domingo, 23 de agosto de 2009

Três capítulos de "O visitante" (infanto juvenil)

Bem, este livro está parado em sua escritura, como outros dois. Mas pretendo levá-lo adiante assim que terminar coisas tipo "Doutorado". Sei que pode ser muito texto para um blog, mas quem gostar leia um capítulo de cada vez e me digam o que acham, pois nunca escrevi para jovens/crianças.


1. O aviso


Flupy solta um relincho estridente e, como sempre, nessas vezes, o Casarão quase vem abaixo. Paredes trepidam e racham em mais alguns pontos. Maldito Flupy!
De cem em cem anos, mais ou menos, esse bicho peludo, de tamanho milimétrico, que eu não sei se é um animal vertebrado ou invertebrado (possui apenas uma boca no meio da cabeça, aliás, seu corpo todo é apenas uma cabeça peluda, sem olhos, nariz ou orelhas), salta de um vão entre as tábuas do assoalho soltando esse ensurdecedor relincho, querendo me avisar de que algo está por acontecer. Algo que vai me tirar da rotina. Do sossego.
Enquanto o relincho de Flupy ricocheteia pelas paredes, sobe e desce pela escadaria, bate no teto e volta para dentro, para bem dentro dos meus tímpanos, eu lhe pergunto, berrando, para que ele possa me ouvir:
— Que foi desta vez, criatura?
Ele grunhe na sua língua, que é um misto de francês e espanhol:
— L’oncle Mallenstein est llegando. Él arrivera todavía hoy.
Desato o nó que as palavras de Flupy causam no meu cérebro e decifro a mensagem: meu tio-avô Mallenstein está finalmente chegando, após quatrocentos anos de promessas feitas por cartas que ele escreveu semanalmente, infalivelmente, durante esse período.
No entanto, confesso jamais ter sentido falta de sua visita. Na verdade, sempre foi um alívio para mim Tio Mallenstein nunca ter vindo até o Casarão. Sua fama não é das melhores.
Flupy dispara outro relincho.
— Que foi agora, animal, inseto, sei lá?
— Give me food! Il faut payer the information que yo suis venu darte
a usted. Capisce, carcamano? Beaucoup de repas. Mangiare, bambino. Did you n’avez pas understand encore?
Agora o maldito deu de incorporar italiano e inglês a sua quase ininteligível língua.
Não posso negar que os avisos dados por Flupy sempre me foram de extrema importância e extremamente verdadeiros, o que sempre possibilitou que eu me prevenisse contra acontecimentos mais nefastos. Seu último aviso, cem anos atrás, foi a respeito de um dilúvio que cairia sobre a terra daí a quarenta anos e duraria por 50 ou mais. Durou cinquenta e nove. Mas aqueles quarenta anos foram um tempo suficiente para que eu providenciasse o transporte do Casarão (o que levou vinte e dois anos, devido ao estado não tão bom de conservação do imóvel) para o alto desta montanha e fizesse um estoque enorme de comida para o tempo ruim que viria.
Porém, quanto ao Tio Mallenstein, confesso, não sei como me prevenir contra ele. Será que devo soltar dos porões os leões de juba-de-fogo para me proteger e ao Casarão também? Sei lá. Preciso pensar rapidamente em algo funcional e inteligente. Problema é que além da fama do Tio Mallenstein (que só vou saber se é verdadeira ou não tirando a prova ao vivo), não sei mais nada a seu respeito. Suas cartas se resumiam às promessas de visita. Só. Eram no máximo dez palavras por carta.
Melhor agora é pagar Flupy pela informação. Ele, afinal de contas, merece, além do que não pára de relinchar, o danado.
Num balde de um metro de diâmetro por dois de profundidade, coloco quilos de azeitonas pretas com carne de lula e ovos de viúva-negra. Flupy, o milimétrico Flupy, devora tudo em quinze segundos. Depois desaparece, saltando para dentro da lareira. Ouço seu crepitar.
Só me resta esperar. Mas desta vez não haverá quarenta anos para que eu me prepare ou mude o Casarão de lugar.


2. O visitante chega

Minha cabeça está cheia. Cheia de falta de ideias. Não consigo dormir nem pensar em uma solução. Tio Mallenstein logo deve chegar, pois as vinte e quatro horas do dia vão se esvaindo e Flupy disse que meu parente chegaria ainda hoje. Os leões de juba-de-fogo podem parecer um tipo de proteção excessiva. Tio Mallenstein pode interpretar esses animais ferozes a lhe aguardarem como uma recepção um tanto agressiva de minha parte. Espero que sua fama não se confirme. Família fala demais. Inventa coisas sobre a gente. Espero que essa regra se cumpra. Assim, Tio Mallenstein não representará aquilo que eu acho que ele representa. Porém, ficar totalmente desprotegido, seria tolice, pois, por outro lado, os membros de minha família não são lá essa maravilha mesmo.

Os raios do sol passam pelas rachaduras das paredes e machucam minhas retinas. Está amanhecendo. E nada do Tio Mallenstein. Flupy errou sua previsão: a de que meu tio-avô chegaria ontem. Espero que ele, ao menos desta vez, esteja totalmente errado, enganado. Só com o sol, assim, intenso posso ver em quanto aumentaram as rachaduras do Casarão em consequência dos relinchos de Flupy. Maldito Flupy! Gostaria de xingá-lo agora em todas as línguas possíveis, em todas aquelas que ele entendesse e também aquelas que ele não entendesse. Desse jeito, rachado assim, o Casarão não vai durar mais de três séculos. Droga.
Acho que preciso espairecer um pouco. Esvaziar minha cabeça cheia de falta de ideias. Vou descer até a cidade e tomar café na confeitaria de Dona Gretchen. Dizem que ela é uma espécie de bruxa aposentada. Só pode. Nunca vi ninguém fazer uma torta de framboesa tão boa. Vivam as bruxas!

