terça-feira, 9 de março de 2010

Finalizando um conto, num café europeu: good times no ano passado.


Neste momento, em setembro passado, eu finalizava o conto O rei era assim, que sairá na coletânea Geração 00, organizada por Nelson de Oliveira, para a Boitempo Editorial. São autores que começaram a sair em livro depois do ano 2000.

Trecho de O Rei era assim:

"Sua alimentação era frugal. Comia, na maior parte do tempo, frutas, verduras e legumes. Não promovia enormes banquetes regados à cerveja, vinho e carnes assadas. Javali, cordeiro, porco, veado. Nada disso. O Rei também não era desses afeiçoados pelo esporte da caça de animais pra depois servi-los nas ceias fartas. Ao se levantar, uma maçã e um copo de suco. Nada de doces, bolos, biscoitos, folhados, tortas. Nada disso. O Rei possuía um espírito elevado, que se refletia em sua alimentação, na maneira como tratava o próprio corpo. Parecia mais um monge. Um santo. Sei lá. Sempre me pagou um ótimo salário de cozinheiro, mas nunca me exigiu grandes coisas. No dia-a-dia, não dava mesmo trabalho. Nem a Rainha, que acompanhava o ritmo alimentar do Rei. Só o menino, o Príncipe, que me exigia um pouco mais. Mas nem tanto. Vez em quando um biscoitinho especial. Um leitinho de cabra. Uma torta [mas muito de vez em quando mesmo]. O que a família real gostava de verdade era de ler. Eles passavam horas trancados na biblioteca. Nunca entendi essa vocação esquisita deles. E gostavam ainda de música, teatro, dança... Traziam artistas de todos os cantos pros espetáculos na corte: instrumentistas, cantores, atores, dançarinos, poetas. Nessas ocasiões reuniam os serviçais e os súditos pra que vissem os concertos, peças etc. Mas, confesso, o pessoal, no geral, não entendia e não gostava daquelas apresentações. Achava um desperdício. A população do reino também, quando os espetáculos iam pras ruas. Uma vez quase lincharam um gurizinho, um tal de Wolfgang, que foi tocar cravo na praça do cadafalso [este, só pra acrescentar, havia muito não era usado, o Rei era contra a pena de morte]. Então, pra pacificar a situação e evitar que o geniozinho se danasse, o Rei mandou chamar correndo uns músicos que tocavam pandeiro, suingue e um instrumentinho lá que parecia guitarra, mas bem menor, com quatro cordinhas. Ah, o Rei também mandou vir muitos tonéis de cerveja. Aí foi a glória. Uma alegria só. Uma verdadeira festa popular. Nesse dia, o Rei foi aclamado nas ruas. Só nesse dia. Porque depois continuou insistindo naquelas artes que ninguém entendia. Acho mesmo que foi por isso que o Rei perdeu o emprego. Porra, por que é que aquele viado não fez um MBA, uma especialização em Administração Régia, sei lá, algo mais neoliberal, racional e dentro de uma certa objetividade? Assim eu não tinha que ter vindo pedir uma droga de um emprego num restaurante oriental. E pra piorar, num desses tipo Asian Fusion."

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...