terça-feira, 9 de março de 2010

Trechos de um texto inédito, primeira versão sem revisão, portanto ainda com muitas falhas, perdoem

Eu sinto a febre e o apagar de luzes. Meu corpo treme neste apartamento de janelas que dão de frente a outras tantas janelas. Olhares encarecerados como o meu. Quadriláteros de alumínio álgido.
As ruas escuras. As lâmpadas dos postes foram assassinadas por alguma pane em uma central de distribuição de energia qualquer, no interior do país. E quando as grandes cidades estão no breu, a febre aumenta. E o frio. Assim mesmo quero caminhar pelas ruas. Sentir o cheiro do perigo. Passeio por parques e ruas arborizadas. Procuro sons de crianças nos playgrounds. Procuro a voz do meu filho e o calor de seus gestos pequenos. Sinto a febre.
A estática nos fios de alta tensão me acompanha por todo o trajeto. Me insufla a devida energia para apertar o passo, como se fugisse de alguma coisa, não apenas procurasse. Fugir e buscar, no meu caso, agora, são coisas muito semelhantes. Me perco por ruas ora largas e nuas, ora por alamedas com árvores observadoras. Nada sei de fantasmas no escuro. Só de espectros recheados de carne e ossos. Nada sei de futuro. E o presente e o passado são um blecaute. Uma pane em uma central de distribuição de eletricidade no interior do país. Os espectros passam por mim. Uns trazem sacolas de mercado, outros caminham apressados. Alguns param e acendem um cigarro para iluminar um pouco a noite.

- Você já teve vergonha de algum dia dizer que sente saudade¿

Foi bem ali que brinquei com meu filho. Viemos em busca de um escorregador e um pista de asfalto para que ele pudesse andar com sua motoca envenenada no amor entre pai e filho. Sim, o amor é um veneno. Se nos dão, sofremos. Se nos tiram, queremos morrer por sua causa. Não há argumentos. Não há antídoto. O amor mata.

Foi bem ali, reconheço o espaço. Lembro do momento em que o esqueitista veio e bateu no meu garoto e o derrubou. Peguei-o no colo imediatamente, e ele estava assustado. Sentia seu tremor. Seu susto. Soluços. Estávamos nos separando e tudo vinha de enxurrada sobre nós. Dores físicas e anímicas. Dores que não sei nomear. Pequenos acidentes. Brigas domésticas e pequenas feridas. E as grandes, das quais ainda não sabíamos e não sabemos ainda como definir o sabor. Talvez, um dia, meu garoto, quando maior, saiba me explicar essas coisas. Me falar dessas dores. Lembrar de cheiros tristes. Dos cheiros felizes. Dos olores e de tudo que nos traga algum conforto. Algum entedimento disso tudo que nos aconteceu e sobre o que não posso falar agora.

Ali, enquanto tinha meu filho nos braços, me sentia ancorado em algum porto próximo. Podia sentir sua pequena musculatura convulsionada pelo medo. Mas também podia segurá-lo contra meu peito e beijar seu pequeno rosto. Passar a mão em seu cabelo. Ver em seus olhos azuis a ingenuidade de eu que tanto necessitava e jamais poderia ter de volta para continuar. Eu precisava ir adiante. Mesmo retornar era ir adiante.

[Decisões].

Passei ainda por lugares da cidade em que sempre quis ir com meu filho. Fazê-lo saber mais, já desde pequeno, sobre este lugar que o cerca e que pode ser a chave perdida de uma prisão inexorável como, ao contrário, possuir portas de emergência para uma saída rápida a livrar-nos do frio, do tédio, da preguiça mental e da depressão. [Esta cidade me assusta mesmo é quando está acordada. Pois é nessa hora que se mostra mais letárgica do que nunca. No escuro e no silêncio de uma noite em que nem os postes estão acordados, podem ser ouvidas ainda algumas pulsações. Certas pulsões biófilas, mas que de repente são quebradas pelos faróis de algum automóvel a vaguear perdido feito alma penada nesta cidade que é um cemitério de veículos. Automóveis devoradores do contato humano e do poder de contemplação. Aqui, quase sempre, estamos condenados aos aquários que são os carros. Ao cárcere dos apartamentos e condomínios de classe média. À falta de calçadas para os pedestres. Aos megashoppings e às concessionárias. Aos show-rooms de novos presídios em bairros ora distantes ora mais próximos do centro da metrópole. Todos estarão bem enterrados de acordo com seu poder aquisitivo]. E meu filho, eu sei, precisava começar a perceber essas nuances. Precisava comtemplar as pessoas e os movimentos ardilosos da cidade. Estabelecer contato com as almas mortas. Sabê-las bem. Para jamais repetir gestos, discursos e atitudes que pudessem levá-lo ao limbo ou ao inferno. Precisávamos nos tornar Virgílio e Dante. Ele, o pequeno Dante. E eu o guiaria por Dite. Mas não passaríamos ao largo da metrópole como fizeram os dois poetas. Não havia opção. Vivíamos nela. Numa de suas áreas periféricas. Porém, longe das chamas da mesquita que queima a fé dos homens no centro da metrópole do inferno. Havia salvação, mesmo na cidade álgida.

