quarta-feira, 14 de abril de 2010

Vazio e náusea

Estava com um vazio existencial fudido. Então, comi parte da minha biblioteca. Um Kierkegaard, um Camus, dois Sartre, dois Sábato. E, porra, quando me lembrei que ainda tinham uns calhamaços do Dostoiévski, aí, meu bom, senti náusea.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Carta aberta a Bárbara Lia

Curitiba, 05 de abril de 2010

Bárbara,

Para começar, gostaria de dizer que não estou querendo fazer disso uma guerra. Ou seja, sobre isso que falarei a seguir. Entrementes, só quero esclarecer algumas coisas distorcidas por você, que já vêm desde 2008, à época da Coleção Antena, em que você supôs eu ter obscurecido seu nome numa entrevista à Gazeta do Povo; que você não tinha sido citada como autora da editora, e que seu livro tinha alavancado a Kafka. A última parte, obviamente, não é verdadeira. A Kafka é fruto de um trabalho que venho pensando há pelo menos 6, 7 anos. O detalhe foi sua falta de sensibilidade de não ter entrado em contato comigo para saber o porquê da sua ausência na entrevista. Não foi nada proposital. Só uma entrevista feita por telefone com o Marcio Renato dos Santos. E por telefone, sabemos nós, algumas informações se perdem. Inclusive o Marcio mesmo me lembrou de alguns livros de que na hora não me lembrei. Na edição da entrevista, claro, seu nome passou, mas não por não ter sido citado por mim ou lembrado por Marcio, simplesmente porque é normal que num texto dessa natureza, entrevista por telefone, reitero, alguns dados se percam, se volatizem na atmosfera discursiva. Depois, vieram os ataques aos quais nunca revidei. Lá naquele espaço para covardes e boçais chamado Bocágil. Coisa típica de uma gente sem coragem para peitar o que diz, pois sabe que não terá argumentos que a sustente nessa farsa por muito tempo. E, também, não faço disso, do revide, uma arte. Não sou vingativo. Só lhe peço para que não mais distorça as coisas em relação à Kafka, como por exemplo você faz na sua entrevista à revista Contemporartes (quem quiser que busque o link que você mesma não sei por que me enviou, talvez como provocação boba), dizendo desse modo, justamente assim: "O projeto inicial da Kafka edições baratas era poesia pura. Era bonito pois era uma resistência. Publicar belos poemas a preços acessíveis. Mas, era um empréstimo do selo. O livro de bolso era pago pelo autor. Mas, era bem viável, pois o custo da publicação era mínimo." Esclareço, sem precisar, mas esclareço: não, não era um empréstimo do selo. Só publicamos autores em que confiávamos no talento. Emprestar um selo é cobrar pelo serviço todo. Se mal você se lembra não lhe foi cobrado um tostão do projeto gráfico do livro, em que eu e Koproski nos detivemos por dias para resolver, editar, dar uma revisada; depois, ainda, pesquisar preços em gráficas digitais para baratear para o autor, gastar com gasolina, com ligações, horas de conversa por telefone entre mim e ele e etc. etc. Falo isso pelo simples fato de não gostar de passar por mercenário, nem nas entrelinhas. Coisa que estou longe de ser. O projeto da Kafka continua como resistência, pois sou marrento, e vou fazer a diferença enquanto puder numa terra em que poucos tomam atitudes generosas; porém são bárbaros para "descer o porrete" em quem está buscando mudar minimamente o rumo das coisas. Continuando: você nem sabia quais eram os próximos projetos da editora. Se você estaria neles ou não. Não me perguntou. Só me atacou e atacou Luci Collin também, que pelo que sei nunca lhe fez mal algum. Se mostrássemos a você a curadoria da segunda edição do Curitiba Literária (para falar um pouco disso também), um evento morto na casca para o nosso eterno mal literário local (em que o que vale mais é entreter com "ídolos literários" e não, em muitos casos, proporcionar realmente cultura, em que o que parece valer mais é fazer Bienais mancas no Positivo ou em shopping centers com medalhões para lá de gastos), se lhe mostrássemos o projeto da curadoria, talvez você pudesse ver quão maus eu e Luci fomos e somos em relação a você. Você, escritora da qual levei o original de Solidão calcinada para a Travessa dos Editores, enquanto estava lá tentando empreender algum projeto digno para os escritores locais. Que infelizmente não deu certo. O livro é bom, tanto que foi publicado pela secretaria estadual da cultura, mesmo dentro da sua (da secretaria) inépcia em mostrar à sociedade projetos sólidos e sérios com relação à literatura e à produção literária sobretudo; neste estado com um governo que parece mais do nível intelectual do Arkansas que de Nova Iorque. Para sorte de todos que querem que a literatura ande com pernas mais longas e mais equilibradas por essas nossas terras de araucárias tristes e choramingas, seu livro foi editado. Você foi editada. Você, de quem tenho na estante de livros do Gianluca, meu filho, um exemplar de Chá para borboletas, que guardo até hoje, pois você é uma escritora de valor, e quero que ele tenha acesso a isso quando ficar maior, apesar de achar que você não foi minha amiga, e realmente não foi. Você não esperou. Esperneou. Esbravejou. A Kafka, para informar a todos a quem interessar possa, mantém seu ideal primeiro. Só que buscando recursos para que os escritores tenham livros melhor acabados. Não gosto dessa louvação à coisa artesanal, entendo livro como produto de arte, mas reproduzido (doa a quem tiver de doer) em escala industrial, questão de poder distribuir mais e melhor. Um pensamento meu, sou designer de formação, entendo a coisa por uma outra ótica. Já fiz livros grampeados (os da KFK edições baratas, por exemplo), porém tenho uma certa aversão, confesso, a livros grampeados ou com lacinhos ou pacotinhos para enganar bobos. No mais, e para ir chegando ao desenlace dessa missiva que me faz mal escrever, lhe peço que não distorça mais meus projetos, meu ideais, minhas ideias (que nem são grandes coisas, mas são honestas), pois só estou tentando fazer. Fazer vingar algo. Os que fazem sabem que essa mensagem não é para eles. Os que esperneam e reclamam podem vestir a carapuça até os calcanhares, que certamente são de aquiles. Pois não sustetam em pé seus discursos debilitados na falta de projetos de valor. Tomara que venham outros, fazendo projetos legais para a cidade. Que venham muitos. Não queremos hegemonia de nada. Prefiro escrever, coisa que às vezes deixo de fazer para cuidar do trabalho alheio. Mas em que também acredito. Acredito também em resgatar obras que a cidade cuida de enterrar, com lápides bem decoradas na indiferença e no não reconhecimento de seus cérebros locais. Por exemplo: o Karam morreu em 2007, lançou-se um livro inédito dele, e onde estão os críticos desta cidade que não fizeram uma resenha decente a uma grande obra de um grande autor? Mas é autor morto, e a cidade gosta disso. Eu não. Gosto de revivê-los. Trazê-los à tona. Nesse caso, trago outra cultura comigo, ainda bem, nessas horas saco da carteira meu RG paulista. Não vou enterrar valores em nome da inveja e da indiferença que aqui é uma tradição que, se não for logo banida do mapa, vai transformar esse lugar num poema de Eliot, uma terra devastada. E, assim, minha cara, você deve saber, o que sobram mesmo são sempre as baratas.

Abraço

Paulo Sandrini

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...