quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sujeito Leitor

Projeto Sujeito Leitor, coordenado pelo escritor Cezar Tridapalli e Vinicius Pinto, Parabéns aos dois pelo trabalho dedicado e honesto com o literário em Curitiba. Fica aí minha colaboração com eles.


http://midiaeducacao.com.br/?p=9647

sexta-feira, 16 de março de 2012

Tudo que vejo

(do livro "exposição das tripas", de p. sandrini)

Tudo que vejo é concreto
E asfalto esburacado
Tudo que vejo são janelas
De alumínio
Empoeiradas
Algumas lustrosas
Por excesso de um zelo tolo
Tudo que vejo
São pisos frios de cerâmica
E sobre eles
Carros parados
Sempre reluzentes
Mais vivos que os próprios donos
Tudo, paredes bem pintadas
Portas desbotadas
Tudo que vejo são fios
De alta tensão
Telefônicos
De TV a cabo
Tudo que vejo são calhas secas
Esperando por chuva
Telhados enegrecidos pelo tempo
E então lavam-se
Paredes e calçadas
Mas os telhados
Os telhados são vistos
apenas do alto
Não importam
Assim como o esgoto
Sob nossos pés
Não importa
Nossa cloaca encoberta
Tapada
Encanada
Pra que ninguém saiba
De nossas refeições mal digeridas
Em simbólicas reuniões familiares
E dos cigarros que jogamos
No vaso sanitário
Para disseminar nosso câncer existencial
Pelo intestino da cidade
Tudo que não vemos sob nossos pés
É a nossa essência mais pura
Somos dejetos
Objetos de consumo
Descartáveis
Somos
Sim
Somos
Símios
Numa selva de concreto armado
E aço
E vidros espessos
E grades
E jaulas
E câmeras de vigilância
Somos também
Exímios fabricantes
De mágicas publicitárias
E ao mesmo tempo
Suas próprias vítimas
E tudo que vejo é o lixo separado
Plástico
Metal
Papel
Orgânico
Pânico
E o pânico
De todos os lixos
É o que se mais recicla
Em noites de insônia
Sobretudo
Enquanto as faturas gritam
Sob nossas portas
Pedindo por pagamentos atrasados
E tudo que vejo é teatro
Encenações de felicidade impura
E tudo que vejo é música monótona
Fazendo loopings
Na atmosfera oca
De nossos ouvidos estúpidos
E tudo que vejo
Eu só vejo
E tudo que vejo está
Dentro e
Fora
De mim
Vem e não vem de mim
Eu mesmo
Estou
Fora
De mim
Então tudo que vejo
Faz e não faz sentido
É simples
Complexo
Lógico
Ilógico
Assim
Até perder de vista

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cabo de aço no pescoço (ou oração de natal)

Quando a noite te engole em canais de TV a cabo e te passa um cabo de aço no pescoço e te enforca até o amanhecer quase todas as noites, você não deve se render às pílulas soporíferas. Procure um canal evangélico, católico. Ouça os pastores. Procure a redenção nos afetos falsos do marketing de jesus. Do deus cruel que antes queria teu sacrifício, tua carne no holocausto, e agora quer teu salário e tua fidelidade. Procure ainda a paz noturna num travesseiro de ervas aromáticas, isso pode te acalmar e te aliviar a consciência de vencedor no mundo do Deus mercado. Ou mesmo faça meditação budista, isso pode te dar a falsa sensação de dever cumprido, de estar ajudando o mundo, criando novas energias enquanto Israel sufoca a Palestina. A China, o Tibete. Ou faça um mantra. Bem, bem sussurado. O silêncio é o que esperam de nós enquanto o mundo estrebucha de dor, às vezes na própria rua da tua casa, do teu bairro, ou no Haiti. Descubra que a redenção kitsch da classe média branca é ir consultar um pai de santo para dar conselhos e se prevenir contra os males enviados a você por invejosos. Tua vida amarrada na boca de um sapo. Sim, a você, dotado até mesmo de uma mediunidade arrogante. Afinal, todos hoje podem ter dons mediúnicos. Mas nada disso pode aliviar se em nossa consciência pulsar uma noite violenta, uma noite insone. Uma noite reverberante de consumidores de crack aí na esquina da tua casa. E tudo que você quer é proteger seu clã. Mesmo que, para isso, tenha que dizimar todo o mal ao seu redor. Crianças, não as suas, inclusive. Uma noite em que políticos fazem desvanecer os direitos básicos daquilo que entendemos por democracia. Se é que isso de democracia não seja a denominação política mais inescrupulosa e falaciosa da atualidade. Se dormimos, temos pesadelos. Se sonhamos, nada pode se aproximar da realidade, a não ser mesmo os simbólicos pesadelos. Estes sim são próximos da vida. A vida miserável dos canais de TV, a vida miserável da classe hegemônica e da proletária. A vida doente de velhos políticos obesos de mau caratismo de tanto se empanturrar da coisa pública.

