quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

http://cartunistasolda.blogspot.com/2008/10/foto-de-diego-singh.html

Aí em cima, o link da coluna do Dante Mendonça, roubado do blog do Dom Solda de Itararé, "Porque hoje é sábado"; coluna da qual pariticipei no ano passado. Foi divertido e depois de mais de um ano deixo aqui pros amigos que não leram.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Hora da diáspora (ou Requião com "mussi " dá um chocolate na cultura)

Está por aí, na mídia: Roberto Requião como forte candidato à presidência do país pelo PMDB (Partido da Mediocridade do Brasil). Não posso afirmar no que RR seria tão ruim para este país, só posso dizer que no campo da cultura, o Paraná vive como uma terra devastada. Árida. Com cortes de leis estaduais da cultura desde que o senhor Requião e sua secretária da cultura Vera Mussi puseram as mãos no poder há quase oito anos. O Paraná vai mal. Fora não ter leis estaduais, não se consegue praticamente nada (se não fizer parte de uma máfia formada no PR para captação de recursos federais) nem pela Lei Rouanet. Espero que a nossa classe média não seja tão ingênua, digo a classe média do Brasil todo, em eleger figuras do tipo Requião para colocar em Brasília. Creio que seja um retrocesso. Posso até me enganar, mas seu Requião em quase oito anos não me mostrou a que veio para uma política cultural e social genuína no estado, que continua com mentalidade agrária, retrógrada e até truculenta em seu discurso. Caros amigos, se esse senhor chegar à Brasília no lugar do Lula, é hora da diáspora. Se hoje pensamos em deixar o Paraná, no caso de alguns artistas ou intelectuais, mais à frente teremos mesmo de pensar em deixar o Brasil. Ao menos no meu caso isso é uma convicção. Onde estiver Requião e seu atraso, quero estar fora. Agora, pode ser que ele não se eleja, não seja mais candidato à presidente e tudo ficará melhor. Chega de governadores com cara de Meio Oeste estadunidense a nos deixar isolados do mundo em movimento.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

De prêmios e de sáfios.

A escritora Mayra Coelho


Tenho a honra de postar aqui que a minha colega de oficina, Mayra Coelho, ganhou o prêmio de publicações da Fundação Cultural de Curitiba. O livro No lado avesso moram as asas foi um trabalho que Mayra começou a desenvolver na nossa oficina de criação, no ano passado, e que terminou neste. Fico aqui todo orgulhoso do talento demonstrado pela Mayra e por tantos outros que passaram pela nossa oficina. E também feliz pelo grande amigo Emerson Pereti, que foi premiado com o livro de poesia Poemas de 3000 anos. Li alguns poemas, e o Emerson para mim está já entre os grandes poetas jovens deste país onde a poesia anda sofrendo de mediocridade e vazio extremos. E também onde a prosa é feita buscando os GPs Brasil, ou seja, os Grandes Prêmios Literários do Brasil. Onde me parece atuar uma mafiazinha de jurados, inclusive com gente daqui mesmo de Curitiba. E assim seguimos por estas plagas de araucárias tristonhas, com o fim da lei do Mecenato, que não sabemos direito o que vai ser nem como e quando vai voltar. Seguimos também sem programa estadual para a cultura. Aqui pelo jeito é mesmo a terra da agricultura. Da Monocultura. Contudo, deixo meus parabéns ao amigo Mauro Tietz, coordenador de literatura da Fundação Cultural de Curitiba, com seus programas de leitura, oficinas de criação, casas de leitura, biblioparque e muitas outras coisas. O Mauro sim é um verdadeiro agente da cultura. Mais cinco como ele nesta cidade cinza de pensamento, estaríamos salvos. De resto, a cultura vai se esvaindo em mãos inadequadas para segurar e assegurar um futuro com mentalidade menos rudimentar para nossa cidade que adora mesmo é comprar carrrrrro novo e ir ao shopping, ou correr numa exposição de robótica no parque Barigui, lá onde podem buscar por inteligência artificial, já que neuronial, nessa terra, está um tanto difícil, soma-se a isso, claro, a falta de vontade local para engendrar bons programas culturais e tirar esse povo da inércia dos parques depressivos e de um ecologismo fake. Verdade é que nas plantations, na monocultura da República do Paranaguai, sempre chega a hora da poda, não é? A hora do lucro sem constrangimento, num estado rico mas que ainda não pensa seriamente em cultura. Comer pratos alemães e ucranianos e italianos e japoneses e etc. etc. etc. é o grande orgulho cultural de uma capital debilitada em seus pensamentos para uma política pública cultural eficaz e que gosta mesmo é de se alimentar da gastronomia e do folklore caipira europeu de grupos de dança e outras chatices aplaudidas pela classe média que cola em seus carros adesivos com brasões da alemanha, da itália, da moldavia, da molvania, da parânia, do rio grande sul é o meu país e etc. etc, etc.. Verdade é que quem planta come, não é? E aqui só se come, não se pensa. E aí, meu caros e meus carros, quem paga caro, e recebe escarro, é a inteligência. E, por fim, por fim, por fim, safam-se os sáfios.

Desatualizado

Depois de um mês vagando por aí, no mundo, continuarei atualizando este blog. Já que desde agosto ele não é alimentado. Tem umas coisas pra colocar aí. Fotos e textos. Mas ainda ando preguiçoso.

domingo, 23 de agosto de 2009

Três capítulos de "O visitante" (infanto juvenil)

Bem, este livro está parado em sua escritura, como outros dois. Mas pretendo levá-lo adiante assim que terminar coisas tipo "Doutorado". Sei que pode ser muito texto para um blog, mas quem gostar leia um capítulo de cada vez e me digam o que acham, pois nunca escrevi para jovens/crianças.


1. O aviso


Flupy solta um relincho estridente e, como sempre, nessas vezes, o Casarão quase vem abaixo. Paredes trepidam e racham em mais alguns pontos. Maldito Flupy!
De cem em cem anos, mais ou menos, esse bicho peludo, de tamanho milimétrico, que eu não sei se é um animal vertebrado ou invertebrado (possui apenas uma boca no meio da cabeça, aliás, seu corpo todo é apenas uma cabeça peluda, sem olhos, nariz ou orelhas), salta de um vão entre as tábuas do assoalho soltando esse ensurdecedor relincho, querendo me avisar de que algo está por acontecer. Algo que vai me tirar da rotina. Do sossego.
Enquanto o relincho de Flupy ricocheteia pelas paredes, sobe e desce pela escadaria, bate no teto e volta para dentro, para bem dentro dos meus tímpanos, eu lhe pergunto, berrando, para que ele possa me ouvir:
— Que foi desta vez, criatura?
Ele grunhe na sua língua, que é um misto de francês e espanhol:
— L’oncle Mallenstein est llegando. Él arrivera todavía hoy.
Desato o nó que as palavras de Flupy causam no meu cérebro e decifro a mensagem: meu tio-avô Mallenstein está finalmente chegando, após quatrocentos anos de promessas feitas por cartas que ele escreveu semanalmente, infalivelmente, durante esse período.
No entanto, confesso jamais ter sentido falta de sua visita. Na verdade, sempre foi um alívio para mim Tio Mallenstein nunca ter vindo até o Casarão. Sua fama não é das melhores.
Flupy dispara outro relincho.
— Que foi agora, animal, inseto, sei lá?
— Give me food! Il faut payer the information que yo suis venu darte
a usted. Capisce, carcamano? Beaucoup de repas. Mangiare, bambino. Did you n’avez pas understand encore?
Agora o maldito deu de incorporar italiano e inglês a sua quase ininteligível língua.
Não posso negar que os avisos dados por Flupy sempre me foram de extrema importância e extremamente verdadeiros, o que sempre possibilitou que eu me prevenisse contra acontecimentos mais nefastos. Seu último aviso, cem anos atrás, foi a respeito de um dilúvio que cairia sobre a terra daí a quarenta anos e duraria por 50 ou mais. Durou cinquenta e nove. Mas aqueles quarenta anos foram um tempo suficiente para que eu providenciasse o transporte do Casarão (o que levou vinte e dois anos, devido ao estado não tão bom de conservação do imóvel) para o alto desta montanha e fizesse um estoque enorme de comida para o tempo ruim que viria.
Porém, quanto ao Tio Mallenstein, confesso, não sei como me prevenir contra ele. Será que devo soltar dos porões os leões de juba-de-fogo para me proteger e ao Casarão também? Sei lá. Preciso pensar rapidamente em algo funcional e inteligente. Problema é que além da fama do Tio Mallenstein (que só vou saber se é verdadeira ou não tirando a prova ao vivo), não sei mais nada a seu respeito. Suas cartas se resumiam às promessas de visita. Só. Eram no máximo dez palavras por carta.
Melhor agora é pagar Flupy pela informação. Ele, afinal de contas, merece, além do que não pára de relinchar, o danado.
Num balde de um metro de diâmetro por dois de profundidade, coloco quilos de azeitonas pretas com carne de lula e ovos de viúva-negra. Flupy, o milimétrico Flupy, devora tudo em quinze segundos. Depois desaparece, saltando para dentro da lareira. Ouço seu crepitar.
Só me resta esperar. Mas desta vez não haverá quarenta anos para que eu me prepare ou mude o Casarão de lugar.


2. O visitante chega

Minha cabeça está cheia. Cheia de falta de ideias. Não consigo dormir nem pensar em uma solução. Tio Mallenstein logo deve chegar, pois as vinte e quatro horas do dia vão se esvaindo e Flupy disse que meu parente chegaria ainda hoje. Os leões de juba-de-fogo podem parecer um tipo de proteção excessiva. Tio Mallenstein pode interpretar esses animais ferozes a lhe aguardarem como uma recepção um tanto agressiva de minha parte. Espero que sua fama não se confirme. Família fala demais. Inventa coisas sobre a gente. Espero que essa regra se cumpra. Assim, Tio Mallenstein não representará aquilo que eu acho que ele representa. Porém, ficar totalmente desprotegido, seria tolice, pois, por outro lado, os membros de minha família não são lá essa maravilha mesmo.

Os raios do sol passam pelas rachaduras das paredes e machucam minhas retinas. Está amanhecendo. E nada do Tio Mallenstein. Flupy errou sua previsão: a de que meu tio-avô chegaria ontem. Espero que ele, ao menos desta vez, esteja totalmente errado, enganado. Só com o sol, assim, intenso posso ver em quanto aumentaram as rachaduras do Casarão em consequência dos relinchos de Flupy. Maldito Flupy! Gostaria de xingá-lo agora em todas as línguas possíveis, em todas aquelas que ele entendesse e também aquelas que ele não entendesse. Desse jeito, rachado assim, o Casarão não vai durar mais de três séculos. Droga.
Acho que preciso espairecer um pouco. Esvaziar minha cabeça cheia de falta de ideias. Vou descer até a cidade e tomar café na confeitaria de Dona Gretchen. Dizem que ela é uma espécie de bruxa aposentada. Só pode. Nunca vi ninguém fazer uma torta de framboesa tão boa. Vivam as bruxas!

A estrada é sinuosa. Muito sinuosa. E muito estreita. O vento sopra forte aqui em cima. Qualquer descuido e a gente pode despencar com cavalo e tudo lá pra baixo. São uns nove quilômetros até a cidade. Durante o trajeto, penso em alguma solução para a recepção ao Tio Mallenstein. Fico comendo uma deliciosa torta de framboesa da bruxa Gretchen. Tomando uma fumegante xícara de café.

