terça-feira, 14 de outubro de 2014


O governador Charles Chaplin versus O tempo de Bergson

Um dia desses, durante uma entrevista, me perguntaram — pra mim, que sou um escritor que escreve meio-certo-meio-errado (e isso é pós: moderno, baby-boom, hippie, guerra fria, guerra dos Balcãs, 11 de setembro, reverendo moon, the dark side of the moon, shy moon, ditadura; é muito pós-tudo) — o que eu achava do Aelsinho das Neves. Eu, que sou um escritor meio-politizado-meio-não, respondi que eu achava o cara legal. Legal, eu respondi, enfático com muita ênfase. E aí a mulher, que é a mulher que faz as perguntas lá num programa de tv, de uma tv educativa e pública e imparcial, ela fez a pergunta que mais todos nós escritores meio-politizados-meio-não tememos responder que é quando a pergunta reside numa resposta que tem que mostrar que somos politizados, que neste caso foi um simples:  Por quê. Por que o quê? — engasguei. Por que você gosta do Aelsinho? Aí, eu comecei a pensar, pensar. Mas pensar muito na tv, num programa ao vivo, não dá muito certo porque aí a coisa, da entrevista, fica com tempo morto. E eu pra evitar que o silêncio do tempo morto chegasse à temporalidade mórbida, respondi, com muita empáfia, empáfia de escritor meio-politizado-meio-alienado-meio-não: Porque sim (enfático, sempre enfático). E isso foi um abalo para a jornalista. (Tempo mórbido instalado). E, então, ela, a jornalista de um programa sobre jornalismo intelecto-político, fez hmmmmmmmmmm (o tempo morto se estende com o mantra hmmmmmmmmmmm). Ela completou, Que legal! E seguiu, Mas então, o que está implícito no “Porque sim” que você respondeu? Pois, obviamente um intelectual-escritor sempre pensa no subtexto, nas latências, nos aspectos subjacentes ao discurso, essas coisas? Certo? E eu respondi logo (para não deixar o tempo mórbido crescer ainda mais e chegar a um tempo com obesidade mórbida), Sim, certo (enfático). E o resto? — a mulher emendou. Que resto? (enfático) — fui meio-rápido-meio-não. As latências, o subtexto?— (o tempo na UTI, quase morto pelo meu silêncio). Então, me senti impelido a responder, mas como um intelectual-escritor (de verdade) nunca gosta de ser colocado contra a parede, nunca gosta de se sentir oprimido pelas forças da opressão que são o Estado, as instituições politicamente corretas, os grupos terroristas, os grupos religiosos, os partidos políticos, os nossos parentes (A Família), a empresas e os patrões e a indústria de massa e mais um monte de gente e instituição e grupos opressores do Mundo Opressor, então eu respondi, As latências e o subtexto... — aí fiz uma longa pausa, forcei a respiração no microfone preso na minha gola, perto da goela, para soar alto no áudio, como se fosse uma pausa muito reflexiva, muito intelectual, como se terminasse com infinitas infinitas infinitas reticências (...). A essa altura, a mulher jornalista já estava entre bufando e sorrindo, mas seu sorriso era um esgar, tinha ácido nos cantos dos seus lábios. Ela sorriu para uma das câmeras, no monitor do estúdio vi seu rosto enquadrado, quase em close. Ela disse, Vamos ao primeiro intervalo, e já voltamos com o nosso bate-papo de hoje com o escritor tal, não saia da poltrona, voltamos já...  Logo em seguida, soou um celular (com som abafado) no estúdio, já nesse primeiro intervalo. A jornalista correu lá, fuçou a bolsa, e sacou o aparelho. Deu pra perceber que tinha alguém meio furioso do outro lado da linha. Foi coisa rápida, e ela voltou, se posicionou na sua confortável poltrona de jornalista imparcial da tv pública, acertou a postura, sorriu, vi seu rosto em close no monitor do estúdio e vi o plano se abrindo para esse mesmo estúdio. No monitor, eu sentadinho e a jornalista imparcial de saia com as pernas cruzadas. Ela disse lá umas coisas em que não prestei muita atenção e sorrindo, sempre sorrindo, fez nova pergunta, Por que o senhor, que já vimos elogiando o candidato Aelsinho das Neves num texto do Tabloide Provinciano, por que ou o que o levaria a escolher Aelsinho em vez de outro concorrente, já que naquele texto o senhor não foi exatamente claro, mas deu muito, muito a atender sua preferência pelo neto de Manfredo das Neves? Inflei os pulmões, estiquei as costas no espaldar da poltrona da tv