sexta-feira, 28 de julho de 2017

O início e fim do Nada



Minha vida é um onagro solto no deserto. Não tem controle. Sou o homem selvagem anunciado na bíblia pelo próprio deus a Hagar, mãe de Ismael, potro selvagem (que viverá longe de seus irmãos e seus irmãos, distantes dele). A vida é o conflito que se estende até a morte. Quem sabe, depois dela, até um estúpido repositório das almas para onde tudo retorna estilhaçado, em cacos existenciais. Sartre acha que entendeu algo. Na verdade, Dostoiévski entendeu tudo antes de Sartre, esse narigudo francês responsável por algumas gerações ficarem sem tomar banho. Eu quero que Sartre se afunde em seu existencialismo de araque. Mario Levrero quis morrer em Montevidéu quando a vida ainda lhe apontava algumas chances. Foda-se Sartre. Levrero é maior, se fodendo na terra de Lautréamont. E eu pergunto O que você entendeu dos Cantos de Maldoror. Você pode achar que entendeu Isidore Ducasse. Mas não entendeu. Quem entendeu a farsa foi Carpentier. O reino deste mundo é mais complexo e necessita de uma fé que não está na taumaturgia burocrática dos fabricadores do maravilhoso. Você, meu caro leitor, com toda a ofensa necessária e indispensável, não sabe nada de crenças. Não sabe. Você quer ser o CEO da multinacional. Você quer ser o gestor que desperdiça nosso tempo com planilhas coloridas do Excel. Você gasta seu tempo como um workaholic e deixa a vida se esvair entre telefonemas e mensagens no whatsapp. Você vende sua alma enquanto até o rídiculo Fausto ri de você e suas paixões pela técnica e pelo progresso. Do pouco que me resta de dignidade nesta vida estúpida eu também rio de você, com seus planos mórbidos de aposentadoria e seu indigno envelhecimento (não, você não viverá vinte e quatro anos sem envelhecer, pelo contrário). Mas contra tudo e todos, existe a má vontade, o não-fazer, a procrastinação. Você enrola, mas diz que não. Você não sabe mesmo de Mario Levrero. E se sabe não aproveitou nada do que escreveu esse procrastinador. Você foi a Montevidéu desejando as ruas de Punta del Este. Você foi a Montevidéu buscando a limpeza das ruas de Viena. Mas Viena não existe. Viena é um enclave perdido numa Europa fodida. Neonazista. Viena é a limpeza étnica. Viena saiu de moda desde que condenou Semmelweis. {intervalo para um cigarro}. Montevidéu é carcomida e muito mais velha. É fim de linha. É dali para a Santa Maria de Juan Carlos Onetti. Juntando todos os nossos cadáveres numa vala comum, numa baía de água escura e fétida que afoga todo o nosso erotismo.Você é a derrota da sensualidade. A derrota da libido. Você é puro Tânatus e crê cegamente que a vida lhe reserva algo de especial. Um conselho: vá passear com Emil Cioram à beira do abismo. Mantenha a navalha perto do pulso. Essa é a nossa cápsula de cianureto contra toda forma de tortura cotidiana.
E enquanto você se senta com os seus e morre numa burguesa sala de jantar repleta de objetos kitsch , um onagro corre solto no deserto buscando paixões enfurecidas. E em ti, em ti só se encontra a areia estéril de uma ampulheta acelerada indicando o início e o fim do Nada.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...