terça-feira, 21 de outubro de 2014


Eu gosto das pessoas
(mãozinhas em coração)

Hoje, pensando na existência humana, descobri que minha paixão é mesmo o ser humano. Eu realmente gosto das pessoas. E eu gosto das pessoas porque as pessoas fazem coisas muito complexas que só elas fazem do modo que fazem justamente por serem pessoas. Por exemplo, eu gosto das pessoas porque elas têm olhos com pálpebras pra piscar. Incrível. Sim, e também gosto das pessoas porque elas comem. Fantástico. Elas fazem digestão num ato involuntário. Veja que capacidade, não precisa nem refletir sobre o ato. Simplesmente as pessoas fazem. E, na maioria das vezes, o fazem extrema, extremamente bem. Outra coisa que surpreende, e que eu descobri hoje, pensando muito na existência humana, é que as pessoas, essas pessoas por quem eu me apaixonei e que são todas as pessoas, as pessoas podem segurar um palito de dentes e levá-lo até o meio da boca, lá, bem no lugar em que se acham os dentes. Isso tudo durante a digestão. Digerir e palitar os dentes. Uma capacidade que só as pessoas do gênero homem, pois humano vem de homem, têm. As mulheres, apesar de o nome ser humanidade que vem de homem, as mulheres também estão dentro dessa perspectiva humana de homem. E eu descobri também que gosto muito muito muito mesmo de mulheres. As mulheres são as melhores do gênero, pois elas engravidam dos homens que fundaram a humanidade e com isso têm o poder de fazer nascer as mulheres e os homens que continuarão a missão humana na Terra que é a de dar sequência a tudo o que é do homem. E também das mulheres. Das mulheres e dos homens. Esses dois humanos juntos formam um par perfeito. E é por essas qualidades indeléveis que eu devo agora dizer que amo as pessoas porque elas nem precisam pensar pra erguer um dedo. Não fazem esforço, na maioria das vezes, nem para respirar. E isso é muito, muito importante, pelo fato mesmo de que se as pessoas fossem incapacitadas para a respiração, se elas não fossem bem treinadas nisso, nessa modalidade humana de alto desempenho, elas, as pessoas, estariam mortas. Respirar. Isso me faz amar você, amar os ditadores, os conservadores, o pessoal de extrema direita. Por quê? Porque você, eles: respiram. E tem mais: descobri que as pessoas têm o poder de não precisar refletir com profundidade sobre uma questão séria: o crescer das unhas e dos cabelos. Isso as pessoas fazem bem até depois de morrer, perceba. Depois de mortas, as pessoas continuam, por certo tempo, produzindo unhas e cabelos e outras coisas com cartilagem, isso tudo sem precisar pensar e muito menos estar vivo. Uma pessoa morta tem muita utilidade. Homem morto é adubo. Eu amo a agricultura orgânica. Eu amo tudo que vem dos órgãos humanos. Os excrementos. O adubo. Tudo isso representa a capacidade humana de transformar as coisas que entram pelo corpo. Representa a capacidade humana de gerar um produto. Sim, a produtividade humana é algo de uma beleza inclassificável. Ver uma pessoa produzindo seja lá o que for me emociona. Pode ser urina. Catarro. Saliva. Lágrimas. Podem ser também outras coisas que a gente nem precisa pensar pra produzir. Dentro dessa perspectiva de produção involuntária estão as bombas e as armas. Estão as minas terrestres. Estão as doenças criadas em laboratório, essas que de tempos em tempos surgem pra dizimar uma parte da humanidade pra que a outra parte, a que resta, possa viver melhor e com mais espaço. As pessoas são boas. Elas morrem sem saber por que morrem. Mas quando morrem, com essas doenças de laboratório, quando morrem de bombas e armas de fogo, elas estão sendo muito úteis. Gosto das pessoas, sobretudo porque elas morrem dessas coisas produzidas involuntariamente para salvar a humanidade e dar espaço aos que não morreram ainda. Eu também amo as pessoas que ainda não morreram. Claro, amo todos de modo incondicional. Amo as pessoas. Amo porque as pessoas estão sempre