Pelo caminho, nenhum sinal de Tio Mallenstein. Acho que ele não vem. Flupy finalmente deu uma bola fora. Não deveria ter-lhe pago a comida. Maldito!
— Torta de framboesa? — pergunta Dona Gretchen logo que chego e me sento em sua confeitaria.
Sorrio pra ela e respondo:
— E um café fumegante, por favor!
Ela dá uma gargalhada. Não entendo. Pergunto:
— A senhora está gargalhando por minha causa?
— Claro que não! É que passou por aqui um homem que dizia estar acompanhando um tal de senhor Mallenstein. O homem era muito magro. Um palito. Se apresentou como Gordon Siqueira. Levou todas as tortas de framboesa. Não sobrou nada. Só esse tal de Gordon comeu quatro ou cinco delas. As outras quinze que eu havia feito para meus clientes, ele as levou todas. Disse que seu mestre estava faminto e exausto da viagem. Só não disseram de onde vinham e pra onde iam. Gente estranha...
Quase peço para a Dona Gretchen calar a boca, ela está deixando minha cabeça zonza de tanto falar.
— Serve joelho de porco com cerveja? — ela me pergunta.
— Hã?! — espanto-me com tal cardápio matutino.
Mas não há tempo de responder, de comer. O negócio é fazer com que Hipólito, meu cavalo decrépito, galope o mais rápido possível e eu possa alcançar meu tio comilão e seu acompanhante no meio do caminho. Não posso deixar que cheguem antes de mim ao Casarão. Repito: a fama de Tio Mallenstein não é nada boa.

De onde estou posso ver, lá em cima, na estrada sinuosa: uma carruagem roxa muito comprida puxada por uns seis ou oito cavalos. Precisa tanto? Será que o homem trouxe tanta carga pensando em se mudar para o Casarão? Droga! Droga! Droga! Jamais conseguirei alcançá-los. Espero conseguir ainda entrar em casa.


3. O visitante chega e desaparece: deixa um bilhete

O Casarão já vai quase desaparecendo na bruma. Nuvens opressoras acinzentam o céu. O vento uiva. Nada de assombro. Sempre no meio da manhã, todos os dias, o tempo fecha desse jeito. A névoa só vai desaparecer à noite. Durante o dia o Casarão fica imerso, protegido por esse escudo brumoso. Me aproximando de sua entrada, posso ver, com alguma dificuldade ainda, uma sege com seis cavalos nervosos ali parada. Os animais relicham. Armam coices. De suas narinas sai uma fumaça espessa por causa do frio.
A porta da sala está escancarada. Faz movimentos bruscos , como que querendo bater e desmontar o batente e em seguida todo o Casarão. A porta parece ter ganhado vida própria e também parece estar dando a entender que não sou bem-vindo a minha própria casa.

Ninguém na sala. Nenhum sinal por aqui. Já na sala de jantar, as velas balançam, pra cá e pra lá, em seus castiçais. Se caírem, o fogo consome rapidamente tudo por aqui.
Apago-as. Na mesa, parece ter passado mesmo um ciclone. Parecer ter havido uma agitada festa. A festa da torta de framboesa. Há cálices e copos quebrados. Um resto de uma bebida amarela e viscosa. Cacos de vidro pelo chão. Um cheiro azedo toma conta do lugar. Nunca vi esse tipo de bebida. Deixa pra lá. Eu, agora, neste exato momento, é que não vou querer saber o que é isto.
A bagunça é generalizada. Doce no chão. Nas cortinas. Nas cadeiras. Pregado com um percevejo no espaladar de uma das cadeiras, o bilhete:


Caro sobrinho-neto Pandrinius

Desculpe-me por toda essa desordem em sua sala de jantar. Estávamos famintos. Viagem longa, sabe. Dias.
Agora me despeço e deixemos nosso primeiro encontro para mais à noite.
Espero por você no quarto 115. Não descerei, pois estou mesmo exausto e precisando fazer a digestão.

Seu Tio Mallenstein


Um encontro. Certo. Mais à noite. Fico aqui pensando se deveria ou não incomodar o visitante. Quarto 115. Nunca entrei nesse quarto. Aliás, quase não entrei em quarto nenhum do Casarão, apesar do longo tempo que vivo aqui. São muitos quartos. Quartos a não acabarem mais. Quatro andares imenso, com vários quartos. A cada ano, parece aumentar o número deles, apesar de eu nunca tê-los contado. Enfim, Tio Mallenstein vai, logo de cara, confirmando sua fama. Chega, não fala com o anfitrião e vai tomando seu lugar. Engraçadinho. À noite, então, nos encontraremos, titio. Prepare seus argumentos, pois isso não se faz quando se chega a casa de alguém. Espero, contudo, não ser mais incomodado até o nosso encontro. Vou, agora, preparar meu almoço, isso sim.

sábado, 22 de agosto de 2009

A arte de capa de "O estranho hábito de dormir em pé"

"O Sonho de onagro" (título): nesse trampo o mano Marco Sandrini utilizou: pintura acrílica, objetos colados e finalização digital. Adoro aquela moeda de Rublo posta na canto superior esquerdo. Um rublo, a quem interessar possa, é dividido em 100 kopeks e essa moeda aí é da época do regimão. Eita regimão do leste! E vamoquevamo, cabra da peste!
http://marcosandrini.blogspot.com/

Essa estava no Blog do Dom Solda de Itararé

Amigo de várias batalhas, o Popa, Luciano Popadiuk, esse ucraniano maluco da banda Os garotos chineses. Essa foto pesquei no site do Dom Solda de Itararé. Apareçam, meus camaradas de humor e fina ironia. Somos uma escola. E com Solda mais a jornalista Miriam Karam (saudade, viu) formei uma banda chamada Rivotrio Elétrico. Essa foto foi no dia do lançamento da coleção Antena, da Kafka Edições, lá no Beto Batata. Em outubro do ano passado.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Egon Schiele separado de Henryk Górecki

Separemos Schiele da música de Henryk Górecki. Acho que ficou kitsch com as imagens do Schiele a musica grandiosa de Górecki. As pinturas de Schiele também são grandiosas. Mas prefiro separar os dramas. Se é que me entendem.

fica o link :
Gorecki Symphony No. 3 "Sorrowful Songs"
http://www.youtube.com/watch?v=miLV0o4AhE4

Gracias, mano Marco pela crítica quando eu disse para tirar a trilha. Mas agora ponho aí só uma sinfonia do Górecki.

Egon Schiele





Por indicação da cineasta venezuelana Liris Acevedo, deixo aí duas obras do austríaco Egon Schiele, pintor ligado ao expressionismo. Esse quadro logo acima se chama "Os girassóis". O de cima não sei o nome. Outras obras podem ser vistas neste link abaixo. mas recomendo que tirem a trilha sonora, por favor. O cara é bem bom. Bem bom mesmo.



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Confissão de adolescente

Pois é, acontece. Hoje estava com vontade de dar uma dançadinha. E me pus a dar uns pulinhos aí com Human, do The Killers, minha canção preferida nos últimos dias. Um resgate do melhor dos anos oitenta, um pouco mais sujo, com boas letras. Para mim uma boa banda de pop/rock ou mesmo alternativa é aquela que consegue se encaixar naquele espaço entre genialidade e cultura de massa. Em suma, sendo um pouco genial, mas sem ser "cabeça" demais, e tentando insuflar uma dose de energia em quem ouve. Não pode ser meio termo quando o papo é energia e catarse. Deixem a genialidade para as "altas culturas". Se queres rock, pop, alternativo, fique a meio caminho. O resultado é "batata", como diria Nelson Rodrigues.
Por isso, como não quero genialidade e as massas me incomodam, dancei The Killers.

http://www.youtube.com/watch?v=n6r4KT8-VX0

E depois fui lá relembrar o suicidado e incompreendido Nick Drake, a grande promessa da música inglesa no começo do anos 1970.

http://blog.uncovering.org/archives/2007/11/nick_drake_1972.html.

Fechei com a imagem do leste europeu (meu, quero muito viver num lugar cinza assim, é sério). Peace, do Depeche Mode. Great, great. Nem genial, nem de massa. Depeche é o ápice da sabedoria na música pop. Podes crer. Percebam o tecladão europop a la Alphaville em várias partes da música. Lindo. Lindo.

http://www.youtube.com/watch?v=bzMkaSi6JTQ

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Gracias, Ney.

Deixo abaixo texto que mostra a ação do Deputado Ney Leprevost em realção ao fato comigo ocorrido na Venezuela. Segue:


Leprevost quer que Itamaraty exija desculpas formais do governo venezuelano ao escritor paranaense que foi vitima da policia “chavista”

“As novas gerações devem ser lembradas do mal que a ausência de liberdade já causou ao mundo”, afirma Ney

O deputado Ney Leprevost solidarizou-se com o escritor parananse Paulo Sandrini que foi vítima de terror e maus tratos por parte da polícia “chavista”, na semana passada.

Sandrini foi à Venezuela a convite do Instituto Cultural Brasil/Venezuela. Após uma semana de palestras, sem explicações, pediram seu passaporte e colocaram-no em um quarto fechado* durante mais de meia hora. “Vivi uma situação de violência psicológica, uma violência institucional, sobre a qual eu tinha debatido com os alunos na oficina”, afirmou Sandrini.

Recentemente, o consagrado escritor peruano Mario Vargas Llosa também foi vítima de maus tratos ao chegar à Venezuela. Sandrini foi proibido de fazer chamadas telefônicas no período em que ficou detido pela polícia política de Chávez e depois foi obrigado a assinar um documento atestando que não havia sido molestado.

“Cada vez mais eu me convenço de que agimos certo ao tornar este ditador persona non grata no Paraná. Ele não respeita o bom povo do seu país e muito menos os intelectuais que visitam a Venezuela. O Sandrini é uma revelação da literatura paranaense e foi vítima do preconceito e da intolerância que se estabelece em todos os Estados totalitários desde que Hitler foi parido”, afirma Ney.

“Repudio todos os regimes antidemocráticos, sejam de esquerda ou de direita. As novas gerações devem ser lembradas do mal que a ausência de liberdade causou ao mundo. Temos que ter uma postura humanitária e nos solidarizarmos aos nossos vizinhos venezuelanos, que estão sendo vítimas da arbitrariedade e da violência. Em minha opinião, o governo brasileiro tem uma postura muito dúbia ao não condenar o fechamento de rádios, televisões e jornais na Venezuela”, avalia Leprevost.
O parlamentar enviou hoje ofício ao Ministério das Relações Exteriores solicitando que o Itamaraty exija do Governo venezuelano um pedido formal de desculpas ao escritor Paulo Sandrini.


* Gostaria de um pequeno acréscimo: esse fato se deu no Aeroporto Simón Bolivar, eu estava sob suspeita de tráfico de drogas. Acrescento que só trazia comigo bons livros de escritores venezuelanos para divulgar no Brasil.


Juliana Hasse de Rezende Assessoria de Imprensa - Deputado Ney Leprevost
juliana@neyleprevost.com.br
(41) 3350 4192/ 8864 8265

domingo, 16 de agosto de 2009

Rafael Cadenas



Chega de coisas ruins, não? Deixo aqui um pouco da ternura da literatura venezuelana, nos versos de Rafael Cadenas, um dos maiores poetas da Venezuela, e também das Américas.

Traduzi sete textos em homenagem aos amigos de Caracas. E também para que os brasileiros conheçam um pouco mais o lado sensível e magnífico dos artistas de lá.


Ao despertar

Que sei eu de razões?
Meu pensamento é esta manhã que se eleva
sobre a ondulação do cerro,
a neblina que envolve
alguns pássaros,
o rumor
do mercado, os gaviões que ainda
se aproximam desta margem da cidade,
a xícara de café
antes de sair à rua
quando ainda não estou comigo


Cedo

Sibilante vento
amanhecer cinza,
e um pássaro que busca refúgio.
Música de rádio, café e jornal.

Espera sobrelevada,
a estudiosa tenacidade

Os passos
vivem de desalento.

Nenhuma exaltação,
paciência recebida
envolve o fazer.
Manhã,
regresso a um começar



********

Já não sei
Se posso falar em nome de alguém

Quem é este sangue, estes tendões, estes olhos,
esta estranheza, esta antiguidade?
Uma força
Me tem em sua mão
Então é ela
A que pode dizer sou,
A que pode possuir um nome,
A que pode usar a palavra eu.