Alguns influxos eu buscaria com o pequeno Dante. Em partes distintas da cidade. Conhecidas ou não. Precisávamos explorar. Saber das afecções que poderiam contaminar nossas almas neste lugar de ruas limpas e corações sujos. Neste lugar de pequenos e grandes guetos de mediocridade desavergonhada. Meu desejo é de que meu filho já pudesse passear por sua cidade lendo as páginas dos jornais. Jornais de informação, culturais e até religiosos. Gostaria que ele circulasse neste mundo de cartas marcadas e defesa do lebensraum. Do elogio comprado e dos falsos tapinhas nos ombros. Dos textos ruins e da louvação aos “cérebros” da cidade. Dos grandes escritores e seus grandes projetos pessoais: umbiguistas. Do drama existencial raso, da autocomiseração e da falta de humor que embota o discurso e as relações nesta terra. Gostaria que meu filho pudesse ler, já, sobre a louvação à bruma que nos esconde do mundo. Essa névoa rídicula que insistem em comparar ao fog londrino. Não dá. Nosso Tâmisa é o mefítico Belém. Nosso British Museum é um museu que possui um gigante olho vigilante e opressor. O que temos realmente aqui com as mesmas propriedades é o Museu de Cera. Todos somos bonecos de cera. Todos somos, nesta cidade, grandes personalidades que merecem ser eternizadas em matéria morta e pálida. Nossa Tate Modern¿ Somos muito conservadores pra isso. O pinheiros depressivos são nossa maior representação pictórica. E nossas avenidas¿ Têm luzes baças. Suas lâmpadas são baços que não geram hematopoiese, nem hemocaterese. As luzes baças daqui nos tiram a imunidade. A vivacidade. Vivemos uma vida lívida.

Sentei e acendi um cigarro. No topo de um escorregador. Iluminei momentaneamente a praça. Uma outra praça. Diferente, mas parecida com aquela em que estive várias vezes com meu filho. Enquanto meus olhos iam se acostumando ao breu, imagens , vultos velozes se deslocavam de uma ponto a outro do lugar. Em meio ao silêncio que tomava conta da noite, ouvi ruídos. De metal enferrujado contra metal enferrujado. Percebi o vulto de um menino que brincava no balanço. Depois, mais ruídos. Mais dois vultos, numa gangorra. Então, à minha direita, havia uma fila de pequenos vultos para subir no outro escorregador. E sons de rodas contra o piso. Os pequenos vultos andavam de esqueite. Acendi noavamente meu isqueiro para ver melhor e encontrei uma multidão de pequenos garotos. Pequenos Dantes brincando num playground de Dite sem ligar para o que pudesse haver de mal. De repente, um garoto loiro, cujo cabelo fosforescia na noite, vinha numa pequena bicicleta amparada por duas rodinhas laterais. Ele ia se distanciando. Parecia querer se deslocar o mais rápido possível dali. Numa fuga solitária, a se desvencilhar do grupo de garotos que estavam no local. Antes que desaparecesse no breu, gritei para ele o nome de meu filho. Ele parou. Olhou ao redor procurando por minha voz. Eu o chamei novamente. E disse para que me esperasse. Desci correndo do topo do escorregador e fui até ele. Sempre dizendo seu nome em voz alta, abracei-o fortemente. Beijei várias vezes seu pequeno rosto. Ele tinha um sorriso azul. Que brilhava na escuridão. Ele disse: Pai. E depois: vamos pra casa, vamos morar na nossa casa¿ Eu perguntei, com lágrimas incontidas: Onde fica a nossa casa filho¿ Prossegui: Eu a deixei há tanto tempo e não sei mais onde fica, a cidade cresceu muito neste período, parece ter crescido desenfreadamente em tão pouco tempo, feito uma menino cresce, rápido; seu pai está perdido. Não sei se ele compreendeu tudo o que eu falava. Eu parecia estar falando com um adulto e me esquecia de que ele tinha apenas três anos. Vem, pai, ele disse, num tom adulto, mas ainda com seu sorriso e olhos azuis, segure a minha mão.
Seu quarto tem paredes coloridas. Azul e verde. Os móveis brancos. Um oásis de felicidade multicolor. Um infinidade de brinquedos reluzentes. Fotos. Pequenos quadros e adesvisos nas paredes. Sentamos no chão, sobre o tapete verde e começamos a erguer o Mamute com as peças de um brinquedo para montar cidades. Mamute é como chamamos um prédio muito verticalizado, invenção nossa, até o ponto em que as peças consigam ficar equilibradas e não despenquem. Quando o Mamute está erigido, meu filho pega um de seus carrinhos e destrói a construção. E a gente ri da destruição e em seguida erguemos novamente o Mamute, para derrubá-lo outra vez e outra vez e outra vez. Cada vez mais rápido. Rindo cada vez mais da nossa prórpia travessura de derrubar prédios. Aqui, podemos tudo. Somos duas crianças. Eu, uma criança que jamais quis crescer. Um adulto que nunca saiu da infância. Somos Peter Pan, eu falo isso para o meu filho. Ele ainda não conhece Peter Pan. Mas vou dizer a ele que Peter Pan é um persongem criado por um escritor que como seu pai nunca quis ser adulto. J. M. Barrie. O escritor que nunca cresceu, digo. Um escocês pequenino que migrou para Londres. Meu filho não entende direito. Nem sabe o que siginifica a palavra migrar. Digo que como seu pai, ou seu pai como ele, Barrie nunca se tornou adulto. Então, meu filho me diz: vou pra Londres. Eu concordo: vamos para Londres. Então saímos pela janela. E voamos.

