segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cabo de aço no pescoço (ou oração de natal)

Quando a noite te engole em canais de TV a cabo e te passa um cabo de aço no pescoço e te enforca até o amanhecer quase todas as noites, você não deve se render às pílulas soporíferas. Procure um canal evangélico, católico. Ouça os pastores. Procure a redenção nos afetos falsos do marketing de jesus. Do deus cruel que antes queria teu sacrifício, tua carne no holocausto, e agora quer teu salário e tua fidelidade. Procure ainda a paz noturna num travesseiro de ervas aromáticas, isso pode te acalmar e te aliviar a consciência de vencedor no mundo do Deus mercado. Ou mesmo faça meditação budista, isso pode te dar a falsa sensação de dever cumprido, de estar ajudando o mundo, criando novas energias enquanto Israel sufoca a Palestina. A China, o Tibete. Ou faça um mantra. Bem, bem sussurado. O silêncio é o que esperam de nós enquanto o mundo estrebucha de dor, às vezes na própria rua da tua casa, do teu bairro, ou no Haiti. Descubra que a redenção kitsch da classe média branca é ir consultar um pai de santo para dar conselhos e se prevenir contra os males enviados a você por invejosos. Tua vida amarrada na boca de um sapo. Sim, a você, dotado até mesmo de uma mediunidade arrogante. Afinal, todos hoje podem ter dons mediúnicos. Mas nada disso pode aliviar se em nossa consciência pulsar uma noite violenta, uma noite insone. Uma noite reverberante de consumidores de crack aí na esquina da tua casa. E tudo que você quer é proteger seu clã. Mesmo que, para isso, tenha que dizimar todo o mal ao seu redor. Crianças, não as suas, inclusive. Uma noite em que políticos fazem desvanecer os direitos básicos daquilo que entendemos por democracia. Se é que isso de democracia não seja a denominação política mais inescrupulosa e falaciosa da atualidade. Se dormimos, temos pesadelos. Se sonhamos, nada pode se aproximar da realidade, a não ser mesmo os simbólicos pesadelos. Estes sim são próximos da vida. A vida miserável dos canais de TV, a vida miserável da classe hegemônica e da proletária. A vida doente de velhos políticos obesos de mau caratismo de tanto se empanturrar da coisa pública.

Agora, são os anúncios de natal. Compremos em lojas que se utilizam de trabalho escravo, na China, aqui, no Timor Leste.
Adquira sua cota de bem estar enquanto na noite dos insones, papai noel entra pela chaminé, que raramente existe em nossos lares tropicais, e borrifa gás de pimenta nos olhos da tua família e ainda por cima leva aquilo (não deixando presente algum) que lhe é mais precioso, sua felicidade comprada em embalagens não recicláveis. E, ainda por cima, leva também seu voto para algum corrupto partidário que seguirá impunemente.
E em breve estaremos felizes outra vez. As telenovelas serão substituídas por programas eleitorais. E o mais que nos ofertarão serão cabos. Cabos de TV para nos enforcar no nosso silêncio roto e conivente, para nos matar, a todos, em vida. Nos canais abertos, não há cabos. Simplesmente aberturas. Grandes buracos negros para onde seremos empurrados. Sempre em silêncio. Ou insones.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Trecho de uma novela nova. A narração é feita por um casa, que é personagem principal... e talvez única. Contudo, ainda está sem título.

Para Wilson Bueno


"Tenho certeza de que vocês [leitor, leitora, leitores, leitoras] esperam que eu conte das famílias que aqui viveram dentro de mim, seus hábitos, cultura, língua, feições, roupas, tudo o mais que possa ajudar a enformar seres humanos e a época ...[com todos os seus matizes de sentimentos individuais, históricos, sociais, econômicos etc. etc.] em que estiveram inseridos. O que tenho a lhes dizer é que, em verdade, não estou aqui para falar de humanos ou da condição humana. Já ouvi dizer, quando um professor de literatura aqui vivia, e vou citá-lo só para que não me acusem de não falar de homens, que a literatura, dizia ele, e acho que toda a crítica lugar comum diz isso, sempre trata da condição humana. Mentira, conversa fiada, e estou cá para provar que não, sou uma casa e a história de uma casa é a que vou contar. E, aliás, me dou ao direito de, como um escritor de narrativas curtas, fazer meu recorte, selecionar um ponto de partida e um de chegada, e óbvio que, assim sendo, estou pensando em uma estrutura clássica, com começo-meio-fim, essa fórmula tão em desuso já há décadas, mas que para mim muito me satisfaz, pois não nasci em tempos hipermodernos, e se não tenho bem a certeza de quanto tempo faz que me erigiram neste local, ao menos, cá comigo, aqui dentro de mim, no meu âmago, como dizem vocês humanos, tenho essa sensação clara de que não vim ao mundo em tempos ultramodernos, muito menos em tempos pós-modernos, sendo assim não suporto a fragmentação, a falta de ideologia, essas coisas típicas dos humanos da era pós-tudo. E pois, sim, tenho ideologia. Sou uma casa com ideologia. E se a ideologia não faz mais parte dos ideais humanos, então pode-se afirmar que a ideologia já não é uma condição humana. Contudo, pode ser a condição de uma casa ou daquilo que já não é mais estritamente humano.

