quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Hora da diáspora

Está por aí, na mídia: Roberto Requião como forte candidato à presidência do país pelo PMDB (Partido da Mediocridade do Brasil). Não posso afirmar no que RR seria tão ruim para este país, só posso dizer que no campo da cultura, o Paraná vive como uma terra devastada. Árida. Com cortes de leis estaduais da cultura desde que o senhor Requião e sua secretaria da cultura Vera Mussi puseram as mãos no poder há quase oito anos. O Paraná vai mal. Fora não ter leis estaduais, não se consegue praticamente nada (se não fizer parte de uma máfia formada no PR para captação de recursos federais) em termos de captação pela Lei Rouanet. Espero que a nossa classe média não seja tão ingênua, digo a classe média do Brasil todo, em eleger figuras do tipo Requião para colocar em Brasília. Creio que seja um retrocesso. Posso até me enganar, mas seu Requião em quase oito anos não me mostrou a que veio para uma política cultural e social genuína no estado, que continua com mentalidade agrária, retrógrada e até truculenta em seu discurso. Caros amigos intelectuais, se esse senhor chegar a Brasília no lugar do Lula, é hora da diáspora. Se hoje pensamos em deixar o Paraná, no caso de alguns artistas ou intelectuais, mais à frente teremos mesmo de pensar em deixar o Brasil. Ao menos no meu caso isso é uma convicção. Onde estiver Requião e seu atraso, quero estar fora. Agora, pode ser que ele não se eleja, não seja mais candidato à presidente e tudo ficará melhor. Chega de governadores com cara de Meio Oeste estadunidense a nos deixar isolados do mundo em movimento.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Covardes esculturas de pedra e sal


paulo sandrini

Aqui, membros de minha família de pedra
Aqui neste espaço rígido e programado
Trocamos socos ásperos
Fizemos do desespero o aprisionamento
Sem argumentos para uma necessária diáspora
Escarramos rípios uns nas caras dos outros
E já somos outros, ríspidos e rudes
Palavras são um delírio vago no império das estátuas de sal
Das pedras de sal, indistintos membros de minha querida família
Somos um exército vencedor a dividir o território derrotado
Cada um leva sua porção de vitória nos bolsos rasos
Nos rasos bolsos abarrotados dos pedregulhos que
Predominam na paisagem inimiga e na nossa também
Sim, só queremos as pedras, as grandes e as pequenas
Para atirar no primeiro culpado por uma possível falha
No nosso sistema entrópico e decadente
De castelos erigidos com pura areia
De uma praia cinza e distante
E assim as rachaduras vão surgindo
E vão nos expondo
E vão nos envergonhando, minha querida família de pedra
E os vãos aumentam e aumentam e nos expõem cada vez mais
Então gritamos uns com os outros para achar mais um culpado
Então as crianças choram e as mulheres são mais fortes que os homens
Elas atacam primeiro, alvejam cada um dos ossos de pedra que nós, homens,
Deixamos expostos.
Somos uns covardes
Sim, homens de minha família de pedra
Somos todos uns covardes belicistas
Que queremos deixar o lar e nos refugiar no campo de batalha
Sob os bombardeios de exércitos mais audazes que os nossos
Para isso temos toda coragem
Coragem que é fuga
E é também uma fuga de uma face enrugada
Empedrada pelo tempo (vivo) que esperávamos estar vivendo
Como seres de carne, ossos e reflexões
Mas, não, nossas mulheres se tornaram pedras salgadas muito antes de nós
E hoje elas são mais fortes, e não choram mais em nossos ombros
Detonados pelas bombas dos exércitos invejáveis do mundo aí fora
Nossos filhos já não podem gritar pelos pais
Nossas mulheres devem gritar com nossos filhos
Para que eles se tornem pedras de sal numa idade inferior
A que se tornaram seus pais, há muito tempo
Nossos filhos de cabelos dourados serão novos guerreiros de pedra e sal
Como nunca conseguimos competentemente ser
Suas bocas serão metralhadoras de rípios porque a palavra já não importa
As bocas só se alimentam do que é rígido e duro de engolir
Tudo para afiar as presas
Tudo para enfrentar as perdas que não podem doer como deveriam num corpo macio e tátil
Todas as pedras, pois, sobre a mesa
Para o banquete bruto de nossa família de pedra de sal
Que serve a sopa de argila para que essa
Se enrijeça em nossos estômagos e nos embruteça ainda mais para a arte da guerra
A guerrra de socos ásperos de pedras
E se tornem, nossos intestinos, fábricas de rípios
Que substituirão a saliva do beijo amoroso
Que substituirão o hálito quente das bocas vivas
Por um sopro gelado que parece vir do alto de uma montanha rochosa
De cume nevado
Um sopro que nos congela
Um sopro que nos petrifica
Sim, membros de minha família de pedra
Temos uma guerra começada
E, pior, entre nós mesmos
Somos puros arremedos do humano
Somos genuínos medos do humano
E trazemos sempre nas mãos nossos dedos ásperos
Para apontarmos na direção do outro
E designá-lo como o grande culpado por tudo que deixamos endurecer
Por tudo que deixamos emudecer
Se é que essas coisas realmente nos importam
Por tudo que matamos deixando expostos nossos sentidos
Nus e desprotegidos nesta terra onde o granizo cobre tudo
Ferozmente com seus pequenos dentes brancos de rocha de sal e gelo
De sal de pedra, de pedra de sal
Contudo, ainda não somos tão maus (?)
Apesar de sermos pedras que permanecerão a tirar o espaço
De flores e frutos, de animais e homens de verdade
De crianças ingênuas que bem poderiam não nos ver para não terem um exemplo
Rígido e implacável daquilo que é contra tudo que poderia ser mais flexível e se dobrar
À brisa e à chuva que amolece o solo e até as pedras, como nós
Mas nesses dias, usamos nossos guardas-chuvas de matéria sólida
Nos protegemos da brisa e da ventania com nossas capas rochosas
Para que em nós nunca penetre o líquido
E a umidade da vida, nem o vento que movimenta
O mundo para quebrar a mudez de criaturas feito nós
Que só creem no poder dos socos ásperos e rudes
Das metralhadoras de rípios que se tornaram nossas bocas
Infelizmente nossas crianças ainda não sabem da diáspora
Da fuga de uma terra bárbara
Se ao menos um de nós lhes tirasse os guardas-chuvas sólidos
E os casacos de rocha em dias de chuva e ventania
Talvez, talvez, começariam a brotar das rachaduras de seus e de nossos corpos pétreos
Algums pequenos ramos de ternura
E nas rachaduras de nossos castelos de areia pretificada
Aceitaríamos que por elas podem entrar réstias de uma luz
Que mesmo ínfima serviria para clarear nossos passos
Dentro dessa habitação em que os olhos dos habitantes
São feitos de lava fervilhante e cega de algum vulcão que ainda não explodiu de vez
Mas que certamente está em erupção dentro de cada um de nós
Há muito, muito tempo
De pedra então, vamos nos tornar lava petrificada pelo tempo
E depois virão outros construindo sobre nós outras cidades, castelos
E casas e constituirão novas famílias
Novas fábricas de rípio
Novos dentes de pedra de sal
Para poder abocanhar e ferir tudo que não se pode classificar
Em termos pragmáticos
E nossos filhos talvez sejam cada vez mais fortes e maiores
Projetando sobre nós toda a sombra pérfida de nossas mulheres e homens
Que se tornaram pedras
Covardes esculturas nessa paisagem árida que se tornou nosso espaço