Pai, disse meu filho, a gente tem que levar esses meninos com a gente, eles estão perdidos, eu sei, os pais deles foram embora, eles estavam aqui procurando os pais igual eu. Filho, eu respondo, claro, se você quer levá-los, a gente vai fazer isso. Então faço um pergunta: mas você não estava fugindo deles, sumindo com sua bicicletinha¿ Não, ele me disse, eu estava só procurando uma saída que fica ali no escuro, mas só eu que sei, eu ia chamar eles pra ir comigo. Sim, filho, você é muito corajoso, ia levá-los de novo pras casas deles. Ele disse: pai, depois que a gente encontar os pais deles, você vai comigo no carrinho bate-bate, lá no parque¿ Eu, já chorando e rindo ao mesmo tempo, disse: Claro que sim, meu pequeno, claro que vamos; vamos aonde você quiser ir. Eu quero ir pra Londres, ele rebateu. Então vamos pra Londres, eu disse. Vamos comprar um helicóptero de controle remoto lá, bem grandão¿, ele perguntou. Claro, filho, o maior que tiver.

No centro da sala, prendemos, pendurado por um fio de náilon o boeing, que fica girando no ar, enquanto eu e meu filho controlamos um helicóptero amarelo que tenta se chocar contra o avião. Ao helicóptero demos o nome de Lama Loco, pois ele tem muita coragem de enfrentar o Holandês Voador, que é como chamamos o avião adquirido durante um voo numa companhia holandesa. Quando trouxe o brinquedo, expliquei ao pequeno que ele vinha da Holanda, e disse onde ficava o país, e que lá tinha moinhos, muitas estufas de flores e muitos canais numa cidade charmosa chamada Amsterdã. Antes de eu acabar a história, meu filho, curioso que é, diz: Pai, quero ir pra Holanda. Digo a ele, Londres é mais legal. Então vamos pra Londres, agora, de carro, ele pede. De carro não dá, filho, eu digo. Dá sim, ele insiste. Então vamos de carro. Mas antes vou te contar a história do Holandês Voador. Um navio assombrado que voava que pelos mares conduzido por um capitão fantasma. Os olhinhos do pequeno brilham e ele me diz, quero viajar nesse navio. Eu digo, então vamos viajar nesse navio. Mas primeiro temos que chegar até o mar. Meu filho abre a janela de casa e diz que o mar está ali, logo em frente. Eu concordo, então vamos esperar o Holandês Voador passar. Viajamos com os fanstamas até encontrarmos um navio pirata da Inglaterra e... Meu filho completa: E daí a gente vai pra Londres. Vamos, eu digo.

