sábado, 13 de junho de 2009

Morrendo em família

(ou crônica da vida familiar em tempos de neoliberalismo)

Quando finalmente abri meu próprio negócio — após ter pulado de galho em galho mais do que macaco, num emprego aqui e outro ali, durante uns bons doze anos — me senti o indivíduo mais realizado do planeta (por que não da selva?). Agora estava livre do jugo do patrão e quem daria as cartas seria eu; mas, com certeza, iria escolhê-las bem, muito bem, antes de distribuí-las. As de maior valor, lógico, ficariam sempre escondidas nas mangas do meu paletó, que agora, com a empresa prosperando, passaria a ser de grife. Finalmente comprara minha cartilha neoliberal e passara então a defendê-la com unhas e dentes, mais dentes do que unhas (eu me tornara um indivíduo voraz para assuntos de negócio, sem dúvida).

Os dois primeiros anos foram dos melhores. Ganhei grana. Muita grana mesmo. Comprei um carro novo. Depois outro. Reformei meu imóvel. Comprei mais um. Minha esposa passara a ficar em casa, sem mais precisar levar cantadas desses patrões sexólatras espalhados pelo mundo afora. (Ela nunca soube, contudo, que como patrão eu também me tornara um sexólatra e as menininhas e as moçoilas que trabalhavam para mim se tornaram os alvos prediletos de minha ânsia sexual). Mas também havia as garotas de programa. Era comum eu passar muitas horas com as “minhas meninas” numa dessas casas de luxo. Uísque e drinques à vontade. As “minhas meninas” mereciam, e eu, patrão, também: todo patrão merece. Mas toda essa boa vida começou degringolar logo no terceiro ano. Crise na economia. Os juros exorbitantes. Danou-se o mercado. As vendas caíram. Despencaram num poço sem fundo. As companhias de água, luz e telefone foram privatizadas e as taxas foram aumentando, ficando insuportáveis. Tudo inflacionado. Comecei a entrar de uma vez na pindaíba, tudo insuportavelmente caro, todos os serviços insuportavelmente privatizados. Meus funcionários começaram a pedir aumento para compensar as perdas com a inflação. Porém, despedi alguns. Vendi um carro. E o outro. Atravessei o país em busca de representantes regionais. Gastei dinheiro que eu não tinha. E nada. Afundei mais ainda. Minha esposa voltou a trabalhar. Agora, comigo (só comigo!), para substituir funcionários. (Imagina se eu a deixaria cair nas mãos desses sexólatras soltos por aí, no comando das empresas). Minha esposa era muito atraente. Mas com a crise e, em decorrência disso, a falta de produtos de beleza, de malhação diária na academia, de compras no shopping e do chá da tarde com as amigas peruas, ela envelheceu dez anos em um. Se precisasse trabalhar em outra empresa, para outro patrão, pelo menos não correria mais o risco de ser intimada para atender um cliente numa cidade distante e ter que passar dias fora de casa por “estar a trabalho”. A coisa realmente se complicou ao final desse terceiro ano. Comecei a dever tudo. As contas da empresa e as contas de casa. Mais os protestos em cartório. A justiça me tomou um dos imóveis. Me sobrou outro, que vendi para tentar sanar as dívidas, financiamentos e etc e tal. Não deu. Os juros abocanharam o dinheiro e acabou faltando. Baixei as portas da empresa. Me escondi, com mulher e três filhos, no fundo da casa dos meus pais, numa exígua edícula. Mas lá me encontraram os cobradores particulares e os agiotas não davam sossego e as faturas não paravam de chegar, enfiadas por debaixo da porta pelos meus próprios pais que não queriam saber dos meus “rolos”. O que podiam fazer por mim, diziam, já haviam feito: me cedido a edícula. Já não saíamos mais de casa. Nos alimentávamos do pão que o diabo havia amassado, passado em cima com um baita de um trator, dado ré e passado em cima de novo e de novo, umas trezentas vezes. Emprego? Já havíamos, eu e minha esposa, rodado tudo quanto era lugar. Sempre na negativa. Colocamos nossas crianças para vender chiclete no sinaleiro. Mas logo foram assaltadas e voltaram para casa de mãos vazias e com os cambitos tremendo por terem que competir com uma garotada “mais experiente” no ramo dos chicletes de sinaleiro. Em suma, tínhamos medo, verdadeiro pânico da realidade lá fora. Tínhamos quase nada o que comer. Meu pai ralhava quando nos cedia um pouco de arroz com feijão. Velho murruga. Para nos distrair, a gente fazia apostas de quem adivinhava quantos comunicados de protesto e faturas em atraso seriam enfiados por debaixo da porta. Chegou um tempo em que não havia mais espaço, tantos eram os papéis de cobranças. Precisávamos nos livrar deles — obviamente que pagá-los estava descartado.. Ou então achar-lhes uma utilidade. E achamos. Fizemos fogo com eles para atiçar o carvão num fogãozinho improvisado com tijolos e cozinhamos primeiramente meu pai (velho sacana), tamanha era a nossa fome. Depois, cozinhamos mamãe (velha miserável, pão dura). O miserê chegou a tal ponto que decidimos que nós mesmos iríamos saciar a nossa própria fome. Meu filho mais novo foi o próximo do cardápio. Depois, o do meio. E depois, o mais velho. Então, minha esposa. Como podem perceber, sobrei apenas eu. Que agora começo devorando a mim mesmo pelas mãos. Só não sei se terei tempo suficiente para me fartar de minhas próprias carnes, pois o oficial de justiça está aí fora, furibundo, batendo à porta.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...