sexta-feira, 30 de outubro de 2009

De prêmios e de sáfios.

A escritora Mayra Coelho

Tenho a honra de postar aqui que a minha colega de oficina, Mayra Coelho, ganhou o prêmio de publicações da Fundação Cultural de Curitiba. O livro No lado avesso moram as asas foi um trabalho que Mayra começou a desenvolver na nossa oficina de criação, no ano passado, e que terminou neste. Fico aqui todo orgulhoso do talento demonstrado pela Mayra e por tantos outros que passaram pela nossa oficina. E também feliz pelo grande amigo Emerson Pereti, que foi premiado com o livro de poesia Poemas de 3000 anos. Li alguns poemas, e o Emerson para mim está já entre os grandes poetas jovens deste país onde a poesia anda sofrendo de mediocridade e vazio extremos. E também onde a prosa é feita buscando os GPs Brasil, ou seja, os Grandes Prêmios Literários do Brasil. Onde me parece atuar uma mafiazinha de jurados, inclusive com gente daqui mesmo de Curitiba. E assim seguimos por estas plagas de araucárias tristonhas, com o fim da lei do Mecenato, que não sabemos direito o que vai ser nem como e quando vai voltar. Seguimos também sem programa estadual para a cultura. Aqui pelo jeito é mesmo a terra da agricultura. Da Monocultura. Contudo, deixo meus parabéns ao amigo Mauro Tietz, coordenador de literatura da Fundação Cultural de Curitiba, com seus programas de leitura, oficinas de criação, casas de leitura, biblioparque e muitas outras coisas. O Mauro sim é um verdadeiro agente da cultura. Mais cinco como ele nesta cidade cinza de pensamento, estaríamos salvos. De resto, a cultura vai se esvaindo em mãos inadequadas para segurar e assegurar um futuro com mentalidade menos rudimentar para nossa cidade que adora mesmo é comprar carrrrrro novo e ir ao shopping, ou correr numa exposição de robótica no parque Barigui, lá onde podem buscar por inteligência artificial, já que neuronial, nessa terra, está um tanto difícil, soma-se a isso, claro, a falta de vontade local para engendrar bons programas culturais e tirar esse povo da inércia dos parques depressivos e de um ecologismo fake. Verdade é que nas plantations, na monocultura da República do Paranaguai, sempre chega a hora da poda, não é? A hora do lucro sem constrangimento, num estado rico mas que ainda não pensa seriamente em cultura. Comer pratos alemães e ucranianos e italianos e japoneses e etc. etc. etc. é o grande orgulho cultural de uma capital debilitada em seus pensamentos para uma política pública cultural eficaz e que gosta mesmo é de se alimentar da gastronomia e do folklore caipira europeu de grupos de dança e outras chatices aplaudidas pela classe média que cola em seus carros adesvisos com brasões da alemanha, da itália, da moldavia, da molvania, da parânia, do rio grande sul é o meu país e etc. etc, etc.. Verdade é que quem planta come, não é? E aqui só se come, não se pensa. E aí, meu caros e meus carros, quem paga caro, e recebe escarro, é a inteligência. E, por fim, por fim, por fim, safam-se os sáfios.