Agora, são os anúncios de natal. Compremos em lojas que se utilizam de trabalho escravo, na China, aqui, no Timor Leste.
Adquira sua cota de bem estar enquanto na noite dos insones, papai noel entra pela chaminé, que raramente existe em nossos lares tropicais, e borrifa gás de pimenta nos olhos da tua família e ainda por cima leva aquilo (não deixando presente algum) que lhe é mais precioso, sua felicidade comprada em embalagens não recicláveis. E, ainda por cima, leva também seu voto para algum corrupto partidário que seguirá impunemente.
E em breve estaremos felizes outra vez. As telenovelas serão substituídas por programas eleitorais. E o mais que nos ofertarão serão cabos. Cabos de TV para nos enforcar no nosso silêncio roto e conivente, para nos matar, a todos, em vida. Nos canais abertos, não há cabos. Simplesmente aberturas. Grandes buracos negros para onde seremos empurrados. Sempre em silêncio. Ou insones.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Trecho de uma novela nova. A narração é feita por um casa, que é personagem principal... e talvez única. Contudo, ainda está sem título.

Para Wilson Bueno


"Tenho certeza de que vocês [leitor, leitora, leitores, leitoras] esperam que eu conte das famílias que aqui viveram dentro de mim, seus hábitos, cultura, língua, feições, roupas, tudo o mais que possa ajudar a enformar seres humanos e a época ...[com todos os seus matizes de sentimentos individuais, históricos, sociais, econômicos etc. etc.] em que estiveram inseridos. O que tenho a lhes dizer é que, em verdade, não estou aqui para falar de humanos ou da condição humana. Já ouvi dizer, quando um professor de literatura aqui vivia, e vou citá-lo só para que não me acusem de não falar de homens, que a literatura, dizia ele, e acho que toda a crítica lugar comum diz isso, sempre trata da condição humana. Mentira, conversa fiada, e estou cá para provar que não, sou uma casa e a história de uma casa é a que vou contar. E, aliás, me dou ao direito de, como um escritor de narrativas curtas, fazer meu recorte, selecionar um ponto de partida e um de chegada, e óbvio que, assim sendo, estou pensando em uma estrutura clássica, com começo-meio-fim, essa fórmula tão em desuso já há décadas, mas que para mim muito me satisfaz, pois não nasci em tempos hipermodernos, e se não tenho bem a certeza de quanto tempo faz que me erigiram neste local, ao menos, cá comigo, aqui dentro de mim, no meu âmago, como dizem vocês humanos, tenho essa sensação clara de que não vim ao mundo em tempos ultramodernos, muito menos em tempos pós-modernos, sendo assim não suporto a fragmentação, a falta de ideologia, essas coisas típicas dos humanos da era pós-tudo. E pois, sim, tenho ideologia. Sou uma casa com ideologia. E se a ideologia não faz mais parte dos ideais humanos, então pode-se afirmar que a ideologia já não é uma condição humana. Contudo, pode ser a condição de uma casa ou daquilo que já não é mais estritamente humano.

