quinta-feira, 30 de julho de 2009

Futuro Presente


Confirmado: dia 17 de agosto, nas Livrarias Curitiba, o lançamento da coletânea Futuro Presente, de Ficção Científica, organizada pelo Nelson de Olveira. Sai pela Editora Record. Quem passar por aqui, está convidado, o time científico está no convite acima, clica aí no bichinho e vai ver. Abraços marcianos a todos.
Essa é a segunda publicação em que participo no ano. Um ano de gripe e até agora meio estranho. Sabe aquele ano em que você sente que falta algo? E a ficção não preenche. Pode só aliviar. Ei-la. O leitor que invente mundos outros a partir daí. E crie um mundo ao menos sem gripe.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Amigos

paulo sandrini


E então eu aqui, assim. Olhando por essa janela. Lá fora o chão e o telhado das casas molhados por causa da chuva fina. Um silêncio, o mundo dormindo em paz. Mas aqui dentro de casa, aqui dentro da minha cabeça, um caos do caralho, entende. Um caos. Fico pensando em toda a paz que essa gente medíocre está desfrutando agora. Toda essa gente que mora nesta porra de condomínio. Uma vida pacífica proporcionada por empreguinhos de merda que nunca eu ia querer pra mim. Empregos pruma gente conformada, bovina, entende. Uma gente cujo principal objetivo de vida é trocar de carro ano a ano e ir pra merda de praia nas férias. É, sim, essa gente é assim, entende. Tipo esse vizinho da frente aí, gerente de produção numa montadora de carros. Um porra que acha que só porque troca de carro sempre [claro, a montadora vende o carro pra esse merda a preço de banana] é melhor do que eu. Vejo isso no jeitinho como ele olha. Olhar de cima, entende. Um porra. Um porra de merda. Entende? Não agUento mais olhar pra cara dessa gente. Mas aí eu tava te falando do caos que tá a minha cabeça. Sabe, como pode um cara como eu, com mestrado, doutorado, falando três línguas, estar fodido? Sem emprego. Sem projeto de pesquisa. As contas todas atrasadas, o oficial de justiça batendo aqui em casa pra levar as coisas. Como é que pode, pergunto. Quando vejo a filha da vizinha ali da frente, toda lá orgulhosinha, fico puto. Agora ela, a filha da vizinha, dá o sangue numa empresa de tecnologia. Uma analfabeta funcional com três filhos, cada um de um pai. Corroborando a superpopulação no globo. Deviam fazer queném na China. Proibir as pessoas de colocar mais de um filho no mundo. Ainda mais filho dessa gente crassa. Mas como eu falava: ela tá toda orgulhosinha agora, a filha da vizinha, só porque arrumou um emprego numa empresa de tecnologia e mais um cara pra casar, lá mesmo nessa empresa em que ela entrou há pouco. Veja só, nem bem entrou e já arrumou um otário pra ajudar a bancar os filhos e a casa. Um gordo babaca que entra e sai do condomínio escutando, no carro, Ivete Sangalo, axé, pagode, hino de time de futebol, essas porras. E ela, a vizinha, lá, toda cara-virada agora. Só porque arrumou um marido gordo e churrasqueiro de primeira. Mas antes, precisava ver, antes vinha tentar vender até produtos da Avon aqui em casa. Fora o material de informática de terceira linha. Uma picareta do cacete. Mas eu nunca comprei. Coisa vinda do Paraguai, sabe. Não alimento esse tipo de gente. Me vender um livro ela nunca viria, não é? Nunca. Uma ignorante. Ah, mas uma ignorante que agora tem uma picape, que antes não tinha, na garagem. Então se acha melhor que a gente, também. Mas te falo isso, só te falo isso, pra você ver como a gente, gente como eu e você, não é valorizada. Eu aqui preocupado com coisas mínimas. Com as banalidades. Como é que um cara como eu, intelectualizado, vou me preocupar com essas coisas? Mas me preocupo, né? Falta grana. Trabalho. O lance é sumir dessa porra deste país, entende. Veja só, o cara ali da frente, de uma das casas perto da portaria, fiquei sabendo, tá vendendo o imóvel pra ir morar com a família na França. Trabalha numa multinacional. Não fala um isso de francês, mas vai embora. Levar