A busca

Nunca encontramos o Graal.
Os relatos não eram verídicos.
Só a fadiga dos caminhos acompanhou
os que se aventuraram,
Mas esperavam histórias.
Que seria nossa vida
Sem elas?

Nada se resolveu,
poderíamos ter ficado em casa.
Mas somos tão inquietos.
No entanto, concluída a viagem
sentimos que em nós
- não mais reféns
da esperança -
havia nascido
outro templo.


O argumento

Pela manhã
lemos anestesiados
as notícias
da guerra (qualquer guerra),
um oficial
bem merece alguns combates;
cada facção
deseja mostrar que Deus
está do seu lado
com o argumento definitivo;
nossos olhos correm
as páginas
- buscamos mais confirmações
de nossa derrota-
e o jornal traz o que esperamos encontrar.

********

É tão curta a distância entre nós e o abismo, quase inexistente, uma fina luxúria. Basta se deter e aí está. Somos isso.
Nem necessitamos olhá-lo de perto. Que não haja engano. A separação nos pertence.


********

Sou esta vigilância.

Sou esta vacilante disponibilidade,
esta ausência de rosto,
este sem cor.

Sou este em quem se extingue
até mesmo a idéia de homem.

traduções: Paulo Sandrini (16 de agosto de 2009)



La estúpida máquina bolivariana (ou tour por Maiquetía, a maquete do inferno)







Introducción


Depois de uma semana em Caracas, estou de volta. Se disser que cheguei inteiro, pode não ser bem uma verdade. Enfim, um voo longo, com a aeronave da TAM chacoalhando quase o tempo todo na ida e um retorno espetacular, não por causa do voo da TAM, mas pelos fatos que me sucederam no aeroporto Simón Bolivar, en La Guaira, que é a cidade onde se localiza o aeroporto internacional de Caracas. Fatos que vou lhes contar com detalhes, porém depois de dizer algumas coisas sobre minha estada, no meio de semana, na capital venezuelana para ministrar a oficina de criação literária chamada “Violenta imaginacion”. O título, obviamente, já demonstrava um risco, visto a situação que o país vive. Mas como somos pensadores livres, vamos lá e encaramos a coisa com uma excitação tremenda em nossos princípios éticos e ideológicos, que passam primeiramente por “Pensar e falar o que tenho e acho necessário falar, sobre qualquer assunto”. Mas acontece que isso pode não ser bem assim e nunca o foi em muitos momentos da história da humanidade, creio mesmo que em grande parte nunca foi assim. Contudo, eu jamais havia estado em um, vamos dizer, (praticamente) regime de Exceção e, obviamente, de excessos; e que no caso venezuelano se acha sob as patinhas pesadinhas de um astuto (não, inteligente como querem muitos) e totalitarista Hugo Chávez, sujeito militar e que só por isso já dá muito pano pra manga em qualquer discussão sobre o futuro da liberdade na Venezuela. E nos faz temer também por todo o futuro da liberdade na região norte da América do Sul. Em nome do libertador Bolívar temos um ditador que se diz bolivariano e uma máquina estatal que parece só funcionar quando é bem azeitada no óleo da castração, do atraso econômico e político que com suas engrenagens de perfil militar vai esmagando os cidadãos, pobres ou de classe média, com dentes de aço. E o pior, tal máquina possui seus ecos nessas nossas terras paranaenses. Talvez o único estado do país, o Paraná, a retransmitir a “avançada” Telesur, de Chávez. E, bem... mãos dadas com o retrocesso, tentamos ir adiante, claudicantes. Órfãos de sabedoria.


A semana (em resumo)

A oficina “Violenta imaginacion” foi uma grande oportunidade para tomar contato com gente de algumas esferas culturais e profissionais que estavam por lá, frequentando o Instituto Cultural Brasil Venezuela entre os dias 2 e 6 de agosto. Entre os oficinantes havia gente do cinema, do jornalismo, da psicologia, professores, poetas, humoristas etc. Um pessoal que queria discutir, trocar, aprender, ensinar. Joaquín, Carolina, Liris, Patrícia, Pablo, Noraedén, Pedro, Leôncio, José Roberto e tantos outros que estavam ali para mais que um “taller”, estavam ali para estabelecer também contato com a cultura brasileira e falar da cultura venezuelana, sobretudo de literatura. Contudo, no primeiro dia senti a necessidade de conversar um pouco com eles sobre os tipos de violência que mais os incomodavam, ou que mais achavam estar presentes na sociedade em que vivem. Queria saber as diferenças e as semelhanças entre Brasil e Venezuela acerca do tema. E o que mais ouvi foi sobre a violência institucional (a política e a policial, sobretudo). Houve também quem falasse da violência das ruas, como acontece no Brasil. E surgiram ainda outros tipos de violência. O cardápio latino-americano para tal assunto é bastante variado. Tem para todos os gostos. Tais observações sobre a violência institucional, fiz questão de levá-las a alguns veículos para os quais dei entrevistas, a radio Del Ateneo e o jornal Talcual. Na TVES, chavista, evitei falar disso, passei ao largo do assunto. Pensava que tudo isso podia ser um risco à minha segurança, pois o que acontecia naqueles dias com a imprensa venezuelana era o fechamento de mais de 230 rádios em todo o país. E certamente existem censores da Stasi chavista monitarando alguns veículos. Eu podia cair na malha fina. Contudo, não ia me abster de falar o que pensavam meus alunos, que pareciam sofrer com isso.
Bem, quero dizer que fui muito bem tratado pelas pessoas que me receberam em Caracas. Irlanda, Leo (que é mesmo como um irmão para mim, tamanhas as nossas afinidades e humor irônico), Marcel, da rádio Del Ateneo e Verónica (esposa do Leo), fora ter recebido muitos sorrisos lindos da pequena Carlota, filhinha de Leo e Verónica. Enfim, minhas impressões eram das melhores. E ainda são com essas pessoas, meus amigos.
Seguindo com a violência. Apesar de terem me alertado para a criminalidade, que cresceu muito nos últimos anos em Caracas, com um dos índices mais altos de toda a América, não vi nada que assustasse muito. Tudo estava em ordem. Seguia eu comendo arepas, cachapas e indo a bares e tascas com os amigos de lá e bebendo muita Solera (da azul e da verde), que é a cerveja mais popular deles.
Encerrada a oficina no dia 6 de agosto, quinta, fomos a uma tasca, e ali me fizeram uma boa festa. Foi uma celebração feita com muito carinho. Mas não um carinho forçado, os caraquenhos são realmente muito calorosos, não os sentimos forçando a barra. São assim, e pronto. O que é muito acolhedor para quem chega de fora e logo está se sentindo em casa.
Na sexta, dia 7, meu dia livre, fui comprar livros no Centro da cidade com Leo. Trouxe obras de escritores venezuelanos como Ana García Julio, Francisco Suniaga, Oscar Marcano, César Chirinos, Humberto Mata, Eduardo Cobos, Rodrigo Blanco Claderón, uma coletânea de novos autores chamada Las voces secretas, poesia de Rafael Cadenas (aliás, Liris, a cineasta, me presenteou com um obra completa deste grande escritor). Eu trouxe também Francisco Massiani, Carlos Sandoval, Luis Brito Garcia, e muitas outras coisas. E mais ainda: uma coleção de poesia venezuelana que trouxe para o meu amigo e professor estudioso da poesia latina contemporânea Rodrigo Machado. Bem, não posso me esquecer que ganhei exemplares da inteligente revista 2021 editada por Leo e da revista Ojo, editada por Verônica. Mais uma novela chamada El famoso caso de las cartas de Lucas Meneses, autor que muita gente ainda não conhece, mas me parece muito bom, desconfia-se que escreve sob pseudônimo. E um curta metragem escrito, dirigido e produzindo por Liris. Um curta muito bem feito, baseado no conto O Enfermeiro, de Machado de Assis. O filme se chama La vida honorable de Procopio Gómez. Liris (Liris Acevedo Donis) me comentava sobre o humor que havia percebido em meus livros, posso afirmar que em seu filme percebi o mesmo. Qué bueno, hein!
Segue: descansei durante a tarde e cancelei a subida ao Cerro El Ávila com meus alunos. Uma pena. Minhas pernas não iam aguentar, sinceramente. Fim de tarde fui a um shopping ali perto do Hotel para comprar um helicóptero para o Gianluca, e por sorte o encontrei, do contrário nem uma lembrança para o Gianluquinha eu teria trazido.
No sábado, dia 8 acordei às cinco, e às seis o táxi enviado pelo Instituto Cultural Brasil Venezuela estava me esperando. Seis e meia estava lá eu, no aeroporto Simón Bolívar, um lugar com nome de um grande libertador mas que ia justamente me colocar nas mãos dos milicos por umas duas/três horas (perdi a noção do tempo naqueles instantes que agora passo a narrar), me privando de liberdade.


