sábado, 27 de agosto de 2011

primeiro capítulo curto de O Rei era assim

Coloco aqui o primeiro trecho de O Rei era assim. Na coletânea Geração Zero Zero o texto não começa assim, numa espécie de fábula quebrada. Como disse antes o texto é bem maior do que o que foi no GZZ.


"Humilde. Solícito. Sábio. E alguns adjetivos mais [se é que esses, assim isolados, queiram dizer alguma coisa]. Também era um homem magro. Pelos de barba não se deixavam encontrar no rosto sempre liso. Na verdade, o Rei era imberbe e não tinha lá aquela cara de rei. Seu olhar se perdia ao longe, um olhar de quem, talvez, estivesse o tempo todo pensando na existência humana e em como reverter seus reveses; em aliviar o sofrimento das gentes humildes, que sempre foram e sempre serão maioria. Podemos dizer, por esse brevíssimo retrato aqui traçado, que o Rei era mesmo um homem dos melhores. Seu reino ia até o ponto em que chegava a sua bondade e não até a distância que sua vista conseguisse alcançar.
Comia pouco e jamais se queixava. Não exigia as cortesãs em seu leito todas as noites, tardes ou manhãs. Suas roupas eram rotas. Sua coroa e cetro não eram de ouro, muito menos incrustados de pedras preciosas. Aliás, não tinha coroa nem cetro. O mais adequado, talvez, para ele, fosse ter um cajado, se possuísse rebanhos ovinos, equinos, caprinos ou bovinos. Mas não os possuía. E tampouco se acreditava pastor. Muito menos de almas. Esse papel era reservado a Deus, se esse existisse, dizia ele. Só a Deus, a nenhum rei. Nenhum.
Também amava muito a Rainha, que era seu maior ponto de apoio. Respeitava as mulheres e acreditava em amor e compaixão. Em perdão e amizade verdadeira. Em distribuição de riquezas e no poder do conhecimento que buscava transmitir a sua comunidade. Gostava das artes cultas, mas tinha enorme admiração pelas artes populares. Se pudesse, seria muito mais que um mecenas. Todos teriam casas e glebas próprias para plantar e participação nos lucros fabris. Os inocentes não mais apodreceriam na miséria ou nas prisões úmidas e cheias de ratos por crimes que não haviam cometido.
Acontece que esse Rei não tinha mais trono.
Estava desempregado."



Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...