os equívocos e o mau-gosto da nossa classe média pro exterior. A esposa, uma loira descolorida, é dessas que deve adorar reality shows e os filhos, dois gordinhos chatos, devem encher a cara no McDonald’s, no Burger King. Pois é, meu amigo. Isso lá é ideal de vida? Mas vão levar esse ideal pra França. E o Paulo Coelho na bagagem, só pode. E eu aqui, com a cabeça a mil. Mil projetos e nem um sequer se concretizando. Aí vem o desespero. A taxa de condomínio atrasada, e olha que os babacas daqui votaram numas reformas, na última assembleia, que só vão onerar ainda mais a gente. A taxa vai subir. E eu vou continuar dando o calote. E as cobranças da administradora serão mais constantes. E eu não sei lidar direito com essa porra. Não gosto de dinheiro, mas também não sei lidar com dívidas, entende. Aí não durmo. Não como. Mas principalmente não durmo. Fumo pra caralho. Encho a cara de café. De ansiolítico. Antidepressivo. Um verdadeiro coquetel molotov. Aí ligo pra um ou outro amigo. Aqueles que eu sei que não acordam cedo pro trabalho, como você. Ainda bem que a gente pode se falar, não é? Temos tempo de sobra, hein! Haha. Podemos contar um com o outro, nessas horas. À noite é sempre pior, cê sabe. O pânico noturno. Sim. Claro que você sabe. Como eu ia me esquecer. Me lembro bem daquelas vezes, você fodido, sem bolsa pra pesquisa, sem trabalho em empresa particular, a mulher te deixando. Ah, como me lembro, cara. Foi foda, mas passou. A gente se falava todo dia, de madrugada, lembra? Cê me ligava e ficávamos um tempão na linha. Como agora estamos. Lembra, cara, cê tava deprimido pra caramba. Bem como eu estou hoje. E eu gostei de ajudar você, fazer alguma coisa por alguém. Aí ficamos mais amigos, amigos de verdade, devo dizer. Não foi? Sim, foi. É bom a gente poder desabafar nessas horas. Alguém pra ouvir, e tal. Não te ajudou? Não foi algo bom, falar? Não foi? Me diz. Responde. Não foi? Ó, não precisa ficar constrangido em lembrar, em falar sobre. Ficar em silêncio. Nada a ver. A gente pode falar daquela época, se você quiser. Pode sim. Vai ser bom pra mim também, tirar um pouco o foco só dos meus problemas. Lembrar do seu exemplo. Hei, cara, cadê você, cadê, cadê? Fala aí, meu. Fala se não foi do jeito que eu falei. Aquela sua fase. Claro que foi, né? É. Sei, sono. Desculpa de quem não quer tocar no assunto. Tudo bem. Tudo bem. Tá com sono. Tô vendo. Mentira. Sono? Pois é, nem responde a pergunta quando faço. Ah, sei. Vai levantar daqui a pouco. Pra trabalhar. Trabalhar? Onde? Como é que cê nem me disse nada. Sei que cê trabalha, mas nunca teve que levantar cedo. Ah, porra, não queria que eu ficasse pior se soubesse que aquela universidade chamou você e não eu. Que cê agora tem dois trampos. Sei, achou que eu ia ficar mal. Não, não tô mal não, cara, com essa história. Mas você deve tá, né? Me passando a perna, não é? A rasteira. Por isso nem se pronuncia. Tá esquivo. Quase não fala. Não é nada disso? Claro que é. Fica aí. Constrangido. Só dissimulando. Não, claro, você não tá constrangido, só com sono. Sei, sono. Sim, seu merda, tira minha vaga e ainda por cima consegue dormir. Agora vai poder fazer mais contas, comprar mais coisas, viajar, ir ao teatro, cinema, não é? Mais um carro na garagem. Bancar mais frescuras da nova mulher. Dos filhos. Claro, claro, vai dormir, vai. O sono dos justos. Não é? Vai lá. Vai dormir. Traíra. Vai dormir que eu vou desligar. Desligar esse telefone e continuar aqui, sozinho, com os meus fantasmas. Desculpa aí. Desculpa se te atrapalhei, vencedor. Bom sono.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nosotros en Perú



A antologia 90-00 Cuentos brasileños contemporáneos, será lançada no Peru, dia 25 de julho, às 20h30, na 14ª Feria Internacional del Libro de Lima. A antologia foi organizada por Maria Alzira Brum Lemos e Nelson de Oliveira, tradução de Alan Mills e José Luis Sansáns, publicada pela Ediciones Copé, selo editorial da Petroperu .