Desatualizado

Depois de um mês vagando por aí, no mundo, continuarei atualizando este blog. Já que desde agosto ele não é alimentado. Tem umas coisas pra colocar aí. Fotos e textos. Mas ainda ando preguiçoso.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pão e água

desenho roubado do site de Marco Sandrini


Numa das mãos
Seguro um pedaço de pão
Na outra, uma garrafa d’água
Um pão e uma garrafa d’água
Para um dia de domingo
O pão está duro e não sacia minha fome
Na verdade já não tenho fome
Ando tomando muitos remédios
Para isso preciso de muita água
São cápsulas, drágeas e gotas
Tenho que tomar muita água
Muita
No começo sentia um pouco de fome
Muita
Fome depois dos medicamentos
Muita
Agora, já não a tenho
Pouca, quase nada
Tudo se resolveu
Parece
Ao menos para o diagnóstico dos doutores
Mas não me conformo
Procuro um outro especialista
Mas não confio em médicos
Procuro outros remédios
Mas também não confio neles
Bebo água
Muita água
E ela já não é transparente
Tudo ela nubla, turva
Não quero mais remédios
Nem tranquilizantes
Que me tirem o caos
Não quero mais remédios
Que me deem a paz
Aquela paz de túmulos
Com a inscrição em lápide:
“Paulo Sandrini aqui jaz”
Quero a fúria nas células
Hemácias ensandecidas
Numa tarde de domingo
Leucócitos prontos para me defenderem
Do azar de uma vida mecânica
Numa tarde de domingo
Anticorpos e enzimas
Numa tarde de domingo
O corpo como espaço frenético
A mente como espaço de delírio
O caos sempre engendrando
Um novo corpo
Um nova mente
Quero ser velho com um novo caos
Quero carregar uma garrafa de água do Tietê
numa das mãos
E na outra um pão embolorado
De uma padaria podre do Bronx
Quero ter braços prontos
Para atacar o conforto
Pernas para chutar o bom tom
Joelhos para sentar com força
Na barriga da tranquilidade
Dessa tranquilidade pandêmica
Das tardes de domingo
E que minha água seja turva
Que meu pão seja duro, sempre seco
E duro
E não sirva para matar a fome
Para matar a fome
Para matar a fome
Que seja embolorado
De cor verde
De um verde escuro
Quase negro
O pão negro da guerra interna
Entre neurônios suicidas
E células saudáveis
Que matem o colágeno
Que assassinem com requintes de crueldade
Tudo que o que é superfície
Cabelos espessos
Pele lisa
Músculos e cílios
Unhas e pelos
Que o corpo decaia
Que a água seque nesse corpo
Desidrate-o e o torne uma fruta seca
Dessas que se vendem em saquinhos em gôndolas de mercados
Mercados da classe média em bairros perfumados de gente louçã
Que o corpo então seja grotesco
Que esse corpo fuja quando começar a pensar em se admirar no espelho
Enquanto deixa a vida morrendo lá fora
Por falta de uso
Que esse corpo tenha mãos fortes e cruéis
Que sequestrem banqueiros peruas consumistas
E os falsos socialistas
Que usem como navalha os cartões de crédito
De débito, cartões de dívidas
Que não promovem dúvidas nem ceticismo
Que os pescoços de banqueiros
Falsos socialistas
E peruas consumistas
Sejam talhados por Visa Mastercard American Express
Enquanto isso eu procuro nas entranhas do cotidiano
Minha dose diária de caos
Minha dose envenenada de vida
Segurando numa das mãos
Um naco de pão
Duro
Seco
Sempre Seco
E na outra, uma garrafa d’água
Turva

domingo, 23 de agosto de 2009

Três capítulos de "O visitante" (infanto juvenil)

Bem, este livro está parado em sua escritura, como outros dois. Mas pretendo levá-lo adiante assim que terminar coisas tipo "Doutorado". Sei que pode ser muito texto para um blog, mas quem gostar leia um capítulo de cada vez e me digam o que acham, pois nunca escrevi para jovens/crianças.


