domingo, 13 de março de 2011

Sou feliz

“Sou feliz porque meu povo é educado, esclarecido, incorruptível, pensa no outro, nunca silencia, sempre discorda daquilo que leva o homem ao abismo material e existencial, faz política para o bem comum e não para as coisas ficarem como estão, sou feliz porque aqui nunca os experts substituem os ideólogos, os intelectuais são ativos fora das cercas acadêmicas, e sou feliz porque somos tolerantes, muito tolerantes. Sou feliz porque não fazemos das ruas pistas de automobilismo para matar pedestres. Sou feliz porque meu povo consome com moderação e se sentir que é uma imposição de mercado, rejeita. Sou feliz porque meu povo dá mais valor àquilo que o homem produziu por meio do intelecto e não somente por meio do fomento faminto da era da técnica. Sou feliz porque o racionalismo ocidental cristão e branco não chegou a dizimar os povos antigos que aqui viviam. Feliz eu sou, porque minha gente sabe votar com consciência coletiva e nunca pensa nos próprios interesses (do tipo: “manter meu emprego, meu cargo, minha vida estável", porém pobre e execrável). Sou feliz porque minha gente me enche de confiança no futuro e não me deixa antever retrocessos de todas as ordens. Sou feliz porque meu povo quer uma revolução coletiva e não é marcado pela crueza neoliberalista e niilista pós-ditatorial puramente mercadológica. Sou feliz porque, aqui, nesta terra onde vivo, posso confiar em minha própria sombra. Sou feliz, sim, sou feliz. Sou feliz porque todos comemos e bebemos e podemos celebrar a vida com o riso solto e desempedido de todas as amarguras e entraves e tabus. Sou muito mais feliz então quando dizemos uns aos outros que as divergências não levam ao aniquilamento do outro. Sou feliz porque nunca falamos em elitismo e em seres iluminados desde o berço por herança do gosto formado sob os tetos das famílias privilegiadas em detrimento dos “malditos” sem direito ao bom gosto e que ficam na linha de produção enquanto iates navegam nosso litoral com senhores e senhoras pançudos de tanto usurpar a força de trabalho e intelectual das gentes. Sou feliz. Porque o meu povo é o mundo todo. E depois de séculos e guerras e assassinatos e quebras de sistemas exploradores do homem, finalmente podemos dizer: somos seres humanos.”

Eusébio Sandrini – ano de 2.830, um futuro muito próximo.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...