A estrada é sinuosa. Muito sinuosa. E muito estreita. O vento sopra forte aqui em cima. Qualquer descuido e a gente pode despencar com cavalo e tudo lá pra baixo. São uns nove quilômetros até a cidade. Durante o trajeto, penso em alguma solução para a recepção ao Tio Mallenstein. Fico comendo uma deliciosa torta de framboesa da bruxa Gretchen. Tomando uma fumegante xícara de café.

Pelo caminho, nenhum sinal de Tio Mallenstein. Acho que ele não vem. Flupy finalmente deu uma bola fora. Não deveria ter-lhe pago a comida. Maldito!
— Torta de framboesa? — pergunta Dona Gretchen logo que chego e me sento em sua confeitaria.
Sorrio pra ela e respondo:
— E um café fumegante, por favor!
Ela dá uma gargalhada. Não entendo. Pergunto:
— A senhora está gargalhando por minha causa?
— Claro que não! É que passou por aqui um homem que dizia estar acompanhando um tal de senhor Mallenstein. O homem era muito magro. Um palito. Se apresentou como Gordon Siqueira. Levou todas as tortas de framboesa. Não sobrou nada. Só esse tal de Gordon comeu quatro ou cinco delas. As outras quinze que eu havia feito para meus clientes, ele as levou todas. Disse que seu mestre estava faminto e exausto da viagem. Só não disseram de onde vinham e pra onde iam. Gente estranha...
Quase peço para a Dona Gretchen calar a boca, ela está deixando minha cabeça zonza de tanto falar.
— Serve joelho de porco com cerveja? — ela me pergunta.
— Hã?! — espanto-me com tal cardápio matutino.
Mas não há tempo de responder, de comer. O negócio é fazer com que Hipólito, meu cavalo decrépito, galope o mais rápido possível e eu possa alcançar meu tio comilão e seu acompanhante no meio do caminho. Não posso deixar que cheguem antes de mim ao Casarão. Repito: a fama de Tio Mallenstein não é nada boa.

De onde estou posso ver, lá em cima, na estrada sinuosa: uma carruagem roxa muito comprida puxada por uns seis ou oito cavalos. Precisa tanto? Será que o homem trouxe tanta carga pensando em se mudar para o Casarão? Droga! Droga! Droga! Jamais conseguirei alcançá-los. Espero conseguir ainda entrar em casa.


3. O visitante chega e desaparece: deixa um bilhete

O Casarão já vai quase desaparecendo na bruma. Nuvens opressoras acinzentam o céu. O vento uiva. Nada de assombro. Sempre no meio da manhã, todos os dias, o tempo fecha desse jeito. A névoa só vai desaparecer à noite. Durante o dia o Casarão fica imerso, protegido por esse escudo brumoso. Me aproximando de sua entrada, posso ver, com alguma dificuldade ainda, uma sege com seis cavalos nervosos ali parada. Os animais relicham. Armam coices. De suas narinas sai uma fumaça espessa por causa do frio.
A porta da sala está escancarada. Faz movimentos bruscos , como que querendo bater e desmontar o batente e em seguida todo o Casarão. A porta parece ter ganhado vida própria e também parece estar dando a entender que não sou bem-vindo a minha própria casa.

Ninguém na sala. Nenhum sinal por aqui. Já na sala de jantar, as velas balançam, pra cá e pra lá, em seus castiçais. Se caírem, o fogo consome rapidamente tudo por aqui.
Apago-as. Na mesa, parece ter passado mesmo um ciclone. Parecer ter havido uma agitada festa. A festa da torta de framboesa. Há cálices e copos quebrados. Um resto de uma bebida amarela e viscosa. Cacos de vidro pelo chão. Um cheiro azedo toma conta do lugar. Nunca vi esse tipo de bebida. Deixa pra lá. Eu, agora, neste exato momento, é que não vou querer saber o que é isto.
A bagunça é generalizada. Doce no chão. Nas cortinas. Nas cadeiras. Pregado com um percevejo no espaladar de uma das cadeiras, o bilhete:


Caro sobrinho-neto Pandrinius

Desculpe-me por toda essa desordem em sua sala de jantar. Estávamos famintos. Viagem longa, sabe. Dias.
Agora me despeço e deixemos nosso primeiro encontro para mais à noite.
Espero por você no quarto 115. Não descerei, pois estou mesmo exausto e precisando fazer a digestão.

Seu Tio Mallenstein


Um encontro. Certo. Mais à noite. Fico aqui pensando se deveria ou não incomodar o visitante. Quarto 115. Nunca entrei nesse quarto. Aliás, quase não entrei em quarto nenhum do Casarão, apesar do longo tempo que vivo aqui. São muitos quartos. Quartos a não acabarem mais. Quatro andares imenso, com vários quartos. A cada ano, parece aumentar o número deles, apesar de eu nunca tê-los contado. Enfim, Tio Mallenstein vai, logo de cara, confirmando sua fama. Chega, não fala com o anfitrião e vai tomando seu lugar. Engraçadinho. À noite, então, nos encontraremos, titio. Prepare seus argumentos, pois isso não se faz quando se chega a casa de alguém. Espero, contudo, não ser mais incomodado até o nosso encontro. Vou, agora, preparar meu almoço, isso sim.

sábado, 22 de agosto de 2009

A arte de capa de "O estranho hábito de dormir em pé"

