweiss obrigou seus alunos a seguirem um rigoroso procedimento de higiene das mãos, reduzindo drasticamente a mortalidade dos recém-nascidos. Apesar dos resultados, a situação provocou a Semmelweis uma série de discussões, litígios, incompreensões, críticas e maledicência entre os colegas, que se opuseram à sistemática de higiene imposta, e se tornaram tão duras que levaram o jovem médico a abandonar Viena e a regressar à Hungria. Porém, nem na sua pátria a sua vida se tornou mais fácil. Semmelweis não sabia que o eco dos tumultuosos acontecimentos de Viena havia chegado até ali. Os distúrbios mentais, de que sofria, começaram a ficar cada vez mais graves. Até que um dia, num repentino acesso de ira enquanto fazia uma necrópsia, se feriu numa das mãos e, tal como com o seu amigo Kolletschka, a infecção daí resultante disseminou-se tão rapidamente ao braço, que Semmelweis veio a falecer do ferimento. (fonte: http://www.sbcc.com.br/revistas). Essa história do médico húngaro também pode ser encontrada num dos livros, aqui recomendado, de um dos grandes autores da literatura ocidental, o francês Louis-Ferdinand Destouche, pra quem não sabe: simplesmente Céline. O livro A vida e a obra de Semmelweiss (Cia. da Letras) foi tese de doutorado do escritor defendida na faculdade de medicina de Paris, em 1924. Antes de morrer, Céline confessou que foi essa tese que lhe deu a idéia de se tornar escritor. Vejam só: por causa do ato de lavar as mãos, perdemos o gênio Semmelweiss, ganhamos da febre puerperal, estamos empatando com a gripe suína (até agora), mas sobretudo, enfim, ganhamos um grande escritor (deixando de lado suas apologias ao anti-semitismo, é claro).

sábado, 16 de maio de 2009

Mario Bellatin na FLIP


A festa literária de Paraty, a FLIP, parecendo já um evento em processo de entropia devido a sua, poderíamos dizer, fórmula MAIS DO MESMO, traz esse ano, apesar de tudo, dois escritores que fogem um pouco desse rótulo tolo de "grandes nomes", como Lobo Antunes, Gay Talese e et ceteras, para abrir para dois autores bastante instigantes, o afegão Atiq Rahimi e o mexicano Mario Bellatin. Se fosse ver algo em Paraty seriam apenas esses dois nomes. Escolha bastante pessoal, porém bastante categórica. Do Rahimi há no Brasil dois excelentes livros traduzidos: Terra e Cinzas e As Mil Casas do Sonho e do Terror. Do Bellatin, Salão de beleza - praticamente já um clássico da literatura latino americana - e saindo pela CosacNaify a novela Flores. Rahimi faz uma mesa com Bernardo Carvalho e Bellatin com Cristovão Tezza. Essa última talvez interessante pelas propostas estéticas diametralmente opostas dos dois escribas. Creio que no caso de Carvalho e Rahimi podemos dizer o mesmo. Detalhe: há uma febre de escritores jornalistas na FLIP. Fico aqui sempre me perguntando por quê. E você?
Questão - O Mario Bellatin precisou ir para a CosacNaify para chegar à FLIP, sendo que seu nome já circulava há um bom tempo entre nós como um autor de destaque na América Latina?

Respondo com uma proposta: ler Ensaio sobre a Cegueira.

Deixo aqui a tradução dos trechos iniciais que fiz de Perros heroes do Bellatin, um dos livros que mais gosto entre todos que já li.

Perto do aeroporto da cidade vive um homem que, apesar de ser um homem imóvel — em outras palavras um homem impedido de se mover —, é considerado um dos melhores treinadores de Pastor Belga Malinois do país. Divide a casa com sua mãe, uma irmã, seu enfermeiro-treinador e trinta Pastores Belgas Malinois adestrados para matar qualquer um com apenas uma dentada na jugular. Não se conhecem as razões pelas quais, quando se entra na casa onde aquele homem passa os dias recluso, alguns visitantes percebem uma atmosfera que guarda relação com o que poderia se considerar o futuro da América Latina. Este homem costuma dizer, em sua quase incompreensível forma de falar, que uma coisa é ser um homem imóvel e outra um retardado mental.


Em frente à fachada se apreciam algumas jaulas. Cada uma contém um par de cachorros, que passam o dia inteiro soltando agressivos latidos para as pessoas que circulam pela calçada. Se alguém se aproximar das grades, é tanta a fúria desatada que os animais acabam partindo algum dente ao morder as barras metálicas ou atacando um aos outros sem piedade. Cada vez que isso acontece, o homem imóvel emite chiados agudos, motivados seguramente pelo desespero de não poder sair para espantar os intrusos. Os cachorros ficam agitados e deve o enfermeiro-treinador intervir para acalmar-lhes a ansiedade. Utiliza brinquedos à prova de mordidas profundas e um número limitado de palavras em francês, idioma oficial para adestrar Pastor Belga Malinois.