Se tenho de eleger um recorte, então, um ponto de partida e um de chegada para contar de minha vida, ou melhor, parte de minha vida, então digo que também vou já escolhendo um gênero. Pois a falta de gêneros definidos me deixa um tanto irritada. Essa coisinha tão pós-utópica! Voltando: se eu fosse escrever um livro, com gênero, claro, este seria de contos pelo simples fato de que os contos são mais acessíveis em um mundo em que as pessoas já há muito tempo não têm tempo para nada, e isso inclui a leitura de narrativas muito extensas, que, para mim, trazem consigo um ideal bastante burguês, pois apenas os que têm tempo de sobra e não precisam se preocupar em conquistar dia a dia a sobrevivência e ainda por cima possuem uma poltrona de leitor bastante confortável e cara, e vivem num local silencioso, distante dos burburinhos modernos e pós, é que podem realmente se dar ao luxo de se deleitarem com um livro de quatrocentas páginas repletas de diálogos antecipados por verbos de elocução e travessões. Realmente um desperdício de espaço da página impressa, um crime contra o meio ambiente. Um conto, portanto, vou contar um conto, que é mais acessível, e os leitores podem ler dentro de um coche, bonde, ônibus, metrô, trem, enquanto vão para o trabalho, viajam etc...

sábado, 22 de outubro de 2011

Do Hipercapitalismo

O capitalismo chegou a um estado de paroxismo, após sua Contra-reforma depois da queda do socialismo na década de 1980, porque não soube nem se reconhecer como Hipercapitalismo. Não existe pós-modernidade. Existe Hipercapitalismo. As ideologias não morreram. Sobrevivem fortemente no discurso mercadológico, estatal e da indústria cultural de massa. A morte do sujeito já foi declarada, mas acontece que o sujeito nunca foi tão sujeitado quanto hoje. Então isso é papo furado de certas epistemologias caducas. O que os deslumbrados, o ingênuos e os alienados chamam de pós-modernidade eu chamo Hipercapitalismo. À crise do sistema financeiro mundial que hoje vemos, não chamo de crise passageira,chamo de paroxismo, crise terminal. O capitalismo pode não morrer, mas o Hipercapitalismo tem seus dias contados. Contem com isso.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

LANÇAMENTO DA SÉRIE LIVROS QUE NÃO PARAM EM PÉ





KAFKA EDIÇÕES VOLTA À CENA. AGORA COM MAIS 3 TÍTULOS: "COM QUE SE PODE JOGAR", ROMANCE DE LUCI COLLIN (MENÇÃO HONROSA NO PRÊMIO CIDADE DE BELO HORIZONTE); "O REI ERA ASSIM", NOVELA DE PAULO SANDRINI, CUJA VERSÃO BEM REDUZIDA SE ACHA NO LIVRO "GERAÇÃO ZERO ZERO", ORG. POR NELSON DE OLIVEIRA COM OS SEUS 21 MELHORES ESCRITORES SURGIDOS NO COMEÇO DO NOVO MÎLÊNIO NO BRASIL; "OS HÁBITOS E OS MONGES", LIVRO DE NARRATIVAS DE ASSIONARA SOUZA.

É A SÉRIE LIVROS QUE NÃO PARAM EM PÉ.


E ANO QUE VEM SERÃO MAIS SETE OU OITO NOVOS TÍTULOS.


ESSE ANO AINDA TEMOS A PUBLICAÇÃO DA NOVELA "CLOACA", DE ANTONIO CESCATTO.


MAIS NOVIDADES AINDA TEREMOS ANO QUE VEM. ESPERO QUE A CIDADE GOSTE DO QUE VEM POR AÍ. SERÁ COISA MUITO BOA. CERTEZA.



LANÇAMENTO: 19 DE OUTUBRO DE 2011
HORÁRIO: 21 HORAS
LOCAL: JOKERS
CIDADE: CURITIBA


DETALHES VER NO CONVITE ACIMA

domingo, 25 de setembro de 2011

Eu Rock in rio de tudo e você?

