quinta-feira, 9 de julho de 2009

Vida de inseto [ou para os que estão em casa]

paulo sandrini


Há dias devoro telenovelas, telejornais, reality shows, jornais populares, domingão do Faustão, jogo de futebol.
Encarnei numa de “não tô nem aí com a reflexão”. Me deixo levar nas ondas dos intervalos comerciais feito um corpo afogado boiando e sendo levado pela correnteza caudalosa de um rio de esgoto. E sabe como me sinto? Anestesiado. Como que paralisado. Sem ação. Sem conseguir reagir. Há dias não leio. Há dias não escrevo coisas que realmente valem a pena ser escritas. Se penso em pensar me pesa a cabeça e ela tomba: em direção à tv. Meus cabelos vão lentamente se transformando em antenas. Ligadas o tempo todo em entretenimento. Se me falam de política, concordo com tudo: até com os tiranos. E os acho perfeitamente corretos. Se falam de narcotráfico, fico quieto, pois estou drogado. Se falam em combate à fome, só penso se vou ter uns trocados amanhã pro meu fast food. Foda-se a fome. Se falam em transgênicos, não tô nem aí, como o que tiver à mesa, depois vou me transformando numa larva, então quando tento novamente, agora feito larva, comer os transgênicos, vou morrendo pela boca. Se me pedem colaboração: só penso em colaborar com a votação do paredão do Big Brother. Se me falam em livros, penso logo em como fazer amigos & influenciar pessoas. Mas todo o tempo o influenciado sou eu. Se me pedem opinião sobre a cota para negros nas Universidades, digo que isso não é problema meu, sou caucasiano, só virei a me preocupar um dia se meu filho que ainda nem nasceu se danar por ser mulato [nunca se sabe o futuro da paternidade em terras híbridas]. Se me perguntam sobre a Guerra, digo que estou em paz com a minha consciência, durmo tranquilo. Cogumelos de fumaça povoam meus sonhos. Não entendo essa metáfora.
E assim seguem os meus dias. Em frente à tv. Tomando meu leite com Ultralienação. Comendo biscoitos de Conformismo. E meus cabelos virando antenas. Até chegar o dia em que o sistema que me engendrou cuide de me matar com uma chinelada.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...