domingo, 23 de agosto de 2009

Três capítulos de "O visitante" (infanto juvenil)

Bem, este livro está parado em sua escritura, como outros dois. Mas pretendo levá-lo adiante assim que terminar coisas tipo "Doutorado". Sei que pode ser muito texto para um blog, mas quem gostar leia um capítulo de cada vez e me digam o que acham, pois nunca escrevi para jovens/crianças.


1. O aviso


Flupy solta um relincho estridente e, como sempre, nessas vezes, o Casarão quase vem abaixo. Paredes trepidam e racham em mais alguns pontos. Maldito Flupy!
De cem em cem anos, mais ou menos, esse bicho peludo, de tamanho milimétrico, que eu não sei se é um animal vertebrado ou invertebrado (possui apenas uma boca no meio da cabeça, aliás, seu corpo todo é apenas uma cabeça peluda, sem olhos, nariz ou orelhas), salta de um vão entre as tábuas do assoalho soltando esse ensurdecedor relincho, querendo me avisar de que algo está por acontecer. Algo que vai me tirar da rotina. Do sossego.
Enquanto o relincho de Flupy ricocheteia pelas paredes, sobe e desce pela escadaria, bate no teto e volta para dentro, para bem dentro dos meus tímpanos, eu lhe pergunto, berrando, para que ele possa me ouvir:
— Que foi desta vez, criatura?
Ele grunhe na sua língua, que é um misto de francês e espanhol:
— L’oncle Mallenstein est llegando. Él arrivera todavía hoy.
Desato o nó que as palavras de Flupy causam no meu cérebro e decifro a mensagem: meu tio-avô Mallenstein está finalmente chegando, após quatrocentos anos de promessas feitas por cartas que ele escreveu semanalmente, infalivelmente, durante esse período.
No entanto, confesso jamais ter sentido falta de sua visita. Na verdade, sempre foi um alívio para mim Tio Mallenstein nunca ter vindo até o Casarão. Sua fama não é das melhores.
Flupy dispara outro relincho.
— Que foi agora, animal, inseto, sei lá?
— Give me food! Il faut payer the information que yo suis venu darte
a usted. Capisce, carcamano? Beaucoup de repas. Mangiare, bambino. Did you n’avez pas understand encore?
Agora o maldito deu de incorporar italiano e inglês a sua quase ininteligível língua.
Não posso negar que os avisos dados por Flupy sempre me foram de extrema importância e extremamente verdadeiros, o que sempre possibilitou que eu me prevenisse contra acontecimentos mais nefastos. Seu último aviso, cem anos atrás, foi a respeito de um dilúvio que cairia sobre a terra daí a quarenta anos e duraria por 50 ou mais. Durou cinquenta e nove. Mas aqueles quarenta anos foram um tempo suficiente para que eu providenciasse o transporte do Casarão (o que levou vinte e dois anos, devido ao estado não tão bom de conservação do imóvel) para o alto desta montanha e fizesse um estoque enorme de comida para o tempo ruim que viria.
Porém, quanto ao Tio Mallenstein, confesso, não sei como me prevenir contra ele. Será que devo soltar dos porões os leões de juba-de-fogo para me proteger e ao Casarão também? Sei lá. Preciso pensar rapidamente em algo funcional e inteligente. Problema é que além da fama do Tio Mallenstein (que só vou saber se é verdadeira ou não tirando a prova ao vivo), não sei mais nada a seu respeito. Suas cartas se resumiam às promessas de visita. Só. Eram no máximo dez palavras por carta.
Melhor agora é pagar Flupy pela informação. Ele, afinal de contas, merece, além do que não pára de relinchar, o danado.
Num balde de um metro de diâmetro por dois de profundidade, coloco quilos de azeitonas pretas com carne de lula e ovos de viúva-negra. Flupy, o milimétrico Flupy, devora tudo em quinze segundos. Depois desaparece, saltando para dentro da lareira. Ouço seu crepitar.
Só me resta esperar. Mas desta vez não haverá quarenta anos para que eu me prepare ou mude o Casarão de lugar.


2. O visitante chega

Minha cabeça está cheia. Cheia de falta de ideias. Não consigo dormir nem pensar em uma solução. Tio Mallenstein logo deve chegar, pois as vinte e quatro horas do dia vão se esvaindo e Flupy disse que meu parente chegaria ainda hoje. Os leões de juba-de-fogo podem parecer um tipo de proteção excessiva. Tio Mallenstein pode interpretar esses animais ferozes a lhe aguardarem como uma recepção um tanto agressiva de minha parte. Espero que sua fama não se confirme. Família fala demais. Inventa coisas sobre a gente. Espero que essa regra se cumpra. Assim, Tio Mallenstein não representará aquilo que eu acho que ele representa. Porém, ficar totalmente desprotegido, seria tolice, pois, por outro lado, os membros de minha família não são lá essa maravilha mesmo.

Os raios do sol passam pelas rachaduras das paredes e machucam minhas retinas. Está amanhecendo. E nada do Tio Mallenstein. Flupy errou sua previsão: a de que meu tio-avô chegaria ontem. Espero que ele, ao menos desta vez, esteja totalmente errado, enganado. Só com o sol, assim, intenso posso ver em quanto aumentaram as rachaduras do Casarão em consequência dos relinchos de Flupy. Maldito Flupy! Gostaria de xingá-lo agora em todas as línguas possíveis, em todas aquelas que ele entendesse e também aquelas que ele não entendesse. Desse jeito, rachado assim, o Casarão não vai durar mais de três séculos. Droga.
Acho que preciso espairecer um pouco. Esvaziar minha cabeça cheia de falta de ideias. Vou descer até a cidade e tomar café na confeitaria de Dona Gretchen. Dizem que ela é uma espécie de bruxa aposentada. Só pode. Nunca vi ninguém fazer uma torta de framboesa tão boa. Vivam as bruxas!