Essa é a cobertura especial de Paulo Sandrini sobre um dos maiores festivais de música do mundo. O que não quer dizer que seja um dos melhores, como se pode perceber. Direto da Cidade do Rock veja o que a imprensa não está falando sobre o RIR (a sigla do evento é sugestiva)


RECLAMAÇÕES SOBRE O FOX ROCK IN RIO

Consumidores que compraram o modelo da Volks Fox Rock in Rio têm levado o carro de volta às concessionárias com reclamações do tipo:

1- esse carro tá parecendo o show da Kate Perry, não engrena nem a pau;

2- tem uns barulhinhos que vêm da parte eletrônica e lembram muito a vozinha com efeito de esquilo espacial da Rihana;

3-o motor tá feito o show dos Paralamas do Sucesso, totalmente fora do ponto;

4- esse carro tá parecendo a Cláudia Leite, vem pelado de fábrica;

Contudo, também há consumidores satisfeitos, porque o porta-malas é o maior da categoria, consegue carregar NX Zero e Stone Sour na mesma viagem...

A assessoria de imprensa da Volks do Brasil comunicou que gostaria de ter lançado durante o evento o New Beatle Rock in Rio, mas a presença de Paul McCartney na programação ia no sentido contrário à imagem do novo modelo.


L.E.R (lesão por esforço repetitivo)

O Ministério do Trabalho resolveu fazer inspeções durante o show do NX Zero, pois tinha gente alegando que o vocalista Di Ferrero a cada uma frase que cantava exigia umas cinco vezes que o público levantasse os braços e pulasse, gritando: "Aí, galera, levanta o braço e sai do chão!". O que gerou lesões em muitos dos fãs dos eminhos.


BARMEN BAND

Muita gente não conseguiu identificar se os músicos do Stone Sour eram de rock pesado ou não, pois estavam fantasiados com roupas de barman.


COMOÇÃO NACIONAL À VISTA

A população brasileira anda temerosa de uma nova situação de comoção nacional, pois o Milton Nascimento só aparece quando morre um presidente, um piloto de fórmula 1 e coisas do tipo. E ele anda muito presente na cidade do rock. Medo!


REVELAÇÃO NACIONAL

Maria Gadú é a revelação nacional e se confirma como substituta à altura de Cassia Eller, é chata e pasticheira.


LUCRANDO DUAS VEZES

Ivete Sangalo lucra duplamente no Rock in Rio: aparece como a própria Ivete Sangalo e também como a loira Cláudia Leite. A voz é a mesma, as músicas são as mesmas, a dancinha é a mesma. Mas tem gente que acha que a Bahia tem duas cantoras super famosas (e metidas), mas na verdade é uma só.


COPACANA CLUB

A banda curitibana troca, a pedido dos nativos, o festival do Rio por um muito melhor (pois tudo em Curitiba é muito melhor que no resto do mundo): o Rock in Rio Belém. Aliás, o festival curitibano já confirmou a presença dele, que já havia sido aclamado como o responsável pelo grande show de 2010, Odair José.


A BUNDA MAIS BONITA DA CIDADE

A banda curitibana, fenômeno da internet, se nega a participar do Rock in Rio, pois para ser a banda mais bonita no Rio, os curitibanos iam ter que malharrrrr muito numa academia e então virar A bunda mais bonita da cidade, desistiram.


FRIO NO RIO

Duas bandas gringas foram chamadas para esfriar os ânimos cariocas: Snow Patrol e Coldplay. Pra esquentar: Red Hot Chili Peppers. Para deixar a coisa morna e sem graça chamaram os brasileiros mesmos: Capital Inicial e Maria Gadú.


POR UM MUNDO MELHOR

Resolvendo apoiar de verdade seu próprio projeto social "Por Um Mundo Melhor" a organização do Rock in Rio decide que não vai mais fazer o festival.


PALCO OUTROMUNDO

Depois de ressuscitar Elton John e Gun's and Roses, festival carioca promete para a próxima edição Michael Jackson e Amy Winehouse no Palco Outro Mundo (que conta com direção do Chico Xavier).


