terça-feira, 15 de março de 2011

KARAM NÃO JUNTA PÓ


Ao professor e escritor, que se aposenta da vida acadêmica, é chegada a hora de arrumar as tralhas de seu gabinete. Agora, é viver só para escrever e também cometer alguns pequenos delitos, claro. Com muito, muito tato o professor e escritor seleciona os livros que levará consigo e aqueles que, talvez, por falta de qualidade literária, ficarão relegados à madeira velha da mesa do gabinete. Pensa ele, Não posso levar todos; os ruins e também alguns dos melhores, visto que estes últimos muito me incomodam. No dia seguinte, um outro professor encontra aberta a porta do gabinete do professor e escritor (este, agora já bem aposentado e feliz e livre para poder produzir mais e cada vez melhor; sim, cada vez melhor seus romances morosos, sucesso entre a mentalidade crítica estagnada no século XIX) e lá, sobre a mesa do "gênio", encontra alguns livros de um outro, esse sim um escritor genial, que chacoalha a poltrona dos acomodados: Manoel Carlos Karam.
Então, resta ao professor recolhê-los e afagá-los como merecem. Mas uma coisa não é necessária, tirar a poeira deles. Pelo simples motivo de que livros como os de Karam jamais ficarão velhos para juntar pó.

domingo, 13 de março de 2011

Sou feliz

“Sou feliz porque meu povo é educado, esclarecido, incorruptível, pensa no outro, nunca silencia, sempre discorda daquilo que leva o homem ao abismo material e existencial, faz política para o bem comum e não para as coisas ficarem como estão, sou feliz porque aqui nunca os experts substituem os ideólogos, os intelectuais são ativos fora das cercas acadêmicas, e sou feliz porque somos tolerantes, muito tolerantes. Sou feliz porque não fazemos das ruas pistas de automobilismo para matar pedestres. Sou feliz porque meu povo consome com moderação e se sentir que é uma imposição de mercado, rejeita. Sou feliz porque meu povo dá mais valor àquilo que o homem produziu por meio do intelecto e não somente por meio do fomento faminto da era da técnica. Sou feliz porque o racionalismo ocidental cristão e branco não chegou a dizimar os povos antigos que aqui viviam. Feliz eu sou, porque minha gente sabe votar com consciência coletiva e nunca pensa nos próprios interesses (do tipo: “manter meu emprego, meu cargo, minha vida estável", porém pobre e execrável). Sou feliz porque minha gente me enche de confiança no futuro e não me deixa antever retrocessos de todas as ordens. Sou feliz porque meu povo quer uma revolução coletiva e não é marcado pela crueza neoliberalista e niilista pós-ditatorial puramente mercadológica. Sou feliz porque, aqui, nesta terra onde vivo, posso confiar em minha própria sombra. Sou feliz, sim, sou feliz. Sou feliz porque todos comemos e bebemos e podemos celebrar a vida com o riso solto e desempedido de todas as amarguras e entraves e tabus. Sou muito mais feliz então quando dizemos uns aos outros que as divergências não levam ao aniquilamento do outro. Sou feliz porque nunca falamos em elitismo e em seres iluminados desde o berço por herança do gosto formado sob os tetos das famílias privilegiadas em detrimento dos “malditos” sem direito ao bom gosto e que ficam na linha de produção enquanto iates navegam nosso litoral com senhores e senhoras pançudos de tanto usurpar a força de trabalho e intelectual das gentes. Sou feliz. Porque o meu povo é o mundo todo. E depois de séculos e guerras e assassinatos e quebras de sistemas exploradores do homem, finalmente podemos dizer: somos seres humanos.”

Eusébio Sandrini – ano de 2.830, um futuro muito próximo.

Pequeno Gianluca.