produzindo. Estão servindo, mesmo que não saibam (e isso é apaixonante), estão servindo a alguma causa. Ou a várias. Se forem várias tanto melhor. Isso mostra que as pessoas justificam uma proposta muito firme da humanidade, que é o barato do ecletismo. Ecletismo também existe de modo involuntário. As pessoas têm uma grande capacidade de gostar de muitas coisas diferentes ao mesmo tempo. Por exemplo, as pessoas podem gostar do Hitler e do Papa. De jazz e pagode. Podem gostar do Luan Santana e de Bach. Da Ivete Sangalo e de Wagner. De Ricky Martin, passando por Adoniran Barbosa, Beatles e David Guetta. A humanidade ama muito os Beatles. O que se justifica porque os Beatles são mais amados do que o Cristo que foi uma cara pra lá de boa praça, pois morreu pelos homens da humanidade em geral. Pra salvar a humanidade em geral. Os Beatles são a face de deus composta por quatro faces. Deus é um clássico. Todo mundo gosta. Desde pequeno. É involuntário. Sim, seu pai gosta e sua mãe também gosta, então geneticamente você tem grandes possibilidades de gostar. O ecletismo é genético. E divino ao mesmo tempo. Divino porque nos faz entender, e entender muito bem, por que as pessoas podem gostar de Pollock e Romero Britto ao mesmo tempo. Dos Beatles e do Paul McCartney em carreira solo. Gostar do Pink Floyd sem o Syd Barret. Dos Pistols sem o Sid Vicious. Dos Smiths sem o Morrissey e o Johnny Marr. Tudoaomesmotempoagora. E tudo, tenho certeza disso, tudo é sempre por uma causa humanamente enorme. É por isso que as pessoas que eu amo e que são todas as pessoas, é por isso que elas inventaram sem querer as religiões. Pra poder exercer involuntariamente o ecletismo religioso, que reside no fato de produzir bombas e rezar a deus pelos semelhantes. Que reside em pagar salário mínimo e dizer que a empregada é um membro da família, da família com religião. Tudo isso é ecletismo, percebe? E é apaixonante. E as religiões têm o poder também de fazer com que a humanidade de homens e mulheres seja transmitida à própria humanidade nas uniões perfeitas entre mulheres e homens e homens e mulheres, entre o gênero masculino e o gênero feminino, entre o falo e a vagina, entre o esperma e o óvulo. ETC. Et Cetera cabe aqui com letras maiúsculas porque representa toda essa variedade de união entre as pessoas que só as religiões permitem e jamais condenam. As religiões surgem de atos involuntários por parte das pessoas porque nem é preciso pensar muito pra ver que muitas questões estão resolvidas na perspectiva das religiões. A união entre homens e mulheres é um assunto resolvido. Mas também faz parte do ecletismo de certas religiões a pedofilia. Faz parte do ecletismo religioso levar bombas no corpo e explodir o corpo e tudo ao redor, junto com a bomba, por uma causa humano-religiosa. Dentro dessa perspectiva de explodir o corpo para explodir o outro entra uma questão profunda de alteridade, que é a base da bondade humana das pessoas que eu amo, a alteridade de amar o outro mesmo detonando o outro. Mas também tem o lance de alteridade que é o destino manifesto, que é o sentimento de responsabilidade sobre o destino do mundo, das pessoas, e eu amo essa alteridade toda, pois quando a alteridade do destino manifesto entra em comunhão com o sentimento de alteridade do cara que leva a bomba no corpo isso se torna uma comunhão perfeita, pois o cara do destino manifesto leva bombas em aviões, em navios, arma minas terrestres e “agrega” valor ao trabalho “diferenciado” do homem-bomba. E também, quero ressaltar, tem o lance maior da alteridade, do fazer pelo outro, que é o que fez o Cristo. Ele foi pra cruz e salvou as pessoas, as pessoas todas de que eu gosto. Depois disso, depois do Cristo, a gente pode crucificar o outro também pra que tudo fique melhor pra algumas pessoas, isso se chama alteridade. Eu amo, amo e amo toda essa alteridade. Toda essa autoridade da alteridade. E, vejamos, todo