1. O aviso


Flupy solta um relincho estridente e, como sempre, nessas vezes, o Casarão quase vem abaixo. Paredes trepidam e racham em mais alguns pontos. Maldito Flupy!
De cem em cem anos, mais ou menos, esse bicho peludo, de tamanho milimétrico, que eu não sei se é um animal vertebrado ou invertebrado (possui apenas uma boca no meio da cabeça, aliás, seu corpo todo é apenas uma cabeça peluda, sem olhos, nariz ou orelhas), salta de um vão entre as tábuas do assoalho soltando esse ensurdecedor relincho, querendo me avisar de que algo está por acontecer. Algo que vai me tirar da rotina. Do sossego.
Enquanto o relincho de Flupy ricocheteia pelas paredes, sobe e desce pela escadaria, bate no teto e volta para dentro, para bem dentro dos meus tímpanos, eu lhe pergunto, berrando, para que ele possa me ouvir:
— Que foi desta vez, criatura?
Ele grunhe na sua língua, que é um misto de francês e espanhol:
— L’oncle Mallenstein est llegando. Él arrivera todavía hoy.
Desato o nó que as palavras de Flupy causam no meu cérebro e decifro a mensagem: meu tio-avô Mallenstein está finalmente chegando, após quatrocentos anos de promessas feitas por cartas que ele escreveu semanalmente, infalivelmente, durante esse período.
No entanto, confesso jamais ter sentido falta de sua visita. Na verdade, sempre foi um alívio para mim Tio Mallenstein nunca ter vindo até o Casarão. Sua fama não é das melhores.
Flupy dispara outro relincho.
— Que foi agora, animal, inseto, sei lá?
— Give me food! Il faut payer the information que yo suis venu darte
a usted. Capisce, carcamano? Beaucoup de repas. Mangiare, bambino. Did you n’avez pas understand encore?
Agora o maldito deu de incorporar italiano e inglês a sua quase ininteligível língua.
Não posso negar que os avisos dados por Flupy sempre me foram de extrema importância e extremamente verdadeiros, o que sempre possibilitou que eu me prevenisse contra acontecimentos mais nefastos. Seu último aviso, cem anos atrás, foi a respeito de um dilúvio que cairia sobre a terra daí a quarenta anos e duraria por 50 ou mais. Durou cinquenta e nove. Mas aqueles quarenta anos foram um tempo suficiente para que eu providenciasse o transporte do Casarão (o que levou vinte e dois anos, devido ao estado não tão bom de conservação do imóvel) para o alto desta montanha e fizesse um estoque enorme de comida para o tempo ruim que viria.
Porém, quanto ao Tio Mallenstein, confesso, não sei como me prevenir contra ele. Será que devo soltar dos porões os leões de juba-de-fogo para me proteger e ao Casarão também? Sei lá. Preciso pensar rapidamente em algo funcional e inteligente. Problema é que além da fama do Tio Mallenstein (que só vou saber se é verdadeira ou não tirando a prova ao vivo), não sei mais nada a seu respeito. Suas cartas se resumiam às promessas de visita. Só. Eram no máximo dez palavras por carta.
Melhor agora é pagar Flupy pela informação. Ele, afinal de contas, merece, além do que não pára de relinchar, o danado.
Num balde de um metro de diâmetro por dois de profundidade, coloco quilos de azeitonas pretas com carne de lula e ovos de viúva-negra. Flupy, o milimétrico Flupy, devora tudo em quinze segundos. Depois desaparece, saltando para dentro da lareira. Ouço seu crepitar.
Só me resta esperar. Mas desta vez não haverá quarenta anos para que eu me prepare ou mude o Casarão de lugar.


2. O visitante chega

Minha cabeça está cheia. Cheia de falta de ideias. Não consigo dormir nem pensar em uma solução. Tio Mallenstein logo deve chegar, pois as vinte e quatro horas do dia vão se esvaindo e Flupy disse que meu parente chegaria ainda hoje. Os leões de juba-de-fogo podem parecer um tipo de proteção excessiva. Tio Mallenstein pode interpretar esses animais ferozes a lhe aguardarem como uma recepção um tanto agressiva de minha parte. Espero que sua fama não se confirme. Família fala demais. Inventa coisas sobre a gente. Espero que essa regra se cumpra. Assim, Tio Mallenstein não representará aquilo que eu acho que ele representa. Porém, ficar totalmente desprotegido, seria tolice, pois, por outro lado, os membros de minha família não são lá essa maravilha mesmo.