"O Sonho de onagro" (título): nesse trampo o mano Marco Sandrini utilizou: pintura acrílica, objetos colados e finalização digital. Adoro aquela moeda de Rublo posta na canto superior esquerdo. Um rublo, a quem interessar possa, é dividido em 100 kopeks e essa moeda aí é da época do regimão. Eita regimão do leste! E vamoquevamo, cabra da peste!
http://marcosandrini.blogspot.com/

Essa estava no Blog do Dom Solda de Itararé

Amigo de várias batalhas, o Popa, Luciano Popadiuk, esse ucraniano maluco da banda Os garotos chineses. Essa foto pesquei no site do Dom Solda de Itararé. Apareçam, meus camaradas de humor e fina ironia. Somos uma escola. E com Solda mais a jornalista Miriam Karam (saudade, viu) formei uma banda chamada Rivotrio Elétrico. Essa foto foi no dia do lançamento da coleção Antena, da Kafka Edições, lá no Beto Batata. Em outubro do ano passado.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Egon Schiele separado de Henryk Górecki

Separemos Schiele da música de Henryk Górecki. Acho que ficou kitsch com as imagens do Schiele a musica grandiosa de Górecki. As pinturas de Schiele também são grandiosas. Mas prefiro separar os dramas. Se é que me entendem.

fica o link :
Gorecki Symphony No. 3 "Sorrowful Songs"
http://www.youtube.com/watch?v=miLV0o4AhE4

Gracias, mano Marco pela crítica quando eu disse para tirar a trilha. Mas agora ponho aí só uma sinfonia do Górecki.

Egon Schiele





Por indicação da cineasta venezuelana Liris Acevedo, deixo aí duas obras do austríaco Egon Schiele, pintor ligado ao expressionismo. Esse quadro logo acima se chama "Os girassóis". O de cima não sei o nome. Outras obras podem ser vistas neste link abaixo. mas recomendo que tirem a trilha sonora, por favor. O cara é bem bom. Bem bom mesmo.



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Confissão de adolescente

Pois é, acontece. Hoje estava com vontade de dar uma dançadinha. E me pus a dar uns pulinhos aí com Human, do The Killers, minha canção preferida nos últimos dias. Um resgate do melhor dos anos oitenta, um pouco mais sujo, com boas letras. Para mim uma boa banda de pop/rock ou mesmo alternativa é aquela que consegue se encaixar naquele espaço entre genialidade e cultura de massa. Em suma, sendo um pouco genial, mas sem ser "cabeça" demais, e tentando insuflar uma dose de energia em quem ouve. Não pode ser meio termo quando o papo é energia e catarse. Deixem a genialidade para as "altas culturas". Se queres rock, pop, alternativo, fique a meio caminho. O resultado é "batata", como diria Nelson Rodrigues.
Por isso, como não quero genialidade e as massas me incomodam, dancei The Killers.

http://www.youtube.com/watch?v=n6r4KT8-VX0

E depois fui lá relembrar o suicidado e incompreendido Nick Drake, a grande promessa da música inglesa no começo do anos 1970.

http://blog.uncovering.org/archives/2007/11/nick_drake_1972.html.

Fechei com a imagem do leste europeu (meu, quero muito viver num lugar cinza assim, é sério). Peace, do Depeche Mode. Great, great. Nem genial, nem de massa. Depeche é o ápice da sabedoria na música pop. Podes crer. Percebam o tecladão europop a la Alphaville em várias partes da música. Lindo. Lindo.

http://www.youtube.com/watch?v=bzMkaSi6JTQ

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Gracias, Ney.

Deixo abaixo texto que mostra a ação do Deputado Ney Leprevost em realção ao fato comigo ocorrido na Venezuela. Segue:


Leprevost quer que Itamaraty exija desculpas formais do governo venezuelano ao escritor paranaense que foi vitima da policia “chavista”

“As novas gerações devem ser lembradas do mal que a ausência de liberdade já causou ao mundo”, afirma Ney

O deputado Ney Leprevost solidarizou-se com o escritor parananse Paulo Sandrini que foi vítima de terror e maus tratos por parte da polícia “chavista”, na semana passada.

Sandrini foi à Venezuela a convite do Instituto Cultural Brasil/Venezuela. Após uma semana de palestras, sem explicações, pediram seu passaporte e colocaram-no em um quarto fechado* durante mais de meia hora. “Vivi uma situação de violência psicológica, uma violência institucional, sobre a qual eu tinha debatido com os alunos na oficina”, afirmou Sandrini.

Recentemente, o consagrado escritor peruano Mario Vargas Llosa também foi vítima de maus tratos ao chegar à Venezuela. Sandrini foi proibido de fazer chamadas telefônicas no período em que ficou detido pela polícia política de Chávez e depois foi obrigado a assinar um documento atestando que não havia sido molestado.

“Cada vez mais eu me convenço de que agimos certo ao tornar este ditador persona non grata no Paraná. Ele não respeita o bom povo do seu país e muito menos os intelectuais que visitam a Venezuela. O Sandrini é uma revelação da literatura paranaense e foi vítima do preconceito e da intolerância que se estabelece em todos os Estados totalitários desde que Hitler foi parido”, afirma Ney.

“Repudio todos os regimes antidemocráticos, sejam de esquerda ou de direita. As novas gerações devem ser lembradas do mal que a ausência de liberdade causou ao mundo. Temos que ter uma postura humanitária e nos solidarizarmos aos nossos vizinhos venezuelanos, que estão sendo vítimas da arbitrariedade e da violência. Em minha opinião, o governo brasileiro tem uma postura muito dúbia ao não condenar o fechamento de rádios, televisões e jornais na Venezuela”, avalia Leprevost.
O parlamentar enviou hoje ofício ao Ministério das Relações Exteriores solicitando que o Itamaraty exija do Governo venezuelano um pedido formal de desculpas ao escritor Paulo Sandrini.