esse amor, esse ecletismo, essa alteridade, essa crucificação, tudo isso é involuntário, bem como é caminhar. A gente caminha sem pensar. As pessoas podem caminhar sem pensar. Podem fazer tudo isso que eu disse antes sem pensar, é pura essência, boa, que a humanidade traz consigo desde sempre. E nessas caminhadas, sem pensar, elas, as pessoas, entram por vezes em caminhos tortuosos, sim, claro, mas eu quero exaltar o fato de que na maioria das vezes as pessoas entram por caminhos de vitórias. De sucesso. De reconhecimento. De superação. São trilhas que as pernas traçam involuntariamente rumo a um futuro promissor pras pessoas de sucesso. Eu gosto das pessoas de sucesso. Eu amo as pessoas que falam em gestão, logística, planejamento, objetivos, foco, metas, lucratividade e liberalismo. Ou seja, tudo aquilo sobre o que nem precisamos pensar pra pensar sobre: vitória. O homem humano que inclui o gênero mulher é um vencedor, e só anda pra frente. Segue adiante, não importa se esteja sofrendo, com dores nas pernas, pois as pernas nos levam ao sucesso, involuntariamente. Involuntário também é bater palmas. Eu amo as pessoas porque elas aplaudem tudo sem precisar refletir sobre. Elas aplaudem a beleza da vida representada na figura do George Soros, que elas nem conhecem, mas acham que a beleza da vida reside nos pensamentos para o homem produzidos por George Soros. Mas aí também pode entrar a beleza do espiritismo, que nos faz crer que se estamos sofrendo na face da terra (o nome disso é expiação) é porque isso é uma forma de melhorar o espírito para que na próxima encarnação esse espírito volte mais desenvolvido. Um espírito de primeiro mundo, primeiro mundo dos espíritos. Então, é bonito pensar que a gente pode ver uma pessoa miserável na nossa frente e lhe virar as costas pelo fato de estar ajudando essa mesma pessoa-espírito em seu processo de desenvolvimento, e atrapalhar isso não é um ato de amor. E, geralmente, pouca gente atrapalha, mesmo não sendo espírita. Kardec foi um cara foda. Sim, o ser humano, espírito, deve se fuder pra melhorar. Veja que pensamento foda. Se fuder resolve a própria fudição humana para a próxima encarnação. Por outro lado, há aquelas pessoas que eu amo porque elas aceitam que uma encíclica papal tipo a do Leão XIII, a Rerum Novarum, diga que é preciso aceitar que os mais ricos continuem os mais ricos e os mais pobres continuem os mais pobres porque é a vontade de deus. Ou coisa assim. Evitar a luta de classes com as encíclicas papais é evitar uma guerra. E evitar guerra é um enorme ato de amor. Por isso, reafirmo, eu gosto das pessoas, dos humanos, porque sabem como evitar genocídios por conta das religiões involuntárias e boas. Que são criações involuntárias dos homens de gênero humano que inclui as mulheres.
  E retornando aos atos mais complexos da humanidade, quero dizer que ver uma pessoa coçando a orelha é sublime, e se ela estiver usando uma haste com algodão na ponta pra isso a imagem fica ainda mais linda. Linda também é a atitude dos meganhas que em vez de coçar a orelha dos bandidos com hastes com algodão na ponta eles as coçam com palitos de fósforos acesos, e jogam pra dentro do ouvido dos bandidos, o que é uma ação que perfura o tímpano dos mesmos bandidos. Sorte do bandido, ouvir voz de prisão seria bem pior. Ou correr o risco de uma nova constituição que inclua a pena de morte para, inclusive, ladrões de galinha e menores de 12 anos. Por isso é que ainda não temos pena de morte em nossa constituição. Pela bondade da polícia em perfurar os tímpanos dos bandidos em vez de condená-los à morte, condená-los a ouvir voz de prisão, ou ainda dar uma morte lenta com espera no corredor da morte que é promovida pela própria pena de morte. Isso me faz perceber como a humanidade é humana e pensa no outro de modo extremamente humano. Eu amo as pessoas por essa complexidade toda. As pessoas no geral são boas.

