quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Eu adoro cultura (vai uma maconhinha aí?)



Eu adoro cultura. Acho que a cultura é necessário. Sou um político e vejo a importância da cultura na vida da sociedade. A sociedade também é necessário.  As pessoas são parte da sociedade e a sociedade faz parte da cultura, ou não faz? Acho que faz. Sim, faz. Então. Por isso cultura é necessário no meu plano de governo. Afirmo que a cultura será disponível para todos no meu governo. Ter cultura é necessário. Estudar é necessário. Com cultura nós não brinca. O povo sabe da importância de ter cultura. Meus filhos que tiveram cultura sabem bem disso. Um médico e outro advogado. O mais novo, advogado, vai virar político. Ele tem cultura. Ele adquiriu na França. Mandei ele pra França pra tomar um banho de cultura. Me disseram que os franceses não gostam de banho de água e sabonete e xampu, mas eles gostam de banho de cultura. Meu filho viu a Monalisa. Foi o Picasso que pintou, não foi? Ah, certeza que foi. Meu filho disse. Então, ele foi estudar lá depois que se envolveu num acidente com mortes. Disseram que ele foi culpado. Mas não esperei pra saber se ele era ou não possuidor de culpa. Culpa é necessário pra gente se reconciliar com a sociedade. Meu filho foi se reconciliar na França. Liberdade, igualdade e fraternidade. Esses papos, sabe. Coisa de francês. Eu particularmente não gosto disso. Acredito que as pessoas têm que ter mérito. Bandido tem que ser preso, sem liberdade e de preferência com pena de morte. Os pobres podem e deve competir com os ricos por igualdade. E fraternidade?... Bem, cada um escolhe seu irmão, creio que a liberdade funciona melhor aonde a gente pode encontrar nossa fraternidade nos irmãos que são da mesma classe que a gente, do mesmo nível, entende. Eu acrescento à Liberdade, Fraternidade, Igualdade, eu acrescento a Cultura. Com C maiúsculo. Por isso, eu já tenho até o nome do meu novo secretário de cultura. Ele passou por várias experiências empresariais, de gestão, logística, aplicação na Bolsa de Valores. Ele tem valores muito sólidos, sabe. Tudo de bom pra cultura, ele. Ele e a cultura são necessário um pro outro. Meu secretário da cultura entende de cinema. Viu até uns filmes do.. Do... Ah, daquele diretor francês. Sempre francês, porque daí as pessoas acham que é bom. É francês é bom. Mesmo o queijo com cheiro de chulé se for da França tudo mundo gosta. Queijo é cultura. A França é cultura. É tanta cultura que às vezes matam gente que faz cultura pra diminuir um pouco a gente que faz cultura de tanta gente que tem. É o caso do Charlie Abdul (Abdul, né?). Mas meu secretário, falando mais dele, ele também entende de teatro. Ele adora espetáculos com anões. É a inclusão. Já falaram que ele era meio frique. Acho que é isso, frique. Eu não gosto particularmente de teatro. Acho que as pessoas fazem teatro pra ficar pelados. Pelados. Mas isso se chama liberdade de expressão. Eu respeito. Acho a liberdade de expressão necessário. Eu gosto muito do teatro que vi na escola de um dos meus filhos quando eles eram mais novos. Era um teatro educativo. Falava pras crianças do perigo das drogas, dos tarados (aqueles fdp que ficam na internet, os pedófilos), falava que a gente devia respeitar tudo mundo igual e não bater no amiguinho que volta na mesma van que elas as crianças que pagavam escola, não bater no amiguinho que tem bolsa 100% na escola deles, as crianças que pagam 100%, não bater no amiguinho que é filho do jardineiro da escola que alguns pagam 100% e outros não pagam 100% e ganha bolsa porque são os filhos dos empregados. Acho que isso é decente. Respeitar o filho do jardineiro sem bater nele é necessário. A escola promove uma consciência pras crianças. E apesar de achar a cultura necessário, acho que se a gente tivesse mais dessas escolas que uns pagam 100% e outros ganham bolsa 100% por serem os filhos dos empregados, a gente, com essa distribuição de bolsas em vez de renda, a gente nem precisava de secretaria, ministério da cultura. Só essas escolas que fazem teatro educativo, com inclusão dos filhos dos jardineiros, seria suficiente. E também penso na inclusão dos anões. O nome disso não é inclusão das minorias? Sim, das minorias menores. Mas falando do teatro...  Apesar dos atores só quererem ficar pelado, acho que o teatro educativo pode mudar uma sociedade toda.
Outra coisa que eu também respeito na cultura é aquela gente que lê. Falei pro meu secretário da cultura que vamos ter um jornal na biblioteca pública. Um jornal só pra literatura. Ele disse que já tem um carinha pra cuidar disso, lá na biblioteca pública. O carinha lê bastante. Escreve bastante. Lançou um livro sofrido. Pra gente chorar mesmo. Mas também o carinha dizem que é osso duro. Ele não vai publicar nada de gente comunista. Essa gente suja da esquerda.  Comunistas sujos. Isso acho bom. Temos que preservar a cultura. Livrar a cultura dessa gente que os outros chamam de gente politizada. Acho que artista politizado não combina. Artista tem que falar de coisas bonitas. Coisas leves, que enobrece nossa alma. Outro dia eu tava lendo o texto de um escritor que me deram o livro dele, e o texto eu não entendia nada, só que ele falava um pouco de uma história da política. Ele era da esquerda. Só isso eu entendi. Livro ruim. Mas também outro dia eu li um livro de um baixinho que escreve sobre amor e acidentes. Desse eu gostei, é mais normal. Falava de amor, apesar dos acidentes. Depois fui ver o baixinho num programa de tv dando opinião sobre várias coisas. Gostei do que ele falou. Ele atacou esse governo sujo de esquerda que está aí. Ele lia de um papel A4  as opiniões dele. Tudo muito sério e confiável. Desse eu gostei. Ele nos representa. Falei pro secretário que o carinha do jornal da biblioteca pública deve trazer esse baixinho aqui na capital pra falar pras pessoas daqui. Falar sobre amor e coisas bonitas. O mundo precisa de beleza. De coisa feia já chega o que os meus amigos políticos estão fazendo na política.
E se eu não falar de música, sei que vão falar mal de mim. Eu gosto de música também. Eu adoro música. Minha família adora música. Minha família toda adora. Somos cultos nesse aspecto que diz respeito acerca da música. Uma vez um amigo meu fez um elogio pra nós da minha família dizendo que a gente era... A gente era... Ecléticos. Isso. Ecléticos. É bom ser ecléticos. Gostar de um pouquinho de tudo. Por que é que a gente deve fazer diferença entre as músicas? Ouvir um pouquinho de sertanejo universitário, de funk, axé, pagode, rock... A gente só não gosta de música chata. Porque existe uma música que é chata, certo? Existe sim. Tem música que a gente não entende a letra. Não entende por que estão tocando daquele jeito que eles chamam de alternativo, experimental. Pra isso, somos conservadores em casa. Apesar da gente ser ecléticos. Não gostamos de música chata. Só isso. Acho que música boa tem que ser igual queném o livro do escritor baixinho que fala de amor e é contra a esquerda, é queném o teatro educativo da escola dos meus filhos que fala pra não bater no amiguinho filho do jardineiro que vai junto na mesma van que eles que pagam 100% da mensalidade, música boa tem que ser como o teatro que inclui as minorias menores, os anões, por exemplo.
De dança, eu sou suspeito pra falar. Confesso que não entendo nada de dança. Minha mulher podia falar melhor que eu. Ele já dançou num programa de TV famoso no país inteiro. Ela dançava num programa famoso que passava todos os domingos pro país inteiro. Eu lembro disso. Eu via as coxas dela na tv. Mas isso foi só até eu conhecer ela num coquetel do partido e ela se comprometer comigo. Aí casamos e ela parou de mostrar as coxas pro país inteiro. Portanto, acho cultura necessário. Conheci minha mulher por causa da cultura da dança das coxas que passavam no país inteiro.
Prometo ainda que vou incentivar a economia criativa. Por exemplo, incentivar a venda de quadros de arte na feirinha de domingo. Incentivar a venda de doces típicos da nossa região. Vou incentivar o gosto pela nossa indentedade cultural. Vou incentivar a moda. Mas tem que ter um limite, roupa que deixa as parte do corpo de fora... Ah... Isso a gente tem que pensar bem, gente. Olhem só o que pode virar nossa sociedade. Cultura bem feita respeita também as tradições, a família, a religião. Também vou incentivar a arte religiosa. Só temos que pensar bem nas coisas ligadas com o mal e que são contra Deus. Porque tem religiões que não fazem bem pra Deus e pros homens da sociedade em geral no seu todo. Meu secretário vai mandar colocar um edital no site da Secretaria de Cultura, um edital que dá chance pra todos os artistas, pra todas as religiões, culinária, moda, até pra agricultura, que também é cultura, não é, não? É sim. Eu sou um democrático e não um comunista que não gosta de Deus e acha que agricultura é algo pra se fazer no coletivo. Agricultura é direito de quem produz mais e melhor. Agricultura neste Estado é cultura. Grande Cultura. Vamos investir maciçamente em agricultura. No agronegócio. Na cultura de cana, soja, café, tabaco etc. As empresas produtivas que geram a renda deste Estado também vão poder fazer sua cultura com os editais que vamos colocar no ar no site da Secretaria de Cultura. 

