quinta-feira, 11 de junho de 2015

A busca da felicidade como valor (de troca) via Detox

Paulo Sandrini



  
Outro dia, entrei numa padaria, próxima a um hospital, e lá estavam algumas médicas antes de entrar no plantão da manhã. Todas elas com garrafinhas de Detox em mãos, depois nas bocas. Detox é bom em jejum, explica uma delas. Limpa o organismo e faz emagrecer — completou outra. Meu dia começou então com mais uma promessa de felicidade e satisfação à vista: o Detox (sucedâneo da era Botox?). O produto, assim como o budismo, o espiritismo, o Santo Daime (essas novas e não tão novas crenças da classe média em busca — apenas metafórica, é bom que se entenda — de um Nirvana na Terra) nos oferece a paz, sim, oferece, tanto do organismo, quanto da alma. Isso indubitavelmente nos traz mais alegria, energia vital, felicidade. Cuidar bem do corpo, podemos dizer, é um novo valor, digo novo porque ele veio com mais força nos últimos tempos, e estamos em uma época de verdadeiros seres com corpos Olímpicos; não, de esportistas, mas com inspiração nos deuses do Olimpo que Hollywood passou a criar em cativeiro e espalhou, em parceria com a indústria da moda e dos produtos de beleza e higiene, pelo mundo. Deixar que nos cuidem da alma é outro valor em voga.  Não somos que nós cuidamos, atualmente vivemos a terceirizar nosso desenvolvimento anímico para coisas como autoajuda, espiritismo, budismo, Santo Daime, Botox, Ioga. E apesar de tudo estamos perdendo cada vez mais a consciência da morte, talvez por isso a felicidade alienada seja possível (mais ou menos assim já dizia o pessimista Emil Cioran). Ou mesmo a morte desapareceu da perspectiva da vida moderna, como alertou Octavio Paz. As religiões cristãs mais convencionais, com suas técnicas de sofrimento em vida para ganhar o paraíso depois da morte, estão em baixa entre a classe média alta e entre a elite intelectual e financeira. A elite intelectual, hoje, junto da classe média, seja talvez a maior deformadora de opinião, pois também ela, a elite, acredita numa vida Detox baseada num certo orientalismo religioso, ou mesmo em ritos  primordiais pagãos  como forma de felicidade com valor de troca, pois sendo feliz, realizado, eu não incomodo o mundo com meu pessimismo crítico (vale para os intelectuais). Eu apenas me realizo e ajudo a realizar o mercado, a carreira, a alteridade apenas como forma de aliviar o meu carma (caso do espiritismo) e não o do outro (sendo bem básico mesmo). Já os budistas parecem preservar mais os bichinhos do que as pessoas, e, com isso,  sem se darem consciência, parece, parece, (risos), reforçam a nova onda de felicidade com animaizinhos de apartamento defecando por tudo e deixando um cheiro horrível para apreciação dos vizinhos, fora os latidos esganiçados em horário de silêncio. Ainda: uma formiga tem o mesmo peso para a vida na terra que um ser humano. A purificação via Detox explica.

O Detox por outro lado não desintoxica os preconceitos e as más intenções, por mais que nos esforcemos em nossas purificações. Se não estamos mais felizes, por exemplo, com a nossa democracia, tentamos lançar um Detox no organismo da Constituição para que se possa introduzir nela a possibilidade de uma nova ditadura. O espiritismo, o budismo e Santo Daime (paciência) não reforçam de todo nosso desenvolvimento anímico quando a gasolina sobe e a distribuição de renda com incentivo público continua. Aí, somos prejudicados em nosso projeto de felicidade. Somos frustrados em nosso grande projeto de Nação Feliz. A igualdade não necessariamente gera felicidade. A meritocracia precisa continuar, tanto no mercado quanto nas questões de purificação via Detox ou via crenças no Santo Daime e em Alan Kardec ou em Buda. O acesso nunca será para todos. Cada um com seu carma. E cada um acha um modo de ser feliz, dependendo de sua condição existencial, material e de mérito. A igualdade promove felicidade para alguns e indignação para outros. É bem verdade. O Detox existe para purificar nossos fígados contra o que se dão bem, também é verdade.

Mas também diremos: o Detox nasceu pra ter tudo, tudo a ver com a vida baseada em alimentos orgânicos que leva ao desenvolvimento intelectual e a uma alma purificada, elevada e evoluída, e que por isso mesmo precisa de consciência ambiental e corporal (meu corpo é minha maior ponte entre mim e o mundo – pode ser o mundo dos espíritos, claro, dirão outros). Toda essa consciência da saúde do corpo, da alma, essa consciência ambiental exacerbada (enquanto levamos embalagens plásticas das garrafinhas de água mineral para formar montanhas na Índia, e em breve também as garrafinhas de Detox), essa consciência também  precisa, e sobretudo, ser contra a existência da morte, e só nesses termos a morte é lembrada: como algo a ser ao máximo evitado. É a morte como próprio esquecimento da morte a servir de princípio para a vida eterna na vida carnal. Na vida Detox, animizada com animaizinhos do budismo, com alminhas boas do espiritismo, com o equilíbrio antipsicopatia da ioga, com o veneno bacana dos indígenas consumido pelas gentes dos grandes centros em busca de elevação para além dos arranha-céus.


Pequeno Gianluca.