sábado, 16 de maio de 2009

Mario Bellatin na FLIP


A festa literária de Paraty, a FLIP, parecendo já um evento em processo de entropia devido a sua, poderíamos dizer, fórmula MAIS DO MESMO, traz esse ano, apesar de tudo, dois escritores que fogem um pouco desse rótulo tolo de "grandes nomes", como Lobo Antunes, Gay Talese e et ceteras, para abrir para dois autores bastante instigantes, o afegão Atiq Rahimi e o mexicano Mario Bellatin. Se fosse ver algo em Paraty seriam apenas esses dois nomes. Escolha bastante pessoal, porém bastante categórica. Do Rahimi há no Brasil dois excelentes livros traduzidos: Terra e Cinzas e As Mil Casas do Sonho e do Terror. Do Bellatin, Salão de beleza - praticamente já um clássico da literatura latino americana - e saindo pela CosacNaify a novela Flores. Rahimi faz uma mesa com Bernardo Carvalho e Bellatin com Cristovão Tezza. Essa última talvez interessante pelas propostas estéticas diametralmente opostas dos dois escribas. Creio que no caso de Carvalho e Rahimi podemos dizer o mesmo. Detalhe: há uma febre de escritores jornalistas na FLIP. Fico aqui sempre me perguntando por quê. E você?
Questão - O Mario Bellatin precisou ir para a CosacNaify para chegar à FLIP, sendo que seu nome já circulava há um bom tempo entre nós como um autor de destaque na América Latina?

Respondo com uma proposta: ler Ensaio sobre a Cegueira.

Deixo aqui a tradução dos trechos iniciais que fiz de Perros heroes do Bellatin, um dos livros que mais gosto entre todos que já li.

Perto do aeroporto da cidade vive um homem que, apesar de ser um homem imóvel — em outras palavras um homem impedido de se mover —, é considerado um dos melhores treinadores de Pastor Belga Malinois do país. Divide a casa com sua mãe, uma irmã, seu enfermeiro-treinador e trinta Pastores Belgas Malinois adestrados para matar qualquer um com apenas uma dentada na jugular. Não se conhecem as razões pelas quais, quando se entra na casa onde aquele homem passa os dias recluso, alguns visitantes percebem uma atmosfera que guarda relação com o que poderia se considerar o futuro da América Latina. Este homem costuma dizer, em sua quase incompreensível forma de falar, que uma coisa é ser um homem imóvel e outra um retardado mental.


Em frente à fachada se apreciam algumas jaulas. Cada uma contém um par de cachorros, que passam o dia inteiro soltando agressivos latidos para as pessoas que circulam pela calçada. Se alguém se aproximar das grades, é tanta a fúria desatada que os animais acabam partindo algum dente ao morder as barras metálicas ou atacando um aos outros sem piedade. Cada vez que isso acontece, o homem imóvel emite chiados agudos, motivados seguramente pelo desespero de não poder sair para espantar os intrusos. Os cachorros ficam agitados e deve o enfermeiro-treinador intervir para acalmar-lhes a ansiedade. Utiliza brinquedos à prova de mordidas profundas e um número limitado de palavras em francês, idioma oficial para adestrar Pastor Belga Malinois.


Ninguém sabe se o enfermeiro-treinador primeiro foi enfermeiro e depois treinador ou se antes foi treinador e depois enfermeiro. Se trata de um jovem um pouco acima do peso que veste roupas esportivas um tanto desalinhadas. Mais de uma noite dividiu a cama com o homem imóvel. Sobretudo quando uma dor profunda maltrata uma das pernas desse.


O homem imóvel assegura que nem sempre se manteve numa carência de movimentos como essa. Afirma que há alguns anos podia girar o pescoço de um lado para o outro.


As paredes do quarto estão pintadas de verde. Nelas, diversos diplomas que certificam a assombrosa destreza que possui aquele homem para treinar cães de conduta tão difícil como os Pastores Belgas Malinois. O homem imóvel costuma ser deslocado diariamente até uma poltrona junto à cama. Ali o enfermeiro-treinador lhe amarra em torno da cabeça o auricular do telefone. Atrás se mantém atada uma ave de cetraria, que é presa numa caixa cada vez que deixam entrar um dos Pastores Belgas Malinois no aposento.


O homem imóvel possui um álbum de fotos — que só permite a umas poucas pessoas olhar — com uma coleção de imagens dos melhores exemplares de Pastor Belga Malinois do mundo. Depois esclarece que uma coisa é ser um homem imóvel e outra um retardado mental, o homem imóvel assegura que não há cachorro tonto mas sim dono estúpido. Imediatamente se põe a rir de forma desmesurada.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...