* Gostaria de um pequeno acréscimo: esse fato se deu no Aeroporto Simón Bolivar, eu estava sob suspeita de tráfico de drogas. Acrescento que só trazia comigo bons livros de escritores venezuelanos para divulgar no Brasil.


Juliana Hasse de Rezende Assessoria de Imprensa - Deputado Ney Leprevost
juliana@neyleprevost.com.br
(41) 3350 4192/ 8864 8265

domingo, 16 de agosto de 2009

Rafael Cadenas



Chega de coisas ruins, não? Deixo aqui um pouco da ternura da literatura venezuelana, nos versos de Rafael Cadenas, um dos maiores poetas da Venezuela, e também das Américas.

Traduzi sete textos em homenagem aos amigos de Caracas. E também para que os brasileiros conheçam um pouco mais o lado sensível e magnífico dos artistas de lá.


Ao despertar

Que sei eu de razões?
Meu pensamento é esta manhã que se eleva
sobre a ondulação do cerro,
a neblina que envolve
alguns pássaros,
o rumor
do mercado, os gaviões que ainda
se aproximam desta margem da cidade,
a xícara de café
antes de sair à rua
quando ainda não estou comigo


Cedo

Sibilante vento
amanhecer cinza,
e um pássaro que busca refúgio.
Música de rádio, café e jornal.

Espera sobrelevada,
a estudiosa tenacidade

Os passos
vivem de desalento.

Nenhuma exaltação,
paciência recebida
envolve o fazer.
Manhã,
regresso a um começar



********

Já não sei
Se posso falar em nome de alguém

Quem é este sangue, estes tendões, estes olhos,
esta estranheza, esta antiguidade?
Uma força
Me tem em sua mão
Então é ela
A que pode dizer sou,
A que pode possuir um nome,
A que pode usar a palavra eu.


A busca

Nunca encontramos o Graal.
Os relatos não eram verídicos.
Só a fadiga dos caminhos acompanhou
os que se aventuraram,
Mas esperavam histórias.
Que seria nossa vida
Sem elas?

Nada se resolveu,
poderíamos ter ficado em casa.
Mas somos tão inquietos.
No entanto, concluída a viagem
sentimos que em nós
- não mais reféns
da esperança -
havia nascido
outro templo.


O argumento

Pela manhã
lemos anestesiados
as notícias
da guerra (qualquer guerra),
um oficial
bem merece alguns combates;
cada facção
deseja mostrar que Deus
está do seu lado
com o argumento definitivo;
nossos olhos correm
as páginas
- buscamos mais confirmações
de nossa derrota-
e o jornal traz o que esperamos encontrar.

********

É tão curta a distância entre nós e o abismo, quase inexistente, uma fina luxúria. Basta se deter e aí está. Somos isso.
Nem necessitamos olhá-lo de perto. Que não haja engano. A separação nos pertence.


********

Sou esta vigilância.

Sou esta vacilante disponibilidade,
esta ausência de rosto,
este sem cor.

Sou este em quem se extingue
até mesmo a idéia de homem.

traduções: Paulo Sandrini (16 de agosto de 2009)



La estúpida máquina bolivariana (ou tour por Maiquetía, a maquete do inferno)







Introducción


Depois de uma semana em Caracas, estou de volta. Se disser que cheguei inteiro, pode não ser bem uma verdade. Enfim, um voo longo, com a aeronave da TAM chacoalhando quase o tempo todo na ida e um retorno espetacular, não por causa do voo da TAM, mas pelos fatos que me sucederam no aeroporto Simón Bolivar, en La Guaira, que é a cidade onde se localiza o aeroporto internacional de Caracas. Fatos que vou lhes contar com detalhes, porém depois de dizer algumas coisas sobre minha estada, no meio de semana, na capital venezuelana para ministrar a oficina de criação literária chamada “Violenta imaginacion”. O título, obviamente, já demonstrava um risco, visto a situação que o país vive. Mas como somos pensadores livres, vamos lá e encaramos a coisa com uma excitação tremenda em nossos princípios éticos e ideológicos, que passam primeiramente por “Pensar e falar o que tenho e acho necessário falar, sobre qualquer assunto”. Mas acontece que isso pode não ser bem assim e nunca o foi em muitos momentos da história da humanidade, creio mesmo que em grande parte nunca foi assim. Contudo, eu jamais havia estado em um, vamos dizer, (praticamente) regime de Exceção e, obviamente, de excessos; e que no caso venezuelano se acha sob as patinhas pesadinhas de um astuto (não, inteligente como querem muitos) e totalitarista Hugo Chávez, sujeito militar e que só por isso já dá muito pano pra manga em qualquer discussão sobre o futuro da liberdade na Venezuela. E nos faz temer também por todo o futuro da liberdade na região norte da América do Sul. Em nome do libertador Bolívar temos um ditador que se diz bolivariano e uma máquina estatal que parece só funcionar quando é bem azeitada no óleo da castração, do atraso econômico e político que com suas engrenagens de perfil militar vai esmagando os cidadãos, pobres ou de classe média, com dentes de aço. E o pior, tal máquina possui seus ecos nessas nossas terras paranaenses. Talvez o único estado do país, o Paraná, a retransmitir a “avançada” Telesur, de Chávez. E, bem... mãos dadas com o retrocesso, tentamos ir adiante, claudicantes. Órfãos de sabedoria.