Ninguém sabe se o enfermeiro-treinador primeiro foi enfermeiro e depois treinador ou se antes foi treinador e depois enfermeiro. Se trata de um jovem um pouco acima do peso que veste roupas esportivas um tanto desalinhadas. Mais de uma noite dividiu a cama com o homem imóvel. Sobretudo quando uma dor profunda maltrata uma das pernas desse.


O homem imóvel assegura que nem sempre se manteve numa carência de movimentos como essa. Afirma que há alguns anos podia girar o pescoço de um lado para o outro.


As paredes do quarto estão pintadas de verde. Nelas, diversos diplomas que certificam a assombrosa destreza que possui aquele homem para treinar cães de conduta tão difícil como os Pastores Belgas Malinois. O homem imóvel costuma ser deslocado diariamente até uma poltrona junto à cama. Ali o enfermeiro-treinador lhe amarra em torno da cabeça o auricular do telefone. Atrás se mantém atada uma ave de cetraria, que é presa numa caixa cada vez que deixam entrar um dos Pastores Belgas Malinois no aposento.


O homem imóvel possui um álbum de fotos — que só permite a umas poucas pessoas olhar — com uma coleção de imagens dos melhores exemplares de Pastor Belga Malinois do mundo. Depois esclarece que uma coisa é ser um homem imóvel e outra um retardado mental, o homem imóvel assegura que não há cachorro tonto mas sim dono estúpido. Imediatamente se põe a rir de forma desmesurada.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Projeto Gráfico




A cada novo projeto gráfico (no momento o da Trilogia de Alhures do Sul, do Karam) elementos gráficos vão se juntando na cabeça. A gente fica pensando em detalhezinhos que nos deixam maluco. O desenho do mano Marco Sandrini serve para ilustrar esse momento de maquinação e maquinarias de pré ou pós-impressão. o site do cara:




o blog:




e tenho dito.

Trilogia de Alhures do Sul

No meio de tanto marasmo literário em Curitiba e também no país do "Leite derramado", deixo aqui uns trechos do "Cebola", do Karam. É um alento no meio de uma literatura tão conservadorinha feito a nossa, da qual o novo livro do Chico Buarque é a nova coqueluche (Chico Buarque para presidente!!), começar a edição de três romances (?) altamente singulares do Karam, na Trilogia de Alhures do Sul. São eles: "Fontes Murmurantes", "Cebola" (Prêmio Cruz e Sousa de Literatura 1993) e "O impostor no baile de máscaras". É muito bom ler o Karam e ver ecos de caras como Beckett, Perec, Cortázar, Borges, Cabrera Infante. Contudo, é melhor ainda e mais saudável ver surgir diante dos meus olhos de leitor o mais inventivo escritor de sua geração. Vivam eternamente Agrippinos de Paula, Campos de Carvalho e Karans. Deixo aí então uns trechos do "Cebola" e uma pergunta: quem vai pegar o bastão desses caras? Não sei, mas que vai ter muito neguinho de boca aberta debaixo de uma cuia de leite derramado, isso vai. Assim alimenta-se o nosso medíocre cânone.

Trechos do Cebola


Olavo B. passou muitos anos refletindo sobre o plural da palavra nada. Ele dizia que sempre, desde a infância, foi acossado pelo plural da palavra nada, que fazia ele próprio inúmeras e irrespondíveis perguntas a respeito do plural da palavra nada. Ora, eu poderia ter me preocupado com outras questões, talvez com o zero, o mistério do três em um, a noite que existe em meros três pontos chamados de reticências, eu poderia ter me preocupado com um assunto destes, mas a única coisa que sempre interrogou Olavo B. foi o plural da palavra nada. Olavo B. tira os óculos, passa os dedos sobre as sobrancelhas antes de continuar. Eu poderia ter sido assolado por dúvidas a respeito dos mitos, perguntas a propósito de situações clássicas, referências a questões gramaticais, matemáticas ou filosóficas, mas eu me vi cercado somente e nada mais do que pelo plural da palavra nada, uma obsessão ingrata, pois eu não conseguia catalogar a questão em nenhum dos itens do conhecimento, o plural da palavra nada não era assunto de livros, de universidades, de sábios, era algo isolado de tudo, sem raízes em lugar algum, era uma obsessão que, nos pesadelos de todas as noites, parecia obscena, obscena obsessão. Então, pela manhã, com o corpo pesado depois do sono intranquilo, eu tinha pudores e tentava ludibriar os pensamentos, mas tudo absolutamente inútil, pois não passava muito tempo, eram na verdade poucos segundos, e eu acabava mais uma vez invadido pelas reflexões sobre o plural da palavra nada. Olavo B. tira os óculos novamente, imagino que ele vai repetir o gesto de passar os dedos sobre as sobrancelhas, mas desta vez um único dedo coça o olho direito. Olavo B. recoloca os óculos. São tantas as vezes que contei a história que, como contou Borges, não sei se a recordo deveras ou se só recordo as palavras com que conto. Um dia cheguei a pensar que havia terminado o meu trabalho, mas não passou
de um equívoco acreditar que o plural da palavra nada fosse a palavra Utopia. Não, era preciso apalpar o plural da palavra nada. A mão direita se ergue quando Olavo B. conta o que se seguiu: encontrei, numa tarde de domingo, o plural da palavra nada, e agora vivo uma nova história que, se minha vida for suficientemente longa, um dia estarei aqui para contá-la. Estou obsessivamente buscando a aplicação do plural da palavra nada.


