domingo, 21 de junho de 2009

Projeto Estúdio aberto

O primeiro exercício da série Estúdio Aberto, em que os elementos externos à ficção aparecem enquanto tento escrever algo. A interrupção às vezes é um mal para o escritor, mas nesse caso está sendo utilizada como se fosse algo aproveitável.
No bolso

Levantou-se. Manhã escura. Olhou pela janela. Os postes ainda acesos. Vestiu seu casaco grosso de lã. Preparou o café. Encheu a xícara. Fumegante. Sorveu uns goles. Apalpou os bolsos do casaco. Lembrou-se de algo. Esqueceu-se do café. Levantou da cadeira. Foi até o quarto para buscar o [14h28min - No Youtube John Cage toca Dream, em 1948, o xilofone enche meu quarto de ressonâncias e silêncios. Sons entre silêncios. Soam. Meu filho parece chorar lá na sala. Abaixo o volume dos alto-falantes do computador. Não, ninguém chora. Impressão minha. Tento me certificar. Abro a porta do escritório. Ah, filho, deixa a mãe pegar. É de plástico, mamãe? Um som de aspirador de pó começa. Fecho a porta]. Desce as escadas, lentamente. O frio deixa seus passos vagarosos. Com preguiça, gira a maçaneta. Apalpa os bolsos. Se certifica de que está ali. Na rua, caminha em direção a parte alta da cidade. Passa por ruas estreitas. Começa a subir uma escadaria. De muitos degraus. Sua boca solta fumaça por conta do frio. Alguns longos minutos e chega em frente ao [14h31min - Alguém bate à porta. É meu filho. Quer entrar. Intenéti, papai. Vamo no intenéti. Digo que estou trabalhando. Os sons na porta continuam. Abro . Meu filho chora. Pego-o no colo. Papai está aqui, filho. Mas agora o papai precisa mesmo trabalhar. Vamo no intenéti, ele ainda insiste. Depois, depois, agora vai brincar lá na sala com seu carrinho de controle remoto. É só falar em controle remoto que ele sai correndo. Tranco novamente a porta]. Senta-se num banco de madeira úmido da chuva que caiu a noite toda. Agora só uma garoa fina. E um céu cinzento. Apalpa o bolso do casaco novamente e se certifca outra vez de que está ali. Enfia as mãos, apalpa lá dentro. Leva alguns segundos nisso. Tira as mãos. Do outro bolso, retira um papel. É um bilhete. Abre e começa a ler a frase [14h34min - A janela do escritório está aberta. O vizinho da frente liga o som do automóvel. Liga o motor. Música ruim e motor. Chega um rapaz de moto. Dois motores. Música péssima. E aí, trouxe a peça? Taqui, ó. Quanto é? Nada, não, depois me paga uma cerveja e tá feito. Olha lá, moleque, tem certeza? Claro, gordo... Valeu mesmo, hein. Valeu... Fecho a janela, ainda ouço a moto partindo e um pouco da música ruim] O bilhete amassado na mão. Se levanta. Vai até o mirante. Avista a cidade lá embaixo. Atira o papel. Volta a se sentar no banco. Olha o relógio. Se encolhe de frio. Apalpa o bolso por fora. Enfia as mãos. Apalpa algo lá dentro. Retira as mãos e então se pode ver um [14h43min – Toca o telefone, atendo. Gostaria de falar com o senhor Paulo. Sobre o que seria? Sobre nosso novo plano de telefonia, é um plano especial só para clientes. Aqui é o irmão dele, só estou cuidando da casa, o senhor Paulo retorna em trinta dias, está fora de Curitiba. Está bem, então, dentro de trinta dias volto a entrar em contato. Bato o telefone] Olha novamente o relógio. Vê alguém chegando. Vai ao seu encontro. [14h46min - Me dá um branco, tenho dúvidas de como continuar essa história. Fico olhando os livros em cima da mesa. Olho o mouse do computador. Não posso entregar a história assim. Não, não posso. Nunca joguei desse modo. Agora quero jogar com a curiosidade dos outros. Foda-se. Um escritor também é um sádico. Levo o dedo à boca. Dúvida. Preguiça mental. Sadismo. Estico as costas Me doem. Me levanto. Alguém grita lá na rua. Minha curiosidade é atiçada. Olho pela janela. Um dos vizinhos lava o carro. Programa típico do sujeito classe média curitibano. A idolatria pelo carro. Carro que faz mais parte da família do que os próprios membros da família. Volto à ficção com a janela aberta. O sol que entra está quentinho] Ele volta do encontro. Senta-se no banco. Pensativo. Apalpa o bolso. Por fora. Se certifica. Tira o casaco. Deixa-o sobre o banco e vai em direção à escadaria que leva novamente à parte baixa da cidade.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Caderno Latino-americano