VERSÃO GAÚCHA

Como gaúcho é orgulhosso e marrento, resolveram por lá fazer o Rock in Rio Grande do Sul. A banda gringa que abre o festival é a Engenheiros do Hawaii, banda havaina formada só por gaúchos. Outra banda gringa já confirmada é a Fresno, banda californiana também formada só por gaúchos. E para não ficar por baixo, os gaúchos trazem até mesmo uma banda de outro planeta: Júpiter Maçã. E garantem: os Ets dessa banda são todos gaúchos.



SAMPA

A banda capixaba Dead Fish está confirmada como a principal atração do Rock in Rio Tietê, em Sampa.



ROCK IN RIO UPP

Confirmado: The Police abre a versão UPP do Rock in Rio, no morro do Alemão.



PRA FECHAR

Brasileiros acham que Chico Buarque é a atração mais importante do Rock in Rio. É que não dava para ficar uma semana sem falar da genialidade do Chico Buarque, mesmo ele não estando no RIR. Os cariocas aprovaram a escolha e os baianos contestaram e elegeram o Caetano e o Gil por conta própria... Os universitários brasileiros apoiaram ambas as escolhas, pois são muito criteriosos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Trecho de um romance inédito

Incurável, doutor!

Houve um tempo de leveza. Um tempo ensolarado. Mas já foi há muito, doutor... Foi bem no início. Acho que na infância. Ou começo da adolescência. É... bem no início. E todo início é uma explosão de luz, não é, não? Fiat lux, doutor! Pois é, se é! E eu digo e afirmo que ali eu vivi na plenitude. Mas foi num tempo, num tempo que vai tão longe! Meu corpo era esguio, minha mente sábia, apesar da inexperiência, sem as adiposidades dos malquereres. E dizem que a experiência ajuda. Maltrata, isso sim. E nos faz maltratar. Na falta dela, da inexperiência, a gente enxerga tudo com olhos de gavião, vê tudo por cima. E também vê tudo com olhos de cobra, um olhar venenoso, pronto pro bote. A gente passa a não crer mais na espontaneidade. Só enxerga com desconfiança. A gente quer porque quer o bem, mas só faz o mal, doutor. O senhor mesmo: acha que melhorou de condição com a experiência? Tem certeza disso? Acho que não tem, não!, não é doutor? Se tivesse não ficava aí pensante, olhando pra essa valise aí cheia de instrumentos cortantes. Posso perguntar a eles, aos seus instrumentos cortantes, se o senhor melhorou ou não com o passar do tempo, se melhorou com a experiência? Isso, doutor, pode fechar a valise. Assim, meio sem jeito. Fecha a boca dela. Não deixa ela falar, não, doutor! Não deixa ela entregar o senhor. Pois é, doutor. Se a gente pensa que melhora com o tempo, s’engana. Só o vinho melhora com o tempo. Nós, doutor, eu mais o senhor, a gente vira é vinagre. Entende?! Por isso, eu digo: pra mim, pro meu caso, não há cura. Tô pagando o preço. Envolvimento com tudo o que não prestava. Esquerda falsa e fascista. Direita liberal e nazista. Todos os coronéis, meus amigos. Articulava. Sujava um com o outro. O outro com um. Todos com todos. Todos contra todos. Mas no fim, quem geralmente paga a conta é o pessoal mais simples e inocente. Paga com penúria e muitas vezes com a própria vida. Quantas vezes não deixei essas gentes numa míngua inapelável. Quando davam ares de querer se rebelar, então... Mandava apagar, calar eles todos.
Ajudei também a eleger uns mancos aí por causa de uns trocados. Muitos trocados, claro. Perdi a ideologia. Essa aí é que vai ainda mais longe no tempo! Fica lá atrás, no tempo fosco. Incontável. No tempo e na memória, foscos. Nem me reconheço naquele magricela que comia o pão que o diabo amassou por uma causa justa. O pão que a elite amassava. Hoje eu é que amasso o pão com ela, e depois dou pros barnabés comerem. E ainda morro de rir. Os barnabés! He-he. Barnabés. Sabe, doutor, comprei meio-mundo: das comunicações, das transações financeiras ilícitas, da politicagem. Jornal, revista, canal de