Participam da antologia:

90: Ademir Assunção, André Sant’Anna, Edyr Augusto, Fausto Fawcett, Joca Reiners Terron, Luci Collin, Marcelino Freire, Maria Esther Maciel, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Bressane, Sérgio Fantini.


00: Ana Paula Maia, Andréa del Fuego, Daniel Galera, João Filho, Marcelo Barbão, Michel Melamed, Paulo Sandrini, Paulo Scott, Santiago Nazarian, Veronica Stigger.


Na mesma feira, Maria Alzira Brum Lemos lança seu La Orden Secreta de los Onnitorrincos, pela editora Borrador.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

United killers of Benetton



Creio ter publicado anos atrás este texto no site Fazendo Média e o encontrei reproduzido num blog.
O título é o que vai lá em cima, United killers...


Ficamos assim: eu mato os azuis e você os brancos.
Os brancos? Nunca vi, nessa brincadeira, quem gostasse de matar os brancos. Eu é que não vou matar.
Pensando bem, também não tenho conhecimento de que nessa brincadeira tenham matado algum azul. Eles são os nobres da brincadeira. Só podem ser mortos quando todos os outros já tiverem sido. Mas nunca alguém foi tão longe nessa brincadeira. Não serei exceção. Vamos matar os de outras cores.
Quais?
Os amarelos.
Os amarelos, não. Os amarelos ficam lá do outro lado. Por enquanto nos concentremos nos que estão aqui a oeste.
Pois já sei. Nós dois mataremos os pretos.
Já tem muita gente matando os pretos. Vamos matar os pardos.
Os pardos? Pois, sim. Acho que os pardos estão de bom tamanho. Mas como a gente identifica um pardo?
Aqueles que têm uma tonalidade de burro quando foge ou cor de fresta são os pardos.
Não será muito difícil identificá-los. À noite todos os gatos são pardos.
Mas não estamos procurando por gatos.
Estamos procurando por quem?
Todos aqueles que a gente não gostar e forem pardos. Menos os gatos.
E se eu não gostar de gatos?
Eu sei que você gosta de gatos e tem um grande interesse neles, até cria um.
Diríamos que aprendi a conhecê-los, depois a gostar deles.
Então, essa brincadeira fica mais excitante quando a gente não demonstra interesse algum em conhecer aquilo que se aniquila, basta, apenas, discriminar uma cor, botar na cachola que não gosta dela e pronto: sair à caça. Funciona assim, de acordo?
Ok. Aniquilemos então os pardos. Não queremos conhecê-los e também não gostamos de sua cor.

Impressões Pan-americanas

Em 2007, Curitiba apontava como um forte centro de debate sobre literatura. Nesse ano, conseguimos realizar aos menos dois eventos que apontavam para a internacionalização do diálogo a partir de uma cidade que pouco ou quase nada dialoga com o resto do país e do mundo quando o assunto é literatura. Tivemos em 2007 duas esperanças. O Impressões Pan-americanas e o Curitiba Literária. Quem sabe uma hora, um dia desses, levantem de suas sepulturas para tirar o tom fúnebre que paira sobre o nosso debate intelectual sobre literatura...
Por ora, deixo a entrevista que concedi à revista Cult por ocasião da realização do Impressões.
Isso, para que as impressões não se apaguem, nem a memória literária de uma cidade quase sem memória literária.

http://revistacult.uol.com.br/website/site.asp?edtCode=040CB0D3-CEE3-41F2-9818-2C00A2B3A661&nwsCode=7AAB5990-F736-48C5-9C1E-2B57281EDC38

terça-feira, 14 de julho de 2009

Oficina em Caracas

A convite "del cabrón" Leo Felipe Campos, grande hermano mío, editor da excelente revista "Plátano Verde" [http://www.platanoverde.com/platano_blog/?page_id=3] e também da super bem projetada "2021 Pura Ficción" [http://vimeo.com/2217166], estarei ministrando uma oficina de criação em Caracas, no Instituto Cultural Brasil Venezuela. Siguen abajo las informaciones.

