sexta-feira, 10 de julho de 2009

Guerra: essa é a nossa condição.

O mundo precisa da guerra. Fartura e paz criam covardes. Imaginem um mundo pacífico, vocês conseguem? Um mundo, por exemplo, sem guerra de mercado (que leva à guerra de fato – bélica), sem guerra de egos, sem guerra de interesses.
Uns dizem que o mundo não evoluiria. Que estaríamos na pré-história. Contudo, mesmo na pré-história, meus caros amigos, teríamos os tacapes em mãos, pra soltar a porrada no primeiro que mexesse no nosso naco de carne de tigre dente de sabre. Se tivéssemos só a paz, não a guerra, o que dominaria, em vez da guerra, seria a conversa mole, a conversa fiada e a lábia. Sempre há espertinhos querendo levar vantagem, se não à força, na base do papo torto. Um mundo de paz, vejam, não geraria tantos lucros institucionais para a publicidade, com suas idiotas campanhas repletas de camisetas brancas e pombas da paz (justo a pomba que é um bicho briguento pra cacete entre seus semelhantes), a classe abastada não posaria de bacana saindo em colunas sociais “Pela Paz”. Nossas vidinhas seriam um total e fatal tédio. Aquela sensação pré-histórica de ter que matar um leão ou um tigre dente de saber por dia nos abandonaria e aí sim os leões ou os tigres é que nos matariam. Se tivéssemos paz, não teríamos mais a Copa do Mundo e as Olimpíadas que são guerras dissimuladas em forma de esporte, onde quem vence é o mais forte. Pelo menos no futebol somos a maior potência bélica. Já nas Olimpíadas os mesmos que ganham no campo de batalha são os que levam o maior número de medalhas. Tudo é uma constante guerra. Já nascemos brigando com a placenta. E vejam bem, a guerra é algo institucionalizado, tem suas regras próprias: não pode isso, pode aquilo e aquilo outro, isso aqui não. Tem até modalidade das guerrinhas-treino. A do Iraque, por exemplo, não é/não foi propriamente uma guerra, é/foi apenas uma preliminar, um jogo treino, um amistoso contra um timeco de merda. Pra depois vir a Guerrona, talvez agora contra os iranianos. Mas na verdade a Coreia do Norte está quebrando todo o esquema. Agora os estadunidenses (com seu cordão de puxa-sacos decadentes que inclui Inglaterra, França e Alemanha) não sabem quem atacar: se o timeco do Irã ou o time em ascensão da Coreia. Sempre estamos a precisar de uma guerrinha básica. Aquela lá, a do Iraque, pra voltar lá pro Oriente Médio, é/foi só mais uma guerrinha. Uma guerrinha amistosa. Uma Guerra pela Paz, dizem. E, bem, sem guerra não pode existir tempo de paz. Ou como já escreveu o sábio Manoel Carlos Karam, toda guerra é feita em tempos de paz.
Se não fôssemos realmente a favor da guerra, certamente nos policiaríamos, por exemplo, para evitar expressões como “Estou batalhando por algo melhor”, “Estou na luta”, “Vamos dar o sangue”. Vejam, a todo instante, estamos falando em guerra, em sangue — uma guerra que apesar de metafórica engendra no inconsciente coletivo guerras reais, a partir do momento em que açula no indivíduo a competição, o aniquilamento da concorrência, terreno fértil para a medragem de um ideal de mundo fascista sob a pele do tal neoliberalismo. Vemos que a coisa começa isolada, sendo plantada no indivíduo, e termina em larga escala. É sempre assim. Do individual ao coletivo estamos sempre “batalhando”, sempre na luta. Talvez se cambiássemos algumas expressões necrófilas (pois elas padecem de uma paixonite aguda por Tânatos), se as cambiássemos por expressões do tipo: “Estou criando condições”, “Estou tendo uma chance”, “Vamos pôr o coração para alcançar um fim”, talvez teríamos um princípio, em pequena escala, claro, para começar a mudar alguma coisinha, tendo no discurso cuidadoso o início de um antídoto contra a nossa natureza bélica e bárbara. Mas a verdade, a pura verdade, é que somos necrófilos; e a favor dos nossos instintos animais gostamos mesmo é de um cheiro de sangue, de uma batalha. O que podemos fazer? Lutar contra essa condição seria besteira. Nós só precisamos, enfim, da Paz pra termos tempo ocioso pra incrementar bem a Guerra, fazê-la cada vez mais cruel. Só.
Essa é a nossa condição, companheiros de batalha. Se você não a aceita, batalhe pra mudar. Ainda assim, estará batalhando, na Guerra.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...