Se tenho de eleger um recorte, então, um ponto de partida e um de chegada para contar de minha vida, ou melhor, parte de minha vida, então digo que também vou já escolhendo um gênero. Pois a falta de gêneros definidos me deixa um tanto irritada. Essa coisinha tão pós-utópica! Voltando: se eu fosse escrever um livro, com gênero, claro, este seria de contos pelo simples fato de que os contos são mais acessíveis em um mundo em que as pessoas já há muito tempo não têm tempo para nada, e isso inclui a leitura de narrativas muito extensas, que, para mim, trazem consigo um ideal bastante burguês, pois apenas os que têm tempo de sobra e não precisam se preocupar em conquistar dia a dia a sobrevivência e ainda por cima possuem uma poltrona de leitor bastante confortável e cara, e vivem num local silencioso, distante dos burburinhos modernos e pós, é que podem realmente se dar ao luxo de se deleitarem com um livro de quatrocentas páginas repletas de diálogos antecipados por verbos de elocução e travessões. Realmente um desperdício de espaço da página impressa, um crime contra o meio ambiente. Um conto, portanto, vou contar um conto, que é mais acessível, e os leitores podem ler dentro de um coche, bonde, ônibus, metrô, trem, enquanto vão para o trabalho, viajam etc...

sábado, 22 de outubro de 2011

Do Hipercapitalismo

O capitalismo chegou a um estado de paroxismo, após sua Contra-reforma depois da queda do socialismo na década de 1980, porque não soube nem se reconhecer como Hipercapitalismo. Não existe pós-modernidade. Existe Hipercapitalismo. As ideologias não morreram. Sobrevivem fortemente no discurso mercadológico, estatal e da indústria cultural de massa. A morte do sujeito já foi declarada, mas acontece que o sujeito nunca foi tão sujeitado quanto hoje. Então isso é papo furado de certas epistemologias caducas. O que os deslumbrados, o ingênuos e os alienados chamam de pós-modernidade eu chamo Hipercapitalismo. À crise do sistema financeiro mundial que hoje vemos, não chamo de crise passageira,chamo de paroxismo, crise terminal. O capitalismo pode não morrer, mas o Hipercapitalismo tem seus dias contados. Contem com isso.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

LANÇAMENTO DA SÉRIE LIVROS QUE NÃO PARAM EM PÉ





KAFKA EDIÇÕES VOLTA À CENA. AGORA COM MAIS 3 TÍTULOS: "COM QUE SE PODE JOGAR", ROMANCE DE LUCI COLLIN (MENÇÃO HONROSA NO PRÊMIO CIDADE DE BELO HORIZONTE); "O REI ERA ASSIM", NOVELA DE PAULO SANDRINI, CUJA VERSÃO BEM REDUZIDA SE ACHA NO LIVRO "GERAÇÃO ZERO ZERO", ORG. POR NELSON DE OLIVEIRA COM OS SEUS 21 MELHORES ESCRITORES SURGIDOS NO COMEÇO DO NOVO MÎLÊNIO NO BRASIL; "OS HÁBITOS E OS MONGES", LIVRO DE NARRATIVAS DE ASSIONARA SOUZA.

É A SÉRIE LIVROS QUE NÃO PARAM EM PÉ.


E ANO QUE VEM SERÃO MAIS SETE OU OITO NOVOS TÍTULOS.


ESSE ANO AINDA TEMOS A PUBLICAÇÃO DA NOVELA "CLOACA", DE ANTONIO CESCATTO.


MAIS NOVIDADES AINDA TEREMOS ANO QUE VEM. ESPERO QUE A CIDADE GOSTE DO QUE VEM POR AÍ. SERÁ COISA MUITO BOA. CERTEZA.