Taller de escritura a cargo del novelista brasileño Paulo Sandrini

A partir de algunos cuentos y preceptos de Edgar Allan Poe, Horacio Quiroga, Clarice Lispector, Julio Cortázar y Osvaldo Lamborghini, Paulo Sandrini propondrá ejercicios introductorios para trabajar con la inventiva desde la materialidad del texto. En la conversación sobre esas lecturas se ubicará la clave para construir pequeñas historias que tendrán en la violencia al motor de nuestra imaginación.
Del lunes 03 al jueves 06 de agosto. De 2 a 6 pm.
En la sede del Instituto Cultural Brasil Venezuela (Av. San Felipe, entre 1ª y 2ª transversal de La Castellana, Qta. Degania. 266-14-76 / 266-4302).
Costo: BsF. 200
Interesados, enviar un cuento a violentaimaginacion@gmail.com
Una vez que le avisemos que ha sido seleccionado como participante, favor realizar depósito o transferencia a la cuenta del BANCO: VENEZOLANO DE CREDITO. A NOMBRE DE: INSTITUTO CULTURAL BRASIL VENEZUELA, y enviar voucher o constancia de transferencia al numero de fax 266-4302 o a la dirección electrónica administración@icbv.org.ve.
Para mayor información comunicarse al INSTITUTO CULTURAL BRASIL VENEZUELA: 0212 266-14-76 / 0212 266-43-02

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Guerra: essa é a nossa condição.