Os raios do sol passam pelas rachaduras das paredes e machucam minhas retinas. Está amanhecendo. E nada do Tio Mallenstein. Flupy errou sua previsão: a de que meu tio-avô chegaria ontem. Espero que ele, ao menos desta vez, esteja totalmente errado, enganado. Só com o sol, assim, intenso posso ver em quanto aumentaram as rachaduras do Casarão em consequência dos relinchos de Flupy. Maldito Flupy! Gostaria de xingá-lo agora em todas as línguas possíveis, em todas aquelas que ele entendesse e também aquelas que ele não entendesse. Desse jeito, rachado assim, o Casarão não vai durar mais de três séculos. Droga.
Acho que preciso espairecer um pouco. Esvaziar minha cabeça cheia de falta de ideias. Vou descer até a cidade e tomar café na confeitaria de Dona Gretchen. Dizem que ela é uma espécie de bruxa aposentada. Só pode. Nunca vi ninguém fazer uma torta de framboesa tão boa. Vivam as bruxas!

A estrada é sinuosa. Muito sinuosa. E muito estreita. O vento sopra forte aqui em cima. Qualquer descuido e a gente pode despencar com cavalo e tudo lá pra baixo. São uns nove quilômetros até a cidade. Durante o trajeto, penso em alguma solução para a recepção ao Tio Mallenstein. Fico comendo uma deliciosa torta de framboesa da bruxa Gretchen. Tomando uma fumegante xícara de café.

Pelo caminho, nenhum sinal de Tio Mallenstein. Acho que ele não vem. Flupy finalmente deu uma bola fora. Não deveria ter-lhe pago a comida. Maldito!
— Torta de framboesa? — pergunta Dona Gretchen logo que chego e me sento em sua confeitaria.
Sorrio pra ela e respondo:
— E um café fumegante, por favor!
Ela dá uma gargalhada. Não entendo. Pergunto:
— A senhora está gargalhando por minha causa?
— Claro que não! É que passou por aqui um homem que dizia estar acompanhando um tal de senhor Mallenstein. O homem era muito magro. Um palito. Se apresentou como Gordon Siqueira. Levou todas as tortas de framboesa. Não sobrou nada. Só esse tal de Gordon comeu quatro ou cinco delas. As outras quinze que eu havia feito para meus clientes, ele as levou todas. Disse que seu mestre estava faminto e exausto da viagem. Só não disseram de onde vinham e pra onde iam. Gente estranha...
Quase peço para a Dona Gretchen calar a boca, ela está deixando minha cabeça zonza de tanto falar.
— Serve joelho de porco com cerveja? — ela me pergunta.
— Hã?! — espanto-me com tal cardápio matutino.
Mas não há tempo de responder, de comer. O negócio é fazer com que Hipólito, meu cavalo decrépito, galope o mais rápido possível e eu possa alcançar meu tio comilão e seu acompanhante no meio do caminho. Não posso deixar que cheguem antes de mim ao Casarão. Repito: a fama de Tio Mallenstein não é nada boa.

De onde estou posso ver, lá em cima, na estrada sinuosa: uma carruagem roxa muito comprida puxada por uns seis ou oito cavalos. Precisa tanto? Será que o homem trouxe tanta carga pensando em se mudar para o Casarão? Droga! Droga! Droga! Jamais conseguirei alcançá-los. Espero conseguir ainda entrar em casa.


3. O visitante chega e desaparece: deixa um bilhete

O Casarão já vai quase desaparecendo na bruma. Nuvens opressoras acinzentam o céu. O vento uiva. Nada de assombro. Sempre no meio da manhã, todos os dias, o tempo fecha desse jeito. A névoa só vai desaparecer à noite. Durante o dia o Casarão fica imerso, protegido por esse escudo brumoso. Me aproximando de sua entrada, posso ver, com alguma dificuldade ainda, uma sege com seis cavalos nervosos ali parada. Os animais relicham. Armam coices. De suas narinas sai uma fumaça espessa por causa do frio.
A porta da sala está escancarada. Faz movimentos bruscos , como que querendo bater e desmontar o batente e em seguida todo o Casarão. A porta parece ter ganhado vida própria e também parece estar dando a entender que não sou bem-vindo a minha própria casa.

