Incurável, doutor!
Houve um tempo de leveza. Um tempo ensolarado. Mas já foi há muito, doutor... Foi bem no início. Acho que na infância. Ou começo da adolescência. É... bem no início. E todo início é uma explosão de luz, não é, não? Fiat lux, doutor! Pois é, se é! E eu digo e afirmo que ali eu vivi na plenitude. Mas foi num tempo, num tempo que vai tão longe! Meu corpo era esguio, minha mente sábia, apesar da inexperiência, sem as adiposidades dos malquereres. E dizem que a experiência ajuda. Maltrata, isso sim. E nos faz maltratar. Na falta dela, da inexperiência, a gente enxerga tudo com olhos de gavião, vê tudo por cima. E também vê tudo com olhos de cobra, um olhar venenoso, pronto pro bote. A gente passa a não crer mais na espontaneidade. Só enxerga com desconfiança. A gente quer porque quer o bem, mas só faz o mal, doutor. O senhor mesmo: acha que melhorou de condição com a experiência? Tem certeza disso? Acho que não tem, não!, não é doutor? Se tivesse não ficava aí pensante, olhando pra essa valise aí cheia de instrumentos cortantes. Posso perguntar a eles, aos seus instrumentos cortantes, se o senhor melhorou ou não com o passar do tempo, se melhorou com a experiência? Isso, doutor, pode fechar a valise. Assim, meio sem jeito. Fecha a boca dela. Não deixa ela falar, não, doutor! Não deixa ela entregar o senhor. Pois é, doutor. Se a gente pensa que melhora com o tempo, s’engana. Só o vinho melhora com o tempo. Nós, doutor, eu mais o senhor, a gente vira é vinagre. Entende?! Por isso, eu digo: pra mim, pro meu caso, não há cura. Tô pagando o preço. Envolvimento com tudo o que não prestava. Esquerda falsa e fascista. Direita liberal e nazista. Todos os coronéis, meus amigos. Articulava. Sujava um com o outro. O outro com um. Todos com todos. Todos contra todos. Mas no fim, quem geralmente paga a conta é o pessoal mais simples e inocente. Paga com penúria e muitas vezes com a própria vida. Quantas vezes não deixei essas gentes numa míngua inapelável. Quando davam ares de querer se rebelar, então... Mandava apagar, calar eles todos.
Ajudei também a eleger uns mancos aí por causa de uns trocados. Muitos trocados, claro. Perdi a ideologia. Essa aí é que vai ainda mais longe no tempo! Fica lá atrás, no tempo fosco. Incontável. No tempo e na memória, foscos. Nem me reconheço naquele magricela que comia o pão que o diabo amassou por uma causa justa. O pão que a elite amassava. Hoje eu é que amasso o pão com ela, e depois dou pros barnabés comerem. E ainda morro de rir. Os barnabés! He-he. Barnabés. Sabe, doutor, comprei meio-mundo: das comunicações, das transações financeiras ilícitas, da politicagem. Jornal, revista, canal de TV, rádio. Deputado, vereador, governador, senador. E agora tenho até site, um site poderoso de tão acessado, nesse negócio aí de internéti que eu não conheço patavina. Essas máquinas aí, o tal de computador, só faltam xingar a gente de tanto que fazem tudo. Mas bem, doutor, já que o senhor está de passagem, eu aproveito pra fazer uma consulta de emergência, pois o meu médico leva horas até chegar aqui, mesmo buscando de avião particular, e aproveito também pra dizer a qualquer doutor que insista [neste caso, o senhor] em algum tipo de tratamento pra mim, que meu corpo só padece por conta daquilo que me pesa n’alma. Queria me livrar de tudo. Começar do zero. Não me envolver com as gentes que me envolvi. Manter minha ideologia. Mesmo que pra mantê-la eu tivesse que permanecer longe, longe do sangue, do lixo e do luxo, essas coisas que tanto, confesso, me atraem, distraem. Pode ser até que não viesse a contestar as injustiças, nada! Mas também não correria o risco de me desviar como me desviei. Nem que fosse ideologia só pra poder meter a cuca mais fresca no travesseiro, de noite. Mesmo que fosse só ideologia sem ação concreta, o que é o mais comum neste mundo. Olhe, doutor, por mais que o senhor ausculte o meu peito, nunca vai poder ouvir a tempestade que apavora o centro nervoso do meu coração todas as horas. Um medo de morrer sujo. Sempre este medo. Mas o pavor que tá comigo, cá no coração, não se mostra assim simplesmente por causa de um besta de um estetoscópio de doutor. Não, senhor! O pavor que mora neste peito não se entrega assim. Tento hoje fazer caridade, pra superar. Filantropia de todas as ordens. Ajudar quem acho que precisa. Valorizar os talentos que encontro por aí. Incentivar. Problema é que me acostumei a não ser contestado na minha má intenção. E quando querem me pisar no calo [ou se percebo muito talento em alguém pra coisas boas: escrever, tocar um instrumento, pintar um quadro — essas coisas que vêm limpas lá do fundo da alma e que são arte] eu logo deixo o bicho ruim que existe aqui dentro do peito me sair pela boca. E aí escorraço o desgraçado. Dano com a vida dele. Viro o mecenas do diabo. Cuspo fogo. Pode ser a melhor pessoa do mundo. E geralmente é. A minha doença, doutor, é a de ter desaprendido a conviver com gente boa. E aí, não tem cura, não é, doutor?
O senhor quer ficar pra jantar, o senhor mais o seu companheiro aí? Tem reunião política hoje à noite aqui na fazenda. Na verdade, é ao lado dessa gente que não passo mal. Ah, não passo, não, mesmo que queira. Meus iguais. É a minha natureza, doutor. O senhor sabe por quê, hein, doutor, por que eu não passo mal? Põe, então, seu estetoscópio aqui, ó. O que me faz bem, muito bem pro peito o seu estetoscópio vai poder... claro que vai poder constatar. Porque meu peito endiabrado mente, doutor. Mente, mas não engana.
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