Eu que passei a noite toda acordado, olhando pela janela vi pouca gente na rua, na verdade não vi nenhuma e senti falta de ver uma pessoa pra gritar da janela que gosto dela, incondicionalmente, involuntariamente, extremamente. Mas agora a rua já vai se enchendo de pessoas com as caras amassadas, andam de braços cruzados por causa do frio, com frio do frio e com o frio do sono. Eu amo as pessoas porque elas sentem o frio. Eu amo as pessoas, sobretudo pela manhã , pois têm um rumo certo. Elas vão produzir. Produtos. Produtos humanos. Entre esses as bombas e as armas e as minas terrestres. Doenças de laboratório. E como eu sou gente também, eu posso afirmar: eu me amo. E grito da janela: Eu amo vocês, gente.

 Está na hora de eu também sair para produzir. E meu trabalho é urgente. É de amor à humanidade. Vou ao estacionamento, abro o porta-malas do carro. Está tudo ali. Tudo de que preciso pra hoje. Será uma explosão de alegria e amor pelas pessoas. Todos vão sentir. Involuntariamente. E vão gostar de mim, que sou gente que gosta de gente.

  



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Texto de Luiz Ruffato traça panorama da Literatura Brasiliera contemporânea, mais centrada até os anos 1990. Mas é sempre legal ser lembrado numa lista dos "principais nomes" , porque há escritor pra danar nessa chamada Geração 00.

link pro texto todo:
http://jopbj.blogspot.com.br/2014/02/alguns-apontamentos-sobre-literatura.html

"Os jovens escritores, nascidos a partir de 1970, e conhecidos como a “geração 00”, começam agora sua trajetória. Ainda é cedo para formar uma opinião definitiva sobre suas obras, mas alguns nomes já se destacam. Abaixo, uma lista dos principais nomes, que estrearam entre 2000 e 2009:
-Susana Fuentes(Rio de Janeiro, RJ): Escola de gigante.
-Claudia Lage(Rio de Janeiro, RJ, 1970): A pequena morte e outras naturezas, Mundos de Eufrásia;
-Ana Maria Gonçalves(Ibiá, MG, 1970): Um defeito de cor;
-Paulo Sandrini(Vera Cruz, SP, 1971): O estranho hábito de dormir em pé, Códice d’incríveis objetos & Histórias de Lebesraum, Osculum obscenum, O rei era assim;
-Whisner Fraga (Ituiutaba, MG, 1971): Seres & sombras, Coreografia de danados, As espirais de outubro, A cidade devolvida, Abismo poente, Sol entre noites;
-Marcelo Moutinho(Rio de Janeiro, RJ, 1972): Memória dos barcos, Somos todos iguais nesta noite, A palavra ausente;
-Carola Saavedra(Santiago, Chile, 1973): Do lado de fora, Toda terça, Flores azuis, Paisagem com dromedário;
-Michel Laub (Porto Alegre, RS, 1973): Música anterior, O segundo tempo, O gato diz adeus, Diário da queda;
-Luiz HenriquePellanda (Curitiba, PR, 1973): O macaco ornamental;
-Verônica Sttiger (Porto Alegre, RS, 1973): O trágico e outras comédias, Gran Cabaret Demenzial, Os anões;

48 CONTOS PARANAENSES, ORG. LUIZ RUFFATO. PUBLICAÇÃO 
DO MEU CONTO "NANO".

ver matéria no link:

http://www.bpp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=549&tit=Biblioteca-Publica-lanca-antologia-com-48-contistas-do-Parana



Com Gianluca, no Café Tortoni, Buenos Aires, julho 2014. 
Aí começou a Agrupação Gente de Artes e Letras, em 24 de maio de 1926, criaram ações de difusão Entre eles Alfonsina StorniBaldomero Fernández MorenoJuana de IbarbourouArthur RubinsteinConrado Nalé RoxloRicardo ViñesRoberto ArltJosé Ortega y GassetJorge Luis Borges, e Molina Campos entre outros. 
Ainda outros artistas como Carlos Gardel.
Resenha do "Exposição das tripas", Paraná-Online, por Jonatan Silva.
http://www.parana-online.com.br/colunistas/contracapa/104299/DAS+TRIPAS+CORACAO

paulo sandrini 2014: Reflexão Dialogada: Exposição das Tripas – Paulo Sandrini

paulo sandrini 2014: Reflexão Dialogada: Exposição das Tripas – Paulo Sandrini

Reflexão Dialogada: Exposição das Tripas – Paulo Sandrini

Reflexão Dialogada: Exposição das Tripas – Paulo Sandrini: Por: Everton Marcos Grison O livro com o dorso ladeado por parafusos           Escrever é ato de esquizofrenia, é inc...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Entrevista sobre o Exposição das Tripas e sobre o evento Dalton para Todos. Ótv, de Curitiba.


