sexta-feira, 15 de maio de 2009

Trilogia de Alhures do Sul

No meio de tanto marasmo literário em Curitiba e também no país do "Leite derramado", deixo aqui uns trechos do "Cebola", do Karam. É um alento no meio de uma literatura tão conservadorinha feito a nossa, da qual o novo livro do Chico Buarque é a nova coqueluche (Chico Buarque para presidente!!), começar a edição de três romances (?) altamente singulares do Karam, na Trilogia de Alhures do Sul. São eles: "Fontes Murmurantes", "Cebola" (Prêmio Cruz e Sousa de Literatura 1993) e "O impostor no baile de máscaras". É muito bom ler o Karam e ver ecos de caras como Beckett, Perec, Cortázar, Borges, Cabrera Infante. Contudo, é melhor ainda e mais saudável ver surgir diante dos meus olhos de leitor o mais inventivo escritor de sua geração. Vivam eternamente Agrippinos de Paula, Campos de Carvalho e Karans. Deixo aí então uns trechos do "Cebola" e uma pergunta: quem vai pegar o bastão desses caras? Não sei, mas que vai ter muito neguinho de boca aberta debaixo de uma cuia de leite derramado, isso vai. Assim alimenta-se o nosso medíocre cânone.

Trechos do Cebola


Olavo B. passou muitos anos refletindo sobre o plural da palavra nada. Ele dizia que sempre, desde a infância, foi acossado pelo plural da palavra nada, que fazia ele próprio inúmeras e irrespondíveis perguntas a respeito do plural da palavra nada. Ora, eu poderia ter me preocupado com outras questões, talvez com o zero, o mistério do três em um, a noite que existe em meros três pontos chamados de reticências, eu poderia ter me preocupado com um assunto destes, mas a única coisa que sempre interrogou Olavo B. foi o plural da palavra nada. Olavo B. tira os óculos, passa os dedos sobre as sobrancelhas antes de continuar. Eu poderia ter sido assolado por dúvidas a respeito dos mitos, perguntas a propósito de situações clássicas, referências a questões gramaticais, matemáticas ou filosóficas, mas eu me vi cercado somente e nada mais do que pelo plural da palavra nada, uma obsessão ingrata, pois eu não conseguia catalogar a questão em nenhum dos itens do conhecimento, o plural da palavra nada não era assunto de livros, de universidades, de sábios, era algo isolado de tudo, sem raízes em lugar algum, era uma obsessão que, nos pesadelos de todas as noites, parecia obscena, obscena obsessão. Então, pela manhã, com o corpo pesado depois do sono intranquilo, eu tinha pudores e tentava ludibriar os pensamentos, mas tudo absolutamente inútil, pois não passava muito tempo, eram na verdade poucos segundos, e eu acabava mais uma vez invadido pelas reflexões sobre o plural da palavra nada. Olavo B. tira os óculos novamente, imagino que ele vai repetir o gesto de passar os dedos sobre as sobrancelhas, mas desta vez um único dedo coça o olho direito. Olavo B. recoloca os óculos. São tantas as vezes que contei a história que, como contou Borges, não sei se a recordo deveras ou se só recordo as palavras com que conto. Um dia cheguei a pensar que havia terminado o meu trabalho, mas não passou
de um equívoco acreditar que o plural da palavra nada fosse a palavra Utopia. Não, era preciso apalpar o plural da palavra nada. A mão direita se ergue quando Olavo B. conta o que se seguiu: encontrei, numa tarde de domingo, o plural da palavra nada, e agora vivo uma nova história que, se minha vida for suficientemente longa, um dia estarei aqui para contá-la. Estou obsessivamente buscando a aplicação do plural da palavra nada.


Reflexões de Ema:
— Há momentos em que esta casa me parece um coliseu, em outros um bar com pista
de dança. Sei lá qual é a distância entre um coliseu e um bar com pista de dança, mas
no meio do caminho a casa pode lembrar uma catedral gótica. Ou as paredes nuas dos corredores lembram um museu onde esqueceram de pendurar quadros. Mas a casa
pode também lembrar um cinema, os moradores são luzes e sombras. Sinto que fazemos parte de um show, o mestre-de-cerimônias nunca é o mesmo, mas sempre há um
mestre-de-cerimônias que, mesmo sem abrir a boca, eu sinto que diz com muita
frequência ladies and gentlemen. Nisto tudo deve haver alguma questão não resolvida,
a casa parece uma mistura de coliseu com catedral gótica, deve ser porque acabou de
dobrar a curva do corredor um leão vestido de bispo.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...