Reunimos todos os garotos do playground e pergutamos se eles se lembram de suas casas e dos nomes dos pais. Todos respondem que sim. Mas dizem também que a cidade é escura há muito tempo e por isso nunca puderam ser encontrados por seus pais ou encontar suas casas. Saímos pelo lado escuro que meu filho indicou como saída do playground, que só agora percebo é cercado por uma fortaleza de pedras negras. Não sei como consegui entrar aqui, penso. Parece um sonho. Os garotos nos seguem em fila. Meu filho vai na frente com sua bicicletinha, ele é ágil, parece conhecer bem o caminho mesmo no escuro. Depois de um longo corredor iluminado por uma pequeno foco de luz que meu menino carrega com ele, vemos uma rua. Pergunto onde ele conseguiu aquela lanterninha e ele responde, Pai, você não lembra que usava isso pra ler livro, eu gostava tanto desse foquinho [assim é como ele se refere à luminariazinha portátil], que quando você sumiu eu usei ele pra procurar você no escuro. Depois que você sumiu, nunca mais o dia amanheceu, e por isso não passou mais o desenho do trenzinho na televisão, de manhã, aquele que a gente via junto. Eu respondo: Sim, filhote, nunca mais amanheceu, nem pra mim, e nunca mais vi aquele trenzinho azul, tudo está sem cor para o seu pai.

Na rua, temos que tomar cuidado com os carros ameaçadores que cruzam veloz e assassinamente as ruas. Muitos não têm os faróis acesos. A falta de luz é constante nesta cidade. Passamos por muitos lugares. Vários por quais já passei e reconheço. E muitos deles, irreconhecíveis para mim, ou nunca antes vistos. Mas meu filho parace saber todos os caminhos. Num ponto do trajeto ele pergunta se algum dos garotos pode reconhecer a casa em que morava. Nenhum deles ainda consegue. Andamos, andamos e andamos. Passa-se muito tempo e não achamos nenhuma das casas. Sinto a febre. Os garotos também parecem sentir. E também o frio. A neblina quer nos confundir agora. Mas já nos acostumamos a ela. Já não pode mais nos enganar. Tudo nesta cidade parece ser feito para nos enganar. Mas vamos vencendo a névoa. Sentimos o sereno molhar nossos cabelos. A sorte é que os meninos estão todos agasalhados. Nesta cidade nunca se pode deixar um pequeno sair de casa sem roupas de frio.Penso reconhecer o prédio onde passei a viver depois que sai de casa e não consegui mais retornar. Digo, filho, acho que é ali o prédio em que o papai está morando hoje. Ele me diz: Papai bobão, aquilo não é um prédio, aquele lugar ali é onde ficam os presos. Me espanto com o conhecimento do meu filho sobre a cidade. Mas o presos já estão todos mortos, papai, ele completa. Nessa hora, sinto um frio trespassar meu corpo e penso que posso estar morto, vagando pela noite eterna. Que cometi algum crime, fui preso e condenado a morrer numa cela. Quem sabe¿ Sigo meu filho. Ele diz, Vamos descansar, a gente não vai encontrar nada agora, vocês não conseguem reconhecer a casa em que moram. Me espanto, meu filho agora parece um homem, fala como um adulto e conduz a trupe pelo deserto da noite feito um verdadeiro herói.

Desperto com o chamado do meu pequeno, Acorda, pai, temos que ir, a névoa sumiu e agora fica mais fácil. Quanto tempo eu dormi, filho, pergunto. Ele responde, Muitos anos. Fico pensando no que isso quer dizer. Pois meu filho está do mesmo tamanho. Só fala como adulto agora. Mas não mudou em nada desde a última vez que o vi. E está como era antes de eu ter dormido por anos, como ele diz. Deixo as dúvidas de lado e sigo o grupo. Mas percebo que alguns dos garotos estão mais crescidos. O meu filho é o menor. Se mantém o mais novo entre o grupo. Mas continua o líder. Ele diz: Não temos muito tempo para encontrar a casa de ao menos um de vocês, se a gente não conseguir em pouco tempo, nunca mais conseguiremos, se esforcem ao máximo para reconhecer suas casas, quando isso acontecer verão que tudo vai ficar mais fácil, a cidade tem mistérios que só eu aprendi a desvendar, confiem em mim. Depois de o meu filho ter dito isso, penso que ele aprendeu sozinho as artimanhas da cidade, que não precisou de mim para isso. Ele deve saber muito mais coisas do que eu penso e sei. Devo ter ficado mesmo muito tempo longe de casa. Anos. Quem sabe, décadas. Séculos.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...