segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cabo de aço no pescoço (ou oração de natal)

Quando a noite te engole em canais de TV a cabo e te passa um cabo de aço no pescoço e te enforca até o amanhecer quase todas as noites, você não deve se render às pílulas soporíferas. Procure um canal evangélico, católico. Ouça os pastores. Procure a redenção nos afetos falsos do marketing de jesus. Do deus cruel que antes queria teu sacrifício, tua carne no holocausto, e agora quer teu salário e tua fidelidade. Procure ainda a paz noturna num travesseiro de ervas aromáticas, isso pode te acalmar e te aliviar a consciência de vencedor no mundo do Deus mercado. Ou mesmo faça meditação budista, isso pode te dar a falsa sensação de dever cumprido, de estar ajudando o mundo, criando novas energias enquanto Israel sufoca a Palestina. A China, o Tibete. Ou faça um mantra. Bem, bem sussurado. O silêncio é o que esperam de nós enquanto o mundo estrebucha de dor, às vezes na própria rua da tua casa, do teu bairro, ou no Haiti. Descubra que a redenção kitsch da classe média branca é ir consultar um pai de santo para dar conselhos e se prevenir contra os males enviados a você por invejosos. Tua vida amarrada na boca de um sapo. Sim, a você, dotado até mesmo de uma mediunidade arrogante. Afinal, todos hoje podem ter dons mediúnicos. Mas nada disso pode aliviar se em nossa consciência pulsar uma noite violenta, uma noite insone. Uma noite reverberante de consumidores de crack aí na esquina da tua casa. E tudo que você quer é proteger seu clã. Mesmo que, para isso, tenha que dizimar todo o mal ao seu redor. Crianças, não as suas, inclusive. Uma noite em que políticos fazem desvanecer os direitos básicos daquilo que entendemos por democracia. Se é que isso de democracia não seja a denominação política mais inescrupulosa e falaciosa da atualidade. Se dormimos, temos pesadelos. Se sonhamos, nada pode se aproximar da realidade, a não ser mesmo os simbólicos pesadelos. Estes sim são próximos da vida. A vida miserável dos canais de TV, a vida miserável da classe hegemônica e da proletária. A vida doente de velhos políticos obesos de mau caratismo de tanto se empanturrar da coisa pública.

Agora, são os anúncios de natal. Compremos em lojas que se utilizam de trabalho escravo, na China, aqui, no Timor Leste.
Adquira sua cota de bem estar enquanto na noite dos insones, papai noel entra pela chaminé, que raramente existe em nossos lares tropicais, e borrifa gás de pimenta nos olhos da tua família e ainda por cima leva aquilo (não deixando presente algum) que lhe é mais precioso, sua felicidade comprada em embalagens não recicláveis. E, ainda por cima, leva também seu voto para algum corrupto partidário que seguirá impunemente.
E em breve estaremos felizes outra vez. As telenovelas serão substituídas por programas eleitorais. E o mais que nos ofertarão serão cabos. Cabos de TV para nos enforcar no nosso silêncio roto e conivente, para nos matar, a todos, em vida. Nos canais abertos, não há cabos. Simplesmente aberturas. Grandes buracos negros para onde seremos empurrados. Sempre em silêncio. Ou insones.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...