LANÇAMENTO: 19 DE OUTUBRO DE 2011
HORÁRIO: 21 HORAS
LOCAL: JOKERS
CIDADE: CURITIBA


DETALHES VER NO CONVITE ACIMA

domingo, 25 de setembro de 2011

Eu Rock in rio de tudo e você?

Essa é a cobertura especial de Paulo Sandrini sobre um dos maiores festivais de música do mundo. O que não quer dizer que seja um dos melhores, como se pode perceber. Direto da Cidade do Rock veja o que a imprensa não está falando sobre o RIR (a sigla do evento é sugestiva)


RECLAMAÇÕES SOBRE O FOX ROCK IN RIO

Consumidores que compraram o modelo da Volks Fox Rock in Rio têm levado o carro de volta às concessionárias com reclamações do tipo:

1- esse carro tá parecendo o show da Kate Perry, não engrena nem a pau;

2- tem uns barulhinhos que vêm da parte eletrônica e lembram muito a vozinha com efeito de esquilo espacial da Rihana;

3-o motor tá feito o show dos Paralamas do Sucesso, totalmente fora do ponto;

4- esse carro tá parecendo a Cláudia Leite, vem pelado de fábrica;

Contudo, também há consumidores satisfeitos, porque o porta-malas é o maior da categoria, consegue carregar NX Zero e Stone Sour na mesma viagem...

A assessoria de imprensa da Volks do Brasil comunicou que gostaria de ter lançado durante o evento o New Beatle Rock in Rio, mas a presença de Paul McCartney na programação ia no sentido contrário à imagem do novo modelo.


L.E.R (lesão por esforço repetitivo)

O Ministério do Trabalho resolveu fazer inspeções durante o show do NX Zero, pois tinha gente alegando que o vocalista Di Ferrero a cada uma frase que cantava exigia umas cinco vezes que o público levantasse os braços e pulasse, gritando: "Aí, galera, levanta o braço e sai do chão!". O que gerou lesões em muitos dos fãs dos eminhos.


BARMEN BAND

Muita gente não conseguiu identificar se os músicos do Stone Sour eram de rock pesado ou não, pois estavam fantasiados com roupas de barman.


COMOÇÃO NACIONAL À VISTA

A população brasileira anda temerosa de uma nova situação de comoção nacional, pois o Milton Nascimento só aparece quando morre um presidente, um piloto de fórmula 1 e coisas do tipo. E ele anda muito presente na cidade do rock. Medo!


REVELAÇÃO NACIONAL

Maria Gadú é a revelação nacional e se confirma como substituta à altura de Cassia Eller, é chata e pasticheira.


LUCRANDO DUAS VEZES

Ivete Sangalo lucra duplamente no Rock in Rio: aparece como a própria Ivete Sangalo e também como a loira Cláudia Leite. A voz é a mesma, as músicas são as mesmas, a dancinha é a mesma. Mas tem gente que acha que a Bahia tem duas cantoras super famosas (e metidas), mas na verdade é uma só.


COPACANA CLUB

A banda curitibana troca, a pedido dos nativos, o festival do Rio por um muito melhor (pois tudo em Curitiba é muito melhor que no resto do mundo): o Rock in Rio Belém. Aliás, o festival curitibano já confirmou a presença dele, que já havia sido aclamado como o responsável pelo grande show de 2010, Odair José.


A BUNDA MAIS BONITA DA CIDADE

A banda curitibana, fenômeno da internet, se nega a participar do Rock in Rio, pois para ser a banda mais bonita no Rio, os curitibanos iam ter que malharrrrr muito numa academia e então virar A bunda mais bonita da cidade, desistiram.


FRIO NO RIO

Duas bandas gringas foram chamadas para esfriar os ânimos cariocas: Snow Patrol e Coldplay. Pra esquentar: Red Hot Chili Peppers. Para deixar a coisa morna e sem graça chamaram os brasileiros mesmos: Capital Inicial e Maria Gadú.


POR UM MUNDO MELHOR

Resolvendo apoiar de verdade seu próprio projeto social "Por Um Mundo Melhor" a organização do Rock in Rio decide que não vai mais fazer o festival.


PALCO OUTROMUNDO

Depois de ressuscitar Elton John e Gun's and Roses, festival carioca promete para a próxima edição Michael Jackson e Amy Winehouse no Palco Outro Mundo (que conta com direção do Chico Xavier).