La estúpida máquina bolivariana antidrogas y ideas

Fiz o check in e soube que tinha que pagar para o governo uma simples taxa de 60 dólares para sair do país. No meu caso, pagar para ser incomodado. Foram os 60 dólares mais infelizes da minha vidinha de inseto. Fui a zona de embarque, entrei numa fila imensa, e levei uns bons minutos até chegar ao scan das bagagens de mão, tirar sapatos, cinto, aquela bobagem toda. Mas a surpresa é que tinha mais um scan, passei de novo. Tudo certo. Tudo limpo. Ia embora após uma semana de bom trabalho e bons amigos. Senti que o resultado da oficina de criação literária havia saído melhor de que eu esperava. Estava eu ali um pouco orgulhoso de mim e dos meus alunos. Quando um rapaz fardado me chamou e pediu meu passaporte. Pediu também de outro senhor brasileiro e em seguida de um professor universitário, Thiago Gehre, de Roraima. Nos fizeram passar várias vezes no scan antidrogas e ele não detectou nada no senhor e então foi minha vez. Subi na plataforma da máquina bolivariana antidrogas, e desci. Não deu nada. Me mandaram subir de novo. Lhufas. A agora estúpida máquina bolivariana antidrogas não queria funcionar comigo, não funciona com escritores talvez. Me mandaram descer e assinar um papel com umas garatujas feitas por um rapazinho quase analfabeto que mal sabia teclar um computador e ficava catando milho nas teclas para digitar algo que não sei o que era, pois não foi impresso e tive que assinar um documento escrito a mão. Bem, passei pela estúpida e rude máquina bolivariana antidrogas três vezes. Depois da segunda e de ter assinado aquele documento feito a mão em papel de embrulhar pão, achei que poderia ir embora, gastar uns bolívares no Duty Free (yes, o orgasmo da classe média). Foi quando me pediram o passaporte outra vez e sumiram com ele por muito tempo. Antes haviam me perguntado seu eu tinha comido. Eu disse, “Mira, no creo que es muy comum los restaurantes de los hoteles en todo el mundo tener sus puertas abiertas a las cinco de la mañana, yo vine para el aeropuerto a las seis, entonces, estoy sí sin comer nada, pero se me dejan, a mi me gustaria tomar el desayuno antes que el avión se vá”. Na verdade as mulas da polícia chavista queriam me fazer passar por Mula. Para eles eu levava drogas no estômago. Nesse caso, se levasse drogas no estômago, seria melhor me chamar de anta, topeira do que mula. Bem, depois da terceira escaneada em mim, não me liberaram. Surgiu um gordinho de roupa verde oliva, um tipo que parecia uma azeitona, redondinho e rechonchudo, tomou en sus manos meu passaporte e me mandou acompanhá-lo. Mantendo sempre a calma, o segui. Ele me mandou sentar e esperar um comunicado. Ok, gordito azeitona. Ele ligou, ligou e a ineficiente comunicação bolivariana, claro, falhava. Até que depois de umas cinco tentativas de contato, chega um policial de cara cerrada. Também de roupinha verde. Fico imaginando aqueles muchachos verditos olivos na parada gay da avenida Paulista. Um sucesso. Esse polícia me levou ao cuartito, uma salinha num corredor isolado do aeroporto. Ali, silêncio total, ninguém falava comigo, não diziam o que iam fazer. O silêncio nesse caso é puro terrorismo. Mas tudo bem, nada que cause mais terror que ver a cara do Chávez, logo ao desembarcar no Simón Bolívar, numa plotagem mal feita com uma mensagem sobre a liberdade da nação bolivariana ou algo assim. Chávez, meu querido ditador, a Venezuela tem tantas mulheres lindas, e você é que quer ser miss universo? Bem, até que não seria mal, dizem que as misses da Venezuela têm que se isolar um ano para se prepararem para ser miss mundo. Nesse tempo, enquanto você estivesse se preparando para ser Miss Universo, se maquiando, fazendo peeling, lipoaspiração, levando massagem e drenagem linfática de um oficial do exército, colocando próteses de silicone, implantando um pouco de neurônios (um nova técnica para que as misses não falem tantas tonterías), a sociedade teria tempo para dar um golpe e tomar o poder. Claro, você, querido, ia subir nas tamancas e gritar, “Por aquí la poderosa soy yo... E bem... Tu eres sí la poderosa. E seus soldados também. As poderosas verde oliva me colocaram depois de meia hora nas mãos do oficial Unamo. Esse muchaco com cara de Chavinho me enfiou num jipe bege da polícia junto a mais quatro soldados e um senhor à paisana que dizia ser um motorista de táxi (hehehehehehehe). Um senhor pançudo que com toda certeza era uma agente bolivariano da “inteligência”. Ok. O tal Unamo me disse que iam me levar até um hospital porque eu teria que passar por um raio X. O carro da milícia chavista rodou lento por vários minutos, mas antes ia parando no caminho para traficar (eles sim) aqui e ali bebidas, entre elas refrigerante, champanhe, suco, vodka, run. E iam todos felizes. Enfim teriam bebida e alguém para torturar: eu. Não chegávamos nunca ao hospital. Quando chegamos, o hospital não tinha máquina de raio X. Isso já eram oito e meia. Achei que ia perder o voo. Seguiam por ruas sujas, apertadas, feias, tudo para me aterrorizar. Coitados, sou brasileiro, nada em termos de miséria pode assustar um brasileiro. Uma favela é só uma favela. Fomos a uma clínica então. Rodamos mais e mais. Os verde oliva buscavam cigarros com os camelôs e outras coisas que eu não compreendia. Até que lá por 9 e 20 eu entrava numa clínica suja e obsoleta em Maiquetía (cidade próxima ao aeroporto de Caracas). Maiquetía, pode-se dizer (e não dizer mais nada depois), é a própria maquete do inferno. Na clínica fiz o raio X. Me puseram nu, sem nem me darem um roupão, o que no Brasil é praxe, e com uma mulher me mirando, fizeram a chapa. Nada constrangedor. Afinal, era só um traficante nu... Um traficante não tem vergonha de nada. Resultado: negativo. A chapa nada acusou. Mas o oficial Unamo me disse que eu teria que fazer outro exame. "Vamos hacer otro, necesitamos dos". Nessa hora eu disse que queria fazer uma ligação ou para a Embaixada ou para um amigo meu, o Leo Felipe Campos. “No, no puedes llamar a nadie”, me disse o mano Unamo, de modo muito humano. Estavam fazendo de tudo para me aterrorizar e atrasar o voo. Mas segui tranqüilo, continuei lendo meu livrinho. O que parecia incomodá-los. E antes de eu subir de novo no jipe bolivariano antiescritores o senhor da inteligência me perguntou baixinho: “Do you speak English or Frank?” eu pensei em lhe responder, “I speak Frank-enstein, pequeño monstruo”. (Imagina então se o baixinho gordinho fosse do serviço de "Ignorância" Bolivariano?). Mas respondi que falava português e ele me perguntou: “?Tienes dinero?”. Nessa hora fiquei danado da vida e disse alto: ?Que me has preguntado, señor?”. Nisso os outros soldados ouviram e Unamo perguntou o que estava passando comigo. Eu disse ao mano Unamo que o senhor “inteligente” tinha feito uma pergunta a mim e eu não tinha entendido, por isso tinha pedido que ele falasse mais alto. Nisso o velhote baixinho gordinho da “inteligência” disse, “No, no es nada, nada importante”. A essa altura, creio que Unamo não sabia aonde me levar para tirar outra radiografia, pois a região ali, claro, é muito desenvolvida, é uma área onde se encontra de tudo, mas com só com os camelôs e no mercado negro. E creio que clínicas e hospitais em bom estado são bem mais difíceis. Ou não existem mesmo. O mano Unamo então chamou a base, falou algo lá no seu espanhol que come todas as sílabas (acho que ele também não havia tomado café da manhã) e esperou. A esta altura eu pensava seriamente que não havia o que eu pudesse fazer para me livrar. Depois de três scanners no aeroporto, mais uma radiografia da barriga, e depois outra, e agora a chamada para uma base militar... Eu ia mesmo ficar preso ali como traficante. Certamente também viram os livros na minha mala (que chegou toda furada ao Brasil, com livros e roupas estragados e os livrinhos que trouxe para o Gianluquinha também) e achavam que eu podia estar traficando algo que o governo Chávez também detesta: Cultura. Sobretudo quando produzida pelos próprios intelectuais venezuelanos (os livros que trouxe, como disse, eram na maioria de escritores de lá).
Depois de um segundo ou terceiro comunicado, o carro foi em direção ao aeroporto. Já eram bem mais de nove da manhã, horário em que o voo partia.
Chegando à área de embarque internacional, o carro seguiu adiante. Pensei, estou danado. Os filhotes de Chávez me querem como exemplo para os gringos traficantes. Não saio mais desta república socialista bolivariana, acreditava. Se não fosse a natureza grandiosa do Cerro El Ávila e seu verde, eu poderia me sentir em qualquer uma daquelas ditaduras socialistas em paisagens cinzas do leste da europa de anos atrás. Romênia, Albânia, Polônia e por aí afora. Ditaduras em nome do socialismo. Socialismo que jamais existiu em lugar algum do mundo. Distorceram Marx e se esqueceram do verdadeiro socialista que se chama Bakunin. O anarquismo é o socialismo. Todo o resto são regimes-lobo sob pele de cordeiro, ora comunista ora capitalista. O mundo é plutocrático, sabemos. Democracia em grande parte é uma falácia. Uma falência.
O carro fez um retorno, voltou a área de embarque internacional e me mandaram descer, nisso eu já tinha batido meus ombros uma duzentas vezes no teto do carro, que era muito baixo. Bati também a cabeça algumas vezes. E creio que os policiais de Chávez também batem ali suas cabecinhas o tempo todo. Os dois neurônios que levam em suas cabeças, chamados Hugo y Chávez, devem sofrer fortes abalos. Mas continuam amando o sistema que ultimamente se alimenta de armas suecas* e tanques russos.
Bem, desci do carro da Guarda Chavista e me levaram ao cuartito abafado para assinar um termo dizendo que eu não havia sido molestado fisicamente. Então Unamo me mandou correr porque o voo estava esperando. Eram dez da manhã. Nisso eu tinha que passar por uma catraca para a área de embarque. Estava travada. O mano Unamo me disse, “Salte por ahí”. Era para eu passar por cima de uma esteira de malas. Apressado pelo mano Unamo, escorreguei e bati a perna, fortemente, sai mancando, minha canela ficou toda inchada com vários hematomas. E ainda está. Roxa. Dolorida. Mas eu já havia assinado um termo que dizia que eu não tinha sido molestado fisicamente.
No fim das contas, voltei com quase todo o dinheiro que eu tinha ganho pelo trabalho da oficina. Não trouxe nem uma xícara escrito “Caracas”, ou uma camiseta com o escrito “Venezuela”. Ou “Estuve en Caribe venezolano”. Sei lá, essas coisas para turista colocar na sala de suas casas e mostrar aos vizinhos que viajaram pelo mundo e adquiriram cultura só por terem entrado numa lata de sardinha que se chama avião, onde as pessoas suam, tossem, vão ao banheiro toda hora. Onde a turbulência é uma droga, a música é péssima, os filmes são terríveis. E muita gente lendo livros de autoajuda, livros sobre como administrar negócios, ou Paulo Coelho. Por isso, certamente quando cai um avião, morrem muitíssimos coelhos numa paulada só.
Enfim.... cheguei ao avião... Mas passaram-se dez minutos mais ou menos e chegou o outro detido pela guarda chavista, um professor de Roraima, da Universidade Federal, chamado Thiago. Prenderam sua bagagem e fizeram com ele alguns absurdos.
O voo partiu lá por dez e quinze. Levei a certeza de que fiz grandes amigos em Caracas, grandes mesmo. Mas também trouxe outra certeza: Simón Bolívar esta sacudindo seus ossos na tumba sem parar, de tão irritado. O sistema de Chávez é bruto. Atrasado. Violento. Não é socialista coisa alguma. É repressor. Contudo, deixo recado para os oportunistas de plantão, Lula não tem nada a ver com os modos políticos do senhor Chávez. Quanto ao Paraná, já não sei se se pode afirmar o mesmo. Digo mais, não sou petista. Não creio em Deus (ao menos nesse deus branco burguês com matriz no Vaticano nazista). Não creio em mitos. Não tenho ídolos. Não creio em governadores paranaenses com cara de governadores do Arkansas. Não creio em presidentes que se apartam de sua gente. Não creio na direita nem na esquerda. Vocês não precisam portanto acreditar em mim. Assim estamos empatados. Podem me chamar de agora em diante de Sandrini Chávez de Cadeia.

* Um país expressivo como a Suécia deveria no máximo produzir cuecas, cuecas-suecas (ahn, bom né?) não armas. Não há porque querer invadir a Suécia, só se for para saquear de lá o tédio de uma sociedade gelada. E bem...

Milícia bolivariana curitibana

Anteontem o Fabio Campana colocou em seu site o conteúdo parecido ao do Jornal Talcual da Venezuela que discorria sobre o sequestro que sofri no aeroporto de Caracas. O Fabio para ilustrar o texto colocou uma foto minha da época da publicação do livro Códice de incríveis objetos. Meu cabelo comprido e meu visual na foto foram temas bastante importantes no debate. Vejam o que segue:

TAMBÉM COM ESSA CARA QUALQUER UM SUSPEITARIA,
LEMBRE-SE DAQUELA VELHA FRASE:
“O MUNDO TRATA MELHOR QUEM SE VESTE BEM”!!!

TADINHO DO CABELUDO HEHEHEHE

Com essa cara de peixe morto, deveria chamar-se “Paulo Sardinha”…
Me desculpe companheiro, más com esse visual de Cristiane F., em qualquer País lhe barraria!!!

Confesso que gostei de 'Paulo Sardinha'. É criativo. Sonoro. E cheira mal. Mas prefiro autores que assumam suas criações. Gosto de conhecer as características dos meus rivais para ver se eles têm bala na agulha quando o assunto é ironia. Então, senhor Brasil (pseudônimo de quem escreveu tal citação), obrigado pelo apodo. E não precisa ter medo de mostrar o nome. Não sou Hugo Chávez. Sua liberdade poderá ser praticada. Mas também quero praticar a minha. Ora, nada mais justo.
Para a frase que diz que qualquer um suspeitaria de mim porque “o mundo trata melhor quem se veste bem”, tenho que dizer que na foto só aparece meu cabelo, e não há como vestir cabelo, a não ser que se use peruca. O que não é definitivamente o meu caso. Há aí um equívoco de quem escreve, que não consegue juntar um mais um para dar dois.
Aos amigos de Caracas, Curitiba e do Brasil, fica aí a versão não distorcida dos fatos, contada agora por mim mesmo.
Ao inimigos de Curitiba, certamente vindos da subcultura chamada Bocágil, digo que se estiverem precisando de cabelo porque estão ficando calvos, posso lhes emprestar. Agora a pança, vocês já devem ter, e eu não, por isso não posso fornecer. E também creio que vocês andam importando com bastante afinco para nossa cultura local pacotinhos com dois neurônios, da marca Hugo y Chávez, para retê-los em suas mentes provincianas e agrárias.