Com este trecho de O ENTRE-LUGAR DO DISCURSO LATINO-AMERICANO, do Silviano Santiago, e do texto abaixo, de Castro-Gómez e Mendieta, inauguro uma série de postagens de pensamentos latino-americanos, sobre transculturação, hibridismo, pós-colonialismo, globalização etc etc etc. A quem interessar possa....


"A maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e de pureza (5). Estes dois conceitos perdem o contorno exato do seu significado, perdem seu peso esmagador, seu sinal de superioridade cultural, à medida que o trabalho de contaminação dos latino-americanos se afirma, se mostra mais e mais eficaz. A América Latina institui seu lugar no mapa da civilização ocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo. Em virtude do fato de que a América Latina não pode mais fechar suas portas à invasão estrangeira, não pode tampouco reencontrar sua condição de "paraíso", de isolamento e de inocência, constata-se com cinismo que, sem essa contribuição, seu produto seria mera cópia - silêncio -, uma cópia muitas vezes fora de moda, por causa desse retrocesso imperceptível no tempo, de que fala Lévi-Strauss. Sua geografia deve ser uma geografia de assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, de falsa obediência. A passividade reduziria seu papel efetivo ao desaparecimento por analogia. Guardando seu lugar na segunda fila, é no entanto preciso que assinale sua diferença, marque sua presença, uma presença muitas vezes de vanguarda. O silêncio seria a resposta desejada pelo imperialismo cultural, ou ainda o eco sonoro que apenas serve para apertar mais os laços do poder conquistador.
Falar, escrever, significa: falar contra, escrever contra."

(5) Em artigo de significativo título "Sol da Meia-Noite", Oswald de Andrade percebia por detrás da Alemanha nazista os valores de unidade e pureza, e no seu estilo típico comentava com rara felicidade: "A Alemanha racista, purista e recordista precisa ser educada pelo nosso mulato, pelo chinês, pelo índio mais atrasado do Peru ou do México, pelo africano do Sudão. E precisa ser misturada de uma vez para sempre. Precisa ser desfeita no meltingpot do futuro. Precisa mulatizar-se". Ponta de Lança, Rio, Civilização, 1972, p. 63.

Criaram cobras para mordê-los

Não poderia estar mais de acordo com a atual situação global...

