terça-feira, 16 de julho de 2013


Em qualquer parte (somos todos)

                                               Zagreb, Croácia, 12 de janeiro de 2011.

 

Tudo é zunido distante

Sob e sobre a neve de janeiro

Em Zagreb

Elétricos e carros

Roçam os trilhos de ferro

E o asfalto

Sibilantes

Silentes

Os trens de luzes amarelas

Internas

São estufas

A aquecer um tanto

Os dez abaixo de zero

Aqui de fora

E a transformar

Dentro das cabines

Delgadas

Gente trabalhadora

Em pratos quentes

Para o jantar

Nos Bálcãs

Todos somos

Pratos quentes

Para os próceres da nova Ordem

Não importa se no leste

Ou se viemos do norte

Do Sul

Ou oeste

Todos somos

Pratos quentes

Animais de pés encharcados

Somos

Animais de carne comestível

Armazenados em grandes freezers

Do mundo contemporâneo

Somos

Animais de cascos enlameados

Somos

Animais de pele formada por casacos

De lã e náilon

E assim caminhamos

Conformados

Rumo ao abate

Somos a manada

Na invernada

De pastagem morta

Coberta de bruma

Somos pontos

Vagos

A vaguear

Esperando por revólveres de ferro

A perfurar

Nossos crânios inconscientes

Revólveres de ferro

Do frigorífico multinacional

Exportador de carnes e ossos

Multiétnicos

Somos todos

O mesmo

Somos

Em todas as pastagens

Nas quentes e nas gélidas

Somos

Nos trópicos

E nos subtrópicos

Somos

No infernal calor equatorial

E no clima temperado

Em que nos temperam a carne

E nos retalham em cortes exatos

Para assados

E cozidos

A serem postos à venda

Em hipermercados 24 horas

Ou mesmo em mini-mercados ingênuos

De bairros afastados

De todo o possível cosmopolitismo comestível

E todos temos

Todos

As roupas úmidas

Os cabelos

E a pele

Temos

Um infinito frio interno

Aqui

Deambulando na stari grad

No velho mundo que renasce

A cada nevasca

A cada velha

E nova nevasca

A cada velho

E novo sistema

Mesmo que todos os sistemas

Estejam mortos

Ou sejam o mais do mesmo

Inúteis e cruéis ao mesmo tempo

Mas ainda assim seguimos

Os pés encharcados

De barro e neve

Conformados e álgidos

Calados

Em direção a um caldeirão

De caldo fervilhante

Passivos em passos de gado

Rumo ao abatedouro

Do mundo contemporâneo

Por vezes ainda buscamos

Aquecer nossa miséria

Em cafés cheios de gente

E vazios

De vozes

Sem as vezes

Para trocar palavras

Em cafés

Plenos de olhares cerrados

E bocarras escancaradas

Feito carrancas de embarcações

Guiadas por Carontes

A nos cobrar seus óbolos

Desvalorizados no mercado internacional

Em cafés 

Em que cada mesa

É uma ilha

Povoada por dois ou três

Pessoas confiáveis

Insuspeitas

Até que se prove o contrário

E felizes

Somos

Todos

Se ao menos pudermos pagar

Por nossas bebidas quentes

Assim como o somos 

Nas paragens mais quentes do planeta

Se pudermos ao menos

Pagar por nossas bebidas

Embebidas em álcool e gelo

Para distrair a derrota do destino

De todo o nosso destino

De norte a sul

Somos a encarnação do destino triste

Brumoso e cego

Como agora ele se mostra

Sob as luzes amarelas

E baças dos postes

Dentro de trens e coletivos

De carros que lutam contra o vento

Que vem do norte

Ou do sul

Do oeste

Ou leste

Somos nós também máquinas contra esse vento

Apenas contra o vento

Mas

Uma vez sob nossos tetos às vezes seguros

(Por vezes ameaçados

Por catástrofes naturais

Ou de mercado

Mas disso nem tomamos conta)

Estamos todos bem

De norte a sul

De leste a oeste

Estamos bem

Todos estamos bem

Máquinas contra o vento

E somente contra o vento

E assim corremos nos proteger

Em edifícios

De faces socialistas

Ou em condomínios fechados

De luxo

Nos esquecendo

De que os sistemas

Todos

Estão mortos

Ou são sempre o mais do mesmo

E deles somos apenas os cadáveres

Aqui

Em Zagreb

Ou em Maputo

Em Calcutá

Sacramento

Ou Nagóia

Ou mesmo sob o sol

Falsamente feliz

Da Praia de Humaitá

 

 

 

 

Oficina de Criação com Paulo Sandrini

Oficina de Análise e Criação
Ministrante: Paulo Sandrini
 
 “Escrita literária como
  forma de alteridade”
 
Inscrições: a partir do dia 17 de julho
ver site da FCC.
 
 
Dia/Horário: Sábados, 14h às 18h
 
Local: Palacete Wolf
 
Datas: 24/08, 31/08, 14/09, 28/09, 05/10, 19/10, 26/10, 09/11, 23/11, 30/11.
 
 
O curso
 
"Essa oficina de análise e criação literária surge com a intenção de se produzir textos criativos voltados às questões de alteridade. Ou seja, por que se escreve e para quem se escreve? O objetivo é discutir e produzir — sempre com base, obviamente, na liberdade de expressão e criação dos participantes —  textos criativos e análises literárias que ajudem a reflexão acerca do tempo atual, do tempo em que há um profundo pensamento da produção literária marcada pelo universo do indivíduo isolado, urbano, buscando o registro, pelo literário, de suas projeções muito particulares, o que muitas e muitas vezes desconsidera o interlocutor como fator preponderante para a sobrevivência e ganho de importância do texto literário para a sociedade em geral. Para isso é bom lembrar o tratamento de um tema tão caro à criação artística que é o da Subjetividade. Dentro do pensamento de Sartre, por exemplo, temos que a concepção de subjetividade dá dignidade ao homem, pois não o considera um objeto. Dentro mesmo do existencialismo, tanto quanto do marxismo verdadeiro (segundo Sabato), a subjetividade não é necessariamente individual, já que no cogito o homem descobre não apenas a si mesmo, mas também os outros; e nesse sentido o homem captaria a si mesmo estando diante do Outro, e o Outro é tão certo para ele quanto ele mesmo. A subjetividade seria portanto intersubjetiva, e se realiza a cada momento mediante as atividades dos homens, portanto a realidade não seria unicamente “a realidade do sujeito”. Embora a obra de arte seja produto do indivíduo e de um indivíduo marcadamente singular, como é todo criador, a arte não seria, segundo Sabato, estritamente individual e assim a produção de cada escritor ou artista conclui cabalmente seu ciclo quando se reintegra à comunidade, quando produz e sente a comoção dos que vivem como esse mesmo artista. A arte, afirma Sabato, assim como o amor e a amizade,
não existe no homem, mas entre os homens."
 
Paulo Sandrini



 

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...