O mundo precisa da guerra. Fartura e paz criam covardes. Imaginem um mundo pacífico, vocês conseguem? Um mundo, por exemplo, sem guerra de mercado (que leva à guerra de fato – bélica), sem guerra de egos, sem guerra de interesses.
Uns dizem que o mundo não evoluiria. Que estaríamos na pré-história. Contudo, mesmo na pré-história, meus caros amigos, teríamos os tacapes em mãos, pra soltar a porrada no primeiro que mexesse no nosso naco de carne de tigre dente de sabre. Se tivéssemos só a paz, não a guerra, o que dominaria, em vez da guerra, seria a conversa mole, a conversa fiada e a lábia. Sempre há espertinhos querendo levar vantagem, se não à força, na base do papo torto. Um mundo de paz, vejam, não geraria tantos lucros institucionais para a publicidade, com suas idiotas campanhas repletas de camisetas brancas e pombas da paz (justo a pomba que é um bicho briguento pra cacete entre seus semelhantes), a classe abastada não posaria de bacana saindo em colunas sociais “Pela Paz”. Nossas vidinhas seriam um total e fatal tédio. Aquela sensação pré-histórica de ter que matar um leão ou um tigre dente de saber por dia nos abandonaria e aí sim os leões ou os tigres é que nos matariam. Se tivéssemos paz, não teríamos mais a Copa do Mundo e as Olimpíadas que são guerras dissimuladas em forma de esporte, onde quem vence é o mais forte. Pelo menos no futebol somos a maior potência bélica. Já nas Olimpíadas os mesmos que ganham no campo de batalha são os que levam o maior número de medalhas. Tudo é uma constante guerra. Já nascemos brigando com a placenta. E vejam bem, a guerra é algo institucionalizado, tem suas regras próprias: não pode isso, pode aquilo e aquilo outro, isso aqui não. Tem até modalidade das guerrinhas-treino. A do Iraque, por exemplo, não é/não foi propriamente uma guerra, é/foi apenas uma preliminar, um jogo treino, um amistoso contra um timeco de merda. Pra depois vir a Guerrona, talvez agora contra os iranianos. Mas na verdade a Coreia do Norte está quebrando todo o esquema. Agora os estadunidenses (com seu cordão de puxa-sacos decadentes que inclui Inglaterra, França e Alemanha) não sabem quem atacar: se o timeco do Irã ou o time em ascensão da Coreia. Sempre estamos a precisar de uma guerrinha básica. Aquela lá, a do Iraque, pra voltar lá pro Oriente Médio, é/foi só mais uma guerrinha. Uma guerrinha amistosa. Uma Guerra pela Paz, dizem. E, bem, sem guerra não pode existir tempo de paz. Ou como já escreveu o sábio Manoel Carlos Karam, toda guerra é feita em tempos de paz.
Se não fôssemos realmente a favor da guerra, certamente nos policiaríamos, por exemplo, para evitar expressões como “Estou batalhando por algo melhor”, “Estou na luta”, “Vamos dar o sangue”. Vejam, a todo instante, estamos falando em guerra, em sangue — uma guerra que apesar de metafórica engendra no inconsciente coletivo guerras reais, a partir do momento em que açula no indivíduo a competição, o aniquilamento da concorrência, terreno fértil para a medragem de um ideal de mundo fascista sob a pele do tal neoliberalismo. Vemos que a coisa começa isolada, sendo plantada no indivíduo, e termina em larga escala. É