Ultimamente os artistas vêm fazendo muitos manifestos porque eu cortei os apoios dos projetos culturais deles dois anos atrás. E agora acabei de cortar de novo. Mas já tem um edital novo. Se tiver dinheiro no caixa do governo, os artistas vão sossegar. Mas se a gente gastar mais do que pode com o agronegócio, com os prejuízos no setor de abastecimento de água, por exemplo, porque as empresas privadas não estão cumprindo a parte delas no negócio, aí eu tenho que cortar a cultura. Tenho que cortar na educação. É sempre assim. Nem tudo tem o mesmo peso, a mesma importância. Artista faz arte porque gosta. É dom. Gosto. E eu não gosto de artista reclamando. Eu gosto de cultura. Falei que gosto de cultura, não que gosto necessariamente dos artistas. Principalmente quando eles ficam fazendo protesto. Aí eu mando cortar todas as verbas. Chamo o Roberto Carlos pra fazer um baita show e o grosso da população aprova. Trago uma peça no teatrão da capital com uns ator de novela, e todo mundo aprova. Mando só trazer artista de fora pros daqui ficar chupando os dedo. Pago bem pros de fora. Os daqui ganham bem menos que 1/4, quando muito. Eu gosto de cultura. Gosto de Deus. Gosto do respeito da democracia. Gosto das crianças que respeitam o filho do jardineiro. Gosto do tema do amor. Paz e amor. Não é? Claro que é. Artista, porra, é tudo bichogrilo. Paz e amor, baby.
Vai uma maconhinha aí?

Pequeno Gianluca.