A semana (em resumo)

A oficina “Violenta imaginacion” foi uma grande oportunidade para tomar contato com gente de algumas esferas culturais e profissionais que estavam por lá, frequentando o Instituto Cultural Brasil Venezuela entre os dias 2 e 6 de agosto. Entre os oficinantes havia gente do cinema, do jornalismo, da psicologia, professores, poetas, humoristas etc. Um pessoal que queria discutir, trocar, aprender, ensinar. Joaquín, Carolina, Liris, Patrícia, Pablo, Noraedén, Pedro, Leôncio, José Roberto e tantos outros que estavam ali para mais que um “taller”, estavam ali para estabelecer também contato com a cultura brasileira e falar da cultura venezuelana, sobretudo de literatura. Contudo, no primeiro dia senti a necessidade de conversar um pouco com eles sobre os tipos de violência que mais os incomodavam, ou que mais achavam estar presentes na sociedade em que vivem. Queria saber as diferenças e as semelhanças entre Brasil e Venezuela acerca do tema. E o que mais ouvi foi sobre a violência institucional (a política e a policial, sobretudo). Houve também quem falasse da violência das ruas, como acontece no Brasil. E surgiram ainda outros tipos de violência. O cardápio latino-americano para tal assunto é bastante variado. Tem para todos os gostos. Tais observações sobre a violência institucional, fiz questão de levá-las a alguns veículos para os quais dei entrevistas, a radio Del Ateneo e o jornal Talcual. Na TVES, chavista, evitei falar disso, passei ao largo do assunto. Pensava que tudo isso podia ser um risco à minha segurança, pois o que acontecia naqueles dias com a imprensa venezuelana era o fechamento de mais de 230 rádios em todo o país. E certamente existem censores da Stasi chavista monitarando alguns veículos. Eu podia cair na malha fina. Contudo, não ia me abster de falar o que pensavam meus alunos, que pareciam sofrer com isso.
Bem, quero dizer que fui muito bem tratado pelas pessoas que me receberam em Caracas. Irlanda, Leo (que é mesmo como um irmão para mim, tamanhas as nossas afinidades e humor irônico), Marcel, da rádio Del Ateneo e Verónica (esposa do Leo), fora ter recebido muitos sorrisos lindos da pequena Carlota, filhinha de Leo e Verónica. Enfim, minhas impressões eram das melhores. E ainda são com essas pessoas, meus amigos.
Seguindo com a violência. Apesar de terem me alertado para a criminalidade, que cresceu muito nos últimos anos em Caracas, com um dos índices mais altos de toda a América, não vi nada que assustasse muito. Tudo estava em ordem. Seguia eu comendo arepas, cachapas e indo a bares e tascas com os amigos de lá e bebendo muita Solera (da azul e da verde), que é a cerveja mais popular deles.
Encerrada a oficina no dia 6 de agosto, quinta, fomos a uma tasca, e ali me fizeram uma boa festa. Foi uma celebração feita com muito carinho. Mas não um carinho forçado, os caraquenhos são realmente muito calorosos, não os sentimos forçando a barra. São assim, e pronto. O que é muito acolhedor para quem chega de fora e logo está se sentindo em casa.
Na sexta, dia 7, meu dia livre, fui comprar livros no Centro da cidade com Leo. Trouxe obras de escritores venezuelanos como Ana García Julio, Francisco Suniaga, Oscar Marcano, César Chirinos, Humberto Mata, Eduardo Cobos, Rodrigo Blanco Claderón, uma coletânea de novos autores chamada Las voces secretas, poesia de Rafael Cadenas (aliás, Liris, a cineasta, me presenteou com um obra completa deste grande escritor). Eu trouxe também Francisco Massiani, Carlos Sandoval, Luis Brito Garcia, e muitas outras coisas. E mais ainda: uma coleção de poesia venezuelana que trouxe para o meu amigo e professor estudioso da poesia latina contemporânea Rodrigo Machado. Bem, não posso me esquecer que ganhei exemplares da inteligente revista 2021 editada por Leo e da revista Ojo, editada por Verônica. Mais uma novela chamada El famoso caso de las cartas de Lucas Meneses, autor que muita gente ainda não conhece, mas me parece muito bom, desconfia-se que escreve sob pseudônimo. E um curta metragem escrito, dirigido e produzindo por Liris. Um curta muito bem feito, baseado no conto O Enfermeiro, de Machado de Assis. O filme se chama La vida honorable de Procopio Gómez. Liris (Liris Acevedo Donis) me comentava sobre o humor que havia percebido em meus livros, posso afirmar que em seu filme percebi o mesmo. Qué bueno, hein!
Segue: descansei durante a tarde e cancelei a subida ao Cerro El Ávila com meus alunos. Uma pena. Minhas pernas não iam aguentar, sinceramente. Fim de tarde fui a um shopping ali perto do Hotel para comprar um helicóptero para o Gianluca, e por sorte o encontrei, do contrário nem uma lembrança para o Gianluquinha eu teria trazido.
No sábado, dia 8 acordei às cinco, e às seis o táxi enviado pelo Instituto Cultural Brasil Venezuela estava me esperando. Seis e meia estava lá eu, no aeroporto Simón Bolívar, um lugar com nome de um grande libertador mas que ia justamente me colocar nas mãos dos milicos por umas duas/três horas (perdi a noção do tempo naqueles instantes que agora passo a narrar), me privando de liberdade.