VERSÃO GAÚCHA

Como gaúcho é orgulhosso e marrento, resolveram por lá fazer o Rock in Rio Grande do Sul. A banda gringa que abre o festival é a Engenheiros do Hawaii, banda havaina formada só por gaúchos. Outra banda gringa já confirmada é a Fresno, banda californiana também formada só por gaúchos. E para não ficar por baixo, os gaúchos trazem até mesmo uma banda de outro planeta: Júpiter Maçã. E garantem: os Ets dessa banda são todos gaúchos.



SAMPA

A banda capixaba Dead Fish está confirmada como a principal atração do Rock in Rio Tietê, em Sampa.



ROCK IN RIO UPP

Confirmado: The Police abre a versão UPP do Rock in Rio, no morro do Alemão.



PRA FECHAR

Brasileiros acham que Chico Buarque é a atração mais importante do Rock in Rio. É que não dava para ficar uma semana sem falar da genialidade do Chico Buarque, mesmo ele não estando no RIR. Os cariocas aprovaram a escolha e os baianos contestaram e elegeram o Caetano e o Gil por conta própria... Os universitários brasileiros apoiaram ambas as escolhas, pois são muito criteriosos.

sábado, 3 de setembro de 2011

Tudo pra família



O DISCURSO PELA FAMÍLIA CURITIBANA CRIADO PELA PREFEITURA É O REGRADOR SOCIAL MAIS FASCISTA QUE VI NOS ÚLTIMOS ANOS

O slogan nos tubos de ônibus da linha verde, por exemplo, dize mais ou menos assim: FAMÍLIA, agora a família de Curitiba volta mais cedo pra casa. Não é bem assim não, tem gente que não volta, tem pai que para no boteco pra descontar o salário de merda na empresa, o qual não é suficiente sustentar essa mesma família de que a prefeitura fala. As famílias têm distúrbios nas relações porque a limitação material gera depressão, mal-estar. Há filho e mulher que não voltam pra casa porque são espancados. E várias outras coisas hediondas que acontecem. Mas como vivemos numa sociedade fascista, o discurso regrador dos distúrbios socias precisa se fundamentar num conceito essencialista e idealizado de FAMÍLIA.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Dia 21 estaremos no SESC Paço com a Geração Zero Zero

Convite a todos os amigos, colegas ou interessados. Dia 21 de setembro, 19h, no Sesc Paço da Liberdade (o lugar mais bonito da cidade), no centro de Curitiba, lançamento a antologia Geração Zero Zero. Organizada pelo cavaleiro jedi Nelson de Oliveira e publicada pela super bacana Língua Geral.
Paulo Sandrini, Carlos H. Schroeder e Marne Lucio Guedes estarão por lá num debate sobre a geração zz. A mediação fica a cargo do escritor (autor de Minda-au) Marcio Renato dos Santos.

sábado, 27 de agosto de 2011

primeiro capítulo curto de O Rei era assim

Coloco aqui o primeiro trecho de O Rei era assim. Na coletânea Geração Zero Zero o texto não começa assim, numa espécie de fábula quebrada. Como disse antes o texto é bem maior do que o que foi no GZZ.


"Humilde. Solícito. Sábio. E alguns adjetivos mais [se é que esses, assim isolados, queiram dizer alguma coisa]. Também era um homem magro. Pelos de barba não se deixavam encontrar no rosto sempre liso. Na verdade, o Rei era imberbe e não tinha lá aquela cara de rei. Seu olhar se perdia ao longe, um olhar de quem, talvez, estivesse o tempo todo pensando na existência humana e em como reverter seus reveses; em aliviar o sofrimento das gentes humildes, que sempre foram e sempre serão maioria. Podemos dizer, por esse brevíssimo retrato aqui traçado, que o Rei era mesmo um homem dos melhores. Seu reino ia até o ponto em que chegava a sua bondade e não até a distância que sua vista conseguisse alcançar.
Comia pouco e jamais se queixava. Não exigia as cortesãs em seu leito todas as noites, tardes ou manhãs. Suas roupas eram rotas. Sua coroa e cetro não eram de ouro, muito menos incrustados de pedras preciosas. Aliás, não tinha coroa nem cetro. O mais adequado, talvez, para ele, fosse ter um cajado, se possuísse rebanhos ovinos, equinos, caprinos ou bovinos. Mas não os possuía. E tampouco se acreditava pastor. Muito menos de almas. Esse papel era reservado a Deus, se esse existisse, dizia ele. Só a Deus, a nenhum rei. Nenhum.
Também amava muito a Rainha, que era seu maior ponto de apoio. Respeitava as mulheres e acreditava em amor e compaixão. Em perdão e amizade verdadeira. Em distribuição de riquezas e no poder do conhecimento que buscava transmitir a sua comunidade. Gostava das artes cultas, mas tinha enorme admiração pelas artes populares. Se pudesse, seria muito mais que um mecenas. Todos teriam casas e glebas próprias para plantar e participação nos lucros fabris. Os inocentes não mais apodreceriam na miséria ou nas prisões úmidas e cheias de ratos por crimes que não haviam cometido.
Acontece que esse Rei não tinha mais trono.
Estava desempregado."



sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CAPAS DO NOVO LIVRO



Aí estão as opções de capa do próximo livro, a novela O Rei era assim, que sai pela Kafka Edições. O livro é a versão integral do texto que saiu bem resumido na coletânea Geração Zero zero, pela Língua Geral, organizada pelo Nelson de Oliveira.
Fiz duas opções de capa. As fotos (minhas primeiras para um livro) são do Mamutica, maior prédio socialista do mundo que fica em Zagreb, Croácia. Espero que a moçada curta, se quiser pode votar...

sábado, 25 de junho de 2011

Geração Zero Zero por Beatriz Resende

Fica aqui uma resenha de Beatriz Resende sobre a coletânea Geração Zero Zero. Pra mim um texto que não vai pra lado algum. Entre o falar bem e o falar mal, a crítica não se resolve. Ainda padece do erro crasso e umbiguista de citar aqueles que não estão no livro e que ela gostaria que estivessem. Pior, não fala de quem está. Ou seja, crítica sem crítica. Espero algo melhor, mesmo que seja para pior.

Vai:

Beatriz Resende resenha antologia 'Geração Zero Zero'
Geração Zero Zero: Fricções em rede, organização de Nelson de Oliveira. Editora Língua Geral, 408 páginas. R$ 45

Por Beatriz Resende

Nelson de Oliveira tem exercido papel fundamental na divulgação e promoção da literatura brasileira contemporânea. Jogando sua rede de tempos em tempos, vai colhendo novos autores, especialmente os que praticam a prosa de ficção e se destacam dentre os que surgem. Assim, ao mesmo tempo em que desenvolve sua já premiada carreira como escritor, organiza antologias decisivas, chegando agora à terceira: “Geração Zero Zero: Fricções em rede”.

“Geração 90: Manuscritos de computador” (Boitempo), dedicada aos contistas brasileiros que começaram a publicar no final do século passado, foi a primeira a ligar o texto a seu suporte ou forma de produção. Ali, tratava de autores que já começaram a escrever diretamente em um computador. O elenco é admirável e muitos deles se tornaram senão parte do cânone, autores consagrados pela crítica e pelos leitores. No conto “Céu negro”, de Rubens Figueiredo, incluído ali, começava a ser gestado o mais recente e excelente romance do autor, “Passageiro do fim do dia”. Na apresentação do livro, Nelson de Oliveira constatava que em sua seleção de 16 homens e uma mulher os “excêntricos” não participavam, perguntando-se se a “literatura não seria uma forma de arte restrita aos donos do poder e aos que vivem sob sua guarda”.

Talvez por este estranhamento diante do poder constituído na república das letras, Nelson de Oliveira tenha optado por escolher como peneira, no momento seguinte, o que considerou transgressão em volume intitulado “Geração 90: Os transgressores” (Boitempo). Foi justamente esta designação que provocou mais polêmica em torno da antologia. De que transgressão se tratava? Depois da vanguarda modernista, do desejo oswaldiano de construir uma vida igual à arte, acirrando a proposta de arte igual à vida, transgressão tornou-se termo tão complicado quanto é, neste momento, contemporâneo. Só que o próprio organizador se colocara a salvo ao afirmar, na apresentação, que as classificações funcionam como piadas em festas chatas: na falta de assunto, alegram o ambiente.

