terça-feira, 12 de maio de 2009

Leitor do Não (livros que escapam)

Inauguro este blog com uma listinha de livros não lidos, livros abandonados por algum motivo. E agora já não são mais livros, ao menos para mim, são exercícios de negação da leitura. São momentos em que me transformei em leitor do Não. Bem, preciso confessar que a ideia da tal listinha surgiu por inspiração da leitura do Bartleby e companhia, do Enrique Vila-Matas. Livro (que, sim, li por inteiro) em que o escritor barcelonês se baseia no personagem de Herman Melville para compor sua ficção sem cara de ficção. O personagem-modelo, e notório, é o escrivão Bartleby, jovem muito trabalhador que após ser contratado como copista num cartório em Nova York aos poucos vai sucumbindo a uma atitude contemplativa. O mancebo permanece dias sem fazer absolutamente nada. Não sai, não se alimenta e etc. etc. Quando o dono do cartório pede para que faça algo ele diz que prefere não fazer nada. Assim mesmo. Já o Vila-Matas vai criar a partir disso os escritores do Não, os bartlebys, "seres em que habita uma profunda negação do mundo". Escritores, reais (Musil, Walser, Rulfo, Maupassant, Rimbaud, Kafka, Felisberto Hernández, Wilde e muitos outros), que desistiram de escrever de uma hora para outra, ou escreveram pouco, alguns livros "sagrados" da literatura, ou mesmo aqueles que eram para ser grandes escritores e se negaram a sê-lo, ou ainda que interromperam por tempos a escrita etc. etc. etc.: ou seja, esse papo aí de negação da "coisa de escrever". Mas, bem... as histórias do Melville e a do Vila-Matas estão por aí, soltas no mundo, ao menos no mundo da literatura (que esse já quase não faz parte do mundo), disponíveis para quem quiser. Voltando à ideia da lista, eu preferi, em vez de falar da desistência da escrita por algum motivo, óbvio ou não, choroso ou não, corajoso ou não, aborrecido ou não, filosófico ou chão, existencialista ou vão, eu preferi falar de livros que abandonei no meio, no início ou no finalzinho da leitura. Isso mesmo, não nego minhas desistências. Me reservo o direito, mesmo muitas vezes gostando bastante de um livro, de desistir da leitura, pular para outro livro ou simplesmente fechar aquele que estou lendo e ficar olhando para o teto ou para alguma paisagem interessante. Sou um leitor do Não. Deixo aqui — para animar meus amigos leitores a desistirem, a não fazerem nada, a deixarem o mundo como está para ver como é que fica—, o desejo de Wilde que foi o de, a certa altura da vida, simplesmente "não fazer absolutamente nada, que é a coisa mais difícil do mundo, a mais difícil e a mais intelectual". Deixo também, por fim, minha lista, de mais de duas dezenas. Tenha coragem você também — escritor, leitor, intelectual, acadêmico, estudante — tenha coragem e diga: deixei de ler tais e tais livros. Não precisam motivos, que muitas vezes mesmo não os temos. Não se cobram motivos aqui, explicações, críticas, reflexões. O que se cobra é apenas a negação.

Minha lista não será em ordem de não leitura, nem em ordem alfabética dos escritores "largados", vou colocando os que me vierem à mente na hora dessa digitação, sem levar em conta também o ano (alguns já fazem uns bons anos) em que esses livros foram abandonados no começo, no meio ou quase no fim do percurso.

1- O Vidiota - Jerzy Kosinski
2- O Antinarciso - Mario Sabino
3- Cinzas do norte - Milton Hatoum
4- Paulo Bentancur - Solidão do diabo
5- (os sobreviventes) - Luiz Ruffato
6- A caverna - José Saramago
7- Os Cus de Judas - Lobo Antunes
8- El amor en los tiempos del cólera - García Márquez
9- Histórias fantásticas - Bioy Casares
10- La escuela del dolor humano de Sechuán - Mario Bellatin
11- Enquanto agonizo - William Faulkner
12- El viaje vertical - (por supuesto) Enrique Vila-Matas
13- As crônicas marcianas - Ray Bradbury
14- Rádio Cidade Perdida - Daniel Alarcón
15- Técnicas de masturbação entre Batman e Robin - Efraim Medina Reyes
16- O leopardo - Lampedusa
17 - Caetes - Graciliano Ramos
18 - A hora da estrela - Clarice Lispector
19- Dia de finados - Cees Noteboom
20- Dom Segundo Sombra - Ricardo Güiraldes
21- Canoas e marolas - João Gilberto Noll
22- Os suicidas - Antonio di Benedetto
23- Assim falou Zaratrusta - Nietzsche
24- As viagens de Gulliver - Swift
25- Os versos satânicos - Salman Rushdie
26- O retrato do artista quando jovem - James Joyce

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...