http://www.otv.tv.br/programa/revista-curitiba/literatura-dalton-trevisan-teatro-e-muita-musica-com-a-banda-fauno/

terça-feira, 14 de outubro de 2014


O governador Charles Chaplin versus O tempo de Bergson

Um dia desses, durante uma entrevista, me perguntaram — pra mim, que sou um escritor que escreve meio-certo-meio-errado (e isso é pós: moderno, baby-boom, hippie, guerra fria, guerra dos Balcãs, 11 de setembro, reverendo moon, the dark side of the moon, shy moon, ditadura; é muito pós-tudo) — o que eu achava do Aelsinho das Neves. Eu, que sou um escritor meio-politizado-meio-não, respondi que eu achava o cara legal. Legal, eu respondi, enfático com muita ênfase. E aí a mulher, que é a mulher que faz as perguntas lá num programa de tv, de uma tv educativa e pública e imparcial, ela fez a pergunta que mais todos nós escritores meio-politizados-meio-não tememos responder que é quando a pergunta reside numa resposta que tem que mostrar que somos politizados, que neste caso foi um simples:  Por quê. Por que o quê? — engasguei. Por que você gosta do Aelsinho? Aí, eu comecei a pensar, pensar. Mas pensar muito na tv, num programa ao vivo, não dá muito certo porque aí a coisa, da entrevista, fica com tempo morto. E eu pra evitar que o silêncio do tempo morto chegasse à temporalidade mórbida, respondi, com muita empáfia, empáfia de escritor meio-politizado-meio-alienado-meio-não: Porque sim (enfático, sempre enfático). E isso foi um abalo para a jornalista. (Tempo mórbido instalado). E, então, ela, a jornalista de um programa sobre jornalismo intelecto-político, fez hmmmmmmmmmm (o tempo morto se estende com o mantra hmmmmmmmmmmm). Ela completou, Que legal! E seguiu, Mas então, o que está implícito no “Porque sim” que você respondeu? Pois, obviamente um intelectual-escritor sempre pensa no subtexto, nas latências, nos aspectos subjacentes ao discurso, essas coisas? Certo? E eu respondi logo (para não deixar o tempo mórbido crescer ainda mais e chegar a um tempo com obesidade mórbida), Sim, certo (enfático). E o resto? — a mulher emendou. Que resto? (enfático) — fui meio-rápido-meio-não. As latências, o subtexto?— (o tempo na UTI, quase morto pelo meu silêncio). Então, me senti impelido a responder, mas como um intelectual-escritor (de verdade) nunca gosta de ser colocado contra a parede, nunca gosta de se sentir oprimido pelas forças da opressão que são o Estado, as instituições politicamente corretas, os grupos terroristas, os grupos religiosos, os partidos políticos, os nossos parentes (A Família), a empresas e os patrões e a indústria de massa e mais um monte de gente e instituição e grupos opressores do Mundo Opressor, então eu respondi, As latências e o subtexto... — aí fiz uma longa pausa, forcei a respiração no microfone preso na minha gola, perto da goela, para soar alto no áudio, como se fosse uma pausa muito reflexiva, muito intelectual, como se terminasse com infinitas infinitas infinitas reticências (...). A essa altura, a mulher jornalista já estava entre bufando e sorrindo, mas seu sorriso era um esgar, tinha ácido nos cantos dos seus lábios. Ela sorriu para uma das câmeras, no monitor do estúdio vi seu rosto enquadrado, quase em close. Ela disse, Vamos ao primeiro intervalo, e já voltamos com o nosso bate-papo de hoje com o escritor tal, não saia da poltrona, voltamos já...  Logo em seguida, soou um celular (com som abafado) no estúdio, já nesse primeiro intervalo. A jornalista correu lá, fuçou a bolsa, e sacou o aparelho. Deu pra perceber que tinha alguém meio furioso do outro lado da linha. Foi coisa rápida, e ela voltou, se posicionou na sua confortável poltrona de jornalista imparcial da tv pública, acertou a postura, sorriu, vi seu rosto em close no monitor do estúdio e vi o plano se abrindo para esse mesmo estúdio. No monitor, eu sentadinho e a jornalista imparcial de saia com as pernas cruzadas. Ela disse lá umas coisas em que não prestei muita atenção e sorrindo, sempre sorrindo, fez nova pergunta, Por que o senhor, que já vimos elogiando o candidato Aelsinho das Neves num texto do Tabloide Provinciano, por que ou o que o levaria a escolher Aelsinho em vez de outro concorrente, já que naquele texto o senhor não foi exatamente claro, mas deu muito, muito