sexta-feira, 12 de março de 2010

Trrecho de um conto inédito, A expedição.

Os lábios crispados de Johnson

O que quer um deus com as palavras se ele mesmo aboliu o princípio do verbo em favor do olhar vigilante? Quer palavras? Exercite pregando-as no deserto. Aos escorpiões, às serpentes. Seguimos você com passividade somente porque além de perdemos o caminho [temos toda a certeza disso], perdemos também os atalhos que nos levavam uns aos outros. Agora, fica você aí, pensando em sublevação, traição. É isso que pensa o senhor deus do olhar vigilante. O deus que vê tudo do seu centro. O que vê você? O que ouve? Fadiga, descrença, silêncio? E isso é o que o fustiga — além da paranóia da traição que o atormenta certamente [todo líder tem naturalmente essa paranóia]. Sim, estamos cansados. Descontentes com essa empresa falida. Mas no que resultaria uma punhalada em suas costas? Sangue. Apenas mais líquido que este deserto sorveria como sorve qualquer outro líquido. Como sorveu há pouco minha urina escura e fétida. Palavras não vão mudar o rumo das coisas. Não indicarão outro caminho. Não mais, nesse nosso caso. Estamos apenas esperando que nos encontrem. Que nos tragam de beber. De comer. Pão. Qualquer coisa. Que nos castiguem mas que nos deem de comer. Você e seu olhar até agora só nos impõem precariedade. Subordinação bovina. Não, não vamos chegar a lugar algum sob suas determinações e você, sem as palavras, não chegará mais ao nosso interior. O que verá de nós é somente a casca chamuscada por este sol infalível. O deserto será o pano de fundo para os limites precisos do nosso corpo. Agora, ao que se expande de nossas mentes por esse deserto afora, indo reverberar tão longe quanto nossos pensamentos puderem alcançar, você não terá mais acesso. Diga-nos o que fazer. Certamente seguiremos. Estamos passivos. Só não diga que quer diálogo. Você quer apenas concordância. Que nossas palavras sejam ecos das suas. Um verdadeiro monólogo, senhor deus do olhar, um verdadeiro monólogo que sairia da sua boca e se amplificaria a partir das nossas. Contente-se pois com os nossos olhares. Quando muito. Agora, não espere traição, punhaladas nas costas. Você não é tão competentemente cruel pra merecer isso. Se fosse, talvez até o temeríamos com pavor e respeito. Pensaríamos em arrancar seu couro. Comer sua carne pra adquirir sua força. Porém, antes da carne, no princípio, senhor deus, era o verbo. Se não temos a força do verbo, a carne só pode ser débil. Que ao pó do deserto junte-se, então, o pó de sua carne e de seu olhar mudo.

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