quinta-feira, 4 de maio de 2017

Um animal solto no ar.

Há um animal solto no ar.
Há um dia que pesa sobre seu lombo.
Há nuvens.
E há chumbo nas nuvens.
Intenso.
E há um animal cavalgando no ar.
E há este dia que pesa em nós.
E há poeira na nuvens.
Deixando tudo opaco.
A sua e a minha vista.

] Atmosfera em sujeiras [

Há um bicho estripado perto da porta de entrada.
E há uma chuva que tenta lavar.
Há metais pesados no detergente.
E há gente pesada de gente.
E há um som furioso.
Guardado entre seus dentes e os meus.
E há palavras explosivas presas nas gengivas.
E um animal trotando nas veias.
Um animal relinchando penúrias.
Injúrias.
Há nós, há todos.
E há somente
Entre nós
As fúrias.
O amor e a compaixão foram destroçados
por um coice fatal.

Um animal solto no ar.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Território impreciso


(paulo sandrini)

Este território, ao qual não pertenço, é tudo o que existe agora. Vago. E indefinido. É só o que há. Nem mais um outro. O solo repleto de luz. A paisagem crestante. Demônios que tentam habitá-la. [habitar-me]. O caboclo velho e sua viola ríspida. O rosto marcado por veios feito vermes ao redor de olhos antigos. Com mais histórias que a História. As certezas e seus farelos ficaram para trás e não demarcam o caminho de volta. As certezas em um tempo esquecidiço. Em perspectiva, só o chão calcinante. E agora os passos em frente. Pelo território sem demarcações. Território de sal. Branco e lunar. Ao mesmo tempo, capilares verdes nascem de minúsculas fendas no piso ressequido. Um canto xamânico nas frestas da surdez de todo este silêncio. Um canto que se espalha e espelha o tempo que desconheço e a memória que não é minha. Nada mais é meu. E nada pode ser. Aqui, neste chão de luz intensa, o definitivo se dissolve. Nada é definitivo. Nem propriedade. Tudo flutua: nada pertence. E a permanência se liquefaz nas ondulações e mormaço do piso férvido. Os pés desmancham a cada passo. E a cada espaço de tempo, curto, um longo espaço de brilho. O sol a torrar minha lucidez estúpida. Nem lagos, nem sombras. O horizonte se esfumaça numa aquarela entre o branco e o cinza claro. Uma tintura aguada. Aplicada na paisagem por mãos febris de um deus de nuvens — nuvens ávidas por ligar temporalidades e planos infindos entre céu e chão. Céu e chão. O azul e a terra espessa, quase pedra. O azul e as minúsculas cavidades rochosas. O piso imperfeito para caminhadas incertas. Este é o terreno. E este sou eu. Que sigo mesclando-me às veias deste território tão impreciso quanto minhas lembranças. Ao mesmo tempo que filigranas de pó enchem minhas retinas de imagens úmidas. Pó e lágrimas. O que não chora se esvazia.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Entrevista que concedi para a revista Pessoa, um dos maiores portais  de literatura de língua portuguesa da atualidade.
O tema: utopia.

http://www.revistapessoa.com/artigo.php?artigo=2040

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A busca da felicidade como valor (de troca) via Detox

Paulo Sandrini



  
Outro dia, entrei numa padaria, próxima a um hospital, e lá estavam algumas médicas antes de entrar no plantão da manhã. Todas elas com garrafinhas de Detox em mãos, depois nas bocas. Detox é bom em jejum, explica uma delas. Limpa o organismo e faz emagrecer — completou outra. Meu dia começou então com mais uma promessa de felicidade e satisfação à vista: o Detox (sucedâneo da era Botox?). O produto, assim como o budismo, o espiritismo, o Santo Daime (essas novas e não tão novas crenças da classe média em busca — apenas metafórica, é bom que se entenda — de um Nirvana na Terra) nos oferece a paz, sim, oferece, tanto do organismo, quanto da alma. Isso indubitavelmente nos traz mais alegria, energia vital, felicidade. Cuidar bem do corpo, podemos dizer, é um novo valor, digo novo porque ele veio com mais força nos últimos tempos, e estamos em uma época de verdadeiros seres com corpos Olímpicos; não, de esportistas, mas com inspiração nos deuses do Olimpo que Hollywood passou a criar em cativeiro e espalhou, em parceria com a indústria da moda e dos produtos de beleza e higiene, pelo mundo. Deixar que nos cuidem da alma é outro valor em voga.  Não somos que nós cuidamos, atualmente vivemos a terceirizar nosso desenvolvimento anímico para coisas como autoajuda, espiritismo, budismo, Santo Daime, Botox, Ioga. E apesar de tudo estamos perdendo cada vez mais a consciência da morte, talvez por isso a felicidade alienada seja possível (mais ou menos assim já dizia o pessimista Emil Cioran). Ou mesmo a morte desapareceu da perspectiva da vida moderna, como alertou Octavio Paz. As religiões cristãs mais convencionais, com suas técnicas de sofrimento em vida para ganhar o paraíso depois da morte, estão em baixa entre a classe média alta e entre a elite intelectual e financeira. A elite intelectual, hoje, junto da classe média, seja talvez a maior deformadora de opinião, pois também ela, a elite, acredita numa vida Detox baseada num certo orientalismo religioso, ou mesmo em ritos  primordiais pagãos  como forma de felicidade com valor de troca, pois sendo feliz, realizado, eu não incomodo o mundo com meu pessimismo crítico (vale para os intelectuais). Eu apenas me realizo e ajudo a realizar o mercado, a carreira, a alteridade apenas como forma de aliviar o meu carma (caso do espiritismo) e não o do outro (sendo bem básico mesmo). Já os budistas parecem preservar mais os bichinhos do que as pessoas, e, com isso,  sem se darem consciência, parece, parece, (risos), reforçam a nova onda de felicidade com animaizinhos de apartamento defecando por tudo e deixando um cheiro horrível para apreciação dos vizinhos, fora os latidos esganiçados em horário de silêncio. Ainda: uma formiga tem o mesmo peso para a vida na terra que um ser humano. A purificação via Detox explica.