TV, rádio. Deputado, vereador, governador, senador. E agora tenho até site, um site poderoso de tão acessado, nesse negócio aí de internéti que eu não conheço patavina. Essas máquinas aí, o tal de computador, só faltam xingar a gente de tanto que fazem tudo. Mas bem, doutor, já que o senhor está de passagem, eu aproveito pra fazer uma consulta de emergência, pois o meu médico leva horas até chegar aqui, mesmo buscando de avião particular, e aproveito também pra dizer a qualquer doutor que insista [neste caso, o senhor] em algum tipo de tratamento pra mim, que meu corpo só padece por conta daquilo que me pesa n’alma. Queria me livrar de tudo. Começar do zero. Não me envolver com as gentes que me envolvi. Manter minha ideologia. Mesmo que pra mantê-la eu tivesse que permanecer longe, longe do sangue, do lixo e do luxo, essas coisas que tanto, confesso, me atraem, distraem. Pode ser até que não viesse a contestar as injustiças, nada! Mas também não correria o risco de me desviar como me desviei. Nem que fosse ideologia só pra poder meter a cuca mais fresca no travesseiro, de noite. Mesmo que fosse só ideologia sem ação concreta, o que é o mais comum neste mundo. Olhe, doutor, por mais que o senhor ausculte o meu peito, nunca vai poder ouvir a tempestade que apavora o centro nervoso do meu coração todas as horas. Um medo de morrer sujo. Sempre este medo. Mas o pavor que tá comigo, cá no coração, não se mostra assim simplesmente por causa de um besta de um estetoscópio de doutor. Não, senhor! O pavor que mora neste peito não se entrega assim. Tento hoje fazer caridade, pra superar. Filantropia de todas as ordens. Ajudar quem acho que precisa. Valorizar os talentos que encontro por aí. Incentivar. Problema é que me acostumei a não ser contestado na minha má intenção. E quando querem me pisar no calo [ou se percebo muito talento em alguém pra coisas boas: escrever, tocar um instrumento, pintar um quadro — essas coisas que vêm limpas lá do fundo da alma e que são arte] eu logo deixo o bicho ruim que existe aqui dentro do peito me sair pela boca. E aí escorraço o desgraçado. Dano com a vida dele. Viro o mecenas do diabo. Cuspo fogo. Pode ser a melhor pessoa do mundo. E geralmente é. A minha doença, doutor, é a de ter desaprendido a conviver com gente boa. E aí, não tem cura, não é, doutor?
O senhor quer ficar pra jantar, o senhor mais o seu companheiro aí? Tem reunião política hoje à noite aqui na fazenda. Na verdade, é ao lado dessa gente que não passo mal. Ah, não passo, não, mesmo que queira. Meus iguais. É a minha natureza, doutor. O senhor sabe por quê, hein, doutor, por que eu não passo mal? Põe, então, seu estetoscópio aqui, ó. O que me faz bem, muito bem pro peito o seu estetoscópio vai poder... claro que vai poder constatar. Porque meu peito endiabrado mente, doutor. Mente, mas não engana.

sábado, 3 de setembro de 2011

Tudo pra família



O DISCURSO PELA FAMÍLIA CURITIBANA CRIADO PELA PREFEITURA É O REGRADOR SOCIAL MAIS FASCISTA QUE VI NOS ÚLTIMOS ANOS

O slogan nos tubos de ônibus da linha verde, por exemplo, dize mais ou menos assim: FAMÍLIA, agora a família de Curitiba volta mais cedo pra casa. Não é bem assim não, tem gente que não volta, tem pai que para no boteco pra descontar o salário de merda na empresa, o qual não é suficiente sustentar essa mesma família de que a prefeitura fala. As famílias têm distúrbios nas relações porque a limitação material gera depressão, mal-estar. Há filho e mulher que não voltam pra casa porque são espancados. E várias outras coisas hediondas que acontecem. Mas como vivemos numa sociedade fascista, o discurso regrador dos distúrbios socias precisa se fundamentar num conceito essencialista e idealizado de FAMÍLIA.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Dia 21 estaremos no SESC Paço com a Geração Zero Zero

