domingo, 21 de junho de 2009

Projeto Estúdio aberto

O primeiro exercício da série Estúdio Aberto, em que os elementos externos à ficção aparecem enquanto tento escrever algo. A interrupção às vezes é um mal para o escritor, mas nesse caso está sendo utilizada como se fosse algo aproveitável.
No bolso

Levantou-se. Manhã escura. Olhou pela janela. Os postes ainda acesos. Vestiu seu casaco grosso de lã. Preparou o café. Encheu a xícara. Fumegante. Sorveu uns goles. Apalpou os bolsos do casaco. Lembrou-se de algo. Esqueceu-se do café. Levantou da cadeira. Foi até o quarto para buscar o [14h28min - No Youtube John Cage toca Dream, em 1948, o xilofone enche meu quarto de ressonâncias e silêncios. Sons entre silêncios. Soam. Meu filho parece chorar lá na sala. Abaixo o volume dos alto-falantes do computador. Não, ninguém chora. Impressão minha. Tento me certificar. Abro a porta do escritório. Ah, filho, deixa a mãe pegar. É de plástico, mamãe? Um som de aspirador de pó começa. Fecho a porta]. Desce as escadas, lentamente. O frio deixa seus passos vagarosos. Com preguiça, gira a maçaneta. Apalpa os bolsos. Se certifica de que está ali. Na rua, caminha em direção a parte alta da cidade. Passa por ruas estreitas. Começa a subir uma escadaria. De muitos degraus. Sua boca solta fumaça por conta do frio. Alguns longos minutos e chega em frente ao [14h31min - Alguém bate à porta. É meu filho. Quer entrar. Intenéti, papai. Vamo no intenéti. Digo que estou trabalhando. Os sons na porta continuam. Abro . Meu filho chora. Pego-o no colo. Papai está aqui, filho. Mas agora o papai precisa mesmo trabalhar. Vamo no intenéti, ele ainda insiste. Depois, depois, agora vai brincar lá na sala com seu carrinho de controle remoto. É só falar em controle remoto que ele sai correndo. Tranco novamente a porta]. Senta-se num banco de madeira úmido da chuva que caiu a noite toda. Agora só uma garoa fina. E um céu cinzento. Apalpa o bolso do casaco novamente e se certifca outra vez de que está ali. Enfia as mãos, apalpa lá dentro. Leva alguns segundos nisso. Tira as mãos. Do outro bolso, retira um papel. É um bilhete. Abre e começa a ler a frase [14h34min - A janela do escritório está aberta. O vizinho da frente liga o som do automóvel. Liga o motor. Música ruim e motor. Chega um rapaz de moto. Dois motores. Música péssima. E aí, trouxe a peça? Taqui, ó. Quanto é? Nada, não, depois me paga uma cerveja e tá feito. Olha lá, moleque, tem certeza? Claro, gordo... Valeu mesmo, hein. Valeu... Fecho a janela, ainda ouço a moto partindo e um pouco da música ruim] O bilhete amassado na mão. Se levanta. Vai até o mirante. Avista a cidade lá embaixo. Atira o papel. Volta a se sentar no banco. Olha o relógio. Se encolhe de frio. Apalpa o bolso por fora. Enfia as mãos. Apalpa algo lá dentro. Retira as mãos e então se pode ver um [14h43min – Toca o telefone, atendo. Gostaria de falar com o senhor Paulo. Sobre o que seria? Sobre nosso novo plano de telefonia, é um plano especial só para clientes. Aqui é o irmão dele, só estou cuidando da casa, o senhor Paulo retorna em trinta dias, está fora de Curitiba. Está bem, então, dentro de trinta dias volto a entrar em contato. Bato o telefone] Olha novamente o relógio. Vê alguém chegando. Vai ao seu encontro. [14h46min - Me dá um branco, tenho dúvidas de como continuar essa história. Fico olhando os livros em cima da mesa. Olho o mouse do computador. Não posso entregar a história assim. Não, não posso. Nunca joguei desse modo. Agora quero jogar com a curiosidade dos outros. Foda-se. Um escritor também é um sádico. Levo o dedo à boca. Dúvida. Preguiça mental. Sadismo. Estico as costas Me doem. Me levanto. Alguém grita lá na rua. Minha curiosidade é atiçada. Olho pela janela. Um dos vizinhos lava o carro. Programa típico do sujeito classe média curitibano. A idolatria pelo carro. Carro que faz mais parte da família do que os próprios membros da família. Volto à ficção com a janela aberta. O sol que entra está quentinho] Ele volta do encontro. Senta-se no banco. Pensativo. Apalpa o bolso. Por fora. Se certifica. Tira o casaco. Deixa-o sobre o banco e vai em direção à escadaria que leva novamente à parte baixa da cidade.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...