pública imparcial, soltei, devagar, bem devagar o ar dos pulmões, e fui objetivo: Que texto? Tenho escrito vários textos, não me lembro desse ou exatamente desse. A mulher sorria, mas estava furibunda, para o público soou estar numa boa, é o trabalho dela estar numa boa, e sorrindo (sempre) me disse direto-e-reto, Aquele texto em que o senhor começa falando sobre a inexpressividade do discurso da atual presidenta (aliás, só temos uma na história, por isso dizer atual é tautologia — ela completou), da inexpressividade dela, da feiura, da falta de sensualidade dela, do horror que você tinha dela, não dizia nunca o nome dela, como se ela fosse mesmo irrelevante e o senhor nem se lembrasse do nome, aquele texto que foi julgado pela esquerda e por muita gente que nem é da esquerda como um texto misógino e claramente parcial, e que foi publicado no dia tal, do mês tal, pouco antes das últimas eleições para presidente? Respondi, pois, com outra pergunta, Misógino? O que você quer dizer com Misógino? A mulher jornalista sentada de saia justa e com as pernas cruzadas, respirou fundo: Seu texto mostrava a incompetência da candidata, mas não só, mostrava aversão à mulher no poder, entre outras coisas pelo fato de ela ser, simplesmente, mulher, uma mulher sem nome para o senhor; mas, por outro lado, seu texto, quando não era misógino, dizia umas boas verdades sobre o despreparo da candidata, e hoje podemos ver com clareza, tirando a misoginia, que seu texto foi antecipatório do que teríamos depois no governo da presidenta. Eu não gostei de ser chamado de misógino, não gostei, e aquilo foi uma afronta, afinal eu gosto de mulheres, gosto mesmo, acho que as mulheres são fundamentais, pois sem elas a gente nem tinha nascido (e depois de pensar muito, e sempre com esses lugares comuns sobre quem gosta de mulher, mas não sabe o que dizer) eu respondi, simulando estar inconformado com o fato de ter sido chamado de misógino, Olha, não creio ter sido misógino no meu texto. Meus textos são muito mais voltados para a Misantropia do que para a Misoginia, pois sobre o tema da Misoginia não saberia escrever muito bem, simplesmente porque não sou misógino, e a misoginia, se discorresse sobre isso como tema, levaria meu texto a um processo de Entropia, e não sairiam boas ideias, ou ideias claras para o público ler. Agora fui claro? — completei.  A jornalista da tv pública — altamente imparcial, nada governista, de saia justa, na saia justa, e de pernas (cruzadas) de pele lisa-brilhosa-completamente-depilada  —  foi seca: Não, não foi claro, o senhor não respondeu à pergunta, ou grande parte da pergunta. E prosseguiu, séria, seu rosto em close mostrava que alguns jornalistas quando estão bravos seus lábios inferiores tremem levemente ou então as pálpebras, Vamos para mais um intervalinho e voltamos para o terceiro bloco do nosso “Pensado a Política com os Pensadores”.
Durante o intervalo, outro telefonema. Agora diretamente para todos do estúdio, inclusive para mim. Era o governador Carlitos. Já entrou esbravejando, Podem colocar o triplo de intervalo nisso, precisamos ajustar o discurso do entrevistado com o nosso discurso, e prosseguiu falando à jornalista de pernas lisas brilhantes-totalmente-depiladas e cruzadas e a mim, O que é isso de latência, subjacente, tautologia, misoginia, misantropia? Olha, meu assessor anotou quantas palavras o público desconhece; aliás, nem eu conheço essas coisas que vocês estão falando... Precisamos afinar o discurso, definitivamente afinar o discurso. O senhor, disse ele a mim, o senhor já conferiu o depósito na sua conta? Então, não está lá o dinheiro? Como da outra vez, praquele texto que agora você não se lembra, nós do partido depositamos antes de você escrever, não foi? Ele me apertou, e eu não podia negar, Sim, tudo certo com o pagamento governador, tudo certo. Me senti vendido. Mas ser vendido não representa nada quando se trata de escritores. Somos uns inúteis gananciosos com proteínas de sobra no corpo e nos neurônios. E ele, o governador, continuou, vou entrar direto com vocês, no ar, vou conversar com vocês ao vivo, ou seja, por telefone, quer dizer... Bem, é isso, dá mais um pouco de intervalo pra baixar a adrenalina e aí vocês voltam, mas voltam comigo, hein, hein...