Nesta última seleção, elaborada na segunda metade no século XXI, quando novos autores tiveram não só tempo e oportunidade de aparecer como ocasião e experiência para amadurecerem, o impulso classificatório continua. No processo de catação em terreno formado pelos ficcionistas brasileiros que estrearam na primeira década do novo milênio, o escritor optou pelo “reconhecimento de padrões” ou “regularidade”. Na seleção dos 21 autores do volume entrou em cena um corte temporal: o lançamento no mundo editorial a partir de 2000. Esse corte não corresponde a uma homogeneidade na faixa etária. Tirando Maria Alzira Brum Lemos, sem idade declarada, os mais velhos são o jornalista e contista José Rezende Jr. (1959), que pouco tem a ver com eventuais propostas da geração Zero Zero, e Marne Lúcio Guedes (1960), pouco conhecido, vindo do mundo dos roteiristas e dramaturgos — sua escrita confirma a origem — com o primeiro livro de contos publicado em 2008. Os mais jovens são Daniel Galera, o que é surpreendente por sua sólida carreira e os prêmios importantes que traz na mochila; Walther Moreira Santos, que ainda tem tempo de amadurecer; e Tony Monti, tributário da linguagem da web, o que não é forçosamente mal (são todos de 1979).

Dois outros critérios teriam influído: a vida no espaço da web e, nos diz Nelson, o triunfo do bizarro: “há pelo menos um forte ponto de contato entre todos os autores (...): o bizarro.”

O cyberespaço é importante em alguns casos. Ana Paula Maia colocou os capítulos de seu romance “A guerra dos bastardos” em seu blog e passou da busca por editores à publicação em uma de nossas importantes blockbusters. Foi a participação na web que ajudou João Filho a pular de Bom Jesus da Lapa (BA) para uma mesa na FLIP. Exemplos de como a web pode ser positiva e influente. Mas vários autores não parecem ter especial encanto pela internet.

Já a ideia de uma bizarrice em comum pode ser instigante. Evidencia-se nos contos originalíssimos (e divertidos) de Andrea Del Fuego, mas é apenas ilusória nos personagens de Ana Paula Maia. Única representante do Rio de Janeiro na convocação predominantemente paulista, a autora traz, como sempre, um universo de homens duros, deformados, de gigantes abobalhados, de cães destroçados. Mas num mundo de homens que devem matar sempre que possível e aos quais nada detém, como no conto do livro, essa realidade exacerbada torna-se crítica, política, e não bizarra. A verdade é que o organizador ficou nos devendo a explicação de conceito tão provocativo.

Um mérito da antologia é os textos terem sido escritos para a publicação, e o ineditismo na coletânea é um valor oferecido ao leitor. Significa também prestígio e confiança no organizador que retribui gentilmente com mais um critério a nortear as escolhas: “esta não é uma seleção dos melhores contos da geração Zero Zero, mas dos melhores autores”. É com esta generosidade às vezes excessiva que nós, os defensores dos novos escritores, abrimos flanco para questionamentos que podem fazer sentido.

Toda antologia, toda seleção tem, e deve ter, a marca de seu organizador. Essas são as melhores. A questão do gosto existe e assumi-la é o melhor argumento contra a universalidade dos cânones, contra a afirmação de uma poética única, ditada por seu criador. Mas afirmar que os escolhidos são os melhores é calar a crítica de que muitas vezes precisam. Soa complacente, modernidade liquida. Podemos incluir um autor justamente pela diferença, ou pelo aspecto polêmico, ou por que sinaliza em direção a algo que ainda não se realizou. Isto é próprio da referência ao autor contemporâneo, entendido como aquele que respira o mesmo ar que nós, pode ler os mesmos livros, ver os mesmos filmes, ir às mesmas exposições, aceitar ou recusar tudo isso. Expor os novos autores à fricção que a crítica literária deve provocar também é tarefa de uma seleção dessa importância.

“Geração Zero Zero” é um mapeamento sério e competente do que tem sido publicado em prosa de ficção nos últimos anos. Porém, sem afirmações como as que o próprio Nelson identifica como de consagração, deixaria mais espaço à evidência da multiplicidade e de propostas estéticas contraditórias. Nem todos os melhores estão no livro, nem poderiam. Sinto falta sobretudo de algumas jovens mulheres, como a romancista Carol Bensimon e a exímia contista e romancista Paloma Vidal, ambas blogueiras, inclusive com a experiência recente de Paloma ao colocar na web um texto dramático apresentado no site “Teatro para alguém”. Mas isso é gosto meu.

Por outro lado, é tempo de assinalar que autores com escrita da qualidade das de Daniel Galera e Carola Saavedra não deveriam se deixar seduzir tanto pelo mainstream.