Buenas tardes con Telesur

sábado, 15 de agosto de 2009

Venezuela

Muitos já sabem do ocorrido comigo no aeroporto Simon Bolivar, na Venezuela. Estou aqui, meio sem forças, pra contar toda a história. Mas pretendo dar a versão final disso tudo. Por aí, em sites, alguns, creio que há distorções de alguns pequenos fatos. Normal, acontece. Certas coisas não devemos ficcionalizar. Triste é ver gente nos cometários do blog do Fábio Campana dizendo as mais puras besteiras. Em Curitiba é normal. Onde faltam mais ações culturais a brutalidade começa a imperar. Mas também há meus amigos daqui. Luci Collin, Rodrigo Machado, Dalcia Lessnau, Emerson Pereti, Renata Mele e muitos outros que me estão dando força. Muita força. Estou bem. E já dou risadas dos fatos. Aos que me querem pelas costas, as deixo aí disponíveis, mesmo porque em Curitiba não se sabe onde está o inimigo, às vezes ele parece ter te dado um tapinha nas costas por amizade, mas na verdade está lhe cravando um punhalzinho com veneno. No entanto, sou um indivíduo às claras. Digo o que tenho de dizer, gostem ou não. E faço o que acho que tenho de fazer culturalmente. Se é bom ou poderia ser melhor, não sei, faço o meu melhor. Esperando que outros também o façam. Uma cidade grande não pode viver de poucos cérebros como a nossa. Nem ficar escondidos. Vivemos aqui uma repressão cultural para a produção, no Paraná, sobretudo por parte do Governo do Estado. E estamos felizes. Levando a sério a máxima: "se eu não consigo fazer, melhor que ninguém faça". E digo mais, acredito que muitos dos malvadinhos desses comentários em blogs são aqueles que vivem por aí naquele eterno chororô de serem incompreendidos em seu super talento. Na verdade, Himmler ligava todos os dias para a sua mamãe dizendo que precisava de seu carinho e seus cuidados. Mas quando estava em serviço.... Agradeço muito aos meus verdadeiros amigos. Eles sabem quem são. Volto depois com o texto.
E depois do texto, esqueçamos isso e vamos adiante com nosso atraso.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Futuro Presente


Confirmado: dia 17 de agosto, nas Livrarias Curitiba, o lançamento da coletânea Futuro Presente, de Ficção Científica, organizada pelo Nelson de Olveira. Sai pela Editora Record. Quem passar por aqui, está convidado, o time científico está no convite acima, clica aí no bichinho e vai ver. Abraços marcianos a todos.
Essa é a segunda publicação em que participo no ano. Um ano de gripe e até agora meio estranho. Sabe aquele ano em que você sente que falta algo? E a ficção não preenche. Pode só aliviar. Ei-la. O leitor que invente mundos outros a partir daí. E crie um mundo ao menos sem gripe.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Amigos

paulo sandrini


E então eu aqui, assim. Olhando por essa janela. Lá fora o chão e o telhado das casas molhados por causa da chuva fina. Um silêncio, o mundo dormindo em paz. Mas aqui dentro de casa, aqui dentro da minha cabeça, um caos do caralho, entende. Um caos. Fico pensando em toda a paz que essa gente medíocre está desfrutando agora. Toda essa gente que mora nesta porra de condomínio. Uma vida pacífica proporcionada por empreguinhos de merda que nunca eu ia querer pra mim. Empregos pruma gente conformada, bovina, entende. Uma gente cujo principal objetivo de vida é trocar de carro ano a ano e ir pra merda de praia nas férias. É, sim, essa gente é assim, entende. Tipo esse vizinho da frente aí, gerente de produção numa montadora de carros. Um porra que acha que só porque troca de carro sempre [claro, a montadora vende o carro pra esse merda a preço de banana] é melhor do que eu. Vejo isso no jeitinho como ele olha. Olhar de cima, entende. Um porra. Um porra de merda. Entende? Não agUento mais olhar pra cara dessa gente. Mas aí eu tava te falando do caos que tá a minha cabeça. Sabe, como pode um cara como eu, com mestrado, doutorado, falando três línguas, estar fodido? Sem emprego. Sem projeto de pesquisa. As contas todas atrasadas, o oficial de justiça batendo aqui em casa pra levar as coisas. Como é que pode, pergunto. Quando vejo a filha da vizinha ali da frente, toda lá orgulhosinha, fico puto. Agora ela, a filha da vizinha, dá o sangue numa empresa de tecnologia. Uma analfabeta funcional com três filhos, cada um de um pai. Corroborando a superpopulação no globo. Deviam fazer queném na China. Proibir as pessoas de colocar mais de um filho no mundo. Ainda mais filho dessa gente crassa. Mas como eu falava: ela tá toda orgulhosinha agora, a filha da vizinha, só porque arrumou um emprego numa empresa de tecnologia e mais um cara pra casar, lá mesmo nessa empresa em que ela entrou há pouco. Veja só, nem bem entrou e já arrumou um otário pra ajudar a bancar os filhos e a casa. Um gordo babaca que entra e sai do condomínio escutando, no carro, Ivete Sangalo, axé, pagode, hino de time de futebol, essas porras. E ela, a vizinha, lá, toda cara-virada agora. Só porque arrumou um marido gordo e churrasqueiro de primeira. Mas antes, precisava ver, antes vinha tentar vender até produtos da Avon aqui em casa. Fora o material de informática de terceira linha. Uma picareta do cacete. Mas eu nunca comprei. Coisa vinda do Paraguai, sabe. Não alimento esse tipo de gente. Me vender um livro ela nunca viria, não é? Nunca. Uma ignorante. Ah, mas uma ignorante que agora tem uma picape, que antes não tinha, na garagem. Então se acha melhor que a gente, também. Mas te falo isso, só te falo isso, pra você ver como a gente, gente como eu e você, não é valorizada. Eu aqui preocupado com coisas mínimas. Com as banalidades. Como é que um cara como eu, intelectualizado, vou me preocupar com essas coisas? Mas me preocupo, né? Falta grana. Trabalho. O lance é sumir dessa porra deste país, entende. Veja só, o cara ali da frente, de uma das casas perto da portaria, fiquei sabendo, tá vendendo o imóvel pra ir morar com a família na França. Trabalha numa multinacional. Não fala um isso de francês, mas vai embora. Levar os equívocos e o mau-gosto da nossa classe média pro exterior. A esposa, uma loira descolorida, é dessas que deve adorar reality shows e os filhos, dois gordinhos chatos, devem encher a cara no McDonald’s, no Burger King. Pois é, meu amigo. Isso lá é ideal de vida? Mas vão levar esse ideal pra França. E o Paulo Coelho na bagagem, só pode. E eu aqui, com a cabeça a mil. Mil projetos e nem um sequer se concretizando. Aí vem o desespero. A taxa de condomínio atrasada, e olha que os babacas daqui votaram numas reformas, na última assembleia, que só vão onerar ainda mais a gente. A taxa vai subir. E eu vou continuar dando o calote. E as cobranças da administradora serão mais constantes. E eu não sei lidar direito com essa porra. Não gosto de dinheiro, mas também não sei lidar com dívidas, entende. Aí não durmo. Não como. Mas principalmente não durmo. Fumo pra caralho. Encho a cara de café. De ansiolítico. Antidepressivo. Um verdadeiro coquetel molotov. Aí ligo pra um ou outro amigo. Aqueles que eu sei que não acordam cedo pro trabalho, como você. Ainda bem que a gente pode se falar, não é? Temos tempo de sobra, hein! Haha. Podemos contar um com o outro, nessas horas. À noite é sempre pior, cê sabe. O pânico noturno. Sim. Claro que você sabe. Como eu ia me esquecer. Me lembro bem daquelas vezes, você fodido, sem bolsa pra pesquisa, sem trabalho em empresa particular, a mulher te deixando. Ah, como me lembro, cara. Foi foda, mas passou. A gente se falava todo dia, de madrugada, lembra? Cê me ligava e ficávamos um tempão na linha. Como agora estamos. Lembra, cara, cê tava deprimido pra caramba. Bem como eu estou hoje. E eu gostei de ajudar você, fazer alguma coisa por alguém. Aí ficamos mais amigos, amigos de verdade, devo dizer. Não foi? Sim, foi. É bom a gente poder desabafar nessas horas. Alguém pra ouvir, e tal. Não te ajudou? Não foi algo bom, falar? Não foi? Me diz. Responde. Não foi? Ó, não precisa ficar constrangido em lembrar, em falar sobre. Ficar em silêncio. Nada a ver. A gente pode falar daquela época, se você quiser. Pode sim. Vai ser bom pra mim também, tirar um pouco o foco só dos meus problemas. Lembrar do seu exemplo. Hei, cara, cadê você, cadê, cadê? Fala aí, meu. Fala se não foi do jeito que eu falei. Aquela sua fase. Claro que foi, né? É. Sei, sono. Desculpa de quem não quer tocar no assunto. Tudo bem. Tudo bem. Tá com sono. Tô vendo. Mentira. Sono? Pois é, nem responde a pergunta quando faço. Ah, sei. Vai levantar daqui a pouco. Pra trabalhar. Trabalhar? Onde? Como é que cê nem me disse nada. Sei que cê trabalha, mas nunca teve que levantar cedo. Ah, porra, não queria que eu ficasse pior se soubesse que aquela universidade chamou você e não eu. Que cê agora tem dois trampos. Sei, achou que eu ia ficar mal. Não, não tô mal não, cara, com essa história. Mas você deve tá, né? Me passando a perna, não é? A rasteira. Por isso nem se pronuncia. Tá esquivo. Quase não fala. Não é nada disso? Claro que é. Fica aí. Constrangido. Só dissimulando. Não, claro, você não tá constrangido, só com sono. Sei, sono. Sim, seu merda, tira minha vaga e ainda por cima consegue dormir. Agora vai poder fazer mais contas, comprar mais coisas, viajar, ir ao teatro, cinema, não é? Mais um carro na garagem. Bancar mais frescuras da nova mulher. Dos filhos. Claro, claro, vai dormir, vai. O sono dos justos. Não é? Vai lá. Vai dormir. Traíra. Vai dormir que eu vou desligar. Desligar esse telefone e continuar aqui, sozinho, com os meus fantasmas. Desculpa aí. Desculpa se te atrapalhei, vencedor. Bom sono.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nosotros en Perú



A antologia 90-00 Cuentos brasileños contemporáneos, será lançada no Peru, dia 25 de julho, às 20h30, na 14ª Feria Internacional del Libro de Lima. A antologia foi organizada por Maria Alzira Brum Lemos e Nelson de Oliveira, tradução de Alan Mills e José Luis Sansáns, publicada pela Ediciones Copé, selo editorial da Petroperu .

Participam da antologia:

90: Ademir Assunção, André Sant’Anna, Edyr Augusto, Fausto Fawcett, Joca Reiners Terron, Luci Collin, Marcelino Freire, Maria Esther Maciel, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Bressane, Sérgio Fantini.


00: Ana Paula Maia, Andréa del Fuego, Daniel Galera, João Filho, Marcelo Barbão, Michel Melamed, Paulo Sandrini, Paulo Scott, Santiago Nazarian, Veronica Stigger.


Na mesma feira, Maria Alzira Brum Lemos lança seu La Orden Secreta de los Onnitorrincos, pela editora Borrador.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

United killers of Benetton



Creio ter publicado anos atrás este texto no site Fazendo Média e o encontrei reproduzido num blog.
O título é o que vai lá em cima, United killers...


