sábado, 16 de abril de 2011
Zoona Literária vem para dividir o espaço com o conservadorismo excludente
Ontem começou o Zoona Literária. Dia 15 de abril de 2011. Um marco literário para Curitiba. Com uma programação vasta para apenas três dias. São filmes, performances, leituras, lançamentos, publicação de jornal, banca de livros com vários autores e mesas com temas no mínimo singulares. E se me esqueci de algo do conteúdo, perguntem ao Claudio Daniel, Joana Corona, Ricardo Corona ou Eliana Borges, que encabeçam esse troco histórico contra as forças reacionárias culturais. Com pouco dinheiro, conseguiram realizar um evento bem recheado e sem os ranços que vêm predominando nos eventos literários como bienais e feiras literárias da cidade, que insistem em sempre trazer os mesmos nomes, e, pior, promovendo temas de debate no mínimo desgastados há muito. Ou seja, um debate fácil e pouco profundo, sem reflexão intelectual que é o que um meio cultural necessita. Ontem por exemplo estavam lá Manoel Ricardo de Lima, talvez mesmo o melhor resenhista do país, com sua escrita elegante e uma visão de aguda inteligência e sensibilidade, Vítor Sosa, do México, Claudio Daniel, Luis Serguilha (um português na plateia, que hoje conversa com Luci Collin) e Ricardo Corona. Mais a novata Joana Corona, curadora com Claudio Daniel, participando de mesa, mediando, lançando um livro que traz a marca de um outro tempo. Nos últimos meses foi no mínimo desprezível ver alguns "reconhecidos" tentando jogar uma pá de cal na cova (que eles esquizofrenicamente criaram) da produção local em entrevistas ao G1, ao Zero Hora e não sei onde mais. Fato é que em ambos os casos, esses "reconhecidos" ou caciques culturais, que desconhecem a realidade da produção local, dão a entender que depois da morte de ícones como Karam, Snege, Bueno, Leminski e Xavier (ícones mais que nacionais) a nossa literatura ficou orfã e sem um caminho a seguir, ficou no escuro, restando apenas um túnel que começou a ser cavado mas que jamais poderá ser concluído pelas novas gerações porque essas não possuem o devido cabedal. Na declaração ao jornal gaúcho, os nossos "reconhecidos" dizem que o Paraná só tem autores conhecidos nacionalmente, o resto não existe. Então vivemos só de Tezza, Miguel Sanches, Pellegrini e José Castello. Nada contra esses escritores nem contra a qualidade de suas obras. Que isso fique bem claro. Mas me parece também que ao não se divulgar uma outra literatura (ou quando se faz é num intervalo bem grande só para dizer que não falaram das flores) percebemos uma espécie de reserva de mercado para eventos, feiras, palestras... Ou seja, todos sabem que isso movimenta dinheiro no Brasil de hoje e que muito poucos escritores vivem diretamente do que escrevem e então a maioria precisa do money que nos pagam em eventos. Quanto menor a concorrência, mais bufunfa no bolso. Fora o debate intelectual com a nova geração que a velha guarda e a ala conservadora parecem temer. Querem um porto seguro sem serem questionados. Enfim, voltando ao Zoona, ele vem tapar um buraco, pois é a iniciativa de produtores com mentes mais abertas, que circulam pelas artes plásticas, pelas artes visuais, pela performance, pelo design, música, cinema, pela literatura de fronteira entre gêneros e muito mais, Se Snege, Xavier, Bueno, Leminski, Karam foram ícones e fizeram nossa literatura saltar (em qualidade e inovação) por cima da literatura de vários outros lugares, e me desculpem aqui a verdade, não significa que porque eles não estão mais entre nós, em carne e osso, que não estejam introjetando nova vida à produção local de gente nova e capaz. Pois garanto que quase todos os particpantes do Zoona (ao menos os escritores locais) têm esses autores como referência. E os novos escritores surgem com livros de qualidade, porém, bom que se destaque, sem sentir o peso da sombra desses autores citados. Vejo aqui uma nova busca e posso citar alguns nomes, só para ficar nos mais novos, ou nos que estão nos primeiros livros: Emerson Pereti, Mayra Coelho, Antonio Cescatto, Lindsay Rocha, Estrela Leminski, Edson Falcão, Joana Corona, Sabrina Lopes, Luis Hernique Pellanda, Marcio