"...a partir de la segunda guerra mundial se fue haciendo claro que el capital iba perdiendo sus connotaciones "nacionales" (capital inglés, japonés, alemán, norteamericano) para subordinarse cada vez más a formas propiamente globales de reproducción, situación que se tornó más evidente con el final de la guerra fría. Las empresas y corporaciones transnacionales desplazaron al estado-nación como lugar de la hegemonía y empezaron a convertirse en dispensadores de las promesas que éste había recibido de la modernidad temprana: soberanía, emancipación política, liberalización económico-jurídica, secularización de las costumbres. El aparato estatal, incluyendo no sólo las funciones de orden administrativo-financieras, sino también sus instituciones jurídico-políticas, comienza a reorganizarse de acuerdo a la exigencia mundial de los mercados y siguiendo los lineamientos trazados por corporaciones bancarias supranacionales como el Fondo Monetario Internacional. Eliminados así los controles nacionales, las corporaciones (o, mejor dicho, un puñado de ellas) obtienen el campo libre para movilizarse a sus anchas por todo el planeta sin tener que consultar sus estrategias con ningún gobierno, e incluso, muy a menudo, actuando en contra de los intereses estatales. Así por ejemplo, lo que es bueno para la Volkswagen o la Mercedes Benz (creación de fábricas y puestos de trabajo en México y Brasil) ha dejado de ser bueno para un país como Alemania, que observa impotente el derrumbe paulatino de su estado benefactor. Todavía peor es la situación en los países latinoamericanos, donde las ganancias de las empresas no se integran a mecanismos nacionales de redistribución de la riqueza, sino que contribuyen más bien a incrementar la distancia entre los ricos y los pobres. La nueva división del trabajo rompe así con el esquema clásico centro-periferia, pues las transnacionales se han convertido en agentes que afectan los intereses nacionales tanto en los países metropolitanos, como en las zonas anteriormente periferizadas o colonizadas por éstos."

(Santiago Mendieta, en La translocalización discursiva de "Latinoamérica"en tiempos de la globalización)

domingo, 14 de junho de 2009

Retrato do artista quando pirralho


Eis aí o retrato do pequeno Gianluca Sandrini. Que hoje, dia 14 de junho, completa 3 anos de idade e já está a brandir seus pincéis expressionistas contra o racionalismo do mundo. Influências? Segundo a opção estética do próprio fedelho, Miró e Munch. Na imagem, a confecção de sua primeira tela, após vários ensaios em papel. Isso aí, meu molequinho, feliz aniversário e todo as cores do papai na sua pequena alminha de artista.

Aqui, éramos todos felizes

Eu meu pai minha mãe meu irmão minha irmã minha tia meu avô minha avó felino e totó.
Exatamente aqui, naquele lugar, onde ficava nossa colorida morada, somos pessoas muito felizes. Donos de nossos próprios narizes. Cultores de nossas próprias raízes. Senhores de nossos próprios matizes. Haverá quem disse o contrário. Num passado não muito distante. Que éramos taciturnos carrancudos imundos e infelizes. Criaturas não realizadas. A felicidade no portão de entrada esperando brecha. Depois de anos desistiu. Havia quem dirá. Isso. E mais um pouco. E que seremos um dia todos pançudos e muito mais insatisfeitos. Viveremos de doces pra aliviar o amargo de nossa existência. Éramos quindins sonhos bombas de creme olhos de sogra cocadas e brigadeiros. Rotundos. Polvilhados de açúcar por todos os lados. Doces de infelicidade. Haveria quem dissesse na nossa família que era intriga da concorrência. Inveja pura de uma gente azeda e invejosa. Nojenta e asquerosa. Infeliz, essa gente. Não, nós. Daqui do alto, lá nesse nosso casarão de paredes adocicadas. De telhados de chocolate.
Não: não houve bruxas nem bruxos lá nem João e Maria. Só paz tranqüilidade e alegria. Uma eterna canção um poema ingênuo rimando felicidade e harmonia. Ali, exatamente neste lugar. Ninguém que dirá o contrário. Que não somos aquilo que afirmamos ser. Bem aqui, naquele lugar ali. Nossa morada colorida e protegida por cães que só mordem estranhos. Cães que dormem num gramado verde à beira da piscina. Que comem do bom e do melhor como comemos todos nós habitantes de lá desta nossa casa. Houve quem diria que felicidade demais alucina. Quando muita, chega num ponto de saturação e acaba com efeito inverso. Mas nós resistíamos firmes na nossa convicção arrogância e sentimento de superioridade, de superioridade por conta da nossa felicidade azul da cor do céu azul da cor do mar. Branca como a paz e as nuvens do céu. Um paraíso, nossa vida. O céu, nossa casa. Lá, perto de um deus só nosso. Que só olha por nós. Aqui, onde tudo jaz. Onde éramos todos felizes.

