domingo, 16 de agosto de 2009

Rafael Cadenas



Chega de coisas ruins, não? Deixo aqui um pouco da ternura da literatura venezuelana, nos versos de Rafael Cadenas, um dos maiores poetas da Venezuela, e também das Américas.

Traduzi sete textos em homenagem aos amigos de Caracas. E também para que os brasileiros conheçam um pouco mais o lado sensível e magnífico dos artistas de lá.


Ao despertar

Que sei eu de razões?
Meu pensamento é esta manhã que se eleva
sobre a ondulação do cerro,
a neblina que envolve
alguns pássaros,
o rumor
do mercado, os gaviões que ainda
se aproximam desta margem da cidade,
a xícara de café
antes de sair à rua
quando ainda não estou comigo


Cedo

Sibilante vento
amanhecer cinza,
e um pássaro que busca refúgio.
Música de rádio, café e jornal.

Espera sobrelevada,
a estudiosa tenacidade

Os passos
vivem de desalento.

Nenhuma exaltação,
paciência recebida
envolve o fazer.
Manhã,
regresso a um começar



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Já não sei
Se posso falar em nome de alguém

Quem é este sangue, estes tendões, estes olhos,
esta estranheza, esta antiguidade?
Uma força
Me tem em sua mão
Então é ela
A que pode dizer sou,
A que pode possuir um nome,
A que pode usar a palavra eu.


A busca

Nunca encontramos o Graal.
Os relatos não eram verídicos.
Só a fadiga dos caminhos acompanhou
os que se aventuraram,
Mas esperavam histórias.
Que seria nossa vida
Sem elas?

Nada se resolveu,
poderíamos ter ficado em casa.
Mas somos tão inquietos.
No entanto, concluída a viagem
sentimos que em nós
- não mais reféns
da esperança -
havia nascido
outro templo.


O argumento

Pela manhã
lemos anestesiados
as notícias
da guerra (qualquer guerra),
um oficial
bem merece alguns combates;
cada facção
deseja mostrar que Deus
está do seu lado
com o argumento definitivo;
nossos olhos correm
as páginas
- buscamos mais confirmações
de nossa derrota-
e o jornal traz o que esperamos encontrar.

********

É tão curta a distância entre nós e o abismo, quase inexistente, uma fina luxúria. Basta se deter e aí está. Somos isso.
Nem necessitamos olhá-lo de perto. Que não haja engano. A separação nos pertence.


********

Sou esta vigilância.

Sou esta vacilante disponibilidade,
esta ausência de rosto,
este sem cor.

Sou este em quem se extingue
até mesmo a idéia de homem.

traduções: Paulo Sandrini (16 de agosto de 2009)



Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...