Eu sabia que aquela porra não ia dar certo, não ia. Pensei em me controlar, e estava até achando que ia conseguir. Mas aí comecei a pensar no Carlitos. Que o Carlitos é um coronelzinho inculto, que juntou a massa falida da família dele com a massa falida da família da mulher dele pra juntos falirem o estado. E, pior, quanto mais o estado afunda mais o Carlitos viaja pro exterior pra correr de carro. Sim, ele corre de carro. No exterior. Comecei a pensar nessas coisas. Lembrei da vez que meu amigo Assessor de Comunicação me contou sobre quando o Carlitos se reuniu pela primeira vez com partido Azulino dele lá em São Paulo, e ele ligou desesperado pro meu amigo AC perguntando o que ele deveria falar no meio daqueles caras todos, os fodões, o ex-presidente, o candidato a presidente pelo partido, o governador do estado dos SPs, e ele ligou perguntando isso pro AC porque ele, o Carlitos, sabia que lhe faltava massa cinzenta, faltava repertório, que ele era mesmo analfabeto no meio daqueles caras todos lá... Lembrei a entrevista cultural com o Carlitos pro Tabloide Provinciano falando que o último grande show que ele tinha visto era o do Zezé de Alencar & Marciano, lembrei a Festa Country em que a mulher, me disseram e me mostraram fotos, em que a mulher do Carlitos ficou bêbada e começou a falar besteiras e a pôr as tripas pra fora. Lembrei a vez que o Carlitos, essa especiezinha-pífia de grande ditador, falou que os caras da poliça não divia estudar que estudar só criava gente que depois ia querer contestar, se rebelar, ou coisa do tipo... Lembrei as pessoas tão incultas quanto o Carlitos que cercam o Carlitos no palácio do governo, lembrei os passeios de moto do Carlitos pela cidade, o Carlitos playboy, que faz bronzeamento artificial, lembrei o Carlitos com aparelho nos dentes pra fazer a correção das presas e deixá-lo, ele, o Carlitos, mais ainda feito um boneco de cera, mais ainda sem expressão. Pensei e pensei no Carlitos jogando um balão pra cima e controlando o balão, jogando pra cima, jogando, e esse balão é o mundo, o globo terrestre: uma bola, que o Charles Chaplin controla, que o Carlitos, o Chaplin, vestido de Hitler, controla, controla feito uma bola, mas acontece que o Carlitos, o nosso Carlitos, não é o Hitler, nem o Chaplin, nem o dono do mundo, feito ele pensa ser, o Carlitos o Carlitos o Carlitos que voltou junto com a volta do intervalo, e eu ainda levei um tempo pra entrar no ar, e só fui entrar de vez, absorto que estava nessas considerações sobre o Carlitos, só entrei quando ouvi o Carlitos perguntando, Senhor tal, o senhor me ouve. Eu disse que sim, Sim, ouço, governador. Ele continuou e a jornalista da tv pública, imparcial, a jornalista com esgar rasgando os cantos da boca, a jornalista de pernas lisas-brilhosas-totalmente-depiladas de pernas de fora numa saia justa, de pernas cruzadas, a jornalista tentava fazer cara de simpática pro público, e então Carlitos fez a pergunta, Então, senhor escritor tal, por que motivos o senhor tem preferências pelo Aelsinho das Neves, nosso candidato? Nessa hora, me vinguei do Carlitos, deixei o tempo morto morrer ainda mais, deixei o vácuo entrar no estúdio, vazar pelos cantos das tevês nos lares dos telespectadores, fiz o tempo morto fazer com que todos no mundo naquele momento quisessem morrer, fiz do tempo mórbido o tempo exato da política, fiz da morte do tempo a metáfora do nosso tempo morto, deixei a morte se expandir no tempo e cruzar todos os tempos possíveis que já estavam mortos ou no limbo ou na UTI, deixei, finalmente, outro tempo, o tempo de Bergson invadir o tempo morto e mórbido e dar vida a esse tempo, tornando esse tempo indivisível, incompreensível, não mais quantitativo, o tempo vivido qual passado vivo no presente e aberto ao  futuro, o tempo vivido e experimentado pelo espírito, o tempo imprevisível, o tempo qual novidade incessante, como fluir contínuo, deixei o tempo da memória o tempo da memória o tempo da memória invadir invadir invadir (...). Então, respondi: Governador Carlitos, eu gosto do Bergson porque para o Bergson (...).


Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...