Ficamos assim: eu mato os azuis e você os brancos.
Os brancos? Nunca vi, nessa brincadeira, quem gostasse de matar os brancos. Eu é que não vou matar.
Pensando bem, também não tenho conhecimento de que nessa brincadeira tenham matado algum azul. Eles são os nobres da brincadeira. Só podem ser mortos quando todos os outros já tiverem sido. Mas nunca alguém foi tão longe nessa brincadeira. Não serei exceção. Vamos matar os de outras cores.
Quais?
Os amarelos.
Os amarelos, não. Os amarelos ficam lá do outro lado. Por enquanto nos concentremos nos que estão aqui a oeste.
Pois já sei. Nós dois mataremos os pretos.
Já tem muita gente matando os pretos. Vamos matar os pardos.
Os pardos? Pois, sim. Acho que os pardos estão de bom tamanho. Mas como a gente identifica um pardo?
Aqueles que têm uma tonalidade de burro quando foge ou cor de fresta são os pardos.
Não será muito difícil identificá-los. À noite todos os gatos são pardos.
Mas não estamos procurando por gatos.
Estamos procurando por quem?
Todos aqueles que a gente não gostar e forem pardos. Menos os gatos.
E se eu não gostar de gatos?
Eu sei que você gosta de gatos e tem um grande interesse neles, até cria um.
Diríamos que aprendi a conhecê-los, depois a gostar deles.
Então, essa brincadeira fica mais excitante quando a gente não demonstra interesse algum em conhecer aquilo que se aniquila, basta, apenas, discriminar uma cor, botar na cachola que não gosta dela e pronto: sair à caça. Funciona assim, de acordo?
Ok. Aniquilemos então os pardos. Não queremos conhecê-los e também não gostamos de sua cor.

Impressões Pan-americanas

Em 2007, Curitiba apontava como um forte centro de debate sobre literatura. Nesse ano, conseguimos realizar aos menos dois eventos que apontavam para a internacionalização do diálogo a partir de uma cidade que pouco ou quase nada dialoga com o resto do país e do mundo quando o assunto é literatura. Tivemos em 2007 duas esperanças. O Impressões Pan-americanas e o Curitiba Literária. Quem sabe uma hora, um dia desses, levantem de suas sepulturas para tirar o tom fúnebre que paira sobre o nosso debate intelectual sobre literatura...
Por ora, deixo a entrevista que concedi à revista Cult por ocasião da realização do Impressões.
Isso, para que as impressões não se apaguem, nem a memória literária de uma cidade quase sem memória literária.

http://revistacult.uol.com.br/website/site.asp?edtCode=040CB0D3-CEE3-41F2-9818-2C00A2B3A661&nwsCode=7AAB5990-F736-48C5-9C1E-2B57281EDC38

terça-feira, 14 de julho de 2009

Oficina em Caracas

A convite "del cabrón" Leo Felipe Campos, grande hermano mío, editor da excelente revista "Plátano Verde" [http://www.platanoverde.com/platano_blog/?page_id=3] e também da super bem projetada "2021 Pura Ficción" [http://vimeo.com/2217166], estarei ministrando uma oficina de criação em Caracas, no Instituto Cultural Brasil Venezuela. Siguen abajo las informaciones.

Taller de escritura a cargo del novelista brasileño Paulo Sandrini

A partir de algunos cuentos y preceptos de Edgar Allan Poe, Horacio Quiroga, Clarice Lispector, Julio Cortázar y Osvaldo Lamborghini, Paulo Sandrini propondrá ejercicios introductorios para trabajar con la inventiva desde la materialidad del texto. En la conversación sobre esas lecturas se ubicará la clave para construir pequeñas historias que tendrán en la violencia al motor de nuestra imaginación.
Del lunes 03 al jueves 06 de agosto. De 2 a 6 pm.
En la sede del Instituto Cultural Brasil Venezuela (Av. San Felipe, entre 1ª y 2ª transversal de La Castellana, Qta. Degania. 266-14-76 / 266-4302).
Costo: BsF. 200
Interesados, enviar un cuento a violentaimaginacion@gmail.com
Una vez que le avisemos que ha sido seleccionado como participante, favor realizar depósito o transferencia a la cuenta del BANCO: VENEZOLANO DE CREDITO. A NOMBRE DE: INSTITUTO CULTURAL BRASIL VENEZUELA, y enviar voucher o constancia de transferencia al numero de fax 266-4302 o a la dirección electrónica administración@icbv.org.ve.
Para mayor información comunicarse al INSTITUTO CULTURAL BRASIL VENEZUELA: 0212 266-14-76 / 0212 266-43-02

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Guerra: essa é a nossa condição.

O mundo precisa da guerra. Fartura e paz criam covardes. Imaginem um mundo pacífico, vocês conseguem? Um mundo, por exemplo, sem guerra de mercado (que leva à guerra de fato – bélica), sem guerra de egos, sem guerra de interesses.
Uns dizem que o mundo não evoluiria. Que estaríamos na pré-história. Contudo, mesmo na pré-história, meus caros amigos, teríamos os tacapes em mãos, pra soltar a porrada no primeiro que mexesse no nosso naco de carne de tigre dente de sabre. Se tivéssemos só a paz, não a guerra, o que dominaria, em vez da guerra, seria a conversa mole, a conversa fiada e a lábia. Sempre há espertinhos querendo levar vantagem, se não à força, na base do papo torto. Um mundo de paz, vejam, não geraria tantos lucros institucionais para a publicidade, com suas idiotas campanhas repletas de camisetas brancas e pombas da paz (justo a pomba que é um bicho briguento pra cacete entre seus semelhantes), a classe abastada não posaria de bacana saindo em colunas sociais “Pela Paz”. Nossas vidinhas seriam um total e fatal tédio. Aquela sensação pré-histórica de ter que matar um leão ou um tigre dente de saber por dia nos abandonaria e aí sim os leões ou os tigres é que nos matariam. Se tivéssemos paz, não teríamos mais a Copa do Mundo e as Olimpíadas que são guerras dissimuladas em forma de esporte, onde quem vence é o mais forte. Pelo menos no futebol somos a maior potência bélica. Já nas Olimpíadas os mesmos que ganham no campo de batalha são os que levam o maior número de medalhas. Tudo é uma constante guerra. Já nascemos brigando com a placenta. E vejam bem, a guerra é algo institucionalizado, tem suas regras próprias: não pode isso, pode aquilo e aquilo outro, isso aqui não. Tem até modalidade das guerrinhas-treino. A do Iraque, por exemplo, não é/não foi propriamente uma guerra, é/foi apenas uma preliminar, um jogo treino, um amistoso contra um timeco de merda. Pra depois vir a Guerrona, talvez agora contra os iranianos. Mas na verdade a Coreia do Norte está quebrando todo o esquema. Agora os estadunidenses (com seu cordão de puxa-sacos decadentes que inclui Inglaterra, França e Alemanha) não sabem quem atacar: se o timeco do Irã ou o time em ascensão da Coreia. Sempre estamos a precisar de uma guerrinha básica. Aquela lá, a do Iraque, pra voltar lá pro Oriente Médio, é/foi só mais uma guerrinha. Uma guerrinha amistosa. Uma Guerra pela Paz, dizem. E, bem, sem guerra não pode existir tempo de paz. Ou como já escreveu o sábio Manoel Carlos Karam, toda guerra é feita em tempos de paz.
Se não fôssemos realmente a favor da guerra, certamente nos policiaríamos, por exemplo, para evitar expressões como “Estou batalhando por algo melhor”, “Estou na luta”, “Vamos dar o sangue”. Vejam, a todo instante, estamos falando em guerra, em sangue — uma guerra que apesar de metafórica engendra no inconsciente coletivo guerras reais, a partir do momento em que açula no indivíduo a competição, o aniquilamento da concorrência, terreno fértil para a medragem de um ideal de mundo fascista sob a pele do tal neoliberalismo. Vemos que a coisa começa isolada, sendo plantada no indivíduo, e termina em larga escala. É sempre assim. Do individual ao coletivo estamos sempre “batalhando”, sempre na luta. Talvez se cambiássemos algumas expressões necrófilas (pois elas padecem de uma paixonite aguda por Tânatos), se as cambiássemos por expressões do tipo: “Estou criando condições”, “Estou tendo uma chance”, “Vamos pôr o coração para alcançar um fim”, talvez teríamos um princípio, em pequena escala, claro, para começar a mudar alguma coisinha, tendo no discurso cuidadoso o início de um antídoto contra a nossa natureza bélica e bárbara. Mas a verdade, a pura verdade, é que somos necrófilos; e a favor dos nossos instintos animais gostamos mesmo é de um cheiro de sangue, de uma batalha. O que podemos fazer? Lutar contra essa condição seria besteira. Nós só precisamos, enfim, da Paz pra termos tempo ocioso pra incrementar bem a Guerra, fazê-la cada vez mais cruel. Só.
Essa é a nossa condição, companheiros de batalha. Se você não a aceita, batalhe pra mudar. Ainda assim, estará batalhando, na Guerra.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Vida de inseto [ou para os que estão em casa]

paulo sandrini


Há dias devoro telenovelas, telejornais, reality shows, jornais populares, domingão do Faustão, jogo de futebol.
Encarnei numa de “não tô nem aí com a reflexão”. Me deixo levar nas ondas dos intervalos comerciais feito um corpo afogado boiando e sendo levado pela correnteza caudalosa de um rio de esgoto. E sabe como me sinto? Anestesiado. Como que paralisado. Sem ação. Sem conseguir reagir. Há dias não leio. Há dias não escrevo coisas que realmente valem a pena ser escritas. Se penso em pensar me pesa a cabeça e ela tomba: em direção à tv. Meus cabelos vão lentamente se transformando em antenas. Ligadas o tempo todo em entretenimento. Se me falam de política, concordo com tudo: até com os tiranos. E os acho perfeitamente corretos. Se falam de narcotráfico, fico quieto, pois estou drogado. Se falam em combate à fome, só penso se vou ter uns trocados amanhã pro meu fast food. Foda-se a fome. Se falam em transgênicos, não tô nem aí, como o que tiver à mesa, depois vou me transformando numa larva, então quando tento novamente, agora feito larva, comer os transgênicos, vou morrendo pela boca. Se me pedem colaboração: só penso em colaborar com a votação do paredão do Big Brother. Se me falam em livros, penso logo em como fazer amigos & influenciar pessoas. Mas todo o tempo o influenciado sou eu. Se me pedem opinião sobre a cota para negros nas Universidades, digo que isso não é problema meu, sou caucasiano, só virei a me preocupar um dia se meu filho que ainda nem nasceu se danar por ser mulato [nunca se sabe o futuro da paternidade em terras híbridas]. Se me perguntam sobre a Guerra, digo que estou em paz com a minha consciência, durmo tranquilo. Cogumelos de fumaça povoam meus sonhos. Não entendo essa metáfora.
E assim seguem os meus dias. Em frente à tv. Tomando meu leite com Ultralienação. Comendo biscoitos de Conformismo. E meus cabelos virando antenas. Até chegar o dia em que o sistema que me engendrou cuide de me matar com uma chinelada.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Burros n'água