a atender sua preferência pelo neto de Manfredo das Neves? Inflei os pulmões, estiquei as costas no espaldar da poltrona da tv pública imparcial, soltei, devagar, bem devagar o ar dos pulmões, e fui objetivo: Que texto? Tenho escrito vários textos, não me lembro desse ou exatamente desse. A mulher sorria, mas estava furibunda, para o público soou estar numa boa, é o trabalho dela estar numa boa, e sorrindo (sempre) me disse direto-e-reto, Aquele texto em que o senhor começa falando sobre a inexpressividade do discurso da atual presidenta (aliás, só temos uma na história, por isso dizer atual é tautologia — ela completou), da inexpressividade dela, da feiura, da falta de sensualidade dela, do horror que você tinha dela, não dizia nunca o nome dela, como se ela fosse mesmo irrelevante e o senhor nem se lembrasse do nome, aquele texto que foi julgado pela esquerda e por muita gente que nem é da esquerda como um texto misógino e claramente parcial, e que foi publicado no dia tal, do mês tal, pouco antes das últimas eleições para presidente? Respondi, pois, com outra pergunta, Misógino? O que você quer dizer com Misógino? A mulher jornalista sentada de saia justa e com as pernas cruzadas, respirou fundo: Seu texto mostrava a incompetência da candidata, mas não só, mostrava aversão à mulher no poder, entre outras coisas pelo fato de ela ser, simplesmente, mulher, uma mulher sem nome para o senhor; mas, por outro lado, seu texto, quando não era misógino, dizia umas boas verdades sobre o despreparo da candidata, e hoje podemos ver com clareza, tirando a misoginia, que seu texto foi antecipatório do que teríamos depois no governo da presidenta. Eu não gostei de ser chamado de misógino, não gostei, e aquilo foi uma afronta, afinal eu gosto de mulheres, gosto mesmo, acho que as mulheres são fundamentais, pois sem elas a gente nem tinha nascido (e depois de pensar muito, e sempre com esses lugares comuns sobre quem gosta de mulher, mas não sabe o que dizer) eu respondi, simulando estar inconformado com o fato de ter sido chamado de misógino, Olha, não creio ter sido misógino no meu texto. Meus textos são muito mais voltados para a Misantropia do que para a Misoginia, pois sobre o tema da Misoginia não saberia escrever muito bem, simplesmente porque não sou misógino, e a misoginia, se discorresse sobre isso como tema, levaria meu texto a um processo de Entropia, e não sairiam boas ideias, ou ideias claras para o público ler. Agora fui claro? — completei.  A jornalista da tv pública — altamente imparcial, nada governista, de saia justa, na saia justa, e de pernas (cruzadas) de pele lisa-brilhosa-completamente-depilada  —  foi seca: Não, não foi claro, o senhor não respondeu à pergunta, ou grande parte da pergunta. E prosseguiu, séria, seu rosto em close mostrava que alguns jornalistas quando estão bravos seus lábios inferiores tremem levemente ou então as pálpebras, Vamos para mais um intervalinho e voltamos para o terceiro bloco do nosso “Pensado a Política com os Pensadores”.
Durante o intervalo, outro telefonema. Agora diretamente para todos do estúdio, inclusive para mim. Era o governador Carlitos. Já entrou esbravejando, Podem colocar o triplo de intervalo nisso, precisamos ajustar o discurso do entrevistado com o nosso discurso, e prosseguiu falando à jornalista de pernas lisas brilhantes-totalmente-depiladas e cruzadas e a mim, O que é isso de latência, subjacente, tautologia, misoginia, misantropia? Olha, meu assessor anotou quantas palavras o público desconhece; aliás, nem eu conheço essas coisas que vocês estão falando... Precisamos afinar o discurso, definitivamente afinar o discurso. O senhor, disse ele a mim, o senhor já conferiu o depósito na sua conta? Então, não está lá o dinheiro? Como da outra vez, praquele texto que agora você não se lembra, nós do partido depositamos antes de você escrever, não foi? Ele me apertou, e eu não podia negar, Sim, tudo certo com o pagamento governador, tudo certo. Me senti vendido. Mas ser vendido não representa nada quando se trata de escritores. Somos uns inúteis gananciosos com proteínas de sobra no corpo e nos neurônios. E ele, o governador, continuou, vou entrar direto com vocês, no ar, vou conversar com vocês ao vivo, ou seja, por telefone, quer dizer... Bem, é isso, dá mais um pouco de intervalo pra baixar a adrenalina e aí vocês voltam, mas voltam comigo, hein, hein...