La estúpida máquina bolivariana antidrogas y ideas

Fiz o check in e soube que tinha que pagar para o governo uma simples taxa de 60 dólares para sair do país. No meu caso, pagar para ser incomodado. Foram os 60 dólares mais infelizes da minha vidinha de inseto. Fui a zona de embarque, entrei numa fila imensa, e levei uns bons minutos até chegar ao scan das bagagens de mão, tirar sapatos, cinto, aquela bobagem toda. Mas a surpresa é que tinha mais um scan, passei de novo. Tudo certo. Tudo limpo. Ia embora após uma semana de bom trabalho e bons amigos. Senti que o resultado da oficina de criação literária havia saído melhor de que eu esperava. Estava eu ali um pouco orgulhoso de mim e dos meus alunos. Quando um rapaz fardado me chamou e pediu meu passaporte. Pediu também de outro senhor brasileiro e em seguida de um professor universitário, Thiago Gehre, de Roraima. Nos fizeram passar várias vezes no scan antidrogas e ele não detectou nada no senhor e então foi minha vez. Subi na plataforma da máquina bolivariana antidrogas, e desci. Não deu nada. Me mandaram subir de novo. Lhufas. A agora estúpida máquina bolivariana antidrogas não queria funcionar comigo, não funciona com escritores talvez. Me mandaram descer e assinar um papel com umas garatujas feitas por um rapazinho quase analfabeto que mal sabia teclar um computador e ficava catando milho nas teclas para digitar algo que não sei o que era, pois não foi impresso e tive que assinar um documento escrito a mão. Bem, passei pela estúpida e rude máquina bolivariana antidrogas três vezes. Depois da segunda e de ter assinado aquele documento feito a mão em papel de embrulhar pão, achei que poderia ir embora, gastar uns bolívares no Duty Free (yes, o orgasmo da classe média). Foi quando me pediram o passaporte outra vez e sumiram com ele por muito tempo. Antes haviam me perguntado seu eu tinha comido. Eu disse, “Mira, no creo que es muy comum los restaurantes de los hoteles en todo el mundo tener sus puertas abiertas a las cinco de la mañana, yo vine para el aeropuerto a las seis, entonces, estoy sí sin comer nada, pero se me dejan, a mi me gustaria tomar el desayuno antes que el avión se vá”. Na verdade as mulas da polícia chavista queriam me fazer passar por Mula. Para eles eu levava drogas no estômago. Nesse caso, se levasse drogas no estômago, seria melhor me chamar de anta, topeira do que mula. Bem, depois da terceira escaneada em mim, não me liberaram. Surgiu um gordinho de roupa verde oliva, um tipo que parecia uma azeitona, redondinho e rechonchudo, tomou en sus manos meu passaporte e me mandou acompanhá-lo. Mantendo sempre a calma, o segui. Ele me mandou sentar e esperar um comunicado. Ok, gordito azeitona. Ele ligou, ligou e a ineficiente comunicação bolivariana, claro, falhava. Até que depois de umas cinco tentativas de contato, chega um policial de cara cerrada. Também de roupinha verde. Fico imaginando aqueles muchachos verditos olivos na parada gay da avenida Paulista. Um sucesso. Esse polícia me levou ao cuartito, uma salinha num corredor isolado do aeroporto. Ali, silêncio total, ninguém falava comigo, não diziam o que iam fazer. O silêncio nesse caso é puro terrorismo. Mas tudo bem, nada que cause mais terror que ver a cara do Chávez, logo ao desembarcar no Simón Bolívar, numa plotagem mal feita com uma mensagem sobre a liberdade da nação bolivariana ou algo assim. Chávez, meu querido ditador, a Venezuela tem tantas mulheres lindas, e você é que quer ser miss universo? Bem, até que não seria mal, dizem que as misses da Venezuela têm que se isolar um ano para se prepararem para ser miss mundo. Nesse tempo, enquanto você estivesse se preparando para ser Miss Universo, se maquiando, fazendo peeling, lipoaspiração, levando massagem e drenagem linfática de um oficial do exército, colocando próteses de silicone, implantando um pouco de neurônios (um nova técnica para que as misses não falem tantas tonterías), a sociedade teria tempo para dar um golpe e tomar o poder. Claro, você, querido, ia subir nas tamancas e gritar, “Por aquí la poderosa soy yo... E bem... Tu eres sí la poderosa. E seus soldados também. As poderosas verde oliva me colocaram depois de meia hora nas mãos do oficial Unamo. Esse muchaco com cara de Chavinho me enfiou num jipe bege da polícia junto a mais quatro soldados e um senhor à paisana que dizia ser um motorista de táxi (hehehehehehehe). Um senhor pançudo que com toda certeza era uma agente bolivariano da “inteligência”. Ok. O tal Unamo me disse que iam me levar até um hospital porque eu teria que passar por um raio X. O carro da milícia chavista rodou lento por vários minutos, mas antes ia parando no caminho para traficar (eles sim) aqui e ali bebidas, entre elas refrigerante, champanhe, suco, vodka, run. E iam todos felizes. Enfim teriam bebida e alguém para torturar: eu. Não chegávamos nunca ao hospital. Quando chegamos, o hospital não tinha máquina de raio X. Isso já eram oito e meia. Achei que ia perder o voo. Seguiam por ruas sujas, apertadas, feias, tudo para me aterrorizar. Coitados, sou brasileiro, nada em termos de miséria pode assustar um brasileiro. Uma favela é só uma favela. Fomos a uma clínica então. Rodamos mais e mais. Os verde oliva buscavam cigarros com os camelôs e outras coisas que eu não compreendia. Até que lá por 9 e 20 eu entrava numa clínica suja e obsoleta em Maiquetía (cidade próxima ao aeroporto de Caracas). Maiquetía, pode-se dizer (e não dizer mais nada depois), é a própria maquete do inferno. Na clínica fiz o raio X. Me puseram nu, sem nem me darem um roupão, o que no Brasil é praxe, e com uma mulher me mirando, fizeram a chapa. Nada constrangedor. Afinal, era só um traficante nu... Um traficante não tem vergonha de nada. Resultado: negativo. A chapa nada acusou. Mas o oficial Unamo me disse que eu teria que fazer outro exame. "Vamos hacer otro, necesitamos dos". Nessa hora eu disse que queria fazer uma ligação ou para a Embaixada ou para um amigo meu, o Leo Felipe Campos. “No, no puedes llamar a nadie”, me disse o mano Unamo, de modo muito humano. Estavam fazendo de tudo para me aterrorizar e atrasar o voo. Mas segui tranqüilo, continuei lendo meu livrinho. O que parecia incomodá-los. E antes de eu subir de novo no jipe bolivariano antiescritores o senhor da inteligência me perguntou baixinho: “Do you speak English or Frank?” eu pensei em lhe responder, “I speak Frank-enstein, pequeño monstruo”. (Imagina então se o baixinho gordinho fosse do serviço de "Ignorância" Bolivariano?). Mas respondi que falava português e ele me perguntou: “?Tienes dinero?”