quinta-feira, 2 de julho de 2009

Burros n'água

Assim que chegamos, amarramos nossos burros na sombra e começamos uma conversa pra boi dormir. Os bois dormiram. Mas os leões acordaram. Apesar disso, prosseguimos nossa conversa pra boi dormir durante vários dias, matando um leão por dia. Assim que matamos todos os leões, tiramos o time de campo (apesar de sermos apenas dois) e voltamos pra casa. Pouca surpresa ou nenhuma, quando chegamos lá e nos deram com a porta na cara (acontece nas piores famílias). Famintos, batemos à porta do vizinho. Que foi cordial e disse que onde come um comem dois, onde comem dois comem três, onde comem três comem quatro e assim sucessivamente, pois não parava mais de chegar gente visto a aquiescência do nosso vizinho, que se propalou pelos quatro cantos na velocidade da luz e em ritmo de festa. Maltas embarafustadas de oportunistas vieram em sua maior parte dos lugares comuns: dos Quintos dos Infernos, do Cafundó-do-Judas (e de onde ele perdeu as botas), de Pra lá de Bagdá, de Pra lá de Marraquéchi, de Muito mais além de Jerusalém etc. etc. etc. Então nosso vizinho resolveu fechar a porteira no “onde comem um milhão comem um milhão e um”. E olha que essa gente comeu. E comeu tanto que parecia saco sem fundo. O milionésimo segundo, que veio lá da Terra de Ninguém, e que ficou pra fora porque o nosso vizinho resolveu parar no “onde comem um milhão comem um milhão e um”, teve um desmaio de fraqueza. Juntamos os parcos restos e demos a ele, que saco vazio não para em pé. Os milionésimos terceiro, quarto, quinto e sexto quiseram protestar, no que os mandamos todos pra Casa do Chapéu.
Após tamanha fartura, perguntamos ainda ao nosso vizinho se ele não nos podia arrumar um pouco de sombra e água fresca. Ao que ele respondeu, Claro que sim, o que vocês necessitarem, quero que fiquem à vontade, muito à vontade, e lembrem-se, a casa é de vocês. Quando ele nos deu essa abertura, ficamos mais folgados que gola de palhaço. Dormimos feito anjos. Comemos feito porcos. Dançamos conforme a música, a nossa música. Estávamos assim, exultantes, quando nosso vizinho nos pegou de calças curtas (as suas calças curtas) e resolveu, por isso, ficar do ovo virado. Intimidados, quisemos contornar a situação. No que ele foi duro na queda. Disse-nos que poderíamos usufruir de tudo naquela casa, menos de suas calças curtas. Mais tarde constatamos que as calças curtas do nosso vizinho possuíam um compartimento especial pra quando seu saco ficasse cheio. Sem suas calças curtas com compartimento especial pra saco cheio, ele realmente não teve mais saco pra gente, quis que fôssemos embora. Foi quando lhe avivamos a memória para o fato de que agora a casa era nossa, e ele mesmo havia dito isso lá atrás, então nos sentimos, por isso, no pleno direito de usar, sim, suas calças curtas e que se ele estivesse incomodado com o fato que se retirasse de nossa casa. Dissemos então a ele, Os incomodados que se retirem, não é assim o ditado, meu velho? Pra nossa desmesurada surpresa ele engoliu o fato (não sabemos se com farinha ou não) sem mais retrucar. Feito vaca de presépio, juntou as tralhas e picou a mula.
Na mais genuína galhofa foi como vivemos durante anos. Séculos. Milênios. Era o paraíso. Tudo como o Diabo gosta e Deus aprova. Só aí, depois desses milhares de anos nessa folga toda, é que decidimos amarrar os nossos burros por ali mesmo. Foi então que lembramos. Esquecêramos deles, amarrados lá, à sombra. Correndo feito loucos, trupicando na jaca, catando cavaco e pegando patinho, num piscar de olhos chegamos ao lugar em que os havíamos deixado. Surpresa nossa quando demos com os burros n’água. Foi aí que meu companheiro não se deixou abater e disse em alto e bom som, Não há outra solução, a necessidade nos impele a mergulharmos atrás dos burros, e completou, num tom que parecia shakespeariano, me incitando, A necessidade é a mãe da audácia. No que eu respondi, na minha santa ignorância, dizendo que não conhecia porcaria nenhuma de audácia e muito menos a mãe dela, mas que concordava em irmos a fundo na nossa empreitada dizendo (também em tom que parecia ser shakespeariano) é isso aí, Fartura e paz criam covardes, mergulhemos, pois.
Resfriados até o último fio de cabelo (pois quem entra na chuva é pra se molhar, mas quem cai na água é pra se danar), extenuados depois de minutos a fio procurando burros nos recônditos mais profundos e obscuros daquela caudalosa água, um de nós finalmente foi sensato e disse (num código subaquático que só nós mesmos entendíamos, porque não interessava a mais ninguém entender), Chega, vamos procurar os burros em outro lugar, aqui na água não dá, estou me sentindo um peixe fora d’água no meio dessa água toda. O outro de nós sugeriu (por meio do mesmo código subaquático), Vamos nadar pela superfície, os burros, pensando bem, nunca ficam por baixo, eles não têm humildade suficiente pra isso.
Viemos à tona. E olhando em direção oposta à margem da qual tínhamos mergulhado, avistamos os burros, já em terra firme. Iam se distanciando. Tranquilos, absortos numa conversa fiada. Enquanto um falava o outro baixava a orelha. E nós, ali, cercados de água, já sem forças pra alcançar a margem, reafirmando que quem cai na água é mesmo pra se danar. Naquele momento, ficamos convictos de que seria impossível recuperarmos nossos burros pra amarrá-los novamente à sombra (qualquer ínfima sombrinha que fosse). Mas, entre afundar ali mesmo ou nadar nadar e morrer na praia, tínhamos uma certeza: preferíamos morrer na praia.

texto que ficou fora dos livros, escrito à época d'O estranho hábito de dormir em pé".

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...