sábado, 13 de junho de 2009

Pipocas fluorescentes & pistache Lunar

Nós saímos ontem à noite. Eu e ela. A gente foi lá na praça da igreja. Tinha missa e bastante gente. Então, foi que ela me disse que estava com desejo de comer pipocas fluorescentes. Roxas e cítricas?- me certifiquei. E era isso mesmo. Pipocas fluorescentes. A nova onda em pipocas. Desembolsei uns tantos dinheiros e comprei pra ela. Que ficou satisfeita, mas somente na hora, porque no minuto seguinte queria tomar sorvete de pistache lunar. É, sim. Pistache lunar. Segundo ela, vem mesmo lá da lua. De uma colônia espacial que está em fase de testes, pra saberem se dá pras pessoas viverem lá quando a Terra estiver habitada além da conta ou ameaçada por guerras em escala mundial e afins.

Os cientistas estão cultivando várias coisas por lá. E o tal do pistache é uma delas. E o sorvete é fabricado nos States, que é quem manda esse povo lá pra cima, e é caro pra danar. Mas assim mesmo paguei o sorvete pra ela, achando que assim ficaria livre daqueles seus desejos incomuns. Que nada! Imaginem só! Ela pediu pra gente encerrar a noite num motel voador. Um motel que a gente embarca nele lá no aeroporto e enquanto a gente transa a gente vai realmente lá nas alturas, assim prega o slogan do empreendimento. E ela disse que afirmaram ter inventado esse motel porque as pessoas não conseguem se desprender dos compromissos e aí andam brochando muito, porque a realidade aqui embaixo brocha. Então mandaram o sexo lá pras alturas porque talvez o homem ande precisando tirar um pouco os pés do chão pra poder ver a realidade de outro modo e aproveitar mais as coisas da vida. Talvez. Mas eu não acredito nessa boa intenção toda da indústria do entretenimento e do sexo. Eles fazem isso pra esfolar a gente e a gente paga. Se esse motel ainda fosse criação de um filósofo talvez a intenção fosse essa aí mesmo que falaram. E, melhor, seria grátis, porque se tem uma coisa que os pensadores, os verdadeiros, não sabem fazer é ganhar dinheiro.

Então embarcamos no tal motel e ficamos duas horas lá em cima, vendo as coisas aqui embaixo por uma janelinha de cela de presídio. E, sinceramente, ficamos tão alucinados com a novidade que acabamos por nem desarrumar a cama. Vantagem pras arrumadeiras do motel e mais economia pros administradores da espaçonave que não precisaram gastar com lavanderia. E, hoje em dia, qualquer centavo não gasto é um lucro do cacete pros empresários. É ou não é?Quando descemos, vimos que não havíamos feito nada, além de ficarmos olhando pela janelinha as coisas lá embaixo. Eu nem toquei a minha garota. Porra! Antes a gente ia em motel e ficava vendo televisão, também não fazia nada. Voava de outro modo, nos abestalhando com programas ordinários. Agora a gente voa de verdade. Mas o passarinho, sempre na gaiola. É isso. Terminamos nosso encontro nas alturas desse modo.

De volta a terra firme, ela me pediu, como sempre, pra levá-la pra casa. Fomos caminhando, de mãos dadas. Em silêncio absoluto. Vendo daqui debaixo a lua lá no alto. No portão da casa dela, ela me deu um beijo quente. O que, inesperadamente, me deixou excitado. Um simples beijo. O gosto de pipoca fluorescente misturado ao de pistache lunar, na boca dela, me deixou desconcertado e me sentindo repleto de uma felicidade oca, naquele instante.
Liguei pra ela no dia seguinte e fizemos tudo novamente: igual.


(texto originalmente publicado no site Fazendo Média)

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...