Convite a todos os amigos, colegas ou interessados. Dia 21 de setembro, 19h, no Sesc Paço da Liberdade (o lugar mais bonito da cidade), no centro de Curitiba, lançamento a antologia Geração Zero Zero. Organizada pelo cavaleiro jedi Nelson de Oliveira e publicada pela super bacana Língua Geral.
Paulo Sandrini, Carlos H. Schroeder e Marne Lucio Guedes estarão por lá num debate sobre a geração zz. A mediação fica a cargo do escritor (autor de Minda-au) Marcio Renato dos Santos.

Alguém com algo a dizer: Paulo Venturelli no Paiol Literário



Foto: Gazeta do Povo



Dia 5 de setembro.
Paulo Venturelli é o convidado do Paiol Literário.
Às 20 horas.


Não percam, Venturelli sempre tem algo importante a dizer, o que ultimamente parece não ocorrer em muitos eventos literários, com repetições de fórmulas, bienais com entrada paga em shopping centers, repetições de nomes.
Paulo Venturelli é uma voz aberta, uma voz importante e dialógica contra a verticalização reacionária implantada em nosso meio cultural, sempre tão pouco generoso.
Mas isso é outra questão. Ou não. Fato é que vale a pena ouvir Paulo Venturelli. Autor de vários livros e em breve lançando dois títulos pela Kafka Edições: o romance Meu Pai e o livro de narrativas Histórias sem fôlego.


sábado, 27 de agosto de 2011

primeiro capítulo curto de O Rei era assim

Coloco aqui o primeiro trecho de O Rei era assim. Na coletânea Geração Zero Zero o texto não começa assim, numa espécie de fábula quebrada. Como disse antes o texto é bem maior do que o que foi no GZZ.


"Humilde. Solícito. Sábio. E alguns adjetivos mais [se é que esses, assim isolados, queiram dizer alguma coisa]. Também era um homem magro. Pelos de barba não se deixavam encontrar no rosto sempre liso. Na verdade, o Rei era imberbe e não tinha lá aquela cara de rei. Seu olhar se perdia ao longe, um olhar de quem, talvez, estivesse o tempo todo pensando na existência humana e em como reverter seus reveses; em aliviar o sofrimento das gentes humildes, que sempre foram e sempre serão maioria. Podemos dizer, por esse brevíssimo retrato aqui traçado, que o Rei era mesmo um homem dos melhores. Seu reino ia até o ponto em que chegava a sua bondade e não até a distância que sua vista conseguisse alcançar.
Comia pouco e jamais se queixava. Não exigia as cortesãs em seu leito todas as noites, tardes ou manhãs. Suas roupas eram rotas. Sua coroa e cetro não eram de ouro, muito menos incrustados de pedras preciosas. Aliás, não tinha coroa nem cetro. O mais adequado, talvez, para ele, fosse ter um cajado, se possuísse rebanhos ovinos, equinos, caprinos ou bovinos. Mas não os possuía. E tampouco se acreditava pastor. Muito menos de almas. Esse papel era reservado a Deus, se esse existisse, dizia ele. Só a Deus, a nenhum rei. Nenhum.
Também amava muito a Rainha, que era seu maior ponto de apoio. Respeitava as mulheres e acreditava em amor e compaixão. Em perdão e amizade verdadeira. Em distribuição de riquezas e no poder do conhecimento que buscava transmitir a sua comunidade. Gostava das artes cultas, mas tinha enorme admiração pelas artes populares. Se pudesse, seria muito mais que um mecenas. Todos teriam casas e glebas próprias para plantar e participação nos lucros fabris. Os inocentes não mais apodreceriam na miséria ou nas prisões úmidas e cheias de ratos por crimes que não haviam cometido.
Acontece que esse Rei não tinha mais trono.
Estava desempregado."