Assim que chegamos, amarramos nossos burros na sombra e começamos uma conversa pra boi dormir. Os bois dormiram. Mas os leões acordaram. Apesar disso, prosseguimos nossa conversa pra boi dormir durante vários dias, matando um leão por dia. Assim que matamos todos os leões, tiramos o time de campo (apesar de sermos apenas dois) e voltamos pra casa. Pouca surpresa ou nenhuma, quando chegamos lá e nos deram com a porta na cara (acontece nas piores famílias). Famintos, batemos à porta do vizinho. Que foi cordial e disse que onde come um comem dois, onde comem dois comem três, onde comem três comem quatro e assim sucessivamente, pois não parava mais de chegar gente visto a aquiescência do nosso vizinho, que se propalou pelos quatro cantos na velocidade da luz e em ritmo de festa. Maltas embarafustadas de oportunistas vieram em sua maior parte dos lugares comuns: dos Quintos dos Infernos, do Cafundó-do-Judas (e de onde ele perdeu as botas), de Pra lá de Bagdá, de Pra lá de Marraquéchi, de Muito mais além de Jerusalém etc. etc. etc. Então nosso vizinho resolveu fechar a porteira no “onde comem um milhão comem um milhão e um”. E olha que essa gente comeu. E comeu tanto que parecia saco sem fundo. O milionésimo segundo, que veio lá da Terra de Ninguém, e que ficou pra fora porque o nosso vizinho resolveu parar no “onde comem um milhão comem um milhão e um”, teve um desmaio de fraqueza. Juntamos os parcos restos e demos a ele, que saco vazio não para em pé. Os milionésimos terceiro, quarto, quinto e sexto quiseram protestar, no que os mandamos todos pra Casa do Chapéu.
Após tamanha fartura, perguntamos ainda ao nosso vizinho se ele não nos podia arrumar um pouco de sombra e água fresca. Ao que ele respondeu, Claro que sim, o que vocês necessitarem, quero que fiquem à vontade, muito à vontade, e lembrem-se, a casa é de vocês. Quando ele nos deu essa abertura, ficamos mais folgados que gola de palhaço. Dormimos feito anjos. Comemos feito porcos. Dançamos conforme a música, a nossa música. Estávamos assim, exultantes, quando nosso vizinho nos pegou de calças curtas (as suas calças curtas) e resolveu, por isso, ficar do ovo virado. Intimidados, quisemos contornar a situação. No que ele foi duro na queda. Disse-nos que poderíamos usufruir de tudo naquela casa, menos de suas calças curtas. Mais tarde constatamos que as calças curtas do nosso vizinho possuíam um compartimento especial pra quando seu saco ficasse cheio. Sem suas calças curtas com compartimento especial pra saco cheio, ele realmente não teve mais saco pra gente, quis que fôssemos embora. Foi quando lhe avivamos a memória para o fato de que agora a casa era nossa, e ele mesmo havia dito isso lá atrás, então nos sentimos, por isso, no pleno direito de usar, sim, suas calças curtas e que se ele estivesse incomodado com o fato que se retirasse de nossa casa. Dissemos então a ele, Os incomodados que se retirem, não é assim o ditado, meu velho? Pra nossa desmesurada surpresa ele engoliu o fato (não sabemos se com farinha ou não) sem mais retrucar. Feito vaca de presépio, juntou as tralhas e picou a mula.
Na mais genuína galhofa foi como vivemos durante anos. Séculos. Milênios. Era o paraíso. Tudo como o Diabo gosta e Deus aprova. Só aí, depois desses milhares de anos nessa folga toda, é que decidimos amarrar os nossos burros por ali mesmo. Foi então que lembramos. Esquecêramos deles, amarrados lá, à sombra. Correndo feito loucos, trupicando na jaca, catando cavaco e pegando patinho, num piscar de olhos chegamos ao lugar em que os havíamos deixado. Surpresa nossa quando demos com os burros n’água. Foi aí que meu companheiro não se deixou abater e disse em alto e bom som, Não há outra solução, a necessidade nos impele a mergulharmos atrás dos burros, e completou, num tom que parecia shakespeariano, me incitando, A necessidade é a mãe da audácia. No que eu respondi, na minha santa ignorância, dizendo que não conhecia porcaria nenhuma de audácia e muito menos a mãe dela, mas que concordava em irmos a fundo na nossa empreitada dizendo (também em tom que parecia ser shakespeariano) é isso aí, Fartura e paz criam covardes, mergulhemos, pois.
Resfriados até o último fio de cabelo (pois quem entra na chuva é pra se molhar, mas quem cai na água é pra se danar), extenuados depois de minutos a fio procurando burros nos recônditos mais profundos e obscuros daquela caudalosa água, um de nós finalmente foi sensato e disse (num código subaquático que só nós mesmos entendíamos, porque não interessava a mais ninguém entender), Chega, vamos procurar os burros em outro lugar, aqui na água não dá, estou me sentindo um peixe fora d’água no meio dessa água toda. O outro de nós sugeriu (por meio do mesmo código subaquático), Vamos nadar pela superfície, os burros, pensando bem, nunca ficam por baixo, eles não têm humildade suficiente pra isso.
Viemos à tona. E olhando em direção oposta à margem da qual tínhamos mergulhado, avistamos os burros, já em terra firme. Iam se distanciando. Tranquilos, absortos numa conversa fiada. Enquanto um falava o outro baixava a orelha. E nós, ali, cercados de água, já sem forças pra alcançar a margem, reafirmando que quem cai na água é mesmo pra se danar. Naquele momento, ficamos convictos de que seria impossível recuperarmos nossos burros pra amarrá-los novamente à sombra (qualquer ínfima sombrinha que fosse). Mas, entre afundar ali mesmo ou nadar nadar e morrer na praia, tínhamos uma certeza: preferíamos morrer na praia.

texto que ficou fora dos livros, escrito à época d'O estranho hábito de dormir em pé".

Geometria do jornalismo

paulo sandrini


Eu tinha belas coxas, uma boca mais ou menos, uns seios fartos e um bumbum quase sedutor [não totalmente, porque era um pouquinho quadrado, mas eu era jovem e um bumbum jovem quase sempre é sedutor e essas questões meramente geométricas, por isso, não me causariam problemas imediatos]. Resumindo, eu era uma atraente jornalista, com um diploma medíocre, mas jornalista. Uns olhos azuis e criatividade zero, mas jornalista. Uma pós em relações internacionais e monoglota, mas jornalista. Um emprego idiota de revisora, mas na minha carteira de trabalho lá estava: jornalista.
Resolvi então não me contentar mais com essa meia-condição profissional, apesar de todas as minhas limitações de ordem intelectual. Ou eu seria uma jornalista de verdade ou não seria nada [porém, é bom que se diga que estudar mais ainda, ler o mínimo, adquirir repertório estava definitivamente fora dos meus planos, queria um caminho mais curto]. Foi quando eu insisti insisti insisti com o editor da revista em que eu trabalhava como revisora e consegui finalmente uma abertura para entrevistar personalidades, pois sem entrevistar personalidades um jornalista não chega a lugar nenhum. Aí escolhi o metiê de atuação: a política. Entrevistar políticos era uma boa chance de eu vir a me tornar uma jornalista reconhecida, tinha certeza. Entrevistei vários secretários de estado, deputados estaduais, vereadores. Mas eu sabia que se entrevistasse Ele, alavancaria minha carreira mais rapidamente.
O tempo passou, e eu, por conta do excesso de trabalho na redação da revista [por causa das entrevistas com políticos — menores, é bom que se diga — eu subi de cargo e cheguei a chefe de redação mesmo sendo a maior das celeradas com a escrita] não tinha mais tempo de batalhar a difícil, a quase impossível, entrevista particular com Ele.
Eu já estava fumando muito nessa época. Envelheci dez anos em dois. Uns fios de cabelos brancos até começaram a surgir. O excesso de cigarro danou com a minha pele e meus dentes. Minha boca murchou um tanto. Apesar disso eu ainda tinha muito charme. Contudo, já estava quase desistindo da entrevista com Ele. Vendo minha carreira atravancada, estagnada. Então, no final do mandato Dele, eu voltei a insistir insistir insistir. Até conseguir uma entrevista. E a sós. Consegui [melhor não confessar as armas usadas com o pobre assessor de imprensa Dele para tal vitória pessoal minha].
Eu tinha certeza de que aquela entrevista mudaria para sempre os rumos da revista em que eu trabalhava, mas não só: mudaria os rumos da minha vida. Comprei as melhores roupas e perfume. Eu precisava estar impecável [mas pronta para todos os pecados, que a vida é assim mesmo, não?]. O assessor Dele me passou o endereço do encontro. Eu desconhecia o local. Era numa rodovia. No meio do caminho, desconfiei do que podia ser. Mas segui em frente. Um motel! Malditinho! Um motel. Então percebi as intenções Dele. Fui direto pra suíte de luxo. Ele bebia tranquilo uma dose de uísque. Não era um homem bonito de perto, nada bonito. Nem sedutor [pessoalmente]. E nem demonstrava [pessoalmente] um ar de inteligência como na TV. Era [pessoalmente], ao vivo e em cores, um pífio, a bem da verdade. Um terno italiano num homem daquele parecia mais um terno velho com cheiro de naftalina típico de funcionários de repartição pública ou de advogados de porta de cadeia, ou ainda de vendedores de consórcio. O perfume comprado certamente na Galeria Lafayette [com dinheiro público, claro] por sua santa esposa não ajudava muito. Era um homem feio. Políticos geralmente são homens feios, não só pela ética geralmente ausente, mas por uma conjuntura maior e intrínseca à própria natureza política: o poder enfeia. No quesito lábia, no entanto, Ele era imbatível.
Cumprimentamos um ao outro. Tomei um pouco de água com gás. Ele me falou primeiro da sua vida, de sua família. Depois, de sua trajetória política e que aquilo estava em seu sangue. Quase um Destino Manifesto estar onde estava. Porém, e Ele foi muito objetivo na sua proposta, me disse que só falaria dos planos e dos problemas [que seriam abertos a mim com total exclusividade] pelos quais o Governo vinha passando com uma condição...
A princípio, me fiz de desentendida. Depois, aceitei. Claro que aceitei. Mas na hora agá, Ele declinou de sua empreitada de sedução. Disse — quase chorando, numa teatralização típica de telenovela [taí, melodrama; outra coisa de que os políticos entendem] — que não iria trair a sua família, nem seu governo. Era um homem fiel aos princípios da ética, da família e de Deus.
Eu já estava nua, na cama, com o bumbum arrebitado quando ele me mandou sair. A bem da verdade me enxotou dali. Eu fiquei nervosa. Saí atabalhoada, nua. As peças de roupa caindo pelo piso. Ainda o ouvi gritar no celular pra um de seus assessores, Traz outra que o bumbum dessa aí é quadrado, quadrado!
Hoje eu faço o que todos os jornalistas fazem com seus desafetos: ataco todos os pontos vulneráveis Dele, que se elegeu novamente, depois de anos, para o cargo máximo do estado. Ataco, ataco e ataco. Às vezes, muito raramente, Ele manda me processar. Então vejo que minhas palavras surtiram efeito. Fico feliz com isso. Me realizo consideravelmente quando isso acontece. Mas quando passa a euforia por esses ataques bem-sucedidos, eu me deprimo. Fumo compulsivamente. Bebo pra danar. Penso em mil calúnias novamente, só de raiva. E pior: me ponho novamente e eternamente a lamentar a geometria do meu bumbum: esse aspecto limitador da carreira de uma jornalista como eu.