Coletânea de FC Futuro presente



Confirmado: a coletânea de contos Futuro presente – dezoito ficções sobre o futuro, organizada por Nelson de Oliveira, terá lançamento nacional dia 5 de agosto (quarta-feira), em São Paulo, na Livraria da Vila (rua Fradique Coutinho, 915). Nessa data me teleportarei para SP. A coletânea está saindo pela Ed. Record. Os autores que a integram são os seguintes: André Carneiro, Andréa del Fuego, Ataíde Tartari, Carlos André Mores, Charles Kiefer, Deonísio da Silva, Edla van Steen, Hilton James Kutscka, Ivan Hegenberg, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Márcio Souza, Maria Alzira Brum Lemos, Maria José Silveira, Mustafá Ali Kanso, Paulo Sandrini, Rinaldo de Fernandes e Roberto de Sousa Causo. Participo da coletânea com As infalíveis H. Destaque para a presença do André Carneiro, nosso autor clássico de FC e que para minha grande honra esteve no lançamento da coleção Antena em outubro passado aqui em Curitiba (junto do Mustafá Ali Kanso).
E neste mês ainda ou no próximo, sai a coletânea brasileira no Peru, em Lima. O livro foi organizado também por Nelson de Oliveira mas em parceria com a Maria Alzira Brum Lemos . O título? Ichi! Ainda não sei. Conto despues...

sábado, 13 de junho de 2009

Morrendo em família

(ou crônica da vida familiar em tempos de neoliberalismo)

Quando finalmente abri meu próprio negócio — após ter pulado de galho em galho mais do que macaco, num emprego aqui e outro ali, durante uns bons doze anos — me senti o indivíduo mais realizado do planeta (por que não da selva?). Agora estava livre do jugo do patrão e quem daria as cartas seria eu; mas, com certeza, iria escolhê-las bem, muito bem, antes de distribuí-las. As de maior valor, lógico, ficariam sempre escondidas nas mangas do meu paletó, que agora, com a empresa prosperando, passaria a ser de grife. Finalmente comprara minha cartilha neoliberal e passara então a defendê-la com unhas e dentes, mais dentes do que unhas (eu me tornara um indivíduo voraz para assuntos de negócio, sem dúvida).

