terça-feira, 4 de maio de 2010

A congênita doença do asfaltoconcretofuligem

trecho de romance inédito

às vezes aquela vontade atroz de percorrer as vias congestionadas as marginais avenidas ruas alamedas na hora do rush ou à noite enquanto a cidade dorme ou quando a sua vontade desperta pela manhã manhãzinha quando todos os cheiros da cidade acordam quando os néons espreguiçam nas fachadas encardidas e o sangue coagula nas calçadas e os pedintes ainda dormem e os trabalhadores dormem também mas dormem caminhando rumo aos pontos de ônibus metrô trem de subúrbio e a fuligem vai subindo se levantando e formando um véu acinzentado sobre a metrópole vermelha e o concreto já vai esquentando devido ao friccionar das solas duras dos sapatos apressados dos transeuntes contra as calçadas enquanto o sol vai surgindo no céu rubro d’arrebol para depois ficar feito um ovo estalado contra um fundo celestial e o asfalto e o concreto em pouco tempo estarão tão quentes que se poderá mesmo ali estalar um ovo e fritá-lo e olhar para a calçada cinzenta por monóxido de carbono e praquele ovo amarelo ali fritando e construir uma sofrível metáfora uma péssima analogia uma analogia literal pensando aquela calçada como se fosse o céu cinzento de fuligem ao fundo do sol e este seria o ovo [ovo /sol, calçada / céu] e então construir a poética do óbvio para depois acelerar afundar o pé no acelerador de um possante V8 negro correndo feito um demônio ensandecido a furtar almas do paraíso metropolitano e a afundá-las todas para a dimensão das metáforas e analogias sofríveis e idiotas e ainda assim conseguir com isso que essas almas desfrutem de pequenos instantes de intensa falta de objetividade e de ócio e assim elas poderão perceber que mesmo uma metáfora lugar comum ou uma analogia pobre é menos sofrível que uma realidade crua e assim você vai seguir acelerando seu possante V8 que seu Abraão lhe deu quando você se graduou em medicina e você fará com que esse possante diabo negro seja a total completa e irreversível antítese das brancas ambulâncias gritando por socorro com suas sirenes desesperadas histéricas através dos vasos sanguíneos da cidade vermelha de céu cinza e seu possante será o genuíno agente metropolitano de tânatos lutando contra esses malditos anjos de branco que são as gritalhonas ambulâncias vomitando vítimas para dentro do corredores dos hospitais corredores feito coronárias entupidas então você vai pensar você vai querer fazer você querer transformar seu possante V8 num cateter para sair desobstruindo as coronárias desses organismos moribundos que são os hospitais então você vai acelerar esquentar o escape e as rodas e a lataria pois só mesmo o fogo para derreter toda essa gordura ali parada só o fogo só o fogo só o fogo e toda vez que você desejar o sol escaldante do deserto logo o fogo escaldante do escape de um V8 irá chamar você de volta para realidade crua das ruas da metrópole e as sirenes das histéricas ambulâncias e o olhar mórbido das hemácias debilitadas farão recrudescer em você aquela vontade atroz de esmagar o asfalto quente derretido de rachar o concreto das calçadas dos muros e das moradas e de pretejar seu pulmão com a mais espessa fuligem e com isso você se saberá ainda doente ainda fustigado pela congênita afecção desses que nascem adaptados a tanta fuligem concreto asfalto mas ainda assim você tentará lutar contra tentará reverter isso aproveitando aquelas horas em que se leva uma vida pública trabalhando em prol do outro do próximo mas desejando no fundo no fundo que as horas corram para que você possa viver exercer o outro lado de sua vida dupla guiando um possante V8 negro assassino pelas ruas da metrópole então você se lembrará de que não possui um V8 negro assassino que você sempre se misturou às hemácias debilitadas da urbe nos intestinos dos coletivos e do metrô e quem possui um possante V8 é seu irmão Isaac com quem você mal fala com quem você divide o pai mas não uma amizade sim uma batalha e você desejará então que Isaac seja um mendigo e que você sim possua um possante V8 negro assassino para atropelar seu irmão numa noite de frio e depois correr para o plantão noturno a esperar pelas vísceras dilaceradas e a pele rasgada ralada de seu irmão chegando numa ambulância histérica e com isso dar o parecer Não há nada a fazer e então se livrar desse fardo pesado da irmandade pois na metrópole vermelha a irmandade já era não há laços de sangue que mitiguem as desavenças e o ódio ao estranho a todo estranho que na maioria das vezes se apresenta com o rosto de seu próprio irmão.

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