Publicado anteriormente da revista Idéias

domingo, 21 de junho de 2009

Projeto Estúdio aberto

O primeiro exercício da série Estúdio Aberto, em que os elementos externos à ficção aparecem enquanto tento escrever algo. A interrupção às vezes é um mal para o escritor, mas nesse caso está sendo utilizada como se fosse algo aproveitável.
No bolso

Levantou-se. Manhã escura. Olhou pela janela. Os postes ainda acesos. Vestiu seu casaco grosso de lã. Preparou o café. Encheu a xícara. Fumegante. Sorveu uns goles. Apalpou os bolsos do casaco. Lembrou-se de algo. Esqueceu-se do café. Levantou da cadeira. Foi até o quarto para buscar o [14h28min - No Youtube John Cage toca Dream, em 1948, o xilofone enche meu quarto de ressonâncias e silêncios. Sons entre silêncios. Soam. Meu filho parece chorar lá na sala. Abaixo o volume dos alto-falantes do computador. Não, ninguém chora. Impressão minha. Tento me certificar. Abro a porta do escritório. Ah, filho, deixa a mãe pegar. É de plástico, mamãe? Um som de aspirador de pó começa. Fecho a porta]. Desce as escadas, lentamente. O frio deixa seus passos vagarosos. Com preguiça, gira a maçaneta. Apalpa os bolsos. Se certifica de que está ali. Na rua, caminha em direção a parte alta da cidade. Passa por ruas estreitas. Começa a subir uma escadaria. De muitos degraus. Sua boca solta fumaça por conta do frio. Alguns longos minutos e chega em frente ao [14h31min - Alguém bate à porta. É meu filho. Quer entrar. Intenéti, papai. Vamo no intenéti. Digo que estou trabalhando. Os sons na porta continuam. Abro . Meu filho chora. Pego-o no colo. Papai está aqui, filho. Mas agora o papai precisa mesmo trabalhar. Vamo no intenéti, ele ainda insiste. Depois, depois, agora vai brincar lá na sala com seu carrinho de controle remoto. É só falar em controle remoto que ele sai correndo. Tranco novamente a porta]. Senta-se num banco de madeira úmido da chuva que caiu a noite toda. Agora só uma garoa fina. E um céu cinzento. Apalpa o bolso do casaco novamente e se certifca outra vez de que está ali. Enfia as mãos, apalpa lá dentro. Leva alguns segundos nisso. Tira as mãos. Do outro bolso, retira um papel. É um bilhete. Abre e começa a ler a frase [14h34min - A janela do escritório está aberta. O vizinho da frente liga o som do automóvel. Liga o motor. Música ruim e motor. Chega um rapaz de moto. Dois motores. Música péssima. E aí, trouxe a peça? Taqui, ó. Quanto é? Nada, não, depois me paga uma cerveja e tá feito. Olha lá, moleque, tem certeza? Claro, gordo... Valeu mesmo, hein. Valeu... Fecho a janela, ainda ouço a moto partindo e um pouco da música ruim] O bilhete amassado na mão. Se levanta. Vai até o mirante. Avista a cidade lá embaixo. Atira o papel. Volta a se sentar no banco. Olha o relógio. Se encolhe de frio. Apalpa o bolso por fora. Enfia as mãos. Apalpa algo lá dentro. Retira as mãos e então se pode ver um [14h43min – Toca o telefone, atendo. Gostaria de falar com o senhor Paulo. Sobre o que seria? Sobre nosso novo plano de telefonia, é um plano especial só para clientes. Aqui é o irmão dele, só estou cuidando da casa, o senhor Paulo retorna em trinta dias, está fora de Curitiba. Está bem, então, dentro de trinta dias volto a entrar em contato. Bato o telefone] Olha novamente o relógio. Vê alguém chegando. Vai ao seu encontro. [14h46min - Me dá um branco, tenho dúvidas de como continuar essa história. Fico olhando os livros em cima da mesa. Olho o mouse do computador. Não posso entregar a história assim. Não, não posso. Nunca joguei desse modo. Agora quero jogar com a curiosidade dos outros. Foda-se. Um escritor também é um sádico. Levo o dedo à boca. Dúvida. Preguiça mental. Sadismo. Estico as costas Me doem. Me levanto. Alguém grita lá na rua. Minha curiosidade é atiçada. Olho pela janela. Um dos vizinhos lava o carro. Programa típico do sujeito classe média curitibano. A idolatria pelo carro. Carro que faz mais parte da família do que os próprios membros da família. Volto à ficção com a janela aberta. O sol que entra está quentinho] Ele volta do encontro. Senta-se no banco. Pensativo. Apalpa o bolso. Por fora. Se certifica. Tira o casaco. Deixa-o sobre o banco e vai em direção à escadaria que leva novamente à parte baixa da cidade.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Caderno Latino-americano

Com este trecho de O ENTRE-LUGAR DO DISCURSO LATINO-AMERICANO, do Silviano Santiago, e do texto abaixo, de Castro-Gómez e Mendieta, inauguro uma série de postagens de pensamentos latino-americanos, sobre transculturação, hibridismo, pós-colonialismo, globalização etc etc etc. A quem interessar possa....


"A maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e de pureza (5). Estes dois conceitos perdem o contorno exato do seu significado, perdem seu peso esmagador, seu sinal de superioridade cultural, à medida que o trabalho de contaminação dos latino-americanos se afirma, se mostra mais e mais eficaz. A América Latina institui seu lugar no mapa da civilização ocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo. Em virtude do fato de que a América Latina não pode mais fechar suas portas à invasão estrangeira, não pode tampouco reencontrar sua condição de "paraíso", de isolamento e de inocência, constata-se com cinismo que, sem essa contribuição, seu produto seria mera cópia - silêncio -, uma cópia muitas vezes fora de moda, por causa desse retrocesso imperceptível no tempo, de que fala Lévi-Strauss. Sua geografia deve ser uma geografia de assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, de falsa obediência. A passividade reduziria seu papel efetivo ao desaparecimento por analogia. Guardando seu lugar na segunda fila, é no entanto preciso que assinale sua diferença, marque sua presença, uma presença muitas vezes de vanguarda. O silêncio seria a resposta desejada pelo imperialismo cultural, ou ainda o eco sonoro que apenas serve para apertar mais os laços do poder conquistador.
Falar, escrever, significa: falar contra, escrever contra."

(5) Em artigo de significativo título "Sol da Meia-Noite", Oswald de Andrade percebia por detrás da Alemanha nazista os valores de unidade e pureza, e no seu estilo típico comentava com rara felicidade: "A Alemanha racista, purista e recordista precisa ser educada pelo nosso mulato, pelo chinês, pelo índio mais atrasado do Peru ou do México, pelo africano do Sudão. E precisa ser misturada de uma vez para sempre. Precisa ser desfeita no meltingpot do futuro. Precisa mulatizar-se". Ponta de Lança, Rio, Civilização, 1972, p. 63.

Criaram cobras para mordê-los

Não poderia estar mais de acordo com a atual situação global...

"...a partir de la segunda guerra mundial se fue haciendo claro que el capital iba perdiendo sus connotaciones "nacionales" (capital inglés, japonés, alemán, norteamericano) para subordinarse cada vez más a formas propiamente globales de reproducción, situación que se tornó más evidente con el final de la guerra fría. Las empresas y corporaciones transnacionales desplazaron al estado-nación como lugar de la hegemonía y empezaron a convertirse en dispensadores de las promesas que éste había recibido de la modernidad temprana: soberanía, emancipación política, liberalización económico-jurídica, secularización de las costumbres. El aparato estatal, incluyendo no sólo las funciones de orden administrativo-financieras, sino también sus instituciones jurídico-políticas, comienza a reorganizarse de acuerdo a la exigencia mundial de los mercados y siguiendo los lineamientos trazados por corporaciones bancarias supranacionales como el Fondo Monetario Internacional. Eliminados así los controles nacionales, las corporaciones (o, mejor dicho, un puñado de ellas) obtienen el campo libre para movilizarse a sus anchas por todo el planeta sin tener que consultar sus estrategias con ningún gobierno, e incluso, muy a menudo, actuando en contra de los intereses estatales. Así por ejemplo, lo que es bueno para la Volkswagen o la Mercedes Benz (creación de fábricas y puestos de trabajo en México y Brasil) ha dejado de ser bueno para un país como Alemania, que observa impotente el derrumbe paulatino de su estado benefactor. Todavía peor es la situación en los países latinoamericanos, donde las ganancias de las empresas no se integran a mecanismos nacionales de redistribución de la riqueza, sino que contribuyen más bien a incrementar la distancia entre los ricos y los pobres. La nueva división del trabajo rompe así con el esquema clásico centro-periferia, pues las transnacionales se han convertido en agentes que afectan los intereses nacionales tanto en los países metropolitanos, como en las zonas anteriormente periferizadas o colonizadas por éstos."

(Santiago Mendieta, en La translocalización discursiva de "Latinoamérica"en tiempos de la globalización)

domingo, 14 de junho de 2009

Retrato do artista quando pirralho


Eis aí o retrato do pequeno Gianluca Sandrini. Que hoje, dia 14 de junho, completa 3 anos de idade e já está a brandir seus pincéis expressionistas contra o racionalismo do mundo. Influências? Segundo a opção estética do próprio fedelho, Miró e Munch. Na imagem, a confecção de sua primeira tela, após vários ensaios em papel. Isso aí, meu molequinho, feliz aniversário e todo as cores do papai na sua pequena alminha de artista.

Aqui, éramos todos felizes

Eu meu pai minha mãe meu irmão minha irmã minha tia meu avô minha avó felino e totó.
Exatamente aqui, naquele lugar, onde ficava nossa colorida morada, somos pessoas muito felizes. Donos de nossos próprios narizes. Cultores de nossas próprias raízes. Senhores de nossos próprios matizes. Haverá quem disse o contrário. Num passado não muito distante. Que éramos taciturnos carrancudos imundos e infelizes. Criaturas não realizadas. A felicidade no portão de entrada esperando brecha. Depois de anos desistiu. Havia quem dirá. Isso. E mais um pouco. E que seremos um dia todos pançudos e muito mais insatisfeitos. Viveremos de doces pra aliviar o amargo de nossa existência. Éramos quindins sonhos bombas de creme olhos de sogra cocadas e brigadeiros. Rotundos. Polvilhados de açúcar por todos os lados. Doces de infelicidade. Haveria quem dissesse na nossa família que era intriga da concorrência. Inveja pura de uma gente azeda e invejosa. Nojenta e asquerosa. Infeliz, essa gente. Não, nós. Daqui do alto, lá nesse nosso casarão de paredes adocicadas. De telhados de chocolate.
Não: não houve bruxas nem bruxos lá nem João e Maria. Só paz tranqüilidade e alegria. Uma eterna canção um poema ingênuo rimando felicidade e harmonia. Ali, exatamente neste lugar. Ninguém que dirá o contrário. Que não somos aquilo que afirmamos ser. Bem aqui, naquele lugar ali. Nossa morada colorida e protegida por cães que só mordem estranhos. Cães que dormem num gramado verde à beira da piscina. Que comem do bom e do melhor como comemos todos nós habitantes de lá desta nossa casa. Houve quem diria que felicidade demais alucina. Quando muita, chega num ponto de saturação e acaba com efeito inverso. Mas nós resistíamos firmes na nossa convicção arrogância e sentimento de superioridade, de superioridade por conta da nossa felicidade azul da cor do céu azul da cor do mar. Branca como a paz e as nuvens do céu. Um paraíso, nossa vida. O céu, nossa casa. Lá, perto de um deus só nosso. Que só olha por nós. Aqui, onde tudo jaz. Onde éramos todos felizes.

Coletânea de FC Futuro presente



Confirmado: a coletânea de contos Futuro presente – dezoito ficções sobre o futuro, organizada por Nelson de Oliveira, terá lançamento nacional dia 5 de agosto (quarta-feira), em São Paulo, na Livraria da Vila (rua Fradique Coutinho, 915). Nessa data me teleportarei para SP. A coletânea está saindo pela Ed. Record. Os autores que a integram são os seguintes: André Carneiro, Andréa del Fuego, Ataíde Tartari, Carlos André Mores, Charles Kiefer, Deonísio da Silva, Edla van Steen, Hilton James Kutscka, Ivan Hegenberg, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Márcio Souza, Maria Alzira Brum Lemos, Maria José Silveira, Mustafá Ali Kanso, Paulo Sandrini, Rinaldo de Fernandes e Roberto de Sousa Causo. Participo da coletânea com As infalíveis H. Destaque para a presença do André Carneiro, nosso autor clássico de FC e que para minha grande honra esteve no lançamento da coleção Antena em outubro passado aqui em Curitiba (junto do Mustafá Ali Kanso).
E neste mês ainda ou no próximo, sai a coletânea brasileira no Peru, em Lima. O livro foi organizado também por Nelson de Oliveira mas em parceria com a Maria Alzira Brum Lemos . O título? Ichi! Ainda não sei. Conto despues...

Sofrer  degolas  diárias  nos  faz  criar  cada  vez  mais  artérias. Nunca  tem  fim. A  vida  é  vermelha. A  crueldade é  branca. O  azul...