Ninguém na sala. Nenhum sinal por aqui. Já na sala de jantar, as velas balançam, pra cá e pra lá, em seus castiçais. Se caírem, o fogo consome rapidamente tudo por aqui.
Apago-as. Na mesa, parece ter passado mesmo um ciclone. Parecer ter havido uma agitada festa. A festa da torta de framboesa. Há cálices e copos quebrados. Um resto de uma bebida amarela e viscosa. Cacos de vidro pelo chão. Um cheiro azedo toma conta do lugar. Nunca vi esse tipo de bebida. Deixa pra lá. Eu, agora, neste exato momento, é que não vou querer saber o que é isto.
A bagunça é generalizada. Doce no chão. Nas cortinas. Nas cadeiras. Pregado com um percevejo no espaladar de uma das cadeiras, o bilhete:


Caro sobrinho-neto Pandrinius

Desculpe-me por toda essa desordem em sua sala de jantar. Estávamos famintos. Viagem longa, sabe. Dias.
Agora me despeço e deixemos nosso primeiro encontro para mais à noite.
Espero por você no quarto 115. Não descerei, pois estou mesmo exausto e precisando fazer a digestão.

Seu Tio Mallenstein


Um encontro. Certo. Mais à noite. Fico aqui pensando se deveria ou não incomodar o visitante. Quarto 115. Nunca entrei nesse quarto. Aliás, quase não entrei em quarto nenhum do Casarão, apesar do longo tempo que vivo aqui. São muitos quartos. Quartos a não acabarem mais. Quatro andares imenso, com vários quartos. A cada ano, parece aumentar o número deles, apesar de eu nunca tê-los contado. Enfim, Tio Mallenstein vai, logo de cara, confirmando sua fama. Chega, não fala com o anfitrião e vai tomando seu lugar. Engraçadinho. À noite, então, nos encontraremos, titio. Prepare seus argumentos, pois isso não se faz quando se chega a casa de alguém. Espero, contudo, não ser mais incomodado até o nosso encontro. Vou, agora, preparar meu almoço, isso sim.

sábado, 22 de agosto de 2009

A arte de capa de "O estranho hábito de dormir em pé"

"O Sonho de onagro" (título): nesse trampo o mano Marco Sandrini utilizou: pintura acrílica, objetos colados e finalização digital. Adoro aquela moeda de Rublo posta na canto superior esquerdo. Um rublo, a quem interessar possa, é dividido em 100 kopeks e essa moeda aí é da época do regimão. Eita regimão do leste! E vamoquevamo, cabra da peste!
http://marcosandrini.blogspot.com/

Essa estava no Blog do Dom Solda de Itararé

Amigo de várias batalhas, o Popa, Luciano Popadiuk, esse ucraniano maluco da banda Os garotos chineses. Essa foto pesquei no site do Dom Solda de Itararé. Apareçam, meus camaradas de humor e fina ironia. Somos uma escola. E com Solda mais a jornalista Miriam Karam (saudade, viu) formei uma banda chamada Rivotrio Elétrico. Essa foto foi no dia do lançamento da coleção Antena, da Kafka Edições, lá no Beto Batata. Em outubro do ano passado.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dois trechos de uma novela inédita

Túnel (I)

