sexta-feira, 5 de junho de 2009

Aberto às condenações

Deixo aqui alguns poeminhas escritos lá pelos vinte e um / vinte e quatro anos de idade (já velho demais para ser Rimbaud). Tem até umas riminhas, que bonitinho. Depois de mais de quinze anos, eis o Sandrini em tempos de poetinha. São arquivos encontrados em caderninhos numa caixa de escritos empoeirada. Tem lá ainda trechos de uma peça de teatro, o primeiro conto que escrevi e até uns roteiros de filmes inacabados (mas isso certamente vai ficar lá mesmo ou vai pro lixo).



De um céu metal-ameno
escorrem nuvens:

rio argênteo


(Buenos Aires, 1995)


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tempo é inércia do movimento prologando
desajuste do homem-barro vertebrado
- poento de séculos-amém
no rupreste relógio inalterado

refúgio insólito das almas
pouso lento sobre escarpas
- arpões que fisgam os traumas
na melodia de todas as harpas

nos cantos por todos os deuses
nos deuses por todos os cantos
nos fragmentos de todos os tempos
nos tempos de todas as vezes


(Bauru, 1993)


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vitrinuvens angeliformes:
opulência de imagens

sobre a Terra sombrassignos
ressuscitam teomensagens



(seria eu um poetinha católico? Deus do céu!)



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por entre anos,
ciclos e movimentos

por entre rugas,
abismos de tempos



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ali parada (bem ao centro),
circundada por esférico nada,
a substância dos ocos
espera de samurais inexistentes
as lâminas de suas espadas:

sangria d'mpurezas ao se pensar no oriente.



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Quantas metáforas
se espalham pelas ruas
num dia de outono?

Início das brisas inconfundíveis
ótica estranha do mundo

Em caminhos rotineiros
cotidianos inteiros
mostram-se outros


(bem bobinho, de 1994)



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Barroco atual
(1992)


De uma contemporânea
cornucópia barroca
floresceu então o feto

mas na diagonal
e, já ereto, gritou
vórtices gongóricos
de tensão e de desafeto


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Do crepúsculo, um gosto vermelho
me traz um sentimento sangue
em que vozes vagas de silentes nuvens
roseorougematizadas
jamais me soam estranhas
sim, entranhas dilacerantes

(acho que li muito Georg Trakl nessa época)



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Vermelhas as lanternas dos carros
Vermelho o gosto da tarde
Vermelhos os olhos dos semáforos
Vermelha a angústia da cidade



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Chorei (centelhas de lágrimas)
ao ver estrelas caírem aos meus pés,
cintilando amargas
no céu sangrento de meu chão


(acho que nessa fase foi muito Rimbaud , hehe)

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...