Os dois primeiros anos foram dos melhores. Ganhei grana. Muita grana mesmo. Comprei um carro novo. Depois outro. Reformei meu imóvel. Comprei mais um. Minha esposa passara a ficar em casa, sem mais precisar levar cantadas desses patrões sexólatras espalhados pelo mundo afora. (Ela nunca soube, contudo, que como patrão eu também me tornara um sexólatra e as menininhas e as moçoilas que trabalhavam para mim se tornaram os alvos prediletos de minha ânsia sexual). Mas também havia as garotas de programa. Era comum eu passar muitas horas com as “minhas meninas” numa dessas casas de luxo. Uísque e drinques à vontade. As “minhas meninas” mereciam, e eu, patrão, também: todo patrão merece. Mas toda essa boa vida começou degringolar logo no terceiro ano. Crise na economia. Os juros exorbitantes. Danou-se o mercado. As vendas caíram. Despencaram num poço sem fundo. As companhias de água, luz e telefone foram privatizadas e as taxas foram aumentando, ficando insuportáveis. Tudo inflacionado. Comecei a entrar de uma vez na pindaíba, tudo insuportavelmente caro, todos os serviços insuportavelmente privatizados. Meus funcionários começaram a pedir aumento para compensar as perdas com a inflação. Porém, despedi alguns. Vendi um carro. E o outro. Atravessei o país em busca de representantes regionais. Gastei dinheiro que eu não tinha. E nada. Afundei mais ainda. Minha esposa voltou a trabalhar. Agora, comigo (só comigo!), para substituir funcionários. (Imagina se eu a deixaria cair nas mãos desses sexólatras soltos por aí, no comando das empresas). Minha esposa era muito atraente. Mas com a crise e, em decorrência disso, a falta de produtos de beleza, de malhação diária na academia, de compras no shopping e do chá da tarde com as amigas peruas, ela envelheceu dez anos em um. Se precisasse trabalhar em outra empresa, para outro patrão, pelo menos não correria mais o risco de ser intimada para atender um cliente numa cidade distante e ter que passar dias fora de casa por “estar a trabalho”. A coisa realmente se complicou ao final desse terceiro ano. Comecei a dever tudo. As contas da empresa e as contas de casa. Mais os protestos em cartório. A justiça me tomou um dos imóveis. Me sobrou outro, que vendi para tentar sanar as dívidas, financiamentos e etc e tal. Não deu. Os juros abocanharam o dinheiro e acabou faltando. Baixei as portas da empresa. Me escondi, com mulher e três filhos, no fundo da casa dos meus pais, numa exígua edícula. Mas lá me encontraram os cobradores particulares e os agiotas não davam sossego e as faturas não paravam de chegar, enfiadas por debaixo da porta pelos meus próprios pais que não queriam saber dos meus “rolos”. O que podiam fazer por mim, diziam, já haviam feito: me cedido a edícula. Já não saíamos mais de casa. Nos alimentávamos do pão que o diabo havia amassado, passado em cima com um baita de um trator, dado ré e passado em cima de novo e de novo, umas trezentas vezes. Emprego? Já havíamos, eu e minha esposa, rodado tudo quanto era lugar. Sempre na negativa. Colocamos nossas crianças para vender chiclete no sinaleiro. Mas logo foram assaltadas e voltaram para casa de mãos vazias e com os cambitos tremendo por terem que competir com uma garotada “mais experiente” no ramo dos chicletes de sinaleiro. Em suma, tínhamos medo, verdadeiro pânico da realidade lá fora. Tínhamos quase nada o que comer. Meu pai ralhava quando nos cedia um pouco de arroz com feijão. Velho murruga. Para nos distrair, a gente fazia apostas de quem adivinhava quantos comunicados de protesto e faturas em atraso seriam enfiados por debaixo da porta. Chegou um tempo em que não havia mais espaço, tantos eram os papéis de cobranças. Precisávamos nos livrar deles — obviamente que pagá-los estava descartado.. Ou então achar-lhes uma utilidade. E achamos. Fizemos fogo com eles para atiçar o carvão num fogãozinho improvisado com tijolos e cozinhamos primeiramente meu pai (velho sacana), tamanha era a nossa fome. Depois, cozinhamos mamãe (velha miserável, pão dura). O miserê chegou a tal ponto que decidimos que nós mesmos iríamos saciar a nossa própria fome. Meu filho mais novo foi o próximo do cardápio. Depois, o do meio. E depois, o mais velho. Então, minha esposa. Como podem perceber, sobrei apenas eu. Que agora começo devorando a mim mesmo pelas mãos. Só não sei se terei tempo suficiente para me fartar de minhas próprias carnes, pois o oficial de justiça está aí fora, furibundo, batendo à porta.

Pipocas fluorescentes & pistache Lunar

Nós saímos ontem à noite. Eu e ela. A gente foi lá na praça da igreja. Tinha missa e bastante gente. Então, foi que ela me disse que estava com desejo de comer pipocas fluorescentes. Roxas e cítricas?- me certifiquei. E era isso mesmo. Pipocas fluorescentes. A nova onda em pipocas. Desembolsei uns tantos dinheiros e comprei pra ela. Que ficou satisfeita, mas somente na hora, porque no minuto seguinte queria tomar sorvete de pistache lunar. É, sim. Pistache lunar. Segundo ela, vem mesmo lá da lua. De uma colônia espacial que está em fase de testes, pra saberem se dá pras pessoas viverem lá quando a Terra estiver habitada além da conta ou ameaçada por guerras em escala mundial e afins.