Eu sabia que aquela porra não ia dar certo, não ia. Pensei em me controlar, e estava até achando que ia conseguir. Mas aí comecei a pensar no Carlitos. Que o Carlitos é um coronelzinho inculto, que juntou a massa falida da família dele com a massa falida da família da mulher dele pra juntos falirem o estado. E, pior, quanto mais o estado afunda mais o Carlitos viaja pro exterior pra correr de carro. Sim, ele corre de carro. No exterior. Comecei a pensar nessas coisas. Lembrei da vez que meu amigo Assessor de Comunicação me contou sobre quando o Carlitos se reuniu pela primeira vez com partido Azulino dele lá em São Paulo, e ele ligou desesperado pro meu amigo AC perguntando o que ele deveria falar no meio daqueles caras todos, os fodões, o ex-presidente, o candidato a presidente pelo partido, o governador do estado dos SPs, e ele ligou perguntando isso pro AC porque ele, o Carlitos, sabia que lhe faltava massa cinzenta, faltava repertório, que ele era mesmo analfabeto no meio daqueles caras todos lá... Lembrei a entrevista cultural com o Carlitos pro Tabloide Provinciano falando que o último grande show que ele tinha visto era o do Zezé de Alencar & Marciano, lembrei a Festa Country em que a mulher, me disseram e me mostraram fotos, em que a mulher do Carlitos ficou bêbada e começou a falar besteiras e a pôr as tripas pra fora. Lembrei a vez que o Carlitos, essa especiezinha-pífia de grande ditador, falou que os caras da poliça não divia estudar que estudar só criava gente que depois ia querer contestar, se rebelar, ou coisa do tipo... Lembrei as pessoas tão incultas quanto o Carlitos que cercam o Carlitos no palácio do governo, lembrei os passeios de moto do Carlitos pela cidade, o Carlitos playboy, que faz bronzeamento artificial, lembrei o Carlitos com aparelho nos dentes pra fazer a correção das presas e deixá-lo, ele, o Carlitos, mais ainda feito um boneco de cera, mais ainda sem expressão. Pensei e pensei no Carlitos jogando um balão pra cima e controlando o balão, jogando pra cima, jogando, e esse balão é o mundo, o globo terrestre: uma bola, que o Charles Chaplin controla, que o Carlitos, o Chaplin, vestido de Hitler, controla, controla feito uma bola, mas acontece que o Carlitos, o nosso Carlitos, não é o Hitler, nem o Chaplin, nem o dono do mundo, feito ele pensa ser, o Carlitos o Carlitos o Carlitos que voltou junto com a volta do intervalo, e eu ainda levei um tempo pra entrar no ar, e só fui entrar de vez, absorto que estava nessas considerações sobre o Carlitos, só entrei quando ouvi o Carlitos perguntando, Senhor tal, o senhor me ouve. Eu disse que sim, Sim, ouço, governador. Ele continuou e a jornalista da tv pública, imparcial, a jornalista com esgar rasgando os cantos da boca, a jornalista de pernas lisas-brilhosas-totalmente-depiladas de pernas de fora numa saia justa, de pernas cruzadas, a jornalista tentava fazer cara de simpática pro público, e então Carlitos fez a pergunta, Então, senhor escritor tal, por que motivos o senhor tem preferências pelo Aelsinho das Neves, nosso candidato? Nessa hora, me vinguei do Carlitos, deixei o tempo morto morrer ainda mais, deixei o vácuo entrar no estúdio, vazar pelos cantos das tevês nos lares dos telespectadores, fiz o tempo morto fazer com que todos no mundo naquele momento quisessem morrer, fiz do tempo mórbido o tempo exato da política, fiz da morte do tempo a metáfora do nosso tempo morto, deixei a morte se expandir no tempo e cruzar todos os tempos possíveis que já estavam mortos ou no limbo ou na UTI, deixei, finalmente, outro tempo, o tempo de Bergson invadir o tempo morto e mórbido e dar vida a esse tempo, tornando esse tempo indivisível, incompreensível, não mais quantitativo, o tempo vivido qual passado vivo no presente e aberto ao  futuro, o tempo vivido e experimentado pelo espírito, o tempo imprevisível, o tempo qual novidade incessante, como fluir contínuo, deixei o tempo da memória o tempo da memória o tempo da memória invadir invadir invadir (...). Então, respondi: Governador Carlitos, eu gosto do Bergson porque para o Bergson (...).


Pequeno Gianluca.