Reflexões de Ema:
— Há momentos em que esta casa me parece um coliseu, em outros um bar com pista
de dança. Sei lá qual é a distância entre um coliseu e um bar com pista de dança, mas
no meio do caminho a casa pode lembrar uma catedral gótica. Ou as paredes nuas dos corredores lembram um museu onde esqueceram de pendurar quadros. Mas a casa
pode também lembrar um cinema, os moradores são luzes e sombras. Sinto que fazemos parte de um show, o mestre-de-cerimônias nunca é o mesmo, mas sempre há um
mestre-de-cerimônias que, mesmo sem abrir a boca, eu sinto que diz com muita
frequência ladies and gentlemen. Nisto tudo deve haver alguma questão não resolvida,
a casa parece uma mistura de coliseu com catedral gótica, deve ser porque acabou de
dobrar a curva do corredor um leão vestido de bispo.

Um crônica do Karam

Fluke e a crítica da ração pura

10 Ago 2007 - 03:07

CRÔNICAS DE ALHURES DO SUL

Por Manoel Carlos Karam

Lidas pelo autor na BandNews FM 96,3 às segundas-feiras, entre seis da tarde e sete da noite, e na terça-feira de manhã - ou a qualquer momento em edição extraordinária.
(6 de agosto de 2007)


Eu não sofro de dog walkers elbow.
Esta doença é a dor que sentem no cotovelo aqueles que levam os cães para passear.
Passeio com o meu cachorro conduzindo o meu amigo pela coleira, mas não tenho dores no cotovelo.
Fluke, este é o nome do meu cachorro, nunca faria tal coisa comigo.
O escritor Paulo Sandrini descobriu que o meu cachorro é filósofo.
E que escreveu o livro “Crítica da ração pura”.
O filósofo Roberto Gomes, autor da “Crítica da razão tupiniquim”, aprovou com um sorriso.
E descobriu-se ainda que o cachorro-filósofo é também cachorro-romancista.
Segundo a jornalista Katia K, ele escreveu “Ração e sensibilidade”.
Enfim, tenho mais chances de sofrer dores no cotovelo virando páginas de livros de filosofia e romances do que levando o cachorro para passear.
Dog walkers elbow.
Sofrem dores no cotovelo muitos daqueles que levam cães para passear.
Mas dor-de-cotovelo é outra coisa.
Além de ser outra coisa, escreve-se com hífen.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Ouvindo hoje


Acordei hoje com os sonzinhos dos americanos, do Novo México. A banda: The Shins. Bacaninha. Indicado pelo Bressa (Marcelo Bressanin), ex-tecladista do My Sweet Lord Vader.
Nossa banda, lá de Bauru, nos anos ´90.

Question: Seria o Kevin Spacey no vocal?

Leprevost na Blogosfera




Vão lá no http://www.notasparaumlivrobonito.blogspot.com/ e confiram a metralhadora prosadora do Luiz Felipe Leprevost. Qem não leu, leia Inverno dentro dos tímpanos, aqui ó, um trecho: http://kafkaedicoes.com.br/catalogo.asp?edit=3. Esse Leprevost merece a leitura de vocês. Confiram lá, no blog e no link do livro.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Lago Ohrid

Aí, no lago Ohrid, República da Macedônia, foram feitas algumas das filmagens do meu filme preferido. "Antes da chuva", do Milcho Manchevski. Já o assisti ao menos 1o vezes. Sim, sou adicto.

