sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Trecho de uma novela nova. A narração é feita por um casa, que é personagem principal... e talvez única. Contudo, ainda está sem título.

Para Wilson Bueno


"Tenho certeza de que vocês [leitor, leitora, leitores, leitoras] esperam que eu conte das famílias que aqui viveram dentro de mim, seus hábitos, cultura, língua, feições, roupas, tudo o mais que possa ajudar a enformar seres humanos e a época ...[com todos os seus matizes de sentimentos individuais, históricos, sociais, econômicos etc. etc.] em que estiveram inseridos. O que tenho a lhes dizer é que, em verdade, não estou aqui para falar de humanos ou da condição humana. Já ouvi dizer, quando um professor de literatura aqui vivia, e vou citá-lo só para que não me acusem de não falar de homens, que a literatura, dizia ele, e acho que toda a crítica lugar comum diz isso, sempre trata da condição humana. Mentira, conversa fiada, e estou cá para provar que não, sou uma casa e a história de uma casa é a que vou contar. E, aliás, me dou ao direito de, como um escritor de narrativas curtas, fazer meu recorte, selecionar um ponto de partida e um de chegada, e óbvio que, assim sendo, estou pensando em uma estrutura clássica, com começo-meio-fim, essa fórmula tão em desuso já há décadas, mas que para mim muito me satisfaz, pois não nasci em tempos hipermodernos, e se não tenho bem a certeza de quanto tempo faz que me erigiram neste local, ao menos, cá comigo, aqui dentro de mim, no meu âmago, como dizem vocês humanos, tenho essa sensação clara de que não vim ao mundo em tempos ultramodernos, muito menos em tempos pós-modernos, sendo assim não suporto a fragmentação, a falta de ideologia, essas coisas típicas dos humanos da era pós-tudo. E pois, sim, tenho ideologia. Sou uma casa com ideologia. E se a ideologia não faz mais parte dos ideais humanos, então pode-se afirmar que a ideologia já não é uma condição humana. Contudo, pode ser a condição de uma casa ou daquilo que já não é mais estritamente humano.

Se tenho de eleger um recorte, então, um ponto de partida e um de chegada para contar de minha vida, ou melhor, parte de minha vida, então digo que também vou já escolhendo um gênero. Pois a falta de gêneros definidos me deixa um tanto irritada. Essa coisinha tão pós-utópica! Voltando: se eu fosse escrever um livro, com gênero, claro, este seria de contos pelo simples fato de que os contos são mais acessíveis em um mundo em que as pessoas já há muito tempo não têm tempo para nada, e isso inclui a leitura de narrativas muito extensas, que, para mim, trazem consigo um ideal bastante burguês, pois apenas os que têm tempo de sobra e não precisam se preocupar em conquistar dia a dia a sobrevivência e ainda por cima possuem uma poltrona de leitor bastante confortável e cara, e vivem num local silencioso, distante dos burburinhos modernos e pós, é que podem realmente se dar ao luxo de se deleitarem com um livro de quatrocentas páginas repletas de diálogos antecipados por verbos de elocução e travessões. Realmente um desperdício de espaço da página impressa, um crime contra o meio ambiente. Um conto, portanto, vou contar um conto, que é mais acessível, e os leitores podem ler dentro de um coche, bonde, ônibus, metrô, trem, enquanto vão para o trabalho, viajam etc...

Pequeno Gianluca.