domingo, 14 de junho de 2009

Aqui, éramos todos felizes

Eu meu pai minha mãe meu irmão minha irmã minha tia meu avô minha avó felino e totó.
Exatamente aqui, naquele lugar, onde ficava nossa colorida morada, somos pessoas muito felizes. Donos de nossos próprios narizes. Cultores de nossas próprias raízes. Senhores de nossos próprios matizes. Haverá quem disse o contrário. Num passado não muito distante. Que éramos taciturnos carrancudos imundos e infelizes. Criaturas não realizadas. A felicidade no portão de entrada esperando brecha. Depois de anos desistiu. Havia quem dirá. Isso. E mais um pouco. E que seremos um dia todos pançudos e muito mais insatisfeitos. Viveremos de doces pra aliviar o amargo de nossa existência. Éramos quindins sonhos bombas de creme olhos de sogra cocadas e brigadeiros. Rotundos. Polvilhados de açúcar por todos os lados. Doces de infelicidade. Haveria quem dissesse na nossa família que era intriga da concorrência. Inveja pura de uma gente azeda e invejosa. Nojenta e asquerosa. Infeliz, essa gente. Não, nós. Daqui do alto, lá nesse nosso casarão de paredes adocicadas. De telhados de chocolate.
Não: não houve bruxas nem bruxos lá nem João e Maria. Só paz tranqüilidade e alegria. Uma eterna canção um poema ingênuo rimando felicidade e harmonia. Ali, exatamente neste lugar. Ninguém que dirá o contrário. Que não somos aquilo que afirmamos ser. Bem aqui, naquele lugar ali. Nossa morada colorida e protegida por cães que só mordem estranhos. Cães que dormem num gramado verde à beira da piscina. Que comem do bom e do melhor como comemos todos nós habitantes de lá desta nossa casa. Houve quem diria que felicidade demais alucina. Quando muita, chega num ponto de saturação e acaba com efeito inverso. Mas nós resistíamos firmes na nossa convicção arrogância e sentimento de superioridade, de superioridade por conta da nossa felicidade azul da cor do céu azul da cor do mar. Branca como a paz e as nuvens do céu. Um paraíso, nossa vida. O céu, nossa casa. Lá, perto de um deus só nosso. Que só olha por nós. Aqui, onde tudo jaz. Onde éramos todos felizes.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...