Há lugares aos quais as pessoas talvez nunca pensem em ir ou sobre os quais nunca nem ao menos ouviram falar. Esse aí talvez seja um deles, infelizmente, para a esmagadora maioria. Para mim, um lugar fundamental. Um dia baixo lá.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Leitor do Não (livros que escapam)

Inauguro este blog com uma listinha de livros não lidos, livros abandonados por algum motivo. E agora já não são mais livros, ao menos para mim, são exercícios de negação da leitura. São momentos em que me transformei em leitor do Não. Bem, preciso confessar que a ideia da tal listinha surgiu por inspiração da leitura do Bartleby e companhia, do Enrique Vila-Matas. Livro (que, sim, li por inteiro) em que o escritor barcelonês se baseia no personagem de Herman Melville para compor sua ficção sem cara de ficção. O personagem-modelo, e notório, é o escrivão Bartleby, jovem muito trabalhador que após ser contratado como copista num cartório em Nova York aos poucos vai sucumbindo a uma atitude contemplativa. O mancebo permanece dias sem fazer absolutamente nada. Não sai, não se alimenta e etc. etc. Quando o dono do cartório pede para que faça algo ele diz que prefere não fazer nada. Assim mesmo. Já o Vila-Matas vai criar a partir disso os escritores do Não, os bartlebys, "seres em que habita uma profunda negação do mundo". Escritores, reais (Musil, Walser, Rulfo, Maupassant, Rimbaud, Kafka, Felisberto Hernández, Wilde e muitos outros), que desistiram de escrever de uma hora para outra, ou escreveram pouco, alguns livros "sagrados" da literatura, ou mesmo aqueles que eram para ser grandes escritores e se negaram a sê-lo, ou ainda que interromperam por tempos a escrita etc. etc. etc.: ou seja, esse papo aí de negação da "coisa de escrever". Mas, bem... as histórias do Melville e a do Vila-Matas estão por aí, soltas no mundo, ao menos no mundo da literatura (que esse já quase não faz parte do mundo), disponíveis para quem quiser. Voltando à ideia da lista, eu preferi, em vez de falar da desistência da escrita por algum motivo, óbvio ou não, choroso ou não, corajoso ou não, aborrecido ou não, filosófico ou chão, existencialista ou vão, eu preferi falar de livros que abandonei no meio, no início ou no finalzinho da leitura. Isso mesmo, não nego minhas desistências. Me reservo o direito, mesmo muitas vezes gostando bastante de um livro, de desistir da leitura, pular para outro livro ou simplesmente fechar aquele que estou lendo e ficar olhando para o teto ou para alguma paisagem interessante. Sou um leitor do Não. Deixo aqui — para animar meus amigos leitores a desistirem, a não fazerem nada, a deixarem o mundo como está para ver como é que fica—, o desejo de Wilde que foi o de, a certa altura da vida, simplesmente "não fazer absolutamente nada, que é a coisa mais difícil do mundo, a mais difícil e a mais intelectual". Deixo também, por fim, minha lista, de mais de duas dezenas. Tenha coragem você também — escritor, leitor, intelectual, acadêmico, estudante — tenha coragem e diga: deixei de ler tais e tais livros. Não precisam motivos, que muitas vezes mesmo não os temos. Não se cobram motivos aqui, explicações, críticas, reflexões. O que se cobra é apenas a negação.

Minha lista não será em ordem de não leitura, nem em ordem alfabética dos escritores "largados", vou colocando os que me vierem à mente na hora dessa digitação, sem levar em conta também o ano (alguns já fazem uns bons anos) em que esses livros foram abandonados no começo, no meio ou quase no fim do percurso.

1- O Vidiota - Jerzy Kosinski
2- O Antinarciso - Mario Sabino
3- Cinzas do norte - Milton Hatoum
4- Paulo Bentancur - Solidão do diabo
5- (os sobreviventes) - Luiz Ruffato
6- A caverna - José Saramago
7- Os Cus de Judas - Lobo Antunes
8- El amor en los tiempos del cólera - García Márquez
9- Histórias fantásticas - Bioy Casares
10- La escuela del dolor humano de Sechuán - Mario Bellatin
11- Enquanto agonizo - William Faulkner
12- El viaje vertical - (por supuesto) Enrique Vila-Matas
13- As crônicas marcianas - Ray Bradbury
14- Rádio Cidade Perdida - Daniel Alarcón
15- Técnicas de masturbação entre Batman e Robin - Efraim Medina Reyes
16- O leopardo - Lampedusa
17 - Caetes - Graciliano Ramos
18 - A hora da estrela - Clarice Lispector
19- Dia de finados - Cees Noteboom
20- Dom Segundo Sombra - Ricardo Güiraldes
21- Canoas e marolas - João Gilberto Noll
22- Os suicidas - Antonio di Benedetto
23- Assim falou Zaratrusta - Nietzsche
24- As viagens de Gulliver - Swift
25- Os versos satânicos - Salman Rushdie
26- O retrato do artista quando jovem - James Joyce

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...