quinta-feira, 2 de julho de 2009

Geometria do jornalismo

paulo sandrini


Eu tinha belas coxas, uma boca mais ou menos, uns seios fartos e um bumbum quase sedutor [não totalmente, porque era um pouquinho quadrado, mas eu era jovem e um bumbum jovem quase sempre é sedutor e essas questões meramente geométricas, por isso, não me causariam problemas imediatos]. Resumindo, eu era uma atraente jornalista, com um diploma medíocre, mas jornalista. Uns olhos azuis e criatividade zero, mas jornalista. Uma pós em relações internacionais e monoglota, mas jornalista. Um emprego idiota de revisora, mas na minha carteira de trabalho lá estava: jornalista.
Resolvi então não me contentar mais com essa meia-condição profissional, apesar de todas as minhas limitações de ordem intelectual. Ou eu seria uma jornalista de verdade ou não seria nada [porém, é bom que se diga que estudar mais ainda, ler o mínimo, adquirir repertório estava definitivamente fora dos meus planos, queria um caminho mais curto]. Foi quando eu insisti insisti insisti com o editor da revista em que eu trabalhava como revisora e consegui finalmente uma abertura para entrevistar personalidades, pois sem entrevistar personalidades um jornalista não chega a lugar nenhum. Aí escolhi o metiê de atuação: a política. Entrevistar políticos era uma boa chance de eu vir a me tornar uma jornalista reconhecida, tinha certeza. Entrevistei vários secretários de estado, deputados estaduais, vereadores. Mas eu sabia que se entrevistasse Ele, alavancaria minha carreira mais rapidamente.
O tempo passou, e eu, por conta do excesso de trabalho na redação da revista [por causa das entrevistas com políticos — menores, é bom que se diga — eu subi de cargo e cheguei a chefe de redação mesmo sendo a maior das celeradas com a escrita] não tinha mais tempo de batalhar a difícil, a quase impossível, entrevista particular com Ele.
Eu já estava fumando muito nessa época. Envelheci dez anos em dois. Uns fios de cabelos brancos até começaram a surgir. O excesso de cigarro danou com a minha pele e meus dentes. Minha boca murchou um tanto. Apesar disso eu ainda tinha muito charme. Contudo, já estava quase desistindo da entrevista com Ele. Vendo minha carreira atravancada, estagnada. Então, no final do mandato Dele, eu voltei a insistir insistir insistir. Até conseguir uma entrevista. E a sós. Consegui [melhor não confessar as armas usadas com o pobre assessor de imprensa Dele para tal vitória pessoal minha].
Eu tinha certeza de que aquela entrevista mudaria para sempre os rumos da revista em que eu trabalhava, mas não só: mudaria os rumos da minha vida. Comprei as melhores roupas e perfume. Eu precisava estar impecável [mas pronta para todos os pecados, que a vida é assim mesmo, não?]. O assessor Dele me passou o endereço do encontro. Eu desconhecia o local. Era numa rodovia. No meio do caminho, desconfiei do que podia ser. Mas segui em frente. Um motel! Malditinho! Um motel. Então percebi as intenções Dele. Fui direto pra suíte de luxo. Ele bebia tranquilo uma dose de uísque. Não era um homem bonito de perto, nada bonito. Nem sedutor [pessoalmente]. E nem demonstrava [pessoalmente] um ar de inteligência como na TV. Era [pessoalmente], ao vivo e em cores, um pífio, a bem da verdade. Um terno italiano num homem daquele parecia mais um terno velho com cheiro de naftalina típico de funcionários de repartição pública ou de advogados de porta de cadeia, ou ainda de vendedores de consórcio. O perfume comprado certamente na Galeria Lafayette [com dinheiro público, claro] por sua santa esposa não ajudava muito. Era um homem feio. Políticos geralmente são homens feios, não só pela ética geralmente ausente, mas por uma conjuntura maior e intrínseca à própria natureza política: o poder enfeia. No quesito lábia, no entanto, Ele era imbatível.
Cumprimentamos um ao outro. Tomei um pouco de água com gás. Ele me falou primeiro da sua vida, de sua família. Depois, de sua trajetória política e que aquilo estava em seu sangue. Quase um Destino Manifesto estar onde estava. Porém, e Ele foi muito objetivo na sua proposta, me disse que só falaria dos planos e dos problemas [que seriam abertos a mim com total exclusividade] pelos quais o Governo vinha passando com uma condição...
A princípio, me fiz de desentendida. Depois, aceitei. Claro que aceitei. Mas na hora agá, Ele declinou de sua empreitada de sedução. Disse — quase chorando, numa teatralização típica de telenovela [taí, melodrama; outra coisa de que os políticos entendem] — que não iria trair a sua família, nem seu governo. Era um homem fiel aos princípios da ética, da família e de Deus.
Eu já estava nua, na cama, com o bumbum arrebitado quando ele me mandou sair. A bem da verdade me enxotou dali. Eu fiquei nervosa. Saí atabalhoada, nua. As peças de roupa caindo pelo piso. Ainda o ouvi gritar no celular pra um de seus assessores, Traz outra que o bumbum dessa aí é quadrado, quadrado!
Hoje eu faço o que todos os jornalistas fazem com seus desafetos: ataco todos os pontos vulneráveis Dele, que se elegeu novamente, depois de anos, para o cargo máximo do estado. Ataco, ataco e ataco. Às vezes, muito raramente, Ele manda me processar. Então vejo que minhas palavras surtiram efeito. Fico feliz com isso. Me realizo consideravelmente quando isso acontece. Mas quando passa a euforia por esses ataques bem-sucedidos, eu me deprimo. Fumo compulsivamente. Bebo pra danar. Penso em mil calúnias novamente, só de raiva. E pior: me ponho novamente e eternamente a lamentar a geometria do meu bumbum: esse aspecto limitador da carreira de uma jornalista como eu.


Publicado anteriormente da revista Idéias

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...