Renato dos Santos, Luiz Felipe Leprevost, ReNato Bittencourt, Estrela Leminski. Talvez alguns desses nomes em São Paulo ou Rio já fossem a sensação da nova literatura. E anteriores a esses, publicando já há algum tempo, temos Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Corona, Paulo Venturelli, Adriano Smaniotto, Esturilho, Fernando Koproski, Amarildo Anzolin, Mario Domingues, Luci Collin, Assioanara Souza, Bárbara Lia, Otto Winck, Leandro França mais Fabiano Vianna com sua revista Lama, de primeira e etc etc. Todos fazendo narrativa, poesia ou prosa poética de qualidade, sem dúvida. Claro que aqui ficaram muitos nomes de fora, não por querer, mas não lembro de todos. Sorry. Porém, vale também ressaltar aqueles ainda sem livros e que vêm compor esse novo time em breve: Andre Knewitz, Eliege Pepler, Irley Thiago, Wanderleia Bauer, Léo Glük etc etc. E mais que isso, há uma ascensão do texto teatral com Leprevost, Alexandre França, Diego Fortes, e que vem ganhado notoriedade Brasil afora, com reconhecimento de nada menos que Roberto Alvim. Ou seja, a inquietação por aqui não para. O que é mesmo necessário é termos sempre discussões intelectuais, mas não alienadas do mundo aí fora, e também debates sobre a função social que nós temos como escritores em tempos puramente mercadológicos. O que interessa nisso tudo ainda é achar os lugares em que as forças meramente de interesses políticos nem imaginem atuar e nem teriam, por exemplo, honestidade para realizar eventos como o Zoona. Hoje a festa continua, ou melhor, já começou. O evento homenageia Wilson Bueno e Valêncio Xavier, com a exposição Apegos (andam comentando por aí que o acervo do Xavier foi para um sebo, se for verdade, o que devemos esperar de nossos administradores culturais? Uma lástima. É aquela Curitiba sem memória cultural. Garanto que o primeiro ônibus ligeirinho já está em algum museu, para dizer de nossa sociedade evoluída e moderna).Fato, fato verdadeiro é que há espaço para todas a vertentes, desde as mais conservadoras até as mais "desencanadas". Basta uma leve percepção e veremos que há espaço para tudo. O que não pode continuar é o discurso monológico e excludente que até agora vinha ocorrendo. Não adianta quererem abafar as novas forças que estão aí com sua juventude, energia, fazendo seus próprios livros, criando editoras etc. O Zoona é uma alternativa mais que legítima de combate aos eventos de entrenimento literário (tipo a última bienal dentro de um shopping center, rídiculo, claro) em que se paga para entrar. Para fechar e, cá entre nós, vocês acham que Leminski, Karam, Snege, Bueno ficariam do lado reacionário? Se ficassem não teriam produzido o que produziram. Recado: que os orgãos públicos de cultura, se não organizam eventos literários desse porte, o que seria obrigação deles também, que ao menos mantenham editais para que se possa continuar o debate que trata da produção literária (pois uma sociedade que não valoriza e estimula a produção não se desenvolve culturalmente, passa a ser simplesmente reprodutora de discursos impostos de fora que muitas vezes não representam uma condição local) e com participação de pensadores desta cidade que sempre ofereceu grandes nomes literários e que vai continuar a oferecer. Parabéns ao Zoona. Parabéns a um setor pensante de Curitiba. Participem, não fiquem em casa lendo os cadernos culturais que pouco dizem. Comprem os livros dos novos autores, conheçam. Literatura não tem que ser aquela coisa chata que inclui sentar numa boa poltrona, se afastar da vida e permanecer dentro de um cânome elitista e reacionário. Pra essa poltrona, sugiro uns pregos. E tenho dito.
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Olá Paulo.
ResponderExcluirTomo a liberdade de incluir na sua lista "dos anteriores, que vem publicando há algum tempo", o seu próprio nome - Paulo Sandrini.
Abraços
Obrigado, pretapato. Ficaria pedante eu me incluir. Pois tento analisar as coisas sem que necessariamente eu reivindique um reconhecimento ou lugar especial. Fico feliz em ver tanta gente fazendo as coisas. Isso é o que me dá mais estímulo. Abraço
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