sempre assim. Do individual ao coletivo estamos sempre “batalhando”, sempre na luta. Talvez se cambiássemos algumas expressões necrófilas (pois elas padecem de uma paixonite aguda por Tânatos), se as cambiássemos por expressões do tipo: “Estou criando condições”, “Estou tendo uma chance”, “Vamos pôr o coração para alcançar um fim”, talvez teríamos um princípio, em pequena escala, claro, para começar a mudar alguma coisinha, tendo no discurso cuidadoso o início de um antídoto contra a nossa natureza bélica e bárbara. Mas a verdade, a pura verdade, é que somos necrófilos; e a favor dos nossos instintos animais gostamos mesmo é de um cheiro de sangue, de uma batalha. O que podemos fazer? Lutar contra essa condição seria besteira. Nós só precisamos, enfim, da Paz pra termos tempo ocioso pra incrementar bem a Guerra, fazê-la cada vez mais cruel. Só.
Essa é a nossa condição, companheiros de batalha. Se você não a aceita, batalhe pra mudar. Ainda assim, estará batalhando, na Guerra.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Vida de inseto [ou para os que estão em casa]

paulo sandrini


Há dias devoro telenovelas, telejornais, reality shows, jornais populares, domingão do Faustão, jogo de futebol.
Encarnei numa de “não tô nem aí com a reflexão”. Me deixo levar nas ondas dos intervalos comerciais feito um corpo afogado boiando e sendo levado pela correnteza caudalosa de um rio de esgoto. E sabe como me sinto? Anestesiado. Como que paralisado. Sem ação. Sem conseguir reagir. Há dias não leio. Há dias não escrevo coisas que realmente valem a pena ser escritas. Se penso em pensar me pesa a cabeça e ela tomba: em direção à tv. Meus cabelos vão lentamente se transformando em antenas. Ligadas o tempo todo em entretenimento. Se me falam de política, concordo com tudo: até com os tiranos. E os acho perfeitamente corretos. Se falam de narcotráfico, fico quieto, pois estou drogado. Se falam em combate à fome, só penso se vou ter uns trocados amanhã pro meu fast food. Foda-se a fome. Se falam em transgênicos, não tô nem aí, como o que tiver à mesa, depois vou me transformando numa larva, então quando tento novamente, agora feito larva, comer os transgênicos, vou morrendo pela boca. Se me pedem colaboração: só penso em colaborar com a votação do paredão do Big Brother. Se me falam em livros, penso logo em como fazer amigos & influenciar pessoas. Mas todo o tempo o influenciado sou eu. Se me pedem opinião sobre a cota para negros nas Universidades, digo que isso não é problema meu, sou caucasiano, só virei a me preocupar um dia se meu filho que ainda nem nasceu se danar por ser mulato [nunca se sabe o futuro da paternidade em terras híbridas]. Se me perguntam sobre a Guerra, digo que estou em paz com a minha consciência, durmo tranquilo. Cogumelos de fumaça povoam meus sonhos. Não entendo essa metáfora.
E assim seguem os meus dias. Em frente à tv. Tomando meu leite com Ultralienação. Comendo biscoitos de Conformismo. E meus cabelos virando antenas. Até chegar o dia em que o sistema que me engendrou cuide de me matar com uma chinelada.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Burros n'água