À sombra da figueira. Lá, eu não apenas lia: promovia fugas. Quando não nos livros, escavando a terra úmida. Buscando galerias subterrâneas. Galerias minúsculas sem importância para a grande maioria dos homens [dos grandes homens] ou meninos de minha idade. Eu vivia sobre o húmus. Mas sempre a transpor seus limites superficiais. Desejava o que estava ali por baixo. Então cavava a terra úmida com uma colher roubada da cozinha de nossa casa. A mesma colher com a qual eu tomava minha sopa pobre nos finais de tarde acompanhado pelo silêncio de minha mãe. À tarde, a casa, nos fundos do quintal, ficava no silêncio e na penumbra. Numa imensa sombra proporcionada pela casa de meu pai. Casa na qual eu não viveria jamais. Sempre nos fundos, na edícula, com minha mãe. Então tomávamos aquela sopa pobre, todas as tardes. Sopa de silêncio e penumbra. E com a mesma colher que eu a tomava, cavava o solo para encontrar minhocas. E eu as encontrava em grandes quantidades. Os movimentos frenéticos que faziam, ao serem descobertas ali embaixo da terra úmida, quebravam minha rotina. Quebravam o silêncio. Sim, eu podia ouvir os gritos das minhocas. Eu podia ouvir também seus sentimentos mais efusivos quando eu lhes dizia para ficarem calmas pois eu não as daria para algum pescador jogá-las como iscas aos peixes. Muitas vezes, claro, eu decepava parte dos corpos de algumas delas. Então, as observava ali dividas ao meio. Eu duplicava assim a existência de minhas amigas. Pensava eu. Elas se regeneravam, eu também sabia. Desconsiderava [iludindo a mim mesmo, desconsiderava] o fato de somente as partes das cabeças crescerem novamente. Sonhava com isso duplicá-las, cada uma delas. Sonhava habitar o mundo com miríades de minhocas. Por isso mesmo, muitas vezes, as cortava de propósito. Um propósito silencioso na tarde silenciosa. Ouvindo o barulho da colher a entrar na terra úmida e macia. Dividindo minhocas ao meio. Duplicando existências ínfimas [somente no meu íntimo]. Eu cavava fundo, fundo, fundo, buscando as galerias por onde minhas amigas faziam seu itinerário subterrâneo. Lá, escondidas da solidão daqui de cima. Um mundo repleto de vida. E de movimento. Lá embaixo. O mundo que eu buscava. Que eu buscava naquelas veredas subterrâneas. Escuras e úmidas. Repletas de vida. Diferentemente daqui de cima. Diferentemente. Às vezes, surgiam as galinhas em busca de comida [minhocas, claro]. Ficavam ali ciscando. E eu as espantava. Defendia minhas amigas minhocas. As galinhas tinham um olhar oco. Do qual as minhocas tinham que ser defendidas. Um olhar seco e enrugado feito as cristas daquelas aves vazias de alma. As minhocas sim tinham alma. Pensava eu. Mesmo não acreditando muito em alma, pois na maioria do tempo eu não sentia ter uma. Me sentia muitas e muitas vezes como as galinhas, vendo o mundo com um olhar oco. Um olhar seco. Enrugado. Velho. Eu, ainda tão novo: um velho. Um lobo solitário. Querendo estrangular ovelhas. Mas às vezes, eu era apenas um lobinho. Cansado. Tentando fugir de uma floresta de vegetação seca. Cheia de espinhos. Repleta de solidão e silêncio. Essa, a minha floresta. Uma floresta-deserto. Ocrecinza. Então, eu sonhava ser um lobo no deserto. Um lobo assassino. De ovelhas., cabras. Queria encontrar onagros fugindo da minha fúria e da minha solidão. Mas fugindo como se fossem figuras presas na moldura de uma tela de fundo ocre. Sem saída! As molduras como limite. Prisão. Ah, minha existência acre! Meu deserto sem a possibilidade das minhocas. Mas repleto de chifres. Cerastes Cerastes! Nem essas escapariam à fúria da angústia e do veneno da minha solidão. Cerastes Cerastes! Vivendo sob a areia do deserto. Seco. Deserto velho. Sem mais ovelhas. Apenas eu. E os chifres das Cerastes Cerastes. Demônios no deserto injetando o veneno da solidão e da morte. Sua feição de dragão. Seres das alturas e habitantes do mundo subterrâneo de grutas e cavernas. Habitantes da umidade. Qual as minhocas. As minhas minhocas. Seres das galerias. Do escuro e úmido. Da solidão ruidosa dos túneis sob o húmus. Inimigas das galinhas ocas. Das galinhas secas. De carne dura. De bicos assassinos. Eu enxotava aquelas penosas dali. Enxotava. Tirava-lhes as minhocas dos bicos. Salvava minhas amigas. Enterrava-as de volta na terra molhada. Jogava essa mesma terra molhada nas galinhas secas para umedecer-lhes as almas que haviam desidratado. Sim, almas desidratadas eram as galinhas. Não eram gordurosas e úmidas como as minhocas. As minhas minhocas. Que me tiravam a sensação de oco na tarde de silêncio e penumbra. Quantas vezes não pensei em jogar algumas delas dentro da panela de sopa que minha mãe fazia? Da sopra pobre. Todas as tardes. Caldo de silêncio e solidão. As minhas minhocas me dariam forças para suportar o olhar ausente [lançado sobre mim feito pedra pontiaguda e milenar] de meu pai e o olhar triste, seco e oco de minha mãe: seu olhar de galinha. Quem sabe a gordura das minhocas não insuflasse em nossas almas, minha e de minha mãe, alguma umidade ou algum conforto para dentro de nosso túnel afundado em penumbra e quietude. Quem sabe nossas almas se tornassem almas de minhocas e mesmo estando partidos ao meio pudéssemos sempre nos regenerar. Nos regenerar. Partidos ao meio. Sempre.


Túnel (II)