Os cientistas estão cultivando várias coisas por lá. E o tal do pistache é uma delas. E o sorvete é fabricado nos States, que é quem manda esse povo lá pra cima, e é caro pra danar. Mas assim mesmo paguei o sorvete pra ela, achando que assim ficaria livre daqueles seus desejos incomuns. Que nada! Imaginem só! Ela pediu pra gente encerrar a noite num motel voador. Um motel que a gente embarca nele lá no aeroporto e enquanto a gente transa a gente vai realmente lá nas alturas, assim prega o slogan do empreendimento. E ela disse que afirmaram ter inventado esse motel porque as pessoas não conseguem se desprender dos compromissos e aí andam brochando muito, porque a realidade aqui embaixo brocha. Então mandaram o sexo lá pras alturas porque talvez o homem ande precisando tirar um pouco os pés do chão pra poder ver a realidade de outro modo e aproveitar mais as coisas da vida. Talvez. Mas eu não acredito nessa boa intenção toda da indústria do entretenimento e do sexo. Eles fazem isso pra esfolar a gente e a gente paga. Se esse motel ainda fosse criação de um filósofo talvez a intenção fosse essa aí mesmo que falaram. E, melhor, seria grátis, porque se tem uma coisa que os pensadores, os verdadeiros, não sabem fazer é ganhar dinheiro.

Então embarcamos no tal motel e ficamos duas horas lá em cima, vendo as coisas aqui embaixo por uma janelinha de cela de presídio. E, sinceramente, ficamos tão alucinados com a novidade que acabamos por nem desarrumar a cama. Vantagem pras arrumadeiras do motel e mais economia pros administradores da espaçonave que não precisaram gastar com lavanderia. E, hoje em dia, qualquer centavo não gasto é um lucro do cacete pros empresários. É ou não é?Quando descemos, vimos que não havíamos feito nada, além de ficarmos olhando pela janelinha as coisas lá embaixo. Eu nem toquei a minha garota. Porra! Antes a gente ia em motel e ficava vendo televisão, também não fazia nada. Voava de outro modo, nos abestalhando com programas ordinários. Agora a gente voa de verdade. Mas o passarinho, sempre na gaiola. É isso. Terminamos nosso encontro nas alturas desse modo.

De volta a terra firme, ela me pediu, como sempre, pra levá-la pra casa. Fomos caminhando, de mãos dadas. Em silêncio absoluto. Vendo daqui debaixo a lua lá no alto. No portão da casa dela, ela me deu um beijo quente. O que, inesperadamente, me deixou excitado. Um simples beijo. O gosto de pipoca fluorescente misturado ao de pistache lunar, na boca dela, me deixou desconcertado e me sentindo repleto de uma felicidade oca, naquele instante.
Liguei pra ela no dia seguinte e fizemos tudo novamente: igual.


(texto originalmente publicado no site Fazendo Média)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Pequeno trecho de um grande livro

Assim é que começa O impostor no baile de máscaras, do inesquecível Manoel Carlos Karam:

"Nota de cabeça de página
Arranquei do dicionário a palavra paixão. Carrego comigo."

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Trechos de grandes livros (I)


A pena do Cornélio

Hoje me deu na telha de postar aqui trechos de livros os quais volto a reler. Se não os leio inteiros novamente, ao menos me detenho em certas partes por algum bom tempo. Entre os meus desorganizados livros, queria muito encontrar um: Fronteira, de Cornélio Penna. Depois de meses, achei-o. E essa é a obra mais densa e escura que já li na literatura brasileira. Além de circular entre as conquistas formais das vanguardas do início do século passado (foi escrita na década de 1930), traz características do romance gótico e da tradição fantástica. Até hoje um marco na nossa literatura assolada pelo realismo. Cornélio Penna foi pintor, o que de certo modo dá a sua ficção uma riqueza de imagens incomum. O tom é introspectivo e fragmentário. Sempre nebuloso. E, bem, sobre o livro há alguns estudos por aí e a obra do autor foi bem resgatada nos últimos anos. Contudo eu não sabia do filme. O que, para a minha ignorância, foi uma boa surpresa. Vai lá, veja o site da película: http://www.fronteira.art.br/.
E mais não digo porque creio que já estou falando mais do mesmo. Deixo o trecho escolhido pro leitor que aqui aparecer, se aparecer. Caso contrário posso dizer que, mesmo no mundo da internet, gozo de um prazer literário solitário.