. Nessa hora fiquei danado da vida e disse alto: ?Que me has preguntado, señor?”. Nisso os outros soldados ouviram e Unamo perguntou o que estava passando comigo. Eu disse ao mano Unamo que o senhor “inteligente” tinha feito uma pergunta a mim e eu não tinha entendido, por isso tinha pedido que ele falasse mais alto. Nisso o velhote baixinho gordinho da “inteligência” disse, “No, no es nada, nada importante”. A essa altura, creio que Unamo não sabia aonde me levar para tirar outra radiografia, pois a região ali, claro, é muito desenvolvida, é uma área onde se encontra de tudo, mas com só com os camelôs e no mercado negro. E creio que clínicas e hospitais em bom estado são bem mais difíceis. Ou não existem mesmo. O mano Unamo então chamou a base, falou algo lá no seu espanhol que come todas as sílabas (acho que ele também não havia tomado café da manhã) e esperou. A esta altura eu pensava seriamente que não havia o que eu pudesse fazer para me livrar. Depois de três scanners no aeroporto, mais uma radiografia da barriga, e depois outra, e agora a chamada para uma base militar... Eu ia mesmo ficar preso ali como traficante. Certamente também viram os livros na minha mala (que chegou toda furada ao Brasil, com livros e roupas estragados e os livrinhos que trouxe para o Gianluquinha também) e achavam que eu podia estar traficando algo que o governo Chávez também detesta: Cultura. Sobretudo quando produzida pelos próprios intelectuais venezuelanos (os livros que trouxe, como disse, eram na maioria de escritores de lá).
Depois de um segundo ou terceiro comunicado, o carro foi em direção ao aeroporto. Já eram bem mais de nove da manhã, horário em que o voo partia.
Chegando à área de embarque internacional, o carro seguiu adiante. Pensei, estou danado. Os filhotes de Chávez me querem como exemplo para os gringos traficantes. Não saio mais desta república socialista bolivariana, acreditava. Se não fosse a natureza grandiosa do Cerro El Ávila e seu verde, eu poderia me sentir em qualquer uma daquelas ditaduras socialistas em paisagens cinzas do leste da europa de anos atrás. Romênia, Albânia, Polônia e por aí afora. Ditaduras em nome do socialismo. Socialismo que jamais existiu em lugar algum do mundo. Distorceram Marx e se esqueceram do verdadeiro socialista que se chama Bakunin. O anarquismo é o socialismo. Todo o resto são regimes-lobo sob pele de cordeiro, ora comunista ora capitalista. O mundo é plutocrático, sabemos. Democracia em grande parte é uma falácia. Uma falência.
O carro fez um retorno, voltou a área de embarque internacional e me mandaram descer, nisso eu já tinha batido meus ombros uma duzentas vezes no teto do carro, que era muito baixo. Bati também a cabeça algumas vezes. E creio que os policiais de Chávez também batem ali suas cabecinhas o tempo todo. Os dois neurônios que levam em suas cabeças, chamados Hugo y Chávez, devem sofrer fortes abalos. Mas continuam amando o sistema que ultimamente se alimenta de armas suecas* e tanques russos.
Bem, desci do carro da Guarda Chavista e me levaram ao cuartito abafado para assinar um termo dizendo que eu não havia sido molestado fisicamente. Então Unamo me mandou correr porque o voo estava esperando. Eram dez da manhã. Nisso eu tinha que passar por uma catraca para a área de embarque. Estava travada. O mano Unamo me disse, “Salte por ahí”. Era para eu passar por cima de uma esteira de malas. Apressado pelo mano Unamo, escorreguei e bati a perna, fortemente, sai mancando, minha canela ficou toda inchada com vários hematomas. E ainda está. Roxa. Dolorida. Mas eu já havia assinado um termo que dizia que eu não tinha sido molestado fisicamente.
No fim das contas, voltei com quase todo o dinheiro que eu tinha ganho pelo trabalho da oficina. Não trouxe nem uma xícara escrito “Caracas”, ou uma camiseta com o escrito “Venezuela”. Ou “Estuve en Caribe venezolano”. Sei lá, essas coisas para turista colocar na sala de suas casas e mostrar aos vizinhos que viajaram pelo mundo e adquiriram cultura só por terem entrado numa lata de sardinha que se chama avião, onde as pessoas suam, tossem, vão ao banheiro toda hora. Onde a turbulência é uma droga, a música é péssima, os filmes são terríveis. E muita gente lendo livros de autoajuda, livros sobre como administrar negócios, ou Paulo Coelho. Por isso, certamente quando cai um avião, morrem muitíssimos coelhos numa paulada só.
Enfim.... cheguei ao avião... Mas passaram-se dez minutos mais ou menos e chegou o outro detido pela guarda chavista, um professor de Roraima, da Universidade Federal, chamado Thiago. Prenderam sua bagagem e fizeram com ele alguns absurdos.
O voo partiu lá por dez e quinze. Levei a certeza de que fiz grandes amigos em Caracas, grandes mesmo. Mas também trouxe outra certeza: Simón Bolívar esta sacudindo seus ossos na tumba sem parar, de tão irritado. O sistema de Chávez é bruto. Atrasado. Violento. Não é socialista coisa alguma. É repressor. Contudo, deixo recado para os oportunistas de plantão, Lula não tem nada a ver com os modos políticos do senhor Chávez. Quanto ao Paraná, já não sei se se pode afirmar o mesmo. Digo mais, não sou petista. Não creio em Deus (ao menos nesse deus branco burguês com matriz no Vaticano nazista). Não creio em mitos. Não tenho ídolos. Não creio em governadores paranaenses com cara de governadores do Arkansas. Não creio em presidentes que se apartam de sua gente. Não creio na direita nem na esquerda. Vocês não precisam portanto acreditar em mim. Assim estamos empatados. Podem me chamar de agora em diante de Sandrini Chávez de Cadeia.