Outros autores confirmam a constância de uma ficção original e de qualidade como Lourenço Mutarelli ou Carlos Henrique Schroeder e Paulo Scott, que já estão criados. Mas há surpresas, mesmo em autores que já tiveram oportunidade de afirmar a importância de sua criação. Verônica Stigger, antenada e maleável, opta pela prática, que vem se mostrando especialmente rentável, das escritas cênicas, e dá a “Mancha” uma forma dramatúrgica que pode ser lida de múltiplas maneiras. E o romancista Santiago Nazarian surpreende novamente em uma de suas bissextas incursões na escrita do conto. Com “Eu sou a menina deste navio”, Santiago parte da conflituosa situação de uma relação homoafetiva entre um capitão e um menino (o filho do cozinheiro) no interior de um navio. Sopram então no navio fantasma, ocupado por Sebastião, Gonzalo e Alonso, ares de “A tempestade”, e o garoto se torna o shakespeareano jovem herdeiro Fernando ou o etéreo e assexuado Ariel. Atravessa a narrativa a fabulação das lendas, de relatos fundacionais, para culminar numa poética do fantástico a que não falta nem mesmo Próspero, com seu ímpeto narrativo, varrendo a tradição literária para dentro da ficção atual. Uma beleza.

Ao final, fica uma dúvida: não seria esta seleção uma ótima experiência de livro online, no modelo da antologia “Enter”, de Heloisa Buarque de Hollanda, que existe apenas no mundo virtual? Os textos com links para os blogs e revistas virtuais de seus autores formariam uma publicação a ser facilmente acessada em múltiplos espaços e tempos diversos, a preços módicos. Uma forma ainda mais efetiva de promover “fricções em rede”.

BEATRIZ RESENDE é crítica literária, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Texto feito para ser lido num veículo de comunicação local, mas que não vai ser. Então publico aqui no blog.




Bombardeio de La Moneda, em Santiago, 11 de setembro de 1973. Assassinato de Allende.





Onze de setembro de Primeiro de maio


Meu último 01 de maio foi como se fosse 11 de setembro: de 2001, em Nova Iorque; de 73, em Santiago. Assassinaram Bin Laden. Sua fortaleza, destruída por dois helicópteros estadunidenses. Dia 01 de maio foi 11 de setembro. Para mim, foi. Mataram o árabe porque, com dois Boeings, ele derribou o maior símbolo do capitalismo mundial: o World Trade Center. Num 11 de Setembro.
Em 73, dois caças Hawker Hunter bombardearam La Moneda e derribaram o socialismo na América do Sul. Fim das utopias. Início da passagem, sob as patas de chumbo dos militares, para o que vimos na década de 90: o terrorismo neoliberal, em que o cidadão foi trocado pelo consumidor.
Allende foi encontrado morto, solitário, com sua metralhadora, presente do amigo Fidel. Foi assassinado como se fosse terrorista.
Bin Laden era terrorista. E morreu como se fosse um. Seu corpo jogado ao mar, porém, contrariou a tradição islâmica, mesmo sendo o corpo de um terrorista (que tinha lá seus motivos para desgostar do Ocidente, ao qual ajudou a expulsar os russos do Afeganistão). Contudo, nada neste mundo pode contrariar o terrorismo do Destino Manifesto Protestante (WASP)estadunidense.
Richard Nixon, presidente norte-americano em 1973, que apoiou logisticamente e festejou o golpe de Pinochet, não foi assassinado como terrorista. E ponto.
Mas vamos lá, vamos resumir: foram seis aeronaves: quatro mataram dois terroristas, no Chile e no Paquistão. Duas mataram milhares no umbigo capitalista do planeta. O que inclui muitos que não merecem o adjetivo de “inocentes”. Foram três 11 de setembro (incluindo o 01 de maio de 2011).
Na verdade, creio que foram mais. O 11 de setembro virou, há tempos, símbolo moderno de massacres (de índios, negros, homossexuais, socialistas), de golpes de estado, corrupção, devastação ambiental, exploração no trabalho, marginalidade; e em alguns locais do planeta ele ocorre todos os dias: na África, na Ásia, na América Latina, no Oriente Médio e no Leste europeu.
Mas com os EUA, país salvador do mundo e algoz de Salvador Allende, não nos preocupemos: a crise já passa. Com base na exploração do resto do mundo chamado por eles, muitas vezes, de terrorista.