O Detox por outro lado não desintoxica os preconceitos e as más intenções, por mais que nos esforcemos em nossas purificações. Se não estamos mais felizes, por exemplo, com a nossa democracia, tentamos lançar um Detox no organismo da Constituição para que se possa introduzir nela a possibilidade de uma nova ditadura. O espiritismo, o budismo e Santo Daime (paciência) não reforçam de todo nosso desenvolvimento anímico quando a gasolina sobe e a distribuição de renda com incentivo público continua. Aí, somos prejudicados em nosso projeto de felicidade. Somos frustrados em nosso grande projeto de Nação Feliz. A igualdade não necessariamente gera felicidade. A meritocracia precisa continuar, tanto no mercado quanto nas questões de purificação via Detox ou via crenças no Santo Daime e em Alan Kardec ou em Buda. O acesso nunca será para todos. Cada um com seu carma. E cada um acha um modo de ser feliz, dependendo de sua condição existencial, material e de mérito. A igualdade promove felicidade para alguns e indignação para outros. É bem verdade. O Detox existe para purificar nossos fígados contra o que se dão bem, também é verdade.

Mas também diremos: o Detox nasceu pra ter tudo, tudo a ver com a vida baseada em alimentos orgânicos que leva ao desenvolvimento intelectual e a uma alma purificada, elevada e evoluída, e que por isso mesmo precisa de consciência ambiental e corporal (meu corpo é minha maior ponte entre mim e o mundo – pode ser o mundo dos espíritos, claro, dirão outros). Toda essa consciência da saúde do corpo, da alma, essa consciência ambiental exacerbada (enquanto levamos embalagens plásticas das garrafinhas de água mineral para formar montanhas na Índia, e em breve também as garrafinhas de Detox), essa consciência também  precisa, e sobretudo, ser contra a existência da morte, e só nesses termos a morte é lembrada: como algo a ser ao máximo evitado. É a morte como próprio esquecimento da morte a servir de princípio para a vida eterna na vida carnal. Na vida Detox, animizada com animaizinhos do budismo, com alminhas boas do espiritismo, com o equilíbrio antipsicopatia da ioga, com o veneno bacana dos indígenas consumido pelas gentes dos grandes centros em busca de elevação para além dos arranha-céus.


quarta-feira, 18 de março de 2015

ANTA

 

Estou criando um movimento de direita. É a ANTA: Associação Nacional dos Tapados Antidemocráticos. Compre nossa camiseta, o boné e uma panela. Kit completo: US$ 250,00. Temos ainda faixas de protesto com erros de ortografia e com ideias confusas (US$ 350,00, kit com três erros em três faixas diferentes ou uma faixa só com 9 erros). Se você não é branco, temos pó de arroz da marca Anti-radicais livres (só contra radicais da esquerda), preço: US$ 40,00. Ainda, buzina para carros não populares que solta um mugido de vaca pra você usar nas manifestações tão populares quanto um Audi tt: preço: US$ 999,00. Pacote com todos os periódicos da editora Abril e com todos os canais do Sistema Globo (esse combo é mais barato, US$ 3,00 a cada seis meses). Camiseta da seleção brasileira com o nome do Ronaldo Fenômeno (US$ 1,00). Bonequinho do Bonner, R$ 2,00. Kit com bandeirinha do Brasil, pen drive com todos os hinos do Brasil, além das "melhores" narrações de Galvão Bueno, extras: Tema da Vitória e bonequinho do Ayrton Senna (apenas US$ 491,00). Passagens sem volta para Maiame, no Estados Unidos das Américas (de graça). Oferta especial: adesivo "Verás que um filho teu não foje á luta, mas foje da escola" (45 adesivos: US$ 10,00). Soldadinhos de chumbo: Médici, Geisel, Figueiredo entre outros, só US$ 55,00. Livro da Constituição com inclusão do parágrafo que confirma a constitucionalidade da Intervenção Militar (edição de luxo, limitada: US$ 638,00, com cartão HSBC fica por só 750). E tem mais, muito mais. A ANTA está surgindo com a força do povo, do povo com focinho comprido. Em breve, nossa manifestação nas ruas das cidades brasileiras. Política: nós vamos meter o focinho e mostrar que viemos para dar um basta nisso tudo que está aí, só precisamos saber direito o que é que está aí. "ANTA: a gente se vê pastando por aqui."

Pequeno Gianluca.