Assim que chegamos, amarramos nossos burros na sombra e começamos uma conversa pra boi dormir. Os bois dormiram. Mas os leões acordaram. Apesar disso, prosseguimos nossa conversa pra boi dormir durante vários dias, matando um leão por dia. Assim que matamos todos os leões, tiramos o time de campo (apesar de sermos apenas dois) e voltamos pra casa. Pouca surpresa ou nenhuma, quando chegamos lá e nos deram com a porta na cara (acontece nas piores famílias). Famintos, batemos à porta do vizinho. Que foi cordial e disse que onde come um comem dois, onde comem dois comem três, onde comem três comem quatro e assim sucessivamente, pois não parava mais de chegar gente visto a aquiescência do nosso vizinho, que se propalou pelos quatro cantos na velocidade da luz e em ritmo de festa. Maltas embarafustadas de oportunistas vieram em sua maior parte dos lugares comuns: dos Quintos dos Infernos, do Cafundó-do-Judas (e de onde ele perdeu as botas), de Pra lá de Bagdá, de Pra lá de Marraquéchi, de Muito mais além de Jerusalém etc. etc. etc. Então nosso vizinho resolveu fechar a porteira no “onde comem um milhão comem um milhão e um”. E olha que essa gente comeu. E comeu tanto que parecia saco sem fundo. O milionésimo segundo, que veio lá da Terra de Ninguém, e que ficou pra fora porque o nosso vizinho resolveu parar no “onde comem um milhão comem um milhão e um”, teve um desmaio de fraqueza. Juntamos os parcos restos e demos a ele, que saco vazio não para em pé. Os milionésimos terceiro, quarto, quinto e sexto quiseram protestar, no que os mandamos todos pra Casa do Chapéu.
Após tamanha fartura, perguntamos ainda ao nosso vizinho se ele não nos podia arrumar um pouco de sombra e água fresca. Ao que ele respondeu, Claro que sim, o que vocês necessitarem, quero que fiquem à vontade, muito à vontade, e lembrem-se, a casa é de vocês. Quando ele nos deu essa abertura, ficamos mais folgados que gola de palhaço. Dormimos feito anjos. Comemos feito porcos. Dançamos conforme a música, a nossa música. Estávamos assim, exultantes, quando nosso vizinho nos pegou de calças curtas (as suas calças curtas) e resolveu, por isso, ficar do ovo virado. Intimidados, quisemos contornar a situação. No que ele foi duro na queda. Disse-nos que poderíamos usufruir de tudo naquela casa, menos de suas calças curtas. Mais tarde constatamos que as calças curtas do nosso vizinho possuíam um compartimento especial pra quando seu saco ficasse cheio. Sem suas calças curtas com compartimento especial pra saco cheio, ele realmente não teve mais saco pra gente, quis que fôssemos embora. Foi quando lhe avivamos a memória para o fato de que agora a casa era nossa, e ele mesmo havia dito isso lá atrás, então nos sentimos, por isso, no pleno direito de usar, sim, suas calças curtas e que se ele estivesse incomodado com o fato que se retirasse de nossa casa. Dissemos então a ele, Os incomodados que se retirem, não é assim o ditado, meu velho? Pra nossa desmesurada surpresa ele engoliu o fato (não sabemos se com farinha ou não) sem mais retrucar. Feito vaca de presépio, juntou as tralhas e picou a mula.
Na mais genuína galhofa foi como vivemos durante anos. Séculos. Milênios. Era o paraíso. Tudo como o Diabo gosta e Deus aprova. Só aí, depois desses milhares de anos nessa folga toda, é que decidimos amarrar os nossos burros por ali mesmo. Foi então que lembramos. Esquecêramos deles, amarrados lá, à sombra. Correndo feito loucos, trupicando na jaca, catando cavaco e pegando patinho, num piscar de olhos chegamos ao lugar em que os havíamos deixado. Surpresa nossa quando demos com os burros n’água. Foi aí que meu companheiro não se deixou abater e disse em alto e bom som, Não há outra solução, a necessidade nos impele a mergulharmos atrás dos burros, e completou, num tom que parecia shakespeariano, me incitando, A necessidade é a mãe da audácia. No que eu respondi, na minha santa ignorância, dizendo que não conhecia porcaria nenhuma de audácia e muito menos a mãe dela, mas que concordava em irmos a fundo na nossa empreitada dizendo (também em tom que parecia ser shakespeariano) é isso aí, Fartura e paz criam covardes, mergulhemos, pois.
Resfriados até o último fio de cabelo (pois quem entra na chuva é pra se molhar, mas quem cai na água é pra se danar), extenuados depois de minutos a fio procurando burros nos recônditos mais profundos e obscuros daquela caudalosa água, um de nós finalmente foi sensato e disse (num código subaquático que só nós mesmos entendíamos, porque não interessava a mais ninguém entender), Chega, vamos procurar os burros em outro lugar, aqui na água não dá, estou me sentindo um peixe fora d’água no meio dessa água toda. O outro de nós sugeriu (por meio do mesmo código subaquático), Vamos nadar pela superfície, os burros, pensando bem, nunca ficam por baixo, eles não têm humildade suficiente pra isso.
Viemos à tona. E olhando em direção oposta à margem da qual tínhamos mergulhado, avistamos os burros, já em terra firme. Iam se distanciando. Tranquilos, absortos numa conversa fiada. Enquanto um falava o outro baixava a orelha. E nós, ali, cercados de água, já sem forças pra alcançar a margem, reafirmando que quem cai na água é mesmo pra se danar. Naquele momento, ficamos convictos de que seria impossível recuperarmos nossos burros pra amarrá-los novamente à sombra (qualquer ínfima sombrinha que fosse). Mas, entre afundar ali mesmo ou nadar nadar e morrer na praia, tínhamos uma certeza: preferíamos morrer na praia.