* Um país expressivo como a Suécia deveria no máximo produzir cuecas, cuecas-suecas (ahn, bom né?) não armas. Não há porque querer invadir a Suécia, só se for para saquear de lá o tédio de uma sociedade gelada. E bem...

Milícia bolivariana curitibana

Anteontem o Fabio Campana colocou em seu site o conteúdo parecido ao do Jornal Talcual da Venezuela que discorria sobre o sequestro que sofri no aeroporto de Caracas. O Fabio para ilustrar o texto colocou uma foto minha da época da publicação do livro Códice de incríveis objetos. Meu cabelo comprido e meu visual na foto foram temas bastante importantes no debate. Vejam o que segue:

TAMBÉM COM ESSA CARA QUALQUER UM SUSPEITARIA,
LEMBRE-SE DAQUELA VELHA FRASE:
“O MUNDO TRATA MELHOR QUEM SE VESTE BEM”!!!

TADINHO DO CABELUDO HEHEHEHE

Com essa cara de peixe morto, deveria chamar-se “Paulo Sardinha”…
Me desculpe companheiro, más com esse visual de Cristiane F., em qualquer País lhe barraria!!!

Confesso que gostei de 'Paulo Sardinha'. É criativo. Sonoro. E cheira mal. Mas prefiro autores que assumam suas criações. Gosto de conhecer as características dos meus rivais para ver se eles têm bala na agulha quando o assunto é ironia. Então, senhor Brasil (pseudônimo de quem escreveu tal citação), obrigado pelo apodo. E não precisa ter medo de mostrar o nome. Não sou Hugo Chávez. Sua liberdade poderá ser praticada. Mas também quero praticar a minha. Ora, nada mais justo.
Para a frase que diz que qualquer um suspeitaria de mim porque “o mundo trata melhor quem se veste bem”, tenho que dizer que na foto só aparece meu cabelo, e não há como vestir cabelo, a não ser que se use peruca. O que não é definitivamente o meu caso. Há aí um equívoco de quem escreve, que não consegue juntar um mais um para dar dois.
Aos amigos de Caracas, Curitiba e do Brasil, fica aí a versão não distorcida dos fatos, contada agora por mim mesmo.
Ao inimigos de Curitiba, certamente vindos da subcultura chamada Bocágil, digo que se estiverem precisando de cabelo porque estão ficando calvos, posso lhes emprestar. Agora a pança, vocês já devem ter, e eu não, por isso não posso fornecer. E também creio que vocês andam importando com bastante afinco para nossa cultura local pacotinhos com dois neurônios, da marca Hugo y Chávez, para retê-los em suas mentes provincianas e agrárias.


Buenas tardes con Telesur

sábado, 15 de agosto de 2009

Venezuela

Muitos já sabem do ocorrido comigo no aeroporto Simon Bolivar, na Venezuela. Estou aqui, meio sem forças, pra contar toda a história. Mas pretendo dar a versão final disso tudo. Por aí, em sites, alguns, creio que há distorções de alguns pequenos fatos. Normal, acontece. Certas coisas não devemos ficcionalizar. Triste é ver gente nos cometários do blog do Fábio Campana dizendo as mais puras besteiras. Em Curitiba é normal. Onde faltam mais ações culturais a brutalidade começa a imperar. Mas também há meus amigos daqui. Luci Collin, Rodrigo Machado, Dalcia Lessnau, Emerson Pereti, Renata Mele e muitos outros que me estão dando força. Muita força. Estou bem. E já dou risadas dos fatos. Aos que me querem pelas costas, as deixo aí disponíveis, mesmo porque em Curitiba não se sabe onde está o inimigo, às vezes ele parece ter te dado um tapinha nas costas por amizade, mas na verdade está lhe cravando um punhalzinho com veneno. No entanto, sou um indivíduo às claras. Digo o que tenho de dizer, gostem ou não. E faço o que acho que tenho de fazer culturalmente. Se é bom ou poderia ser melhor, não sei, faço o meu melhor. Esperando que outros também o façam. Uma cidade grande não pode viver de poucos cérebros como a nossa. Nem ficar escondidos. Vivemos aqui uma repressão cultural para a produção, no Paraná, sobretudo por parte do Governo do Estado. E estamos felizes. Levando a sério a máxima: "se eu não consigo fazer, melhor que ninguém faça". E digo mais, acredito que muitos dos malvadinhos desses comentários em blogs são aqueles que vivem por aí naquele eterno chororô de serem incompreendidos em seu super talento. Na verdade, Himmler ligava todos os dias para a sua mamãe dizendo que precisava de seu carinho e seus cuidados. Mas quando estava em serviço.... Agradeço muito aos meus verdadeiros amigos. Eles sabem quem são. Volto depois com o texto.
E depois do texto, esqueçamos isso e vamos adiante com nosso atraso.

Pequeno Gianluca.