Às vezes eram as sombras das mangueiras. Se espalhavam bem lá no fundo do quintal. Uma profunda e extensa área escura e úmida. Eu ficava ali, sob elas, a recolher as mangas podres, cobertas por moscas varejeiras e de outras espécies. Mas eu preferia sempre encontrar as varejeiras. Gostava do verde metálico de seus corpos. Pareciam armaduras de guerreiros de um mundo minúsculo e pouco importante para os guerreiros do mundo lá fora. Pareciam também, e creio que mais ainda, fantasias de escolas de samba. Mas não, eu não gostava de samba. O samba era muito solar para a minha existência ali no fundo de um quintal repleto de sombras. Eu mesmo era uma. A dividir espaço com as sombras mortas das árvores. Eu tentava compor ali um mundo. Com um ritmo e um tempo próprios. Um samba de sombras, quem sabe. Um samba escuro de batuques densos e frios. De batuques lentos e fúnebres. Samba-réquiem para o menino da penumbra e suas moscas. Sim, minha alegria eram as moscas. As moscas e suas cores vivas. Metálicas. Tão vivas a sugar o néctar de mangas mortas. De mangas a se decomporem. Quando o zunido das moscas se acalmava [às vezes eu também as enxotava dali],eu podia ouvir toda a pulsação e o som da decomposição das frutas. Um som com cheiro extremamente doce. Um som que variava do amarelo ao marrom. E, sim, nessa escala de putrefação eu enxergava o ocre. E o doce fustigava o olfato. Mais ainda quando abria os frutos apodrecidos com suas cascas quase que totalmente negras. Ali eu via o ocre tingindo com o odor de morte as mangas antes doces agora amargas. Um gosto que escurecia ainda mais minha existência no fundo daquele quintal, onde eu passava os dias de minha infância recusando-me a ingerir frutos coloridos. Cajus amarelos. Amoras roxas. Romãs de grãos rosados. Goiaba de carnes avermelhadas. Não, meu organismo de sombra não aceitaria tantas cores. Eu ficava mesmo é com ocre podre e solitário de mangas podres. Coloridas, só as varejeiras. Metálicas. Frias em seus zunidos de máquina. Letais em seus venenos de monotonia.
As mangueiras formavam um território inexplorado pelos membros da família. Era um território só meu. A galharia daquelas árvores havia muito não era podada. Não eram árvores altas. As copas, de muitas delas, quase tocavam o chão. Um local difícil para se circular sem a habilidade necessária e um tamanho corporal pouco avantajado como o meu. Uma árvore era muito próxima da outra.. E então formavam-se caminhos através de todas aquelas folhas e galhos e frutas. Túneis. Ali, enquanto explorava aquelas passagens, eu encontrava prazer intenso em pisar os frutos caídos. Em esmagá-los. Escorregar meus pés descalços nas carnes daquelas mangas. As mangas que nunca alguém daquela família iria comer. Eram desprezadas. Talvez por serem muito doces. E tudo que era doce ali tinha necessariamente que ficar amargo com o tempo. Ficar no chão. Na umidade. Nas sombras. Viver nos túneis e na apatia do fundo do quintal. Conviver com as varejeiras de verde metálico. Frias em seus zunidos. Assim como as sombras em que necessitávamos nos transformar para sobreviver.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Egon Schiele separado de Henryk Górecki

Separemos Schiele da música de Henryk Górecki. Acho que ficou kitsch com as imagens do Schiele a musica grandiosa de Górecki. As pinturas de Schiele também são grandiosas. Mas prefiro separar os dramas. Se é que me entendem.

fica o link :
Gorecki Symphony No. 3 "Sorrowful Songs"
http://www.youtube.com/watch?v=miLV0o4AhE4

Gracias, mano Marco pela crítica quando eu disse para tirar a trilha. Mas agora ponho aí só uma sinfonia do Górecki.

Egon Schiele





Por indicação da cineasta venezuelana Liris Acevedo, deixo aí duas obras do austríaco Egon Schiele, pintor ligado ao expressionismo. Esse quadro logo acima se chama "Os girassóis". O de cima não sei o nome. Outras obras podem ser vistas neste link abaixo. mas recomendo que tirem a trilha sonora, por favor. O cara é bem bom. Bem bom mesmo.



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Confissão de adolescente

Pois é, acontece. Hoje estava com vontade de dar uma dançadinha. E me pus a dar uns pulinhos aí com Human, do The Killers, minha canção preferida nos últimos dias. Um resgate do melhor dos anos oitenta, um pouco mais sujo, com boas letras. Para mim uma boa banda de pop/rock ou mesmo alternativa é aquela que consegue se encaixar naquele espaço entre genialidade e cultura de massa. Em suma, sendo um pouco genial, mas sem ser "cabeça" demais, e tentando insuflar uma dose de energia em quem ouve. Não pode ser meio termo quando o papo é energia e catarse. Deixem a genialidade para as "altas culturas". Se queres rock, pop, alternativo, fique a meio caminho. O resultado é "batata", como diria Nelson Rodrigues.
Por isso, como não quero genialidade e as massas me incomodam, dancei The Killers.

http://www.youtube.com/watch?v=n6r4KT8-VX0

E depois fui lá relembrar o suicidado e incompreendido Nick Drake, a grande promessa da música inglesa no começo do anos 1970.

http://blog.uncovering.org/archives/2007/11/nick_drake_1972.html.

Fechei com a imagem do leste europeu (meu, quero muito viver num lugar cinza assim, é sério). Peace, do Depeche Mode. Great, great. Nem genial, nem de massa. Depeche é o ápice da sabedoria na música pop. Podes crer. Percebam o tecladão europop a la Alphaville em várias partes da música. Lindo. Lindo.

http://www.youtube.com/watch?v=bzMkaSi6JTQ