texto que ficou fora dos livros, escrito à época d'O estranho hábito de dormir em pé".

Geometria do jornalismo

paulo sandrini


Eu tinha belas coxas, uma boca mais ou menos, uns seios fartos e um bumbum quase sedutor [não totalmente, porque era um pouquinho quadrado, mas eu era jovem e um bumbum jovem quase sempre é sedutor e essas questões meramente geométricas, por isso, não me causariam problemas imediatos]. Resumindo, eu era uma atraente jornalista, com um diploma medíocre, mas jornalista. Uns olhos azuis e criatividade zero, mas jornalista. Uma pós em relações internacionais e monoglota, mas jornalista. Um emprego idiota de revisora, mas na minha carteira de trabalho lá estava: jornalista.
Resolvi então não me contentar mais com essa meia-condição profissional, apesar de todas as minhas limitações de ordem intelectual. Ou eu seria uma jornalista de verdade ou não seria nada [porém, é bom que se diga que estudar mais ainda, ler o mínimo, adquirir repertório estava definitivamente fora dos meus planos, queria um caminho mais curto]. Foi quando eu insisti insisti insisti com o editor da revista em que eu trabalhava como revisora e consegui finalmente uma abertura para entrevistar personalidades, pois sem entrevistar personalidades um jornalista não chega a lugar nenhum. Aí escolhi o metiê de atuação: a política. Entrevistar políticos era uma boa chance de eu vir a me tornar uma jornalista reconhecida, tinha certeza. Entrevistei vários secretários de estado, deputados estaduais, vereadores. Mas eu sabia que se entrevistasse Ele, alavancaria minha carreira mais rapidamente.
O tempo passou, e eu, por conta do excesso de trabalho na redação da revista [por causa das entrevistas com políticos — menores, é bom que se diga — eu subi de cargo e cheguei a chefe de redação mesmo sendo a maior das celeradas com a escrita] não tinha mais tempo de batalhar a difícil, a quase impossível, entrevista particular com Ele.
Eu já estava fumando muito nessa época. Envelheci dez anos em dois. Uns fios de cabelos brancos até começaram a surgir. O excesso de cigarro danou com a minha pele e meus dentes. Minha boca murchou um tanto. Apesar disso eu ainda tinha muito charme. Contudo, já estava quase desistindo da entrevista com Ele. Vendo minha carreira atravancada, estagnada. Então, no final do mandato Dele, eu voltei a insistir insistir insistir. Até conseguir uma entrevista. E a sós. Consegui [melhor não confessar as armas usadas com o pobre assessor de imprensa Dele para tal vitória pessoal minha].
Eu tinha certeza de que aquela entrevista mudaria para sempre os rumos da revista em que eu trabalhava, mas não só: mudaria os rumos da minha vida. Comprei as melhores roupas e perfume. Eu precisava estar impecável [mas pronta para todos os pecados, que a vida é assim mesmo, não?]. O assessor Dele me passou o endereço do encontro. Eu desconhecia o local. Era numa rodovia. No meio do caminho, desconfiei do que podia ser. Mas segui em frente. Um motel! Malditinho! Um motel. Então percebi as intenções Dele. Fui direto pra suíte de luxo. Ele bebia tranquilo uma dose de uísque. Não era um homem bonito de perto, nada bonito. Nem sedutor [pessoalmente]. E nem demonstrava [pessoalmente] um ar de inteligência como na TV. Era [pessoalmente], ao vivo e em cores, um pífio, a bem da verdade. Um terno italiano num homem daquele parecia mais um terno velho com cheiro de naftalina típico de funcionários de repartição pública ou de advogados de porta de cadeia, ou ainda de vendedores de consórcio. O perfume comprado certamente na Galeria Lafayette [com dinheiro público, claro] por sua santa esposa não ajudava muito. Era um homem feio. Políticos geralmente são homens feios, não só pela ética geralmente ausente, mas por uma conjuntura maior e intrínseca à própria natureza política: o poder enfeia. No quesito lábia, no entanto, Ele era imbatível.
Cumprimentamos um ao outro. Tomei um pouco de água com gás. Ele me falou primeiro da sua vida, de sua família. Depois, de sua trajetória política e que aquilo estava em seu sangue. Quase um Destino Manifesto estar onde estava. Porém, e Ele foi muito objetivo na sua proposta, me disse que só falaria dos planos e dos problemas [que seriam abertos a mim com total exclusividade] pelos quais o Governo vinha passando com uma condição...
A princípio, me fiz de desentendida. Depois, aceitei. Claro que aceitei. Mas na hora agá, Ele declinou de sua empreitada de sedução. Disse — quase chorando, numa teatralização típica de telenovela [taí, melodrama; outra coisa de que os políticos entendem] — que não iria trair a sua família, nem seu governo. Era um homem fiel aos princípios da ética, da família e de Deus.
Eu já estava nua, na cama, com o bumbum arrebitado quando ele me mandou sair. A bem da verdade me enxotou dali. Eu fiquei nervosa. Saí atabalhoada, nua. As peças de roupa caindo pelo piso. Ainda o ouvi gritar no celular pra um de seus assessores, Traz outra que o bumbum dessa aí é quadrado, quadrado!
Hoje eu faço o que todos os jornalistas fazem com seus desafetos: ataco todos os pontos vulneráveis Dele, que se elegeu novamente, depois de anos, para o cargo máximo do estado. Ataco, ataco e ataco. Às vezes, muito raramente, Ele manda me processar. Então vejo que minhas palavras surtiram efeito. Fico feliz com isso. Me realizo consideravelmente quando isso acontece. Mas quando passa a euforia por esses ataques bem-sucedidos, eu me deprimo. Fumo compulsivamente. Bebo pra danar. Penso em mil calúnias novamente, só de raiva. E pior: me ponho novamente e eternamente a lamentar a geometria do meu bumbum: esse aspecto limitador da carreira de uma jornalista como eu.


Publicado anteriormente da revista Idéias

Pequeno Gianluca.