XLIII

Ficara em mim, como um remorso novo, a minha visita à igreja, e, entre as acusações confusas, logo abafadas, que me fazia, sobrepujava sempre a de que lá não encontrava Deus, porque fora involuntariamente.
E um dia, vesti-me lentamente de negro, e dirigi-me para a Matriz, onde pregavam Missionários que percorriam toda a Mata, e caminhava trêmulo, como se fosse ao encontro do Senhor, sem humildade e sem pureza, mas com a vontade toda exterior de encontrá-lo, mesmo à custa de minha razão.
Ajoelhei-me e passei longos momentos, de olhos cerrados, sentindo-me só no meio da multidão também ajoelhada, só, horrivelmente só, longe de toda a vida, de toda inteligência, e, sobretudo, de toda bondade. E o sopro morno da febre da solidão, essa quietude doentia, essa dor de tudo que vive, me embriagava lentamente, e não queria despertar mais nunca...
Nessa hora de prostração total lembrei-me de que todos os entes que amei se afastaram, uns com tédio, outros com um sonho diferente dormitando dentro do coração, outros com a verdade no fundo das pupilas límpidas, e reconheci que não tinha forças para criar um amor novo ou uma amizade nova, e qualquer esforço que fizesse, nesse sentido, seria criminoso.

Aberto às condenações

Deixo aqui alguns poeminhas escritos lá pelos vinte e um / vinte e quatro anos de idade (já velho demais para ser Rimbaud). Tem até umas riminhas, que bonitinho. Depois de mais de quinze anos, eis o Sandrini em tempos de poetinha. São arquivos encontrados em caderninhos numa caixa de escritos empoeirada. Tem lá ainda trechos de uma peça de teatro, o primeiro conto que escrevi e até uns roteiros de filmes inacabados (mas isso certamente vai ficar lá mesmo ou vai pro lixo).



De um céu metal-ameno
escorrem nuvens:

rio argênteo


(Buenos Aires, 1995)


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tempo é inércia do movimento prologando
desajuste do homem-barro vertebrado
- poento de séculos-amém
no rupreste relógio inalterado

refúgio insólito das almas
pouso lento sobre escarpas
- arpões que fisgam os traumas
na melodia de todas as harpas

nos cantos por todos os deuses
nos deuses por todos os cantos
nos fragmentos de todos os tempos
nos tempos de todas as vezes


(Bauru, 1993)


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vitrinuvens angeliformes:
opulência de imagens

sobre a Terra sombrassignos
ressuscitam teomensagens



(seria eu um poetinha católico? Deus do céu!)



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por entre anos,
ciclos e movimentos

por entre rugas,
abismos de tempos



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ali parada (bem ao centro),
circundada por esférico nada,
a substância dos ocos
espera de samurais inexistentes
as lâminas de suas espadas:

sangria d'mpurezas ao se pensar no oriente.



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Quantas metáforas
se espalham pelas ruas
num dia de outono?

Início das brisas inconfundíveis
ótica estranha do mundo

Em caminhos rotineiros
cotidianos inteiros
mostram-se outros


(bem bobinho, de 1994)



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Barroco atual
(1992)


De uma contemporânea
cornucópia barroca
floresceu então o feto

mas na diagonal
e, já ereto, gritou
vórtices gongóricos
de tensão e de desafeto


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Do crepúsculo, um gosto vermelho
me traz um sentimento sangue
em que vozes vagas de silentes nuvens
roseorougematizadas
jamais me soam estranhas
sim, entranhas dilacerantes

(acho que li muito Georg Trakl nessa época)



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Vermelhas as lanternas dos carros
Vermelho o gosto da tarde
Vermelhos os olhos dos semáforos
Vermelha a angústia da cidade



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Chorei (centelhas de lágrimas)
ao ver estrelas caírem aos meus pés,
cintilando amargas
no céu sangrento de meu chão


(acho que nessa fase foi muito Rimbaud , hehe)

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...