A estrada é sinuosa. Muito sinuosa. E muito estreita. O vento sopra forte aqui em cima. Qualquer descuido e a gente pode despencar com cavalo e tudo lá pra baixo. São uns nove quilômetros até a cidade. Durante o trajeto, penso em alguma solução para a recepção ao Tio Mallenstein. Fico comendo uma deliciosa torta de framboesa da bruxa Gretchen. Tomando uma fumegante xícara de café.

Pelo caminho, nenhum sinal de Tio Mallenstein. Acho que ele não vem. Flupy finalmente deu uma bola fora. Não deveria ter-lhe pago a comida. Maldito!
— Torta de framboesa? — pergunta Dona Gretchen logo que chego e me sento em sua confeitaria.
Sorrio pra ela e respondo:
— E um café fumegante, por favor!
Ela dá uma gargalhada. Não entendo. Pergunto:
— A senhora está gargalhando por minha causa?
— Claro que não! É que passou por aqui um homem que dizia estar acompanhando um tal de senhor Mallenstein. O homem era muito magro. Um palito. Se apresentou como Gordon Siqueira. Levou todas as tortas de framboesa. Não sobrou nada. Só esse tal de Gordon comeu quatro ou cinco delas. As outras quinze que eu havia feito para meus clientes, ele as levou todas. Disse que seu mestre estava faminto e exausto da viagem. Só não disseram de onde vinham e pra onde iam. Gente estranha...
Quase peço para a Dona Gretchen calar a boca, ela está deixando minha cabeça zonza de tanto falar.
— Serve joelho de porco com cerveja? — ela me pergunta.
— Hã?! — espanto-me com tal cardápio matutino.
Mas não há tempo de responder, de comer. O negócio é fazer com que Hipólito, meu cavalo decrépito, galope o mais rápido possível e eu possa alcançar meu tio comilão e seu acompanhante no meio do caminho. Não posso deixar que cheguem antes de mim ao Casarão. Repito: a fama de Tio Mallenstein não é nada boa.

De onde estou posso ver, lá em cima, na estrada sinuosa: uma carruagem roxa muito comprida puxada por uns seis ou oito cavalos. Precisa tanto? Será que o homem trouxe tanta carga pensando em se mudar para o Casarão? Droga! Droga! Droga! Jamais conseguirei alcançá-los. Espero conseguir ainda entrar em casa.


3. O visitante chega e desaparece: deixa um bilhete

O Casarão já vai quase desaparecendo na bruma. Nuvens opressoras acinzentam o céu. O vento uiva. Nada de assombro. Sempre no meio da manhã, todos os dias, o tempo fecha desse jeito. A névoa só vai desaparecer à noite. Durante o dia o Casarão fica imerso, protegido por esse escudo brumoso. Me aproximando de sua entrada, posso ver, com alguma dificuldade ainda, uma sege com seis cavalos nervosos ali parada. Os animais relicham. Armam coices. De suas narinas sai uma fumaça espessa por causa do frio.
A porta da sala está escancarada. Faz movimentos bruscos , como que querendo bater e desmontar o batente e em seguida todo o Casarão. A porta parece ter ganhado vida própria e também parece estar dando a entender que não sou bem-vindo a minha própria casa.

Ninguém na sala. Nenhum sinal por aqui. Já na sala de jantar, as velas balançam, pra cá e pra lá, em seus castiçais. Se caírem, o fogo consome rapidamente tudo por aqui.
Apago-as. Na mesa, parece ter passado mesmo um ciclone. Parecer ter havido uma agitada festa. A festa da torta de framboesa. Há cálices e copos quebrados. Um resto de uma bebida amarela e viscosa. Cacos de vidro pelo chão. Um cheiro azedo toma conta do lugar. Nunca vi esse tipo de bebida. Deixa pra lá. Eu, agora, neste exato momento, é que não vou querer saber o que é isto.
A bagunça é generalizada. Doce no chão. Nas cortinas. Nas cadeiras. Pregado com um percevejo no espaladar de uma das cadeiras, o bilhete:


Caro sobrinho-neto Pandrinius

Desculpe-me por toda essa desordem em sua sala de jantar. Estávamos famintos. Viagem longa, sabe. Dias.
Agora me despeço e deixemos nosso primeiro encontro para mais à noite.
Espero por você no quarto 115. Não descerei, pois estou mesmo exausto e precisando fazer a digestão.

Seu Tio Mallenstein


Um encontro. Certo. Mais à noite. Fico aqui pensando se deveria ou não incomodar o visitante. Quarto 115. Nunca entrei nesse quarto. Aliás, quase não entrei em quarto nenhum do Casarão, apesar do longo tempo que vivo aqui. São muitos quartos. Quartos a não acabarem mais. Quatro andares imenso, com vários quartos. A cada ano, parece aumentar o número deles, apesar de eu nunca tê-los contado. Enfim, Tio Mallenstein vai, logo de cara, confirmando sua fama. Chega, não fala com o anfitrião e vai tomando seu lugar. Engraçadinho. À noite, então, nos encontraremos, titio. Prepare seus argumentos, pois isso não se faz quando se chega a casa de alguém. Espero, contudo, não ser mais incomodado até o nosso encontro. Vou, agora, preparar meu almoço, isso sim.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...