terça-feira, 15 de março de 2011

KARAM NÃO JUNTA PÓ


Ao professor e escritor, que se aposenta da vida acadêmica, é chegada a hora de arrumar as tralhas de seu gabinete. Agora, é viver só para escrever e também cometer alguns pequenos delitos, claro. Com muito, muito tato o professor e escritor seleciona os livros que levará consigo e aqueles que, talvez, por falta de qualidade literária, ficarão relegados à madeira velha da mesa do gabinete. Pensa ele, Não posso levar todos; os ruins e também alguns dos melhores, visto que estes últimos muito me incomodam. No dia seguinte, um outro professor encontra aberta a porta do gabinete do professor e escritor (este, agora já bem aposentado e feliz e livre para poder produzir mais e cada vez melhor; sim, cada vez melhor seus romances morosos, sucesso entre a mentalidade crítica estagnada no século XIX) e lá, sobre a mesa do "gênio", encontra alguns livros de um outro, esse sim um escritor genial, que chacoalha a poltrona dos acomodados: Manoel Carlos Karam.
Então, resta ao professor recolhê-los e afagá-los como merecem. Mas uma coisa não é necessária, tirar a poeira deles. Pelo simples motivo de que livros como os de Karam jamais ficarão velhos para juntar pó.

domingo, 13 de março de 2011

Sou feliz

“Sou feliz porque meu povo é educado, esclarecido, incorruptível, pensa no outro, nunca silencia, sempre discorda daquilo que leva o homem ao abismo material e existencial, faz política para o bem comum e não para as coisas ficarem como estão, sou feliz porque aqui nunca os experts substituem os ideólogos, os intelectuais são ativos fora das cercas acadêmicas, e sou feliz porque somos tolerantes, muito tolerantes. Sou feliz porque não fazemos das ruas pistas de automobilismo para matar pedestres. Sou feliz porque meu povo consome com moderação e se sentir que é uma imposição de mercado, rejeita. Sou feliz porque meu povo dá mais valor àquilo que o homem produziu por meio do intelecto e não somente por meio do fomento faminto da era da técnica. Sou feliz porque o racionalismo ocidental cristão e branco não chegou a dizimar os povos antigos que aqui viviam. Feliz eu sou, porque minha gente sabe votar com consciência coletiva e nunca pensa nos próprios interesses (do tipo: “manter meu emprego, meu cargo, minha vida estável", porém pobre e execrável). Sou feliz porque minha gente me enche de confiança no futuro e não me deixa antever retrocessos de todas as ordens. Sou feliz porque meu povo quer uma revolução coletiva e não é marcado pela crueza neoliberalista e niilista pós-ditatorial puramente mercadológica. Sou feliz porque, aqui, nesta terra onde vivo, posso confiar em minha própria sombra. Sou feliz, sim, sou feliz. Sou feliz porque todos comemos e bebemos e podemos celebrar a vida com o riso solto e desempedido de todas as amarguras e entraves e tabus. Sou muito mais feliz então quando dizemos uns aos outros que as divergências não levam ao aniquilamento do outro. Sou feliz porque nunca falamos em elitismo e em seres iluminados desde o berço por herança do gosto formado sob os tetos das famílias privilegiadas em detrimento dos “malditos” sem direito ao bom gosto e que ficam na linha de produção enquanto iates navegam nosso litoral com senhores e senhoras pançudos de tanto usurpar a força de trabalho e intelectual das gentes. Sou feliz. Porque o meu povo é o mundo todo. E depois de séculos e guerras e assassinatos e quebras de sistemas exploradores do homem, finalmente podemos dizer: somos seres humanos.”

Eusébio Sandrini – ano de 2.830, um futuro muito próximo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

estava pensando em como os sonhos não podem ser bons muito menos perfeitos. nunca. se são bons queremos continuar sonhando. não parar o nosso projetor subconsciente. assistir mais ao filminho bacana romântico de aventura etc. se são ruins queremos sair logo deles. abandonar nossa sala de projeção interna. mas geralmente nesse caso de filmes de terror drama etc o nosso projetor não para. acredito então que esse nosso projetor subconsciente de filmes quero dizer sonhos é uma espécie de aparelho sádico manipulado quem sabe por um senhorzinho muito experiente no assunto de frustrar o espectador cortar momentos de clímax além de ser um grande prolongador de cenas de pânico.
sonhei que havia sementes em meus olhos. elas brotaram. foram crescendo. exorbitaram minhas órbitas. galhos e folhas. nas pontas dos galhos outros olhos. passei a ter mais de mil. que eram ao mesmo tempo sementes a brotar novas folhas galhos e olhos. eu podia ver tudo de todos os ângulos. vigiava julgava tudo que via. punia. eu sonhei ter medo de virar um repressor. o excesso de olhar pode nos deixar cegos.

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...