segunda-feira, 27 de julho de 2009

Amigos

paulo sandrini


E então eu aqui, assim. Olhando por essa janela. Lá fora o chão e o telhado das casas molhados por causa da chuva fina. Um silêncio, o mundo dormindo em paz. Mas aqui dentro de casa, aqui dentro da minha cabeça, um caos do caralho, entende. Um caos. Fico pensando em toda a paz que essa gente medíocre está desfrutando agora. Toda essa gente que mora nesta porra de condomínio. Uma vida pacífica proporcionada por empreguinhos de merda que nunca eu ia querer pra mim. Empregos pruma gente conformada, bovina, entende. Uma gente cujo principal objetivo de vida é trocar de carro ano a ano e ir pra merda de praia nas férias. É, sim, essa gente é assim, entende. Tipo esse vizinho da frente aí, gerente de produção numa montadora de carros. Um porra que acha que só porque troca de carro sempre [claro, a montadora vende o carro pra esse merda a preço de banana] é melhor do que eu. Vejo isso no jeitinho como ele olha. Olhar de cima, entende. Um porra. Um porra de merda. Entende? Não agUento mais olhar pra cara dessa gente. Mas aí eu tava te falando do caos que tá a minha cabeça. Sabe, como pode um cara como eu, com mestrado, doutorado, falando três línguas, estar fodido? Sem emprego. Sem projeto de pesquisa. As contas todas atrasadas, o oficial de justiça batendo aqui em casa pra levar as coisas. Como é que pode, pergunto. Quando vejo a filha da vizinha ali da frente, toda lá orgulhosinha, fico puto. Agora ela, a filha da vizinha, dá o sangue numa empresa de tecnologia. Uma analfabeta funcional com três filhos, cada um de um pai. Corroborando a superpopulação no globo. Deviam fazer queném na China. Proibir as pessoas de colocar mais de um filho no mundo. Ainda mais filho dessa gente crassa. Mas como eu falava: ela tá toda orgulhosinha agora, a filha da vizinha, só porque arrumou um emprego numa empresa de tecnologia e mais um cara pra casar, lá mesmo nessa empresa em que ela entrou há pouco. Veja só, nem bem entrou e já arrumou um otário pra ajudar a bancar os filhos e a casa. Um gordo babaca que entra e sai do condomínio escutando, no carro, Ivete Sangalo, axé, pagode, hino de time de futebol, essas porras. E ela, a vizinha, lá, toda cara-virada agora. Só porque arrumou um marido gordo e churrasqueiro de primeira. Mas antes, precisava ver, antes vinha tentar vender até produtos da Avon aqui em casa. Fora o material de informática de terceira linha. Uma picareta do cacete. Mas eu nunca comprei. Coisa vinda do Paraguai, sabe. Não alimento esse tipo de gente. Me vender um livro ela nunca viria, não é? Nunca. Uma ignorante. Ah, mas uma ignorante que agora tem uma picape, que antes não tinha, na garagem. Então se acha melhor que a gente, também. Mas te falo isso, só te falo isso, pra você ver como a gente, gente como eu e você, não é valorizada. Eu aqui preocupado com coisas mínimas. Com as banalidades. Como é que um cara como eu, intelectualizado, vou me preocupar com essas coisas? Mas me preocupo, né? Falta grana. Trabalho. O lance é sumir dessa porra deste país, entende. Veja só, o cara ali da frente, de uma das casas perto da portaria, fiquei sabendo, tá vendendo o imóvel pra ir morar com a família na França. Trabalha numa multinacional. Não fala um isso de francês, mas vai embora. Levar os equívocos e o mau-gosto da nossa classe média pro exterior. A esposa, uma loira descolorida, é dessas que deve adorar reality shows e os filhos, dois gordinhos chatos, devem encher a cara no McDonald’s, no Burger King. Pois é, meu amigo. Isso lá é ideal de vida? Mas vão levar esse ideal pra França. E o Paulo Coelho na bagagem, só pode. E eu aqui, com a cabeça a mil. Mil projetos e nem um sequer se concretizando. Aí vem o desespero. A taxa de condomínio atrasada, e olha que os babacas daqui votaram numas reformas, na última assembleia, que só vão onerar ainda mais a gente. A taxa vai subir. E eu vou continuar dando o calote. E as cobranças da administradora serão mais constantes. E eu não sei lidar direito com essa porra. Não gosto de dinheiro, mas também não sei lidar com dívidas, entende. Aí não durmo. Não como. Mas principalmente não durmo. Fumo pra caralho. Encho a cara de café. De ansiolítico. Antidepressivo. Um verdadeiro coquetel molotov. Aí ligo pra um ou outro amigo. Aqueles que eu sei que não acordam cedo pro trabalho, como você. Ainda bem que a gente pode se falar, não é? Temos tempo de sobra, hein! Haha. Podemos contar um com o outro, nessas horas. À noite é sempre pior, cê sabe. O pânico noturno. Sim. Claro que você sabe. Como eu ia me esquecer. Me lembro bem daquelas vezes, você fodido, sem bolsa pra pesquisa, sem trabalho em empresa particular, a mulher te deixando. Ah, como me lembro, cara. Foi foda, mas passou. A gente se falava todo dia, de madrugada, lembra? Cê me ligava e ficávamos um tempão na linha. Como agora estamos. Lembra, cara, cê tava deprimido pra caramba. Bem como eu estou hoje. E eu gostei de ajudar você, fazer alguma coisa por alguém. Aí ficamos mais amigos, amigos de verdade, devo dizer. Não foi? Sim, foi. É bom a gente poder desabafar nessas horas. Alguém pra ouvir, e tal. Não te ajudou? Não foi algo bom, falar? Não foi? Me diz. Responde. Não foi? Ó, não precisa ficar constrangido em lembrar, em falar sobre. Ficar em silêncio. Nada a ver. A gente pode falar daquela época, se você quiser. Pode sim. Vai ser bom pra mim também, tirar um pouco o foco só dos meus problemas. Lembrar do seu exemplo. Hei, cara, cadê você, cadê, cadê? Fala aí, meu. Fala se não foi do jeito que eu falei. Aquela sua fase. Claro que foi, né? É. Sei, sono. Desculpa de quem não quer tocar no assunto. Tudo bem. Tudo bem. Tá com sono. Tô vendo. Mentira. Sono? Pois é, nem responde a pergunta quando faço. Ah, sei. Vai levantar daqui a pouco. Pra trabalhar. Trabalhar? Onde? Como é que cê nem me disse nada. Sei que cê trabalha, mas nunca teve que levantar cedo. Ah, porra, não queria que eu ficasse pior se soubesse que aquela universidade chamou você e não eu. Que cê agora tem dois trampos. Sei, achou que eu ia ficar mal. Não, não tô mal não, cara, com essa história. Mas você deve tá, né? Me passando a perna, não é? A rasteira. Por isso nem se pronuncia. Tá esquivo. Quase não fala. Não é nada disso? Claro que é. Fica aí. Constrangido. Só dissimulando. Não, claro, você não tá constrangido, só com sono. Sei, sono. Sim, seu merda, tira minha vaga e ainda por cima consegue dormir. Agora vai poder fazer mais contas, comprar mais coisas, viajar, ir ao teatro, cinema, não é? Mais um carro na garagem. Bancar mais frescuras da nova mulher. Dos filhos. Claro, claro, vai dormir, vai. O sono dos justos. Não é? Vai lá. Vai dormir. Traíra. Vai dormir que eu vou desligar. Desligar esse telefone e continuar aqui, sozinho, com os meus fantasmas